Inferno

1 Capitulo único


Notas iniciais
Espero que gostem ^^

Inferno

Passaste, olhaste e, mesmo vendo claramente a minha mão estendida, por entre as tábuas de madeira puída que cobriam a pequena e redonda janela, não estendeste a tua mão num simples e singelo gesto de ajuda. Viste nos meus olhos refletida a inocência, a tristeza transformada em quentes e pequenas lágrimas e, mesmo assim, mostraste-te indiferente. Olhaste-me nos olhos e, mesmo assim, viraste as costas, deixando que eu fosse atirada para este lugar húmido, frio e solitário.

Lembraste daquele dia? Está gravado na minha memória, marcado a fogo na minha alma e no meu coração.

Faltavam poucas semanas para o nosso casamento. Um casamento que não surgiu depois de anos de amor incondicional, um casamento planeado meticulosamente pelos nossos pais.

- Uma união entre ambas as famílias irá fortalecer os negócios. – lembro-me de o meu pai dizer no dia em que me informou que estava noiva de um desconhecido.

Mesmo assim aprendi a amar-te, a olhar para ti de olhos brilhantes e sorriso nos lábios, depositando em ti toda a minha confiança. Como podia não o fazer? No dia que nos conhecemos pegaste delicadamente na minha mão, como se da mais fina porcelana se trata-se, e levaste-a aos teus lábios beijando-me os dedos suavemente.

- Gostaria de estar chateado com os meus pais por terem tratado desde noivado se me consultarem primeiro. – começaste num tom que beirava o suspiro – Mas como posso eu, quando me presentearam com tão delicada e deslumbrante noiva?

Como podia não corar perante as primeiras palavras que me dirigiste, tão lisonjeadoras e considerativas como todas as outras que me dedicaste nos dias seguintes? Como podia não me apaixonar por tal humilde, prestável e cavalheiro jovem homem que fazia borboletas voarem descontroladamente no meu estômago?

Sonhamos juntos com a vida que iriamos construir. Uma vida que prometia ser preenchida de felicidade e desejos realizados. Mas a vida não é, nem nunca será, um castelo construído por pedras de desejos.

Naquela noite estávamos sentados na sala dos meus pais. A minha mãe tinha insistido que ficasses para jantar quando me acompanhaste a casa após um passeio. Eu lia quietamente um livro enquanto tu inspecionas o jornal daquele dia. E na minha mente, que nunca fora tão quieta como a minha aparência exterior, eu imaginava que seriam assim os nossos finais de mais um dia quando partilhássemos a nossa vida de casados. E então tudo desabou.

Recordo-me da cara enrubescida do meu pai, da sua expressão de fúria, e da expressão envergonhada da minha mãe enquanto os seus olhos se mantinham voltados para baixo. Recordo-me dos gritos, dos berros, das acusações. Do desconforto que o barulho causou nos meus ouvidos. Mas, mais do que tudo, recordo-me do som da minha alma a estilhaçar-se e do desespero que preencheu o espaço antes por ela ocupado.

Indecência. Outro homem. Vergonha. Desonra. Vagabunda. Vádia.

Lembro-me de como as minha mãos se precipitaram para os meus ouvidos, tentando bloquear as dolorosas palavras. Das lágrimas que me correram como cascatas pelas faces. Dos não e proclamações de inocência que fiz em vão.

- Não queremos uma filha desonrada. – disseram algures entre palavras gritadas no momento de fúria, que eram como facas afiadas direcionadas ao meus coração.

Olhei para ti. Procurei pelo teu auxílio. E tu afastaste-te. Moveste-te para longe de mim deixando-me sozinha para enfrentar a fúria dos meus pais. E tu, do canto mais afastado da sala, tudo olhaste. Face inexpressiva, olhar gélido. Olhaste diretamente para mim e nada fizeste. Não intercedeste por mim mesmo sabendo da minha inocência.

Ninguém quer uma filha desonrada.

Então, fui atirada para este navio desgastado, como uma escrava atirada para o porão imundo de um navio negreiro. Um navio que vai para uma localização incerta e de nome desconhecido, mas que eu, carinhosamente, já comecei a apelidar de Inferno.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!