Inexplicável
22 Penúltimo Capítulo
Notas iniciais
[...]
O último contemplar da madrugada escura e sombria, misturando-se com a melancolia das pobres almas que a viviam, alcançava a visão dos mais distantes olhares e trazia-lhes a angústia dos mais incertos desejos.
Carly deitava-se ao lado de seu cúmplice, examinando os fios de seu cabelo negro. O silêncio entre ambos tornara-se até mesmo constrangedor por certo tempo.
— E então, Joe... Quando pretende finalizar tudo isso?
— O que quer dizer?
— Nosso plano de separar Sam e Freddie.
— Estamos indo no caminho certo, meu bem, atravessamos a maior parte do progresso.
— Eu já fiz tudo que podia para isso acontecer, eu revelei a verdade. Como ele pôde esconder a morte dela por tanto tempo?
— Ele foi um belo mentiroso... E era a maior carta que tínhamos na manga.
— Mas e agora? Não consigo entender o quão longe deseja chegar.
— Apenas marque um encontro com o Benson e o convença a aceitá-lo.
— Por quê?
— Porque eu estou mandando! – exclamou ríspido, declarando o fim do breve diálogo.
O silêncio soou como a resposta mental da morena, que não poderia recusar-lhe o feito. Ela sabia que não tinha sequer valor naquele lugar, a intenção de Joe era usá-la, de fato.
Mas será que algo não o esperaria, no futuro? Será mesmo que uma "viúva indefesa" não lhe vingaria os atos do passado?
E enquanto planejava uma vingança, era ele mesmo que estava sendo vingado.
A jovem levantou-se da cama que com ele dividia, pegou suas vestes e após trajá-las, despediu-se do homem com as mais retóricas palavras. Passos à frente, abriu a porta e a fechou em seguida, sorrindo de maneira singela e descontraída. O som de seus saltos ecoava serenamente e o som de seu choro pouco era notado ao entrar no elevador, admirando seu reflexo nas espelhadas paredes. As madeixas lisas e escurecidas caíam soltas de encontro com seus ombros. Quem a visse em tal situação jamais imaginaria o motivo da solidão e culpa que nutria em seu interior.
Tal sentimento que pouco expressava-se sobre seu indecifrável olhar.
[...]
A manhã chegara na velocidade de um repentino relâmpago. Poucos foram aqueles que a viram expandir-se sobre a imensidão que o céu revestia.
— Onde ela está? — o moreno perguntava pela loira, que havia desaparecido mais uma vez.
— Disse-me que iria prepará-lo algo na cozinha. Quer que eu vá chamá-la?
— Não, pode ficar o resto da manhã de folga. Eu mesmo vou até lá.
Seguiu a descer as escadas apressado e indo de encontro com o convidativo aroma que penetrava em suas narinas, logo concentrando suas atenções na cena que viera-lhe em seguida. Ela estava de costas manuseando um objeto qualquer, parecia ser algo natural, até decidir aproximar-se e perceber que a mesma estava perto de deslizar uma faca sobre o pulso.
— Sam?
Samantha reprimiu a ação assim que notou olhares por trás de si, largando a faca sobre o chão.
— Por que está aqui? — ela indagou no soar de sua voz baixa e apavorada.
— Com certeza, não esperava ver o que vejo.
— E-eu posso explicar — tentava amenizar a situação.
— Estava mesmo pensando em fazer algo como isso?
— Se eu devo morrer, que seja rápido, e não aos poucos.
Sem pensar duas vezes, abriu seus braços para concedê-la um abraço. Ela tentava conter sua fragilidade mas não podia recusar-se a abraçá-lo em tal momento.
— Eu sinto a mesma dor que você, fazendo isso só vai se torturar ainda mais.
— Não tenho mais onde descontar o que eu sinto, Freddie.
— Pode descontar em mim.
— Não posso fazer isso.
— Quando você se machuca, eu me machuco também.
— Eu não consigo viver assim — ela o dizia enquanto lágrimas deslizavam de seus olhos vagarosamente.
— Eu estou aqui. E mesmo que nada mais faça sentido, eu ainda estarei aqui por você e para você.
Subitamente, ela desfez o abraço e se pôs a pensar na última afirmação do moreno. Aquelas palavras despertavam-lhes pensamentos antigos.
"E eu não sabia de onde ele havia raciocinado isso, mas eu nunca o traí. Eu não conseguia admitir que ele me tratasse dessa forma apenas por uma ambição. Não podia aguentar um mísero segundo a mais naquela casa, e na madrugada seguinte eu deixei aquele lugar. Doía muito deixá-lo depois de tanto tempo, mas ele viveria bem sem uma mulher como eu, que segundo ele mesmo, não era digna de viver ao seu lado. A única coisa que ainda me afligia era a nostalgia dos tempos em que podia chamá-lo de amor."
"Eu não tinha medo de fazer aquela pergunta, e nunca esperaria aquela resposta. Na verdade, tudo girava como nunca girou em minha mente, e solucionar toda essa colisão seria mais difícil do que o aparente."
"Parecia estar tudo bem, mas não estava. Parecia ser tudo como antes, mas não era. E se fosse, talvez nada se resumiria no que se resumiu. Nós éramos tanto no passado, e agora somos como nunca imaginávamos. Algo simplesmente nos venceu."
"Carly estava certa, mas também estava errada."
"Se o ouvisse por ao menos mais um segundo, agiria de maneira insana. Agora eu percebia, ele era o único que havia contribuído para que tudo isso acontecesse."
"Eu nunca pensei que deixaria de amá-la, e isso não mudou. As peças não se encaixavam como antes, mas ainda tendiam a formar um quebra-cabeça."
"Só podemos resolver algo quando acabamos com o que nos faz mal. Não havia quem orientar-me, então eu mesmo resolvi seguir minha consciência, mais uma vez."
"Ele me entregou os exames, e daquilo não entendia nem a metade, claramente, compreendia ainda menos. Não podia controlar meu nervosismo diante de tais informações."
"Eu pensava que já havia a perdido, mas agora iria lhe perder para sempre. E nunca mais a traria de volta outra vez. Eu desperdicei todas as minhas chances."
"Queria lhe fazer feliz até o último momento de sua vida."
"Já fazia alguns dias que eu e ela não nos falávamos como antes, mas hoje havia lhe preparado uma surpresa incrível."
"Aquela havia sido a primeira noite de amor que passavam depois da internação de Carly, naquela praia e naquele lugar."
"Era errado pensar que estava fazendo tudo aquilo por ciúme. Haviam outros motivos. Essa ligação apenas recuperou a minha memória."
"E se sua própria mente poderia o enganar, por que alguém não poderia?"
— Eu preciso de um tempo — disseram em uníssono.
Afastaram-se seguindo direções contrárias.
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