Inexorcizavel
1 Capítulo Único
Charlie era muito excêntrico.
“Acho que é por ele ter o sol em virgem, e a lua em aquário”, explicou Nymphadora Tonks após exibir sua nota máxima em Astronomia, no 2º ano, quando Charlie, o irmão mais novo de Bill Weasley, iniciara seu primeiríssimo ano em Hogwarts.
“É, talvez”, concordou Bill, não muito preocupado.
Ele fora alertado pela mãe que quando Charlie começasse a estudar, ele teria que ajuda-lo na adaptação. Apresentá-lo ao Castelo inteiro, cada portinha, cada cantinho, explicar os horários, quem eram os monitores, se fosse possível, conhecer também os colegas de dormitório do mesmo, só para garantir.
Não que Charlie fosse retardado, sempre explicava Bill, apavorado com a ideia de alguém achar aquilo de seu irmãozinho.
“Ele só é um pouco sensível a mudanças”, reforçava, sempre levando o pequeno ruivo para cima e para baixo com os garotos do 2º ano. Todos gostavam dele, era difícil não afeiçoar-se pelo rosto dócil e sempre vermelho de vergonha, os olhos baixos, evitando um contato visual muito longo.
“É tão tímido!”, ria Audrey Smith, da Corvinal, também primeiranista e uma boa e velha amiga de Nymphadora Tonks. Não que Charlie sentisse vergonha, ele só não gostava de olhar as pessoas por muito tempo, ele ficava confuso por não saber o que elas estavam pensando, então, às vezes, ele simplesmente perguntava.
“Nada”, respondia Nymphadora, sempre fazendo barulhos horrendos ao quebrar pirulitos em sua boca, observando Bill e os outros garotos discutirem Quadribol.
E ele não fazia ideia de como ele podia fazer para esvaziar sua cabeça e pensar em absolutamente nada.
Às seis horas, Charlie estava acordado. Ele tinha muita sensibilidade à luz, então ele sempre fechava as cortinas e ainda colocava um protetor nos olhos e nos ouvidos, se excluindo completamente das partidas de xadrez ou RPG que os garotos costumavam fazer à noite. Era o primeiro a usar o banheiro – sempre acordando dez minutos mais cedo às quartas e domingos para lavar o cabelo – e também um dos primeiros a descer para o café da manhã, sempre comendo uma deliciosa torrada regada a azeite, e um chá de camomila, que anos mais tarde, quando descobrira o elfos domésticos de Hogwarts, passou a sempre aparecer diante dele, como se fosse reservada.
As aulas eram um pouco desconfortáveis porque sua turma era muito barulhenta, os grifinórios sabiam muito bem cumprir o estigma de não conseguirem calar a boca nunca. Então ele sempre ficava do lado de fora da sala até o professor aparecer, se não fosse, claro, em um corredor lotado e mais barulhento ainda.
“Oi Charlie, como vai?”, as pessoas o adoravam, sim, todos gostavam muito dele, como se fosse um bichinho misterioso. Ele acenava, sorria, conversava sobre algumas coisas banais, acabava explicando alguma dúvida na matéria, mas sempre rezando para que parassem de falar com ele.
“Charlie, senta aqui com a gente!”, não, não, ele gosta de sentar na ponta, assim é mais fácil para sair e ele não precisa pedir desculpas esbarrando os pés em alguém. No almoço, qualquer coisa que não tenha carne. Não consegue suportar a ideia de colocar na boca algo morto desde que vira seu pai sacrificar uma galinha, quando ele tinha seis anos. No fim do ano letivo, pararam de insistir que ele se sentasse no meio ou entre turmas, parecendo aceitar a ideia de que ele simplesmente gosta da ponta da mesa.
“Charlie, você precisa se integrar!”, alertava Minerva McGonagall sempre que o via sozinho pelos cantos. Já era o 3º ano e ele ainda não tinha um ‘grupo’, quer dizer, ele tinha, mas a professora não considerava aquilo um grupo e sim uma tragédia. Por serem os primeiros a ter conhecido, Charlie só conseguia se sentir mais a vontade com Bill e seu pequeno grupo de amigos: Nymphadora Tonks, já muito conhecida de todos os professores, Franchesca Diggory, por quem Charlie definitivamente tinha o que eles chamavam de ‘quedinha’, Audrey Smith, uma garota que eles viviam atazanando e arrastando para confusões, algo que eles explicavam como ‘amor’, e Ian MacKaye, um garoto punk.
Sem eles, Hogwarts seria um filme de terror para Charlie.
No fim do terceiro ano, uma garota loura lhe disse que Rebecca, da Lufa Lufa, estava muito interessada nele e gostaria de beijá-lo. Ele a achava bonita, então não teve pudor em ir até ela esclarescer as coisas:
“Que bom que você está interessada em mim, eu também tenho interesse em você”, sorriu ele, atrás da estufa de Herbologia.
A garota do 5º ano segurou o riso, mas seus colegas gargalhavam.
“Quem te disse isso?”, perguntou ela, esclarecendo tudo em seguida.
Quando Bill ficava sabendo dessas coisas, ele sempre ficava muito irritado.
Com Charlie.
“Você é idiota? Não pode deixar as pessoas te fazerem de besta!”, ele tenta prestar mais atenção, mas acha muito difícil entender porque alguém ia mentir dessa forma, e qual a graça de fazê-lo ir perguntar coisas que não são reais. Por isso, Charlie prefere ficar com os amigos do irmão e com o meio-gigante Hagrid, que gostava de conversar com ele sobre os animais que Charlie ganhara a função de cuidar para as aulas de Trato de Criaturas Mágicas.
Os filhotes de hipogrifo são mais fáceis de lidar, pois tudo que querem é carinho e brincar.
Sim, todos gostam de Charlie, todos gostam dele, apesar de ser tão estranho. Fora suas manias regradas, se sempre comer sua torrada regada á azeite, brócolis no almoço e muito alface no jantar. Ou ele sempre sentar-se nos mesmos lugares na sala, ficando extremamente desconfortável e ansioso caso alguém sente em seu lugar, ou seus pequenos momentos de pânico quando tinha que se apresentar para a sala inteira, ou a Sala Comunal, tão irritantemente barulhenta, que tudo que ele pode fazer em correr e esconder-se em algum banheiro e sala vazia, quase ofegante de tão desesperado.
É, ele é estranho, mas o mais querido Apanhador da Grifinória. A Capitã insiste em reforçar que ele podia facilmente entrar em qualquer time pós Hogwarts, mas em seus N.O.M’S ele fora muito claro: Magizoologista, e nada mais.
Os anos foram ficando cada vez melhores conforme as pessoas se acostumavam com ele: Sempre na ponta da mesa no café, aguardar pacientemente fora da sala, sentar-se sempre na única carteira livre, como se estivesse seu nome gravado nela, seus brócolis no almoço, e a paz do celeiro dos hipogrifos, o bicando carinhosamente enquanto ele fica em completo silêncio sob o feno, com o rosto sendo queimado pelo sol.
“Eu queria ser organizada como você, sinceramente”, sempre repetia Rhaísa Khaled, sua companhia durante das rondas de monitor. Ele gostava dela, porque podia passar horas e horas ouvindo absolutamente tudo sobre seu país de origem, a Índia. Ainda mais que ela costumava não tocá-lo enquanto falava, ou fita-lo demais. E nem se incomodava quando ele falava coisas que depois, através de Bill, ele descobria que não devia ter dito.
“Como assim você disse que o xalé dela tinha cor de bosta?”, esganiçou Nymphadora, fazendo Franchesca e Audrey gargalharem, enquanto Bill apertava a ponte do nariz, aparentemente desistindo de algo.
Ele tinha seus problemas sociais, era verdade.
“Você é muito inocente às vezes”, sempre reforçava Khaled, demorando demais para lhe dar a ficha de anotação, no fim da ronda. Aí sim ela reforçava o olhar, sem piscar, com um sorrisinho no canto da boca.
Charlie ficava com vontade de morrer quando ela fazia isso, só queria jogar a ficha longe e correr para o dormitório, fechando as cortinas ao seu redor.
No Natal, o barulho estressante de seus irmãos gêmeos berrando ou chorando quase o enlouquecia, então ele passou dominar com perfeição feitiços ensurdecedores ou protetores. Nas férias, Bill teve que começar a dividir quarto com ele, e o mesmo adorava dormir com as cortinas do quarto escancaradas, quase matando o irmão mais novo, que era extremamente sensível à luz, acordando de dois em dois segundos, isso quando não passava a noite inteira ouvindo o distante zumbido do ronco de Bill ultrapassando os protetores de ouvido, fitando o teto, com os olhos arregalados.
Detestava as aulas de Astronomia e livrou-se dela no sexto ano, pois não conseguia fazer nada que não tivesse uma explicação minuciosa do que fazer do começo ao fim. Deduzir o que estrelas falavam era exaustivo e angustiante, suas notas rolavam ladeira a abaixo.
No sexto ano, e último de Charlie, ele sempre era obrigado – literalmente – a ir à algumas festas clandestinas no Cabeça de Javali, promovidas por Nymphadora e Franchesca, sempre muito animadas. Ele assistia a tudo como se fosse um filme, sem a menor vontade de participar, sentindo muita curiosidade em como as pessoas tinham facilidade em se tocar, e como um toque podia ser transformado em algo tão intimo como um beijo.
A língua que você literalmente usa para comer, ali, esfregando-se em outra língua que você nem sabe por onde passou.
Se cansava e ia embora, ignorando os comentários.
Charlie estava sempre cansado, a adrenalina sempre no pico das interações, o estresse em pensar demais em alguma apresentação que falta meses para acontecer, compromissos como testar possíveis jogadores para o time, agora que era o Capitão, e outros milhões de problemas que sua forçada vida social tinha.
No fim do ano, após as aulas de Aparatação, um dos professores comentou sobre seu trabalho com dragões e Charlie sequer pensou quando marchou até ele, curioso. Sequer precisou fazer propaganda de si mesmo, já que Hagrid fez todo o trabalho. No início do sétimo ano, este mesmo professor voltou como professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, e trouxe consigo um filhote de dragão para a turma do sétimo ano de Trato de Criaturas, cujo acesso exclusivo ele conseguira graças à sua influência com o Ministério, depois ele teria que ser levado para seu local de origem.
Primeiro, ele ficou um pouco receoso com o bicho.
Ele não de todo carinhoso, era independente demais para isso. Os alunos tinham pavor, pois Elizabeth queimou o dedo quando apertou sua pequena cabeça, mas todos ficavam quietos enquanto Charlie explicava tudo que sabia sobre aquele réptil vermelho em seu ombro, mordiscando seu ombro. Fazia suas obrigações de Monitor Chefe sonhando com as aulas de TCM, manteve-se no time apenas por obrigação, mas só pensava no bichinho engaiolado perto da estufa de Herbologia. Quando Charlie se interessava por algo, ele ficava quase obcecado. Quando entrou pro time, leu tanto sobre Quadribol que sua cabeça chega doía.
Conforme o tempo passava, agora sem seu irmão e os amigos, sua companhia era Hagrid e senhor Thompson, professor DCAT, os elfos domésticos e os animais das aulas de TCM. Sentia falta deles, mas tinha que admitir que a ausência de interação não o incomodava.
Os momentos constrangedores que passava por conta de sua “leseira”, segundo Nymphadora, ainda o deixava vermelho, suado e ansioso, mas agora ele mesmo sabia se controlar, sem precisar correr para algum banheiro ou esconder-se nas cortinas de sua cama.
Ele era “quietinho”, como sempre dizia Khaled.
“Tão tímido”, reforçava sempre algum professor.
“Precisa interagir, Weasley! Interação sempre!”, ele sempre assente, mas ignora, é a única saída. Não soube interagir no seu curso para Magizoologia. Também não soube no seu ambiente de trabalho, mas pelo menos tinha o alívio de passar horas sozinho com dragões e voltar para casa no fim do dia, absolutamente sozinho, com sua regrada rotina, rodeado de seus bichos de estimação, aconchegado.
Às vezes, ele se sente mal.
Pelos olhares estranhos. Os sussurros, a insistência, toda vez que ele se levanta para sair de uma festa que ele se forçou a ir se prometendo que dessa vez ele tentaria interagir e olhavam como se ele fosse um grande estraga prazeres... Incurável. Melhor, inexorcizável.
Estava abençoado pela eterna solidão.
Notas finais
Tem muitas pessoas que só são diagnosticadas adultas, isso quando são e não passam a vida inteira um pouco à parte. É considerado um autismo "leve", essas pessoas tem dificuldade em interações sociais, mas não é algo extremo.
Isso é só uma versão do Charlie, eu ainda prefiro a descontraída e free spirit que eu escrevo em outras histórias... Ah e isso não foi inspirado em Atypcal porque eu detestei essa waste of time do caramba, e tenho dito.
Espero que gostem.
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