Inferno Na Terra
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Eu já ia começar a gritar quando o vidro se abaixa e eu percebo quem é o motorista.
— Que droga, Sasori. Quer me matar de susto?— Perguntei colocando a mão em frente ao coração.
— Quase isso. Vem, entra.— Ele falou rindo e indicando com a cabeça o banco ao seu lado. Eu hesitei, tinha que parar pra tomar café e não podia aceitar a carona dele. — Vem logo, Saky, aproveitamos e paramos naquela padaria que tem na rua. Claro, se você não se importar, é que eu sempre tomo café lá antes de ir pra empresa.
Parecia que ele havia lido a minha mente e eu sorri. Perfeito, não teria que pegar toda aquela condução para ir.
— Eu também não tomei café então vou aceitar. — Concordei quando entrei.
— Ótimo. — Ele sorriu e eu me repreendi mentalmente por estar pensando em como o sorriso dele era bonito.
Durante o caminho ele ligou o rádio e ficamos conversando sobre banalidades. Quando chegamos, ele parou o carro no estacionamento da empresa e fomos caminhando até a padaria. Era fácil conversar com Sasori.
— Então, o que vai querer? — Ele perguntou quando se sentou depois de ter puxado a cadeira para que eu me sentasse.
— Waffles e um capuccino. — Minha boca salivou assim que imaginei o gosto do capuccino.
— Bela combinação. O capuccino daqui é o melhor. — Ele disse e chamou a garçonete.
Quando ela chegou mais perto pude vê-la corar, acredito que tenha sido um comportamento bem comum para ele já que ele pareceu nem se importar.
— Waffles e capuccino para a senhorita e para mim também.— Ele fez o pedido e a moça, bem bonita por sinal, quase gaguejou.
— Qual cobertura? — Ela conseguiu perguntar.
Ele olhou para mim.
— Chocolate.— Respondi depois que me dei conta de que estavam esperando minha resposta. De manhã sou um pouco lerda.
— Chocolate, também.— Ele respondeu e sorriu para a moça.
Pensei que ela fosse desmaiar, será que Sasori percebia que estava deixando a coitada nervosa?
Assim que ela se afastou não pude evitar rir.
— Do que está rindo? — Ele perguntou.
— A mulher. — Ele olhou para mim sem entender. — Vai me dizer que não percebeu o modo como você mexeu com ela? — Brinquei.
— Aaah isso. — Ele deu um sorriso curto, sem graça. — Tento não ligar, mas não é algo que eu faça intencionalmente, viu?
Ele estava se explicando para mim?
— Aparentemente, você não precisa.— Respondi apontando na direção da mesma mulher que nos atendeu e que estava olhando na direção dele.
Ele olhou pra onde eu apontava e, quando ela viu que ele olhava, abaixou a cabeça rapidamente.
— O que eu posso dizer em minha defesa? Não estou interessado..
— Mas, quando estiver, lembre-se que ela estaria disposta a sair com você.
— Vou me lembrar, obrigado. — Ele terminou e a moça voltou com nossos pedidos.
Era impressão minha ou ela estava meio que tremendo? Caramba, ela gostou mesmo dele. Ainda assim, começamos a comer e voltamos a falar de banalidades, até que algo me veio na cabeça.
— Sasori?— Chamei-o e ele olhou para mim. — A quanto tempo trabalha nas empresas Uchiha?
— Desde que Sasuke assumiu a presidência. — Respondeu. Sasuke? A maioria que trabalha lá, inclusive eu, mesmo longe o chamávamos de sr. Uchiha, mas parece que não Sasori. — Por quê?
— Não sei, apenas fiquei curiosa. — Respondi, mas eu tinha que tirar uma outra dúvida. — Vocês já se conheciam?— Ele ficou sem entender minha pergunta. — Você e o sr. Uchiha.
Que droga, eu realmente não consigo chamá-lo pelo nome, ele me intimida até mesmo longe. Embora eu o odeie, vamos ressaltar isso.
— Sim. Nos conhecemos no colégio e estudamos na mesma faculdade.
Eu sabia! Sabia que eles se conheciam. Aquele olhar na noite passada não era algo relacionando somente à trabalho, não podia ser.
— Entendi. Isso ainda não explica o por quê de você não gostar dele, mas ajuda.
— Não sou o único na empresa que não gosta dele.— Disse de imediato.
— Porque ele faz da vida de todos os funcionários um inferno na Terra. Ninguém deve conhecer ele fora de lá a não ser você. Vai me contar o motivo? — Arrisquei perguntar.
Ele pareceu ponderar, mas finalmente se deu por vencido.
— Não é o tipo de conversa pra agora de manhã enquanto tomamos café, mas você é teimosa então... — Ele balançou a cabeça. — Já vou avisando que é uma longa história.
— Temos tempo. — Respondi mostrando o relógio.
Ele suspirou e começou a contar.
— Nos conhecemos quando tínhamos 15 anos. Me mudei para cá com meus pais e acabei indo estudar na mesma escola que ele. Quando cheguei lá já pude ver que ele era aquele típico garoto mimado que tinha tudo o que queria na hora que quisesse, mas eu não era de rotular as pessoas apenas pela primeira impressão que tinha delas. Assim, quando acabei sentando com ele como parceiro de laboratório, nos tornamos amigos. Eu diria que éramos como irmãos. — Acho que fiquei com uma expressão de surpresa, mas é difícil imaginar algo assim. - No terceiro ano, eu conheci uma garota. Ela era incrível e eu me apaixonei de um jeito que nunca tinha me apaixonado antes, logo começamos a namorar. Sasuke e ela se deram bem e eu fiquei feliz. Namoramos pelo resto do ano e, na formatura, ela descobriu que estava grávida.— Sasori é pai? — Embora eu fosse novo, fiquei feliz, claro. Eu ia ser pai e, mesmo que pudesse vir a ser um problema, eu enfrentaria tudo com ela, por ela.— Ele deu uma pausa.— Então eu entrei pra mesma faculdade que o Sasuke. Ela foi cursar jornalismo. Quase no final do ano, o bebê nasceu e ele era lindo. Um menino e era a cara dela. Os mesmos olhos e o mesmo cabelo enrolado castanho. Eu amava o meu filho.
— Amava?
— Ele morreu, Sakura. — O quê? — Morreu antes de completar um ano. Houve um incêndio no apartamento em que ela morava. Íamos nos casar, mas, antes disso, ele estava morando com ela. Os dois morreram naquele incêndio. Eu fiquei desolado. Eu a amava, eu amava os dois. No dia do enterro, Sasuke até tentou me consolar porque ele parecia estar melhor do que eu, o que me deixou meio inconformado já que eu pensei que ele se importava com ela, mas nada me animava. Então, quando estávamos todos saindo do cemitério, eu ouvi a irmã dela falando com uma amiga. Ela disse que... — Ele respirou fundo. — Ela disse que eu não era o pai.
Meu deus, como assim?
— Como você não poderia ser o pai? — Pergunta idiota de se fazer, hein Sakura?
— Ela havia passado o último ano inteiro me traindo, Sakura. E o que é pior, me traindo com o Sasuke. — Eu devo ter ficado de boca aberta. Isso quer dizer que... — É isso, Sakura, Sasuke era o verdadeiro pai da criança. Fui falar com a irmã dela e ela me disse que ele já sabia, mas que, por pedido dela, ele não falaria nada, deixaria que eu assumisse a criança para que o nosso relacionamento não acabasse. Mas ele sabia, Sakura. — Agora eu podia entender toda a raiva que ele sentia.— Meu melhor amigo, o irmão que eu nunca tive, me traiu. Dormiu com a minha namorada durante todo o ano em que eu e ela namoramos e ainda a engravidou. E não me contou que era o pai. Os dois me enganaram. Eu fiquei com tanta raiva dele, dos dois.
— Eu não sei nem o que falar. Eu nunca imaginaria algo assim. Você foi falar com ele depois que descobriu?
— Fui. Brigamos feio naquela tarde, tanto que tive que ir ao hospital receber alguns pontos, mas depois não nos falamos mais. Eu me transferi de faculdade e não nos vimos até que ele assumiu a presidência quando se formou e, por nossos pais já se conhecerem, o pai dele me colocou pra trabalhar lá. Consegue imaginar como foi ter que voltar a vê-lo e ainda por cima como meu chefe?
Acho que agora nunca mais vou conseguir olhar para o sr. Uchiha sem me lembrar dessa história. Como ele pôde fazer algo assim com alguém como Sasori? Melhor, como ele pôde fazer algo assim?
— Sinto muito. Ainda deve ser difícil. — Era só o que eu podia pensar em falar.
— Você é parecida com ela. — Ele comentou e eu gelei.
Parecida com a ex dele que está morta e que o traiu? Não gostei muito dessa comparação.
— Foi por isso que me aproximei de você. — Confessou e eu me vi magoada por saber que só havíamos nos tornado amigos porque ele me via como a ex.— Acho que eu sentia falta dela e, mesmo depois de tudo o que ela fez, eu ainda queria poder vê-la mais uma vez. Meio masoquista, eu sei. Mas, depois que te conheci, eu vi que você não tem nada de parecido com ela.
Bem melhor, mas isso me fez pensar em algo. Será que era por isso que o sr. Uchiha me odiava? Vai ver ele se ressentia pelo o que fez e não gostava de ter que olhar para mim e se lembrar dela.
— Acha que é por isso que o Sr Uchiha me odeia? Quer dizer, se você viu semelhanças entre eu e ela, talvez ele também tenha visto quando me viu na entrevista e....
— Então ele não te odiaria, já teria tentado te levar pra cama. Acho que ele sequer lembra do rosto dela pra poder perceber que vocês duas são parecidas. — Ele falou com uma raiva explícita na voz.
— É, tem razão. — Concordei com ele e suspirei derrotada.
Seria mais fácil aceitar essa explicação. Agora voltei a estaca zero onde não faço ideia do motivo dele me odiar tanto.
Olhei para o relógio.
— Caramba, olha a hora. Ele vai me matar se eu chegar atrasada. Sasori, eu tenho que ir, quanto te devo?— Perguntei apressada.
Ele olhou para o relógio e viu que estava na minha hora.
— Eu pago. Vamos, melhor não abusar da sorte. Um dia ele pode enlouquecer e decidir te despedir. — Ele estava brincando, mas eu levei a sério, afinal não podia nem sonhar em perder essa emprego.
Concordei a contra gosto em deixa-lo pagar. Depois eu o pagaria de volta, até parece que eu ia ficar devendo à alguém. Voltamos juntos e Ten ten me olhou com uma cara quando chegamos e eu percebi que depois ia passar por um interrogatório. Tenho que me lembrar de apresentá-la a Ino. Iam se dar bem.
Passei o cartão o mais rápido que pude e mandei o meu melhor olhar de que depois conversávamos. Acho que ela entendeu. Já no elevador o silêncio reinou entre Sasori e eu. Acho que eu estava surpresa demais com toda essa revelação para falar algo e ele não parecia querer descobrir o que eu estava pensando. Quando a porta abriu, eu me lembrei de uma coisa.
— Sasori, o que vai fazer amanhã de noite? — Perguntei e ele me olhou curioso.
— Nada, por quê?
— Quer ir jantar no meu apartamento? As meninas querem te conhecer. — Eu falei e logo me arrependi.
Agora ele ia perceber que eu falava dele para elas. Droga, acho que corei. Ele sorriu.
— Claro. Então hoje vou ter que te dar uma carona pra saber onde você mora pra poder ir lá amanhã.
Claro, a história da carona de novo.
Entretando não tive tempo nem de revirar os olhos para essa insistência que ele tinha de me dar uma carona porque logo nós dois ouvimos uma voz que ambos conhecíamos muito bem.
— Já não deveria estar em sua mesa, srta. Haruno?
O que ele faz nesse andar? Que droga, droga, droga.
— Já estava indo, sr. — Respondi com a voz um pouco tremida.
Eu tinha razão, não conseguia mais olhar pra ele do mesmo modo. Antes era apenas raiva e ódio, agora era nojo e repulsa. Como ele pôde fazer algo daquele tipo e nem parecer se importar? Estou realmente inconformada. Olhei para Sasori e ele olhava sem expressão para o sr. Uchiha.
— Aceito sua carona hoje, Sasori, mas só pra você conseguir achar o caminho pro meu apartamento amanhã. Não torne disso um hábito.— Eu falei e me arrependi. De novo.
Qual era o meu problema? Falar de vida pessoal bem na frente do meu chefe que por acaso é bem mais idiota do que eu pensei? Sasori sorriu e concordou com a cabeça.
Eu acenei, me despedindo, e entrei no elevador. Tentei não olhar para o sr. Uchiha, mas lembrei que precisava perguntar se ele iria subir agora. Se ele fosse, era minha obrigação segurar o elevador para ele.
— Irá subir agora, sr.? — Perguntei educadamente.
— Na verdade, não. Vim aqui para ter uma conversa com o sr. Akasuna. Conversa essa que ontem adiamos, não é? — Ele perguntou olhando diretamente para Sasori.
E Sasori olhou para ele tentando manter a calma, mas eu podia imaginar como era difícil responder com educação. Eu mesma passo por isso todo dia.
— Sim, sr. — Ele respondeu por entre-dentes.
— Pode ir, srta. Haruno.
Balancei a cabeça em concordância, mesmo a contra gosto.
Quando a porta enfim se fechou, eu respirei aliviada. Será que foi bom eu ter ficado sabendo sobre o passado que envolve os dois? Ignorei meus pensamentos quando a porta se abriu no último andar e eu vi Temari vindo em minha direção.
— Como assim você chega com o Sasori pra passar o cartão?
Claro que Ten Ten já teria falado e era impressão inha ou ela parecia preocupada? Ah, eu não tinha mais cabeça pra tentar entender mais nada.
— Não é nada demais, Tema.— E antes que ela pudesse falar algo mais, eu continuei. — Agora não, na hora do almoço conversamos, não quero ser repreendida pela fera agora cedo.
Temari parecia querer dizer mais alguma coisa e ela provavelmente teria dito se o outro elevador não tivesse se aberto e por ele não estivesse saindo o Sr. Todo-Poderoso-Não-Me-Toque.
— Venha até minha sala agora mesmo, srta. Haruno. Quero dar uma palavrinha com você.
Ele abriu a porta da sua sala e a ficou segurando para que eu passasse. Ele nunca fez isso antes. O que aconteceu agora?
Levantei da cadeira na qual tinha acabado de me sentar e, ao caminhar em direção a porta, havia algo nos olhos de Temari que não pude identificar. Ela estava andando muito estranha nesses últimos dias. Enquanto isso, o sr. Uchiha ia seguindo cada passo meu com seus olhos. Aqueles olhos escuros não se desviavam dos meus e eu não conseguia desviar meus olhos dos dele.
Ou eu estou intimidada por ele, o que é normal para todos os funcionários, ou eu estou ainda bastante abalada com tudo o que ouvi sobre o que ele fez, o que não seria uma boa combinação. Ok, respira fundo e entra, Sakura.
Assim que passei pela porta e por ele, pude ouvi-lo fechando-a e, pela primeira vez desde que comecei a trabalhar para ele, tive medo do que ele teria para me falar.
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