Inferno Na Terra
11 Capítulo 11
Notas iniciais
E eu correspondi.
O choque estampado em meus olhos abertos, mas quando senti sua língua forçando entrada em minha boca não resisti. Fechei os olhos e comecei a mover os lábios. Seu corpo me prensou contra a parede e suas mãos seguraram firmemente meu rosto o mantendo inclinado para avançar mais fundo com a língua. Tentei evitar o impulso de levar minhas mãos até sua nuca, mas falhei miseravelmente. Nunca tinham me beijado assim e em um segundo o estava puxando para mais perto, como se isso ainda fosse possível.
Logo, o beijo que antes era forte e apressado começou a diminuir. O ar estava começando a acabar e eu estava começando a pensar no que tinha acabado de acontecer. Ele tinha me beijado! E eu tinha correspondido! Isso era uma catástrofe! Com que cara eu ia olhá-lo? Como ia agir de agora em diante?
Nos separamos, mas continuei de olhos fechados.
Meu coração batia desesperadamente contra meu peito e parecia querer sair pela minha boca. Ele ainda segurava meu rosto e minhas mãos estavam em seus ombros. Nossas respirações se mesclavam, ambos respirávamos com dificuldade. Então as luzes se acenderam, as portas se abriram e eu tomei coragem para abrir os olhos.
Seus olhos pretos me fitavam intensamente e eu não consegui desviar o olhar para nenhum lugar. Mas a realidade me acertou em cheio como um balde de água fria. Meus olhos começaram a lacrimejar à medida que eu percebia o que realmente tinha acontecido.
Ele me beijou para me fazer calar a boca.
Ele não aguentou se ver confrontado pelo o que eu dizia e me beijou apenas para se ver livre das acusações que eu fazia.
Claro!
Uma maneira simples, mas eficiente de fazer a secretária intrometida parar de irritá-lo e ficar quieta. Ele acabou com a vida do Sasori de uma maneira impossível de se concertar e ainda teve a coragem de me beijar apenas para... para...
Ele me usou!
Tlap!
"Idiota, idiota, idiota, IDIOTA! AARGH...".
Minha mão ardia e ao sair do elevador as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Não olhei para trás. Andava o mais rápido que conseguia. Podia imagina-lo incrédulo por eu ter lhe dado um tapa.
Espero que esteja doendo.
Abri a porta do meu quarto e a fechei com força. Temari provavelmente conseguiu escutar o barulho, mas não me importei. Joguei a bolsa em cima da cama com raiva e fui até o banheiro. Me olhei no espelho. A maquiagem estava borrada, escorrendo junto com as lágrimas e meus olhos estavam muito vermelhos. Abri a torneira e joguei água com força em meu rosto. Esfreguei os olhos tentando tirar todo aquele rímel.
Quem ele pensava que era?
Quem ele pensava que era pra me beijar assim, do nada?
E por que eu estava chorando?
Por que eu não conseguia parar de chorar?
Por que eu me importava se ele tinha me beijado apenas por interesse próprio?
Eu sabia, todos sabiam que ele não prestava. Eu não devia me importar!
Tá, eu tinha quase me esquecido como ele realmente era durante o jantar, mas ele foi tão... tão... Ele foi alguém que eu não fazia ideia que ele podia ser. Mas eu não me importo por causa do beijo em si, claro que não! Eu não podia me importar com isso, eu me importava porque... porque isso foi errado. Errado! Eu sou a secretária dele! Ele não podia agir como se eu fosse uma das muitas mulheres com quem ele se envolvia. Ele não pode me tratar como qualquer uma! Isso é chamado de torpeza moral e eu posso processá-lo por causa disso.
Ouvi alguém batendo na porta.
Será que era ele?
Continuei olhando para o meu reflexo. Não era possível ser ele, ele não teria a coragem de bater na porta do meu quarto achando que eu iria abrir por livre e espontânea vontade e o receberia com um sorriso no rosto.
— Sakura? Sakura, está tudo bem?
Era Temari.
Claro que não era ele, que ideia idiota.
Meu interior murchou, o que me assustou. Fala sério, eu realmente queria que fosse ele? Continuei quieta com a esperança de que ela fosse embora. Seria humilhante ser vista naquele estado, mas Temari não era nada se não persistente.
— Saky, eu sei que você está ai. Por favor, abra a porta. O que aconteceu?
Suspirei derrotada e tentei ficar o mais apresentável possível, o que não era lá muita coisa naquele momento.
Caminhei lentamente em direção à porta. Ela poderia cansar de esperar e ir embora, certo? Errado. Abri a porta e lá estava ela, com um olhar preocupado no rosto que logo se transformou em surpresa ao me ver com os olhos inchados.
— Saky, o quê...
Balancei a cabeça negativamente a impedindo de terminar a frase e a abracei.
Infantil.
Essa foi a primeira palavra que veio na minha mente para descrever a situação e considerando que não era a primeira vez que eu pensava em mim mesma como infantil naquela viajem, isso era algo preocupante. Mas eu estava sendo completamente infantil. Eu já era uma mulher adulta, eu não deveria estar abraçando uma amiga ao chorar por causa de um beijo. Eu não era mais uma adolescente, tinha que parar de agir como uma.
Adolescente...
Foi então que as palavras de Ino vieram em minha cabeça.
No colégio, quando ela costumava chorar ao terminar um namoro, eu ficava secretamente aliviada por nunca ter me apaixonado e assim não sofrer como ela sofria, mas ela sabia o que eu pensava. Ela dizia toda santa vez que eu podia não estar apaixonada e nem me apaixonar naquele momento, mas um dia eu me apaixonaria e quando isso acontecesse eu sofreria mais do que ela já tinha sofrido e por qualquer coisa por mais banal que fosse. Eu nunca me importei com isso, afinal, a garota estava com o coração partido e eu não deveria levar a sério o que saía de sua boca. Mas naquele momento eu arregalei os olhos e me afastei de Temari. Minha expressão deveria ser cômica.
"Não, não, não, não, não, não, não!"
De onde aquela lembrança tinha vindo? Fazia 4 anos, eu não deveria conseguir me lembrar de uma coisa dessas. Eu estava louca, insana! O vinho deveria estar fazendo algum efeito naquele momento pra eu estar considerando a possibilidade de... de.. Não. Eu não estava considerando nada.
N-A-D-A.
— Saky, o que foi? Você está ficando meio pálida.
Continuei olhando-a sem falar nada.
As palavras não saiam e eu não sabia por quê.
— Sakura!
— Eu não sei.— Sussurrei confusa.
Eu estava bem? Não.
Por quê?
— O que aconteceu?— Não respondi de imediato. — Como foi o jantar?— Ela mudou de tática.
— O jantar foi... Bom.— Foi o que consegui responder.
— Bom? Só isso?
— O que você esperava?— Perguntei um pouco ríspida demais e me arrependi. — Foi normal. Agradável.
— Então por que você está assim?
Eu não podia dizer que ele tinha me beijado porque eu tinha começado a falar sobre o que ele tinha feito. Isso não era da conta da Temari, não era nem da minha conta. Mas eu precisava contar pra alguém que ele tinha me beijado. Era uma dúvida cruel.
— O sr. Uchiha... Ele...
— Ele o quê?
— Ele me beijou.
Era isso, eu tinha me decidido por contar.
A boca de Temari caiu aberta, literalmente.
Ela achava isso tão absurdo quanto eu, tinha certeza disso.
— ELE O QUÊ?
— Não grite, Temari. Foi isso, ele me beijou quando estávamos no elevador.
Ela não precisava ficar tão surpresa assim, não é?
— O quê... Como... Por que ele te beijou?
Dei de ombros.
Isso eu não contaria.
— O elevador enguiçou e eu meio que tenho claustrofobia. Acho que uma coisa levou a outra... Eu não sei porque ele me beijou. — Ela pareceu considerar alguma coisa.
— E você está nesse estado péssimo por causa disso?
— Não!— Ela me olhou cética. Bufei irritada. — Que tipo de chefe decente beija a secretária em um elevador?
Seus olhos brilharam.
— Ah, Saky... Foi um longo dia, bem mais longo do que o esperado. Por que você não dorme? Amanhã de manhã eu tenho certeza que você já vai estar pensando com mais clareza e então saberá o que fazer.
— Amanhã de manhã eu não vou conseguir sequer olhar para ele, não sem querer esganá-lo...
Ela não estava me levando a sério ou era impressão minha? Ouvi sua risada.
— Se preocupe com isso amanhã de manhã.— Ela caminhou em direção a porta.— Boa noite, Saky.
— Boa noite.— Me recusei a falar algo sobre sua última frase.
Tema fechou a porta e eu me joguei na cama. Essa não tinha sido nem de longe a conversa que eu esperava ter. Fiquei olhando para o teto tentando não pensar em nada e descobri que não funciona muito bem tentar não pensar em algo porque você acaba pensando naquilo que não quer pensar.
Ridículo.
Por que, exatamente, em um momento ela parecia surpresa e no outro agia como se não tivesse acontecido nada demais?
Chegava a ser ridícula a possibilidade de eu agir como se tivesse sido apenas um acidente de trabalho, por favor. Mas... uma pequena parte minha pensava que talvez, e só talvez, eu estivesse mesmo fazendo uma tempestade em copo d'água.
O que diabos estava de errado comigo?
~*~
Abri os olhos lentamente tentando me acostumar com a claridade. Pra variar acabei adormecendo sem fechar a cortina e agora o sol estava me cegando. Virei o rosto e o afundei no travesseiro com a intenção de diminuir a claridade e dormir mais um pouco já que parecia que eu não tinha dormido absolutamente nada, mas comecei a ter uma certa dificuldade em respirar. Não era uma boa recordação.
Suspirei derrotada e me virei novamente. Não adiantava mais ficar deitada, eu tinha que arrumar as malas para voltar para Tóquio.
Gemi internamente.
Ótimo.
A viagem de volta, como eu estava animada para ela...
Enquanto levantava da cama e tomava um longo e demorado banho de banheira, porque provavelmente aquela seria a única vez que eu teria uma banheira ao meu alcance para usá-la com essa intenção, eu acabei me decidindo que o melhor, o mais saudável e com menos chances de algo ruim acontecer vulgo eu ser demitida, seria fingir que noite passada nunca tinha acontecido.
Um pesadelo montado pela minha linda imaginaçãozinha fértil.
O voo sairia um pouco antes das 11hrs da manhã e ainda não eram 10hrs, então eu tinha tempo de sobra para arrumar minhas coisas. Quando terminei era um pouco mais que 10:30min e eu estava totalmente no horário. Era em momentos como esse que eu gostava da minha pontualidade, assim eu não precisava correr e acabar esquecendo alguma coisa. Seria trágico se eu esquecesse alguma coisa aqui em Paris, eu nunca mais veria o que quer que fosse.
Me olhei no espelho.
Eu estava usando uma calça jeans clara, sapatilhas na cor creme, uma camisa social branca com um pequeno cinto marrom em volta da cintura e meu cabelo continuava meio enrolado nas pontas, mas naquele momento estava parecendo que ele estava amassado. Pensei em prender, mas que diferença faria? Peguei o único óculos escuro que tinha trazido e o coloquei. Infelizmente, a prova de que eu tinha passado uma boa parte da noite acordada estava visível e eu não queria que ninguém reparasse.
Respirei fundo e saí do quarto. Eu iria encontrar tanto Temari quando meu adorado chefe no hall, como o combinado. Então era isso, sem ter pra onde fugir... "Como se da última vez que você não teve pra onde fugir tivesse acabado bem, hein Sakura".
Entrei no elevador bloqueando instantaneamente toda e qualquer imagem na noite passada, eu não iria pensar nisso. Não quando tinha que passar horas em seu avião até me ver livre da sua presença. Depois de mais tempo do que eu me lembrava que deveria demorar, as portas se abriram e eu saí.
Apertei levemente a alça da minha bolsa enquanto me aproximava.
— Bom dia, Saky.— Temari falou assim que me viu.
— Bom dia.
Tentei não olhar em volta e procurá-lo, me concentrei em qualquer outra coisa, como por exemplo andar olhando para o chão. Eu poderia tropeçar e cair, não é? Temari continuou falando sobre algo, mas eu apenas ouvia superficialmente enquanto a seguia para fora do hotel até algo chamou minha atenção.
— Espera, o quê?— Perguntei ao pensar que tivesse escutado errado.
— O quê, o quê?— Se fosse em outro momento eu riria.
— O que você falou agora pouco?— Ela me olhou em dúvida.
— Que o sr. Uchiha vai nos encontrar no avião?— Aparentemente ela tinha falado mais do que apenas a parte que eu tinha ouvido.
— Por quê?— Perguntei antes que pudesse me controlar.
Maldita curiosidade.
— Eu não sei, ele só disse isso.
Desviei minha atenção por um momento enquanto entrava no carro.
Ele não estava me evitando, estava? "Claro que sim, né Sakura? Porque faz todo o sentido do mundo um homem como ele fugir de uma garota como você", entortei a boca com o pensamento e vi Temari dar um pequeno sorriso.
O que tinha entre ela e seu bom humor repentino?
— O quê foi?
— Nada.
Estreitei os olhos.
Eu teria que ser mais do que ingênua para acreditar que ela não estava pensando em nada mesmo, e uma parte minha sabia que eu preferia continuar sem saber o que se passava em sua mente, mas eu sempre fui do tipo curiosa.
— Parece que você está bem.— Ela falou antes que eu formulasse alguma pergunta.
— O que você esperava?
Eu não estava 100% bem, mas a situação não exigia que eu estivesse 100% mal, isso eu finalmente tinha conseguido entender e eu diria que estava da maneira como seria de se esperar após dormir um pouco. Dormir, a solução universal para resolver grande parte de seus problemas.
— Na verdade, eu esperava exatamente isso.
Resolvi que iria ignorá-la.
Eu não iria conversar sobre o que aconteceu, de maneira nenhuma, então olhei pela janela me despedindo silenciosamente de todas as ruas por onde eu não tive a chance de andar. Eu poderia chorar. Um tempo depois estávamos entrando no mesmo aeroporto em que pousamos e eu logo conseguia ver o avião particular dele. Lembranças da viajem de ida entraram em minha mente sem minha permissão e eu as afastei. Respirei fundo ao sair do carro.
Pelo o que Temari tinha falado no carro e eu tinha entendido, ele havia saído mais cedo para passar em algum lugar que ela não fazia ideia de qual era e de que já estaria nos esperando no avião, ou seja, ele já estava lá. Subi as escadas tentando agir com a maior naturalidade possível, mas meu corpo estava tenso e minhas mãos suavam.
Pelo amor de Deus, eu só tinha beijado o cara! Ignorei completamente o frio no meu estômago e entrei.
Lá estava ele, sentado no mesmo sofá e digitando algo em seu computador. Acredito que tenha ficado um bom tempo parada o olhando, porque Temari me empurrou levemente para poder entrar e nesse momento ele tirou seus olhos da tela para olhar para nós. Nossos olhares se encontraram e eu não conseguia desviar. Não sabia o que esperava encontrar em seu olhar, mas mesmo assim não encontrei nada já que continuava indecifrável, como sempre tinha sido.
Tentei agir com a maior indiferença que podia e, sendo assim, olhei para a poltrona que iria me sentar — a de costas para ele — mas, como sempre, a educação era algo indispensável em meu trabalho e eu prezava bastante meu trabalho para me esquecer dela.
— Senhor.— Murmurei da maneira mais simpática que consegui, mas eu nunca fui uma boa atriz.
Temari resolveu interferir e me salvar de um possível constrangimento, acredito eu.
— Espero que tenha conseguido fazer o que desejava, senhor.— Falou e eu sabia que ela estava louca de curiosidade para saber o que ele tinha ido fazer que sua secretária de maior confiança não tinha ideia do que era.
Ele não falou, apenas balançou a cabeça afirmando, apenas um aceno. Eu podia sentir seus olhos em mim e logo me senti desconfortável, por que ele estava me encarando?
Tá, que pergunta idiota.
"Não olhe, não olhe, não olhe, não olhe", fui em direção a poltrona que antes observava e logo me sentei.
Pensei que não vê-lo fosse diminuir o desconforto, mas eu ainda podia sentir seus olhos em minhas costas. O que ele queria, meu Deus? Falar comigo? Eu tinha sérias dúvidas sobre essa probabilidade. Só que nada mais vinha em minha mente e isso tornava tudo pior. Me recostei na poltrona e fechei os olhos. Ia ser um longo vôo em um silêncio maior ainda. Ele não falava, Temari não falava e eu muito menos falaria. Só esperava conseguir dormir, eu precisava dormir...
Acordei em um sobre salto, tentei me lembrar onde estava e não demorou muito para me auto localizar, mas o alívio durou pouco. A maldita falta de ar tão conhecida logo veio me fazer companhia. Temari estava encostada dormindo da mesma maneira que eu estava, acho que ainda estava se recuperando da gripe então não seria justo acordá-la. A última vez que fiquei com falta de ar não foi muito legal, então era perfeitamente normal que eu estivesse evitando me levantar e ir até o sofá na tentativa de me distrair com uma simples conversa como tinha feito na viagem de ida, não é?
— Haruno?
Era a primeira vez que ouvia sua voz desde o elevador e eu quase tinha me esquecido como ela era, o que era impossível.
Um arrepio percorreu todo o meu corpo, o que foi prontamente ignorado pela minha pessoa. Percebi que estava apertando o braço da poltrona com minhas unhas e, por estar de costas para ele, com certeza isso estava bem visível. Meu medo às vezes era tão... Vergonhoso. "Tudo bem, aja com naturalidade".
— Sim?— Perguntei e me virei para encará-lo no sofá.
Me surpreendi ao ver que ele estava de pé atrás de mim, se aproximando ainda mais.
— Tudo bem?
Era uma pergunta retórica.
Eu tinha certeza disso. Ele não podia estar falando sério, quero dizer, eu parecia estar bem? Eu poderia estar bem considerando os últimos acontecimentos? Ele realmente precisava de uma resposta?
— Claro, por que não estaria?— Qualquer um perceberia a ironia em minha voz e ele estava longe de ser um idiota tapado.
Ele parou e sentou-se na poltrona que havia do meu lado. Um pequeno corredor, por assim dizer, do tamanho da porta da cabine de controle era a distância entre as poltronas, então, obviamente, eu podia sentir o seu perfume. O mesmo perfume que eu tinha passado sabe-se Deus quanto tempo sentindo naquele maldito elevador.
— Haruno... — Ele começou e eu gelei.
Não, esse não era o momento adequado para discutir o que tinha acontecido entre nós, de maneira nenhuma. Na verdade, eu acho que isso é algo que deveria ser esquecido. Agora eu conseguia entender o por que e, mesmo que nunca fosse admitir, uma parte minha não queria ouvir uma rejeição a não sei quantos mil pés do chão. Eu não teria onde esconder minha cara... Não que eu quisesse não ser rejeitada, mas que garota gosta de ouvir uma rejeição? Eu com certeza não fazia parte desse grupo e minha auto-estima agradeceria se eu a poupasse de algo assim.
Eu conseguia imaginar que a essa altura ele já estava arrependido, mas não precisava ter certeza.
— Que horas são?— Perguntei rapidamente o interrompendo. — Já estamos chegando?— Imediatamente me senti como uma daquelas crianças insuportáveis em viagens longas perguntando isso. — Deus, parece que apaguei por horas.— Continue falando, Sakura.
Ele piscou, mas respondeu.
— Falta pelo menos umas duas horas até pousarmos.— Sua voz continuava incrivelmente calma e rouca.
— Certo, a parte do pouso. Acho que eu preferia estar dormindo nessa parte.— Dei uma pequena risada.— Acredito que seja pior do que a decolagem, e tem gente que realmente fica mais nervosa na hora de pousar, o que não é muito legal já que as pessoas costumam fazer algumas coisas sem pensar quando estão nervosas.
Eu poderia ter sido mais sútil?
Um elefante dançando era mais sútil.
Essa foi a minha tentativa maravilhosamente criativa de tentar dizer que não tinha a menor importância o que havia acontecido. Só esperava que ele tivesse mordido a isca... Ele ficou me encarando por alguns segundos e parecia querer dizer alguma coisa, mas finalmente encostou na cadeira e olhou para frente.
Olhando-o de perfil pude ver a pequena mancha arroxeada que meu tapa havia deixado em seu rosto e uma pequena parte de meu coração quase se arrependeu.
— A decolagem é pior do que o pouso.
Simples assim.
Eu imaginava que o assunto seria esquecido de agora em diante e acreditava fielmente de que assim seria melhor. Talvez eu devesse pedir desculpas pelo tapa, mas não iria conseguir me desculpar por algo que não estava arrependida, ele mereceu. Embora eu tenha que admitir que aquele pequeno arroxeado fosse dar o que falar e eu só esperava que ele não contasse que eu tinha sido a responsável.
Não conversamos mais. Éramos chefe e secretária novamente, sentados em um avião e o esperando pousar. Puramente profissional, da maneira como sempre tinha sido. Algum tempo depois ouvi sua respiração ficar ritmada. Tentei evitar o impulso de olhar, mas não consegui.
Ele estava com os olhos fechados, dormindo.
Me peguei observando seu lábios levemente abertos, me lembrando de quando estavam sobre os meus, então ele se mexeu levemente e meu olhar foi para sua mãos, me lembrei de quando estavam em meu rosto, me segurando firmemente para avançar ainda mais com a língua e daí me lembrei de como nossas línguas se mexiam sincronizadamente enquanto seu corpo me prensava contra a parede fria e...
— Sakura?
Pulei assustada e corei fortemente ao ouvir Temari me chamar.
A olhei me sentindo completamente envergonhada, eu sabia que ela não podia imaginar o que se passava em minha cabeça para que eu tivesse me assustado, mas, após ver meu rosto vermelho, eu tinha certeza de que ela tinha uma pequena ideia e corei ainda mais com isso. No que eu estava pensado para observá-lo enquanto ele dormia? Pelo amor de Deus!
— Oi.
— Você está bem?— Um pequeno sorriso malicioso começava a se formar em seu rosto.
— Estou, digo... Você sabe, minha claustrofobia e tudo o mais.— Eu falava nervosamente tentando me explicar, mas ela nem tinha pedido uma explicação.
Eu só me sentia culpada por ter sido pega pensando em algo tão inapropriado para a toda a situação.
— Sim. Tudo o mais.
Eu teria enterrado minha cabeça em algum lugar se pudesse.
Temari riu abertamente quando corei novamente. Eu podia ser tão transparente às vezes que era irritante. Não voltei a olhar para meu lado esquerdo durante todo o resto da viajem.
~*~
— Lar doce lar.— Temari falou quando saiu do avião.
Respirei o ar de Tóquio me sentindo aliviada por finalmente estar em casa. O vento bagunçou meus cabelos e eu sorri. Eu teria que me desacostumar com o fuso horário que tinha me forçado a acostumar.
— Pois é. — Disse parando ao seu lado.
— Nos vemos amanhã na empresa, Saky.— Ela falou se despedindo, parecia ansiosa em ir embora.
Dois táxis estavam no aeroporto, um para ela e outro para mim.
— Até amanhã.— Me despedi e a vi acenar de dentro do táxi.
Eu estava novamente sozinha com ele e mais nervosa do que qualquer outra vez. Acredito que isso tenha a ver com a linha que meus pensamentos tomaram.
— Bom, senhor, se não precisar de nada eu já estou indo também.— Disse me virando para falar com ele.
Eu realmente estava me esforçando em manter a neutralidade.
Ele concordou com a cabeça.
— Até amanhã, senhor.
— Até.
Me surpreendi com a resposta simples, curta e fria.
E me surpreendi ainda mais ao ter me surpreendido por causa disso. O que eu esperava? Eu tinha deixado implícito que tinha sido uma bobagem do momento e agora ele estava agindo como sempre agiu com todos.
Indiferente.
Eu deveria estar feliz por causa disso, mas curiosamente estava bem longe dessa felicidade.
Entrei no táxi e o observei da janela à medida que me afastava. Eu estava de volta ao meu mundo de sempre. Cheguei ao apartamento e fui recebida por uma Ino e Hinata eufóricas para saberem todos os detalhes da minha viagem. Contei o básico do básico, omitindo as partes óbvias. Eu estava exausta e só queria dormir. Prometi que no dia seguinte mostraria algumas das poucas fotos que tinha tirado e lhes contaria mais detalhadamente sobre o meu almoço e o jantar que aconteceram logo em seguida.
Entrei em meu quarto me sentindo imediatamente acolhida. Era um ambiente conhecido e bem, era o meu ambiente. Sem todo aquele luxo exuberante e afins. Deixei as malas ao lado da cama, depois as desfaria, e deitei na cama sem me preocupar em trocar de roupa, apenas tirei as sapatilhas. Fechei os olhos e logo fui arrebatada pelo sono, mas não sem antes imaginar intensos olhos ônix me observando na escuridão.
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