Infame
2 Birra
Notas iniciais
1
Os sons reproduzidos pelo bater dos talheres se misturavam com as conversas altas da lanchonete. O estilo retro ainda permanecia no restaurante que, por anos, Aiden e Dean sempre paravam para almoçar e conversar.
As cores, as músicas, tudo era muito nostálgico: o chão, perfeitamente polido, dava a impressão de estar úmido, espelhando os pequenos ladrilhos monocromáticos que o compunham. Por meio deles, era possível vislumbrar os elevados bancos estofados em vermelho-Ferrari, chamando quase tanta atenção quanto o enorme JukeBox, no canto do estabelecimento. Seus neons, berrantes, brilhavam ao seu redor hipnotizando qualquer um que chegasse e nunca tivesse conhecido a formosa caixa de música pessoalmente.
No balcão, pessoas ocupavam todos os bancos. Entretidos pelo barulho que a máquina reproduzia, agitavam os pés e até a cabeça entrando em harmonia com Rock anos 80 que tomava o restaurante. As crianças colavam-se às antigas máquinas de chiclete, pedindo a seus pais que comprassem o doce colorido. Alguns senhores conversavam mais alto, dando para ouvir de longe a simpatizante frase – “Na minha época...” – Os outros riam.
Espalhadas por todo salão, as garçonetes dirigiam-se às mesas com um sorriso largo no rosto. Levavam e traziam os pratos com agilidade aos clientes. Algumas eram privilegiadas com gorjetas e cantadas horríveis. Outras vagavam pela lanchonete à espera de algum chamado.
— Boa tarde, senhores. Bem-vindos ao Tim’s Burger. Meu nome é Anna Bright e estarei atendendo os senhores hoje. — Anna sorria ao entregar os cardápios. — Sintam- se à vontade.
A mulher se pôs a andar em direção a outra mesa, para onde a haviam chamado. Winter a seguiu com os olhos, acompanhava o balancear de seu vestido vermelho, verticalmente estriado, prestava mais atenção nas pontas do laço que adstringia seu avental, repousado pouco abaixo de sua cintura.
— Aiden... O que está fazendo?...
Foi o tempo de voltar-se ao cardápio trocando um breve olhar a Dean.
— Quê?
Riu.
— Nada... É só que... Esse lugar me recorda de coisas tão... Boas.
Aquelas palavras eram verdadeiras, e, assim como Dean, Aiden as sentia também, mas mantinha-se em silêncio. Nunca gostara de recordações melosas e tristezas nostálgicas. Para o detetive, o passado, se bem vivido, era útil ao ser lembrado.
— Lembra da Lana e do Sean, quando vínhamos depois da aula? Nós fazíamos uma vaquinha e comprávamos uma banana Split e mais quatro milk-shakes — Ria com saudades. — Lembra?...
Sim, ele lembrava. E lembrava também de terem um horário restritamente curto para o “almoço” que, durante anos, não passava de xicaras de café extra forte e pequenas balas de menta, normalmente apanhadas da cesta com os dizeres, O Tim’s agradece, pegue umas. Logo, Aiden erguera o braço deixando o loiro sem resposta e à mercê das críticas ocultas que passavam por sua mente, comprando a proposta de Aiden: ficar quieto.
A garçonete logo veio. Seu sorriso conseguiu cativar o detetive a retribuir a simpatia, quebrando, assim, o silêncio da mesa.
— Um café, por favor.
— Dois.
A caneta à mão da garçonete foi comprimida em sua ponta, liberando a tinta.
— Okay. São dois cafés, então... — Confirmou, anotando os pedidos no papel. — Tudo bem, trago já, já.
Novamente, a saída da garçonete foi acompanhada por Winter. O sorriso ainda não havia saído de seu rosto e não sairia se seu amigo não o tivesse interrompido.
— Gostou dela?
— Do que está falando?
— Tá na cara que está gostando... Até sorriu pra ela.
— E isso, por acaso, seria problema seu, Carter? — Seu nome fora dito com uma atenção amarga, separando a vida de ambos da mesa. — Não sou o John. Não precisa ficar cuidando de minha vida. Obrigado.
— Sua gratidão é quase tão falsa quanto o seu caráter.
Houve silêncio, e, por um instante, o ranger dos pés da cadeira de Aiden ao chão. Minutos depois, já não era mais possível ver o detetive por entre os civis.
2
Como de costume, a delegacia permanecia lotada.
Já não havia mais bancos disponíveis e o espaço era cobiçado. Fossem por empurrões “acidentais” ou indiretas, todos ali se ajeitavam, inquietantes.
— Natalie.
— Ah! Senhor Winter! — A garota folheava blocos e fichas pelo balcão da recepção. — Às duas e trinta um, o senhor Hank perguntou onde o senhor e o detetive Carter estavam. Às duas e vinte e cinco, recebi esta ocorrência. — Entregou a ficha ao detetive enquanto concluía seus pensamentos. — Às duas e quarenta, Müller apareceu com uma tal de Melissa Key aqui. E, agora, duas e cinquenta, o senhor chegou... Mas... Não vejo o detetive Carter...
— É... Eu também não... — Winter corria um olhar à jovem. — Isso não é ótimo, Natalie?
— Vocês brigaram, não foi?
O detetive apenas deixara escapar pela boca, entreaberta, um breve suspiro, e, se Natalie, mesmo que nova, o conhecesse bem, aquilo expressava muito mais que uma decepção. Em todos esses anos de carreira, o detetive sempre fora chamado de muitas coisas, mas, se havia algo que o tirava do sério e o fazia ter vontade de explodir, era quando duvidavam de seu caráter.
— Só diga pro idiota, se ele voltar, que estou esperando no escritório dele. Nem fodendo que eu vou entrar naquela sala com cheiro de mijo, sozinho.
A morena acenava com a cabeça ao pegar o rádio que ligaria a recepção à sala dos faxineiros.
3
O ranger da porta fora só o começo de uma internável dor de cabeça para Aiden. Os sons que escapuliam pela pequena fresta pareciam acabar melancolicamente com a cabeça do detetive, fazendo-o perder, pouco a pouco, a paciência que, naturalmente, já não tinha.
Motivado pelo humor estampado na face de seu amigo, Dean encostou a porta novamente.
— Você tá bem?...
— Você é um imbecil, sai da minha frente.
— Aiden, seja um pouco adulto, aquilo no almoço... Deus! Foi sem querer!
— Cala a boca, seu veado! Eu tô puto com você! Hoje! Amanhã! Pra sempre!
Houve silêncio.
Era normal as brigas entre os dois. Tão normal, que já não era mais interessante parar e prestar atenção. Eram com crianças: brigavam até ambos os lados se magoarem, e, duas horas depois, já estavam no bar mais próximo tomando uma cerveja juntos.
Ciente disso, o loiro se pronunciou.
— Deixa comigo, tá?
Não houve resposta. Apenas um gesto sutil de alinhavar os óculos, grandes e embaçados, que compunham o semblante sério de Winter. Com a mão ainda na maçaneta, o policial sorriu e assentiu com a cabeça, hasteando sobre seu olhar doce, uma bandeira branca. Sabia que se não o fizesse, não seria o moreno, com seu temperamento orgulhoso, que tomaria a iniciativa.
— Eu ainda não entendo a sua necessidade de querer ser insuportável comigo.
Carter ria.
— São os anos de convívio.
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