Infected
2 Capítulo 2: Turbulência
A história de vida de Viollet é bem parecida com a de qualquer outra pessoa que viva em um apocalipse zumbi e corra riscos diários: ela perdeu tudo, desde a sua família, amigos e até mesmo seu namorado, todos os que estavam com ela morreram tentando protegê-la, de alguma forma. Ela se considera um imã de perigo, e eu concordo plenamente quando ela acaba de revelar as tristes perdas que teve ao longe de seu caminho até hoje.
– Caramba... Sinto muito, mesmo. Por todos eles. Mas você realmente não consegue ficar longe de confusão, não é mesmo? – Solto uma breve gargalhada para a garota, tentando animá-la enquanto voltamos para a trilha que eu estava seguindo com Shay e Aria. – As nossas histórias se parecem, digo, meus pais também morreram tentando me salvar. Acho que entendo como você se sente.
Viollet lança sobre mim um breve aceno com a cabeça, seguido de um sorriso. Aquilo foi o máximo que ela conseguiu após contar sua história de vida, ela está nitidamente abalada então resolvo não puxar muito assunto com ela agora, até porque eu nem saberia o que falar. Nunca fui bom com garotas, principalmente as bonitas. Observo minha Sabe Tudo recostada sobre uma árvore enquanto Aria está deitada sobre nossas mochilas, morrendo de tédio. A expressão de Shay me faz perceber que estou completamente encrencado enquanto me aproximo delas, seguido de perto por Viollet.
– Então o superman salvou a cidade mais uma vez? E dessa vez conquistou a Louis Lane, pelo visto. – Com esse breve e constrangedor comentário que Shay faz eu percebo que ela vai me encher de lições de moral hoje. Droga, eu trouxe uma estranha para nosso grupo sem nenhum aviso prévio e pensei realmente que as coisas iriam ficar completamente bem? Como eu sou ingênuo.
– Corta essa ironia, Sabe Tudo. Apesar de eu realmente achar que fui um genuíno herói hoje. – Ouço um breve grunhido vindo de Viollet e o interpreto como se fosse um sorriso de gratidão. – Pessoal, essa é a Viollet... Viollet essas são Shay e Aria, minhas primas e companheiras inseparáveis nesse apocalipse. – Digo, tentando parecer confiante de que fiz a decisão certa na frente de Shay. – Ouçam, ela estava sozinha e completamente encrencada, eu não poderia deixar ela lá sozinha, ok? Ainda sou um humano, e tenho meus princípios. E ela é uma garota legal, e também vai poder contribuir para a sobrevivência do nosso grupo, ué.
– Uau. – Solta Aria por fim, depois de um silêncio constrangedor que cercou o grupo. Fico aliviado por ter sido ela a ter quebrado esse silêncio e não Shay, com algum discurso constrangedor sobre segurança.
– Prazer... – Viollet diz por fim, observo a garota que parecia tão confiante quando aceitou vir comigo ficar completamente vermelha de vergonha. – Olha, se tiver algum problema em relação a minha presença aqui, eu vou embora numa boa.
– Não é isso não, é um prazer tê-la aqui com a gente, Viollet. – Para minha surpresa, Shay está sendo realmente sincera. – O problema é que nosso coleguinha aqui quebrou um de nossos acordos mais importantes: sempre compartilhar tudo com o resto do grupo. E isso me deixou um pouco frustrada, mas tudo bem, não vou ser paranóica. Bem vinda, a família Viollet! – Shay abraça Viollet e sorri para mim e meu coração volta a bater em suas batidas normais.
– Mais alguém para conversar, finalmente! Eu já estava cansada desses dois, não sei quem é mais lunático aqui! – Aria saltita até Viollet e a abraça também, mantendo a voz em um tom sereno.
– Eu disse que ia dar tudo certo. – Dou uma piscada para Viollet e me agacho em frente a minha mochila, guardando a munição extra que eu tinha pego, recarrego minha arma também. – Mas agora deveríamos realmente ir, faltam no máximo duas horas para ficar completamente escuro e ainda não temos nenhum abrigo para ficar, e dormir ao relento é uma decisão muito ruim a ser tomada.
– Nosso superman é inteligente também, afinal de contas. – Shay joga sua mochila nas costas e caminha na frente do grupo, seguida de perto por Viollet e Aria, que conversam como se já se conhecessem a décadas.
Fico para trás do grupo, um pouco constrangido com toda a situação em que me meti a principio. A caminhada é longa e, para mim, um pouco silenciosa, já que não sei muito bem o que conversar com o restante das garotas. Por incrível que pareça, me sinto até um pouco mal por não ter nenhum outro garoto no grupo, para que eu possa conversar. Sinto falta do meu melhor amigo, Dan. Espero que ele tenha conseguido sobreviver a todo esse caos.
Após, aproximadamente, uma hora e meia encontramos um velho posto de gasolina abandonado a beira da estrada. A construção ainda parece firme e fico feliz por termos um lugar para passar a noite. Puxo minha faca do cinto e a giro entre os dedos, pronto para chegar o local, finalmente tomo a dianteira do grupo e me preparo para entrar no posto quando sinto um toque em meu ombro.
– Ei, posso ir com você? Eu sou boa em matar essas coisas também, sabe. Aquele incidente de mais cedo foi porque eu estava sem armas. – Diz Viollet em um tom confiante. – Posso te ajudar a checar o local.
Aria e Shay trocam olhares, surpresas, com a atitude de Viollet. Sorrio maliciosamente e entrego minha faca para a garota, sem hesitar e observo as louras, provavelmente chocadas e com inveja da coragem demonstrada por Viollet nesse momento.
– Vamos lá então, vamos ver do que você é capaz. – Digo enquanto deixo minha mochila no chão e caminho até Shay, pegando sua faca emprestada. – Cuidem de tudo aqui, senhoritas, voltamos logo. – Aceno com a cabeça para as duas e caminho para a entrada do posto, seguido por Viollet.
O lugar não está tão acabado quanto eu esperava, ainda restaram alguns mantimentos na área de conveniência e roupas limpas também, o sistema de água do posto funciona. Abro uma porta que provavelmente daria para o escritório do lugar e tomo um susto quando três zumbis que forçavam a porta vem para cima de mim. Fui confiante demais e agora sinto que perdi tudo, vou finalmente me juntar aos meus pais.
O primeiro zumbi estava tão perto da porta que não consigo desviar dele, seguro seus braços, evitando que se aproxime mais de mim para a mordida fatal, e sua pele se solta como se fosse algodão sobre meus dedos. Os outros dois zumbis fazem pressão contra as costas do zumbi que estou segurando e sou jogado no chão com três abominações mortas sobre mim, uso toda minha força para segura-los, evitando as mordidas. Para minha surpresa o peso começa a diminuir sobre me corpo e observo Viollet, com golpes ágeis e certeiros acertar o crânio dos mortos, jogando-os para o lado. Ela acabou de salvar minha vida.
– Eu disse que não era tão indefesa quanto você me achou. Agora estamos quites. – Viollet estica sua mão para me ajudar a levantar e eu a agarro, arfando.
– Realmente, valeu mesmo. Argh! – Sinto meu braço esquerdo no momento em que fico de pé novamente, devo ter batido o cotovelo muito forte contra o chão quando caí, porque agora ele dói muito. – Beleza, mais uma cicatriz para parecer que eu sou durão. – Massageio o braço e apanho minha faca que havia caído durante o ataque.
– Quer que eu dê um jeito nisso aí? – Viollet se posiciona ao meu lado e antes que eu possa sequer responder ela puxa meu braço com tanta força que sinto um estalo; ele voltou ao seu devido lugar.
– ARGH! – Não consigo esconder minha careta de dor e fico parecendo ainda mais retardado na frente da morena, desvio o olhar dela e continuo a caminhar pela área do posto, constrangido. – Você deveria ter pelo menos avisado...
– E qual seria a graça nisso? – Ouço suas gargalhadas e ignoro a garota, porém estou formando um sorriso nos lábios também. – Isso aqui tá limpo já, vamos apenas levar nossos amigos aqui lá para fora e entrar, talvez dê até para tomarmos banho com a água desse lugar. – Ela puxa um dos zumbis para fora do posto e eu a sigo, levando os outros dois corpos comigo.
– Eca! – Aria não reprime todo o seu nojo ao ver os corpos e minha roupa toda encharcada de sangue negro. – Você deveria tomar um banho, sabe, questões de higiene.
– Nem quando as coisas eram normais ele ligava muito para isso, imagine agora. – Shay dispara e começa a rir de minha situação com Aria, minhas bochechas queimam de vergonha.
– Que engraçadinhas vocês, hein! – Finjo uma gargalhada junto as garotas, fechando a cara em seguida. – Mas para a informação de vocês, todos vamos poder tomar um banho aqui hoje. Esse lugar ainda tem água, por algum milagre.
– Comida e roupas também! Acho que vamos poder descansar bem aqui hoje. – Viollet diz com entusiasmo.
– Finalmente, vamos poder fazer algo de bom! Acho que você trouxe sorte para o grupo, Vi. – Aria sorri para a garota e entra no posto, indo direto para a área de roupas do posto.
– Louca... – Shay agita a cabeça negativamente, com um sorriso e entra no posto atrás de Aria, seguida por Viollet.
Observo os arredores do posto, com uma estranha sensação. Ouço alguns galhos se quebrando próximo e o barulho do mato mexendo, entro logo no posto para evitar chamar a atenção dos zumbis.
Após todos terem tomado um dos melhores banhos de suas vidas depois de tudo isso ter começado, nos reunimos na área de conveniência e vestimos roupas novas, enquanto comemos alguns salgadinhos e bolachas que ainda estavam no estoque do posto. Fazemos uma pequena roda no centro do lugar para descansar enquanto Aria tenta contar algumas piadas, sem sucesso.
– É melhor dormir do que continuar com essa tortura, meu Deus! – Shay finge tapar os ouvidos e Aria à lança um olhar de reprovação.
– Nossa... isso foi... inspirador. – Viollet está tentando parecer animadora, mas arqueia as sobrancelhas, visivelmente constrangida pelas péssimas piadas de Aria.
A noite parecia perfeita: conseguimos nos alimentar, tomar um banho e até mesmo estávamos rindo e contando piadas, como se fossemos apenas quatro adolescentes comuns acampando. Porém tudo mudou quando os barulhos vindo do mato voltaram. Não pareciam ser zumbis, pois se moviam rápido demais para isso. Apanhei minha Glock do cinto e observei as janelas embaçadas do posto, ainda sentado na roda com as garotas que agora haviam cessado as risadas e estavam tensas.
– O que diabos...? – Murmurou Viollet enquanto observava as janelas também, ela já segurava sua faca, pronta para se levantar quando ouvimos alguns murmúrios lá fora.
Tinha realmente pessoas por aqui.
– Ei, ei, sabemos que vocês estão aí, gracinhas. – A voz de um homem ecoa pelos vidros e conseguimos focar sua silhueta na janela suja, ele está acompanhado de mais dois homens, pelo que podemos notar. – Que tal saírem aqui para fora, para podermos conversar um pouco também?
Observo a cara de espanto no rosto das garotas e cerro os punhos, apertando mais forte a arma. Faço um sinal para que todas fiquem em silêncio, na esperança de que o homem vá embora. A voz do homem é rouca e suave, aparentemente inofensiva. Estávamos sentados no meio de algumas prateleiras, o que nos dá uma vantagem contra eles, já que não sabem exatamente onde estamos.
– Vamos lá, gracinhas, estávamos observando vocês desde a hora em que chegaram. Queremos apenas conversar. – Sua voz inofensiva ganha um tom forte, como se ele estivesse ficando impaciente. Ouço o barulho de algumas aramas sendo destravadas. Droga, eles estão armados.
– Conversar... – Outro homem fala, sua voz é mais ríspida do que a do primeiro.
– Se não saírem por bem, creio que teremos de usar a força, gracinhas. – O primeiro homem volta a falar, sua voz passar um ar autoritário para nos.
Observo as garotas, sem saber o que fazer. Aria segura a mão de Shay, apertando-a. Viollet está tremendo enquanto segura sua faca. E posso sentir a respiração de Shay falhando, o pavor tomando conta da garota. Tenho que fazer alguma coisa. Prometi que iria protegê-las. Não vou deixar que nada de ruim aconteça com elas, jamais.
– O que vocês querem? – Consigo falar, finalmente. Minha voz sai fraca enquanto aperto a arma com mais força, me ajoelho atrás da prateleira em que estamos, ainda oculto dos homens, pronto para atirar a qualquer momento. Eles são apenas três, posso dar conta deles, tenho que dar conta deles. A vida da minha família depende disso.
– Hein? Tem um cara com elas? Bob seu otário, disse que eram apenas três meninas! – Ouço o homem da voz inofensiva, que agora soa com raiva, falar. – Será que estou cercado de idiotas? – O homem bufa e coloca a cara contra o vidro embaçado, tentando nos localizar.
Sinto meu coração acelerando, a adrenalina tomando conta de meus músculos, porém continuo agachado, a espreita dos homens.
– É o seguinte, amigo, não nos leve a mal, mas não gostamos de machos, beleza? Queremos apenas as suas coleguinhas gracinhas para podermos brincar um pouco... sabe como é, quando a carne chama, não podemos negá-la nada. – O homem dá um breve gargalhada e seus amigos o seguem, e então um silêncio corta o local por alguns instantes.
– Eles acham que estamos brincando? – Pergunta aquele a quem, creio eu, o “líder” dos cara, chamou de Bob.
– Não sei, mas não me interessa mais. Minha paciência se esgotou agora. – Vejo os movimentos do homem pela janela e meu coração quase para; ele se afastou um pouco e ergueu a arma, seus colegas o seguiram.
– PARA O CHÃO! – Grito pouco antes da primeira saraivada de tiros destruir as janelas do posto.
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