Inexistência

2 Esforços Vazios


Notas iniciais
Nos desculpamos pela demora. A culpa é minha (Jean) por ter enrolado o capítulo depois que viajei x.x Esperamos que gostem.

A mente se quebra e se firma na confusão. Das infinitas voltas que o âmbito inteligível cria, aprende-se a correr e a ir mais devagar. Não se suspeita da evolução quando se pensa na regressão; a guerra interna nunca nos faz vitorioso, não no momento que queremos. E por passar por tudo, por todos os extremos, de qualquer significado ou sentimento, só confiamos no impossível.

“Querer a verdade é confessar-se incapaz de a criar.”

(Friedrich Nietzsche)

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Ronan

– Você vem agindo estranho desde que saímos do banheiro. – Lass comentou, apesar de eu não querer comentar naquilo. – Foco no seu teste ou eu não te verei no próximo período.

– Lass, eu vi uma menina no banheiro. – Comentei, sem enrolar muito.

– Uma menina? – Ele perguntou, num tom de dúvida misturado com imparcialidade. – Do gênero daquelas pervertidas que espiam os meninos no banheiro?

– Claro que não! – Exclamei, porém sussurrando, não queria chamar atenção de ninguém ali perto. – Ela estava no espelho, como se fosse um reflexo.

– Talvez seja a loira do banheiro. – A ironia dele já estava começando a me irritar. – Assume logo que está nervoso com o teste e me poupe dessas lendas urbanas.

Resolvi não insistir. Lass não era a melhor pessoa para se contar sobre acontecimentos paranormais envolvendo espelhos. Eu tinha que me focar no teste, o tutor marcou o meu logo para o primeiro e eu precisava me preparar. A propósito, estava mais para uma ruiva do banheiro.

Cheguei ao auditório e poucas pessoas estavam lá, praticamente todos os alunos da turma de atuação, Edel e Sieg, para fazer companhia. Respirei fundo. O tutor orientou que eu fosse ao palco.

– O que você preparou para mim? – O professor de atuação era muito perfeccionista e fazia questão de ser o único a avaliar.

Lázaro Lepark. Professor de atuação. Exatos trinta e cinco anos e a pessoa mais crítica e irônica que eu conhecia. Ele tinha cabelos curtos e ruivos alaranjados, eram mais organizados do que a minha mente. Além disso, também tinha sua barba alaranjada característica, mais perfeita do que a minha consciência. Seus olhos verdes analisavam tudo e buscavam erros num raio de infinitos quilômetros.

– Hamlet, Ato III, Cena I. – Disse, escondendo todo o nervosismo. “Você ensaiou, Ronan, não se preocupe.”, minha mente repetia.

– Legal... – Ele murmurou ironicamente – Bom, espero que você não tenha se matado para ensaiar isso, porque eu não estou a fim de ver você questionando sobre o seu ser.

– Como assim, professor? – Tive que me manifestar. Como assim eu não podia apresentar Hamlet? Eu ensaiei o período inteiro por isso!

– Quero uma apresentação amadora, inventada. – Ele pediu – Improvise. Não quero saber como, apenas improvise.

– Mas...

– Improvise! – Ele gritou, fazendo-me calar os ânimos.

Respirei fundo. Tentei não ficar com raiva de ter ensaiado todas as falas à toa. Eu precisava pensar em algo para improvisar...

Fechei os olhos. Obviamente não enxergava nada, nem em meus pensamentos. Senti uma brisa estranha. Avistei algo embaçado e vi cabelos longos e vermelhos. Aquela dama...

– Suas cascatas do mais puro escarlate... – Comecei sem perceber – Ó, cara dama, não me prive da sensação de conhecê-la ao teu ritmo misterioso.

Comecei a incorporar mais o personagem desesperado em conhecer a dama.

– Deixe-me sentir teus fios rubros. – Continuei – E faça com que eu me perca no encanto desse tom flamejante que alimenta minha paixão, minha sede. Isso! – Gritei e, pelo o que eu vi rapidamente, isso gerou uma reação positiva em Lázaro. – A sede! Queime-me na sua vermelhidão até que eu implore por só ter sede... A sede de te ver, de não saciar-te por meu espírito, porque meu mais puro azul não é suficiente para as tuas chamas, para a tua nobreza. – Dei uma pequena pausa – Venha aqui, jovem dama. Não precisa me aquecer como se eu precisasse, não precisa me responder como se eu estivesse submerso à ignorância, mas me dê outra chance... – Disse o “chance” com aquele sentimento – A chance de vê-te novamente. Teus olhos perdidos na vermelhidão da nossa fronteira.

– Eu não esperava uma dedicação vinda de você, Ronan. – Lázaro disse, sem expressar reações sobre sua opinião. – Não é bem o que você costuma fazer, por isso faltou bastantes coisas. Não esperava esse nível de amadorismo.

– Isso quer dizer que? – Instiguei-o a falar o resultado.

– Quer dizer que o próximo é o Lass. – Ele disse. Já sabia, pois ele primeiro dá todos os testes, depois o resultado, como ele já tinha dito em uma aula.

Lass já estava no palco e eu fiquei perto de Sieghart e Edel, sem comentar nada ainda, pois queria prestar atenção na apresentação do meu amigo.

– Nem precisa me dizer o que você preparou. – Lázaro já o interrompeu – Quero que você atue Hamlet, Ato III, Cena I. Ser ou não ser... E todo aquele blá blá blá.

Aquilo só podia ser ironia do destino. Era bem do feitio do Lázaro, mas ele ia pegar de todos de surpresa. Olhei ao redor e já via o restante dos alunos desesperados e alguns cochichos sobre alguns já terem aceitado a reprovação. O pior de tudo é que essa preocupação estava dentro de mim também. Lass demorou um pouco para começar.

– Vamos! – Lázaro apressou – Qualquer estudante de atuação de primeiro período sabe essa fala de cabeça.

– Ser ou não ser... – Lass já começou com aquela atitude que Lázaro adorava – Eis a questão. Será mais nobre na mente sofrer as pedras e setas da fortuna enfurecida ou tomar de armas contra um mar de provações e em oposição pô-las a termo?

Ele estava indo melhor do que nos meus ensaios, mas como isso? Acho que Lázaro tinha razão... Qualquer um pode fazer essa cena perfeitamente, eu devia optar por situações mais complexas.

– Morrer, dormir, não mais – Aquela atuação e a mudança no tom de voz. Magnífico. –, e supor que com um sono eliminemos a dor no coração e as mil mazelas naturais de que a carne é herdeira. – Era tão bom sentir Hamlet... – É uma consumação a ser devotamente desejada. – A leveza... – Morrer, dormir... Dormir! Porventura sonhar...

– Está bom. – Lázaro o interrompeu – Parabéns pela apresentação.

Sem críticas dele? É... Acho que eu vou ser reprovado mesmo.

– Só melhore as mudanças nos tons de voz, estão muito bruscas. – Ele acrescentou, sendo que foram minha parte predileta. – Aqui não é o curso de ópera. – Edel deu uma risada leve por isso.

Lass estava vindo até nós e Lázaro já gritava com outro aluno quando Edel questionou uma coisa:

– Por que uma dedicação a uma ruiva? – Os ciúmes estavam bem visíveis. – De onde você tirou aquelas palavras e admiração?

– Atuação, ora. – Respondi. A resposta parecia óbvia, porém não era. Não tinha como eu explicar aquilo a Edel.

– Num improviso? – Sieg completou, não facilitando minha vida. – Sabe, meus poemas são todos no improviso, mas todos eles possuem real significado, justamente por serem falados na hora.

– Não se preocupem. – Lass já tinha ouvido essa parte da conversa – Ele só está espantado com a loira do banheiro. A propósito, ela virou ruiva.

– Ruiva do banheiro? – A mente de Edel foi além do esperado. – Ronan... Você está me escondendo algo? Quem é essa ruiva?!

– Foi só uma miragem, sei lá, coisa da minha cabeça. – Tentei explicar – Achei que alguém estava no banheiro, mas era o nervosismo com o teste, então acho que passei a ver umas coisas. Não é nada do que você está pensando.

– Então em vez de fazer uma dedicatória sobre mim você fez sobre uma ruiva que não existe? – Complicou.

– Eu estava nervoso. – Expliquei – Apenas disse o que ainda estava fresco na minha mente. Não precisa se martirizar por isso. Eu ainda a amo e não preciso provar isso no meu teste, certo? As aulas são para apelo profissional.

– É, tem razão. – Ela concluiu – Desculpe-me por isso.

O tempo foi se passando. Eu tive que esperar todos os alunos acabarem os testes para saber do resultado. Durante esse período, ouvi muitos gritos por parte do professor, muitas críticas, umas tão detalhadas que me dava arrepios. Aprovações e reprovações imediatas eram coisas que não ocorriam. Todos, sem exceção, tiveram que esperar o resultado.

Após a apresentação do último aluno. Ele pediu um pouco de atenção. De repente, começou a falar o nome de todos os aprovados. Ele terminou a lista com o Lass e não citou meu nome. Repetir logo no primeiro período era humilhante.

– Ronan. – Ele me chamou, olhando-me da mesma forma crítica de sempre – Para a minha sala. Agora!

– Vai lá. – Edel pediu com um jeito doce – Vai dar tudo certo.

– E um período nem é tanta coisa assim. – Sieg, às vezes, não tinha jeito com as palavras.

– Agradeço pelas palavras. – Murmurei, seguindo o professor.

Fomos até a sala dele. Até lá era tudo devidamente organizado e eu tinha medo de até a minha respiração atrapalhar em algum esquema harmônico daquele lugar, que mais parecia um escritório. Ele se sentou na cadeira dele e pediu para que eu me sentasse na em frente, que era separada pela mesa enorme dele.

– Serei breve, pois tenho trabalho a fazer. – Ele começou – Sua apresentação foi diferente, digamos que inovadora. Já vi muitas peças que imploravam por damas, mas nenhuma que destacasse a beleza escarlate. No entanto, e o mais importante a ser citado agora, é que o seu nível de amadorismo foi muito grande, algo que, se fosse um teste para você entrar nessa academia, eu daria as costas antes da metade da apresentação. É aí que está o problema: O teste para o segundo período é mais importante do que o teste de indução.

– Então você me chamou aqui só para oficializar mais ainda minha reprovação? – Perguntei.

– Claro que não. – Ele respondeu, olhando-me com um pouco de raiva. – Ronan, eu sei da sua capacidade e é aquela que não foi mostrada no seu teste. Também fui um pouco injusto com você, pois foi o único que eu pedi improviso. Eu simplesmente achei que você era bom o suficiente para improvisar. Visto que essa não é a situação, dar-te-ei uma segunda chance. – Meus olhos brilharam ao ouvir aquilo – Depois de amanhã, nesse mesmo horário, lá no auditório. Considere como um presente da graduação, pois não verá mais essa boa ação vinda de mim tão cedo.

– Muito obrigado. – Agradeci, levantando-me em seguida – Darei o meu melhor.

– Espero que dê mesmo. – Ele disse, fazendo um sinal para eu sair da sala.

Voltei calmamente para o auditório, onde os três pareciam que estavam esperando há décadas, pois demonstravam cansaço até no olhar. Quando me viram, seus rostos se modificaram para o sentimento da curiosidade e eu aproveitei para fazer um suspense.

– O Lepark me dará uma segunda chance. – Avisei – Depois de amanhã e não haverá interferência na minha escolha.

– Sua chance de mostrar a Cena I do Ato III de Hamlet. – Comentou Sieg – Mas do jeito que eu te conheço, você vai querer impressioná-lo com uma apresentação improvisada digna.

– Você nem vai arriscar isso. – Lass acrescentou, fazendo uma expressão de “você está doido?” – Você sabe como ele é crítico e sabe colocar defeito em tudo. Segundas chances são vistas de forma mais crítica ainda, se você tentar improviso de novo, suas chances de reprovação serão praticamente todas.

– Mas se eu fizer uma apresentação digna...

– Você só vai passar de período. – Edel me interrompeu, calando-me e me fazendo refletir. – Nada mágico e grandioso ocorrerá. Se houver alguma esperança de você passar com improviso, ele provavelmente vai criticar algo e você só vai passar de período, assim como todos que tiveram essa sorte. Então para de pensar que isso é uma competição e faça o que você ensaiou durante todo o período.

– Vocês têm razão... – Murmurei e fiquei pensativo por um tempo.

– Então agora você vai para casa. – Ela continuou com suas orientações, como se eu fosse um ser totalmente irresponsável – Vá descansar. Amanhã vamos todos para o teatro, para aflorar a sua inspiração e depois de amanhã, você faz o seu teste, passa e fica com a consciência tranquila.

Era mesmo o melhor a se fazer. Despedi-me deles e fui para casa. Eu não morava muito longe da Academia, então eu ia andando. Caminhei sozinho por um tempo curto até que cheguei. Já estava de noite, como sempre, pois as aulas eram integrais.

Minha mãe estava assistindo a televisão quando eu cheguei. Eu só morava com ela, pois não havia indícios do paradeiro do meu pai, eu nem sei se ele era vivo e minha mãe nunca me contou sobre isso. Ela notou minha presença e, como sabia que era dia do teste, já veio logo me perguntando. Eu apenas disse que houve uma complicação e ele foi remarcado. Após isso, subi as escadas para o meu quarto.

Fui ao banheiro para tomar um banho e acabei me deparando com o espelho, que, instantaneamente, fez-me lembrar da dama dos longos cabelos vermelhos. Fiquei tentando me lembrar de como era sua expressão, se estava alegre ou deprimente, porém não tive sucesso. Foi rápido demais. Eu carregava a certeza de que vira aquilo e não sei por que a situação mexia tanto comigo.

Iniciei meu banho e a água quente tocou em mim. Lembrei-me das minhas metáforas. O rubro comparado ao calor. O pedido comparado ao limitado. Eu estava exausto, tive muitas preocupações desnecessárias e uma maior ainda sem fundamento, mas que continuava a me atordoar. A menina dos cabelos vermelhos...

Não quis pensar muito sobre mais nada. Após o banho, deixei minhas coisas em qualquer canto e me joguei na cama. Eu tinha que viver o dia seguinte.

No dia seguinte, acordei antes do despertador. Apenas quatro minutos antes, mas conta. Não me sentia cansado, porém também não me sentia disposto. Eu ainda guardava as preocupações do teste, pois eu já não sabia mais como ensaiar aquilo que eu preparei o semestre inteiro. Talvez Edel tivesse razão, quem sabe eu não devia procurar a inspiração na prática? Ir ao teatro hoje seria uma boa opção.

Quando eu desci as escadas, não tinha ninguém. Minha mãe saía mais cedo que eu, mas também chegava mais cedo. Liguei a televisão e estava passando um comercial de cosméticos. Uma campanha chamada: “Seja linda, seja ruiva.”. Que irônico.

Não demorei muito para me preparar e já estava indo para a Academia, onde começaria mais um longo dia de estudos. Encontrei-me com Edel na entrada (esse encontro não era frequente) e ela me deu um ingresso.

– Consegui ingressos para depois do almoço. – Ela comentou – É quando temos o maior intervalo, então dará tempo de ver boa parte da peça. É uma peça amadora, desconhecida, mas, por favor, não se baseie nisso. Apenas assista e se divirta, deixe que a inspiração faça o resto.

– Tudo bem. – Afirmei – Tentarei não me preocupar muito com isso.

Estava certo que aquilo não era tão fácil assim na prática. Não consegui pensar direito. A sala estava praticamente vazia, pois os reprovados de ontem não se sentiram motivados a ir. Além disso, as mudanças oficiais só seriam feitas semana que vem. Pelo menos hoje não tinha aula do Lázaro, foi mais fácil de conviver com aquela incerteza assim.

Todo o meu turno da manhã foi tomado por devaneios. Eu estava numa situação, difícil de estabelecer concentrações. No almoço foi a mesma coisa, Edel ficou reclamando de uma nota que não conseguiu atingir na aula de hoje e Sieg interagiu bastante com ela. Lass já era fechado por natureza, não era de iniciar assuntos, então ambos ficamos praticamente em silêncio. Eu sabia que enquanto eu não fizesse aquele teste, eu não me recuperaria.

Depois do almoço, estava tudo preparado. Tínhamos um grande intervalo e veríamos a tal apresentação. A peça se chamava “Lendas e Chamas”, o título não era convidativo, mas eu não julgaria o livro pela capa.

Os autores eram bem treinados. A parte técnica deles estava ótima, apesar do enredo fraco da história. Até que, em um determinado momento, um dos personagens gritou: “Queime-me, faça-me arder!”. Foi inevitável, logo eu me lembrei da doce ruiva... Doce? De onde saiu todo esse encantamento?

Depois da apresentação, estávamos voltando para a academia.

– Se o enredo não fosse tão ruim assim, eu teria suportado mais um pouco. – Lass comentava sobre a apresentação – Foi a história mais clichê que eu já vi.

– Eu achei que fosse um musical, sinceramente. – Edel ficou desapontada por não ter música – Se eu soubesse, nem teria comprado para essa apresentação. Foi bem morna mesmo.

– Garanto que emoção não faltou. – Sieg continuou os comentários – Eles iam além da atuação, gritavam em momentos errados, mas a história fraca acabou com tudo.

– Com esses comentários eu não vou consegui me inspirar em nada. – Desabafei, o que chamou atenção deles. – Eu não me vejo repetindo de período. Nem sei o que fazer. E não me venham falar que vai dar tudo certo!

– Você sabe Hamlet de cabeça. – Disse Edel – Não tem como falhar.

– É que... – Suspirei – Deixa pra lá. Eu vou conseguir.

E o dia se passou assim, com eu pensando em como aproveitar minha segunda chance. Não era só atuar. Era um teste particular; logo, o Lepark estaria muito mais crítico e focado em avaliar, justamente porque era uma segunda chance. Só Hamlet não seria o suficiente para minha aprovação. Na primeira chance seria, mas não na segunda.

A aula terminou e eu fui correndo para casa, sem muitas despedidas. Não falei direito com a minha mãe e me tranquei no quarto. Fitei o espelho do banheiro por alguns minutos, procurando alguma resposta, alguma inspiração, mas tudo que eu via eram meus olhos azuis esperançosos. Eu estava enlouquecendo.

Decidi revisar minhas falas antes de dormir e acabei adormecendo com o livro sobre mim. Amanhã era o dia para eu conhecer o limite do meu talento. Eu conhecia minha capacidade, mas por que estava sendo tão difícil?

Dessa vez eu acordei com o despertador e com um cansaço descomunal. Não conseguia encontrar forças para me levantar da cama, então demorei um pouco para realizar esse processo. Preparar-me para a Academia de Artes foi um processo muito lento hoje.

Cheguei ligeiramente atrasado e fui correndo para a sala. Novamente não consegui prestar atenção. Hoje era quinta-feira e amanhã seria o último dia antes das mudanças de período, isso, de alguma forma, contribuía para a minha tortura mental. O teste só seria no último tempo, pois o Lázaro leciona à noite, o que deixaria meu dia complicado.

Na hora do almoço, Edel estava mais empolgada do que eu, me transmitia algumas palavras de conforto e o clássico “Vai dar tudo certo.”. Ela vivia citando em Hamlet, mas eu não queria apresentar isso. Se na primeira vez eu improvisei, na segunda chance eu precisava provar que sabia improvisar, não importando as circunstâncias.

Fiquei quieto e focado durante o dia todo. Edel começou a se preocupar comigo, mas eu só disse que era por conta do teste mesmo, que, depois disso, tudo voltaria ao normal. Eu ia esquecer minhas loucuras e continuaria vivendo a vida.

Chegou a última aula e eu fui para o auditório. Lepark liberou os alunos mais cedo, restando apenas eu para ele avaliar. Edel fez questão de presenciar aquele momento, mesmo tendo que matar aula para isso. Subi ao palco e respirei fundo.

– Hamlet, Ato III, Cena I, certo? – Lázaro perguntou, dando um sorriso cínico.

– Não. – Respondi, vendo a má reação de Edel – Você me deu uma segunda chance para o meu teste e o meu teste era fazer um improviso e eu vou provar que posso improvisar perfeitamente.

O professor apenas riu. Eu o encarei.

– Está esperando o que para começar? – Ele perguntou, depois de terminar de rir.

– Arriscar-me ou não... – Acho que começar com uma antítese foi uma boa estratégia – Tentar ser, mais uma vez, escravo do seu olhar. Ó bela dama que não me concedeste a chance de encarar o mistério de teus olhos por mais uma fração de segundos, para eu descobrir mais uma fração do meu eu perdido. Por quê? – Esse “Por quê?” foi um tanto sofrido, quase um choro – Não... Você não fala comigo. Faço essa ode sozinho. Não tenho esperança, porém ainda vivo... – Edel aplaudiu, emocionada.

Fiquei muito confiante de mim após isso. Não pareceu desesperado e eu soube aproveitar a tragédia do drama.

– Acho que eu vou morrer sem saber quem é essa dama escarlate. – Ele começou o seu comentário, sem deixar evidências de sua opinião, como sempre. – Começou com antítese, o que não combinou nada com o resto do texto. Eu estou enjoado desse ser que fala sozinho. Essa dama é muda ou orgulhosa demais para entender isso? Nem Romeu e Julieta eram tão entediantes. O grande problema é que os alunos andam se confundindo recentemente. Ronan, isso não é o curso de poesia. Se você quer fazer odes para uma moça, vá para lá, não use isso no seu teste profissional. Eu não consigo sentir a energia dessa dama, é como se ela fosse uma personagem base para o seu personagem brilhar a apresentação inteira. Se você pelo menos citasse algumas palavras dela... – Ele pausou de repente.

Nem eu, nem Edel entendemos.

– Lembro-me do teu pedido impossível... – Ele começou a atuar de repente. Era... Perfeito. Lázaro era o melhor ator que eu conhecia, eu me sentia humilhado perto do que ele fazia. – O “me deixe” que doeu. Apertou. Fragmentou! Sofri. Sofri muito. Sabes a gravidade disso? Minha dama escarlate... – Ele abaixou o tom de voz perfeitamente, como um sussurro misturado com imploração – Diga-me novamente aquilo que eu preciso ouvir, quem sabes não me retorna com outra resposta e eu possa sentir mais um dos açoites do teu vocabulário. Quem sabe eu não aprendo a escolher palavras e desfaço-me de forma ideal. Talvez... Só talvez... – Quanto drama... Quanta inspiração... – Eu possa retornar com uma ode decente. – Ele terminou, com a perfeita indireta.

Eu aplaudi. Não de ironia, foi incrível de verdade.

– Improvisar não é demonstrar só os seus sentimentos. – Ele explicou – É mostrá-los por situações, por pessoas. Você não sente algo. Você sente algo por alguma coisa, entende? Egoísmo da sua parte querer mostrar sentimentos para a dama escarlate sem mostrar o que dela te alegra. Não são apenas os seus sentimentos que importam, meu caro. – Ele deu uma pausa, pois organizou uns papéis – Você teria ido melhor se fizesse Hamlet.

– Então eu estou reprovado? – Perguntei.

– Veja amanhã no boletim oficial. – Ele respondeu, levantando-se para sair – Mas creio que você já saiba a resposta. Está dispensado.

Edel se aproximou de mim. Tudo o que eu menos queria agora era momentos de consolo.

– Vou deixa-lo sozinho. – Ela sussurrou – Sei que não quer companhia no momento. Mas você não devia ter feito o improviso.

Ela saiu do auditório sem olhar para trás. Com certeza seria diferente se eu tivesse seguido a dica. Como fui tolo... Eu não queria pensar em esperanças agora ou em possíveis considerações. Apenas ir para casa e relaxar, afinal, chegaria mais cedo.

No caminho de casa eu procurei não pensar muito naquilo. Nada de ruiva ou de teste, apenas retornei à minha moradia como se fosse um dia comum. Ao chegar a casa, minha mãe já chegou logo perguntando e eu disse que o resultado só ia sair no boletim oficial, no dia seguinte. Apenas fui para meu quarto refletir sobre a vida. Fiquei fitando a parede até anoitecer e minha mãe me chamar para jantar. Não tinha nem me trocado.

O céu estava mais estrelado do que de costume. A lua estava linda... Edel sempre gostou da lua e quaisquer coisas relacionadas ao astro, foi uma visão dedicada a ela. Comecei a ter a sensação de que as estrelas estavam piscando. Eu realmente não estava bem.

De repente, um risco no céu. Uma estrela cadente. Admirei-a como jamais tinha admirado algo antes.

– Eu queria poder entender o que está acontecendo comigo...

~~~

Elesis

Saí imediatamente do banheiro e dei de cara com a Edel.

–Ei! O que foi? – Ela me parou, esticando o braço na minha direção – Sieg me disse que você tinha ido ao banheiro.

–Tinha um menino no banheiro. – Contei, sem hesitar.

–Como assim?

Umas garotas queriam passagem para entrar no banheiro. Edel percebeu e se afastou da porta.

–Não entrem aí, tem um menino! – Avisei.

–Elesis! Não pode ter um menino aí. – Edel me olhava confusa, unindo as sobrancelhas e enrugando a testa.

–Mas eu vi! Ele... – Respirei fundo e controlei meu tom de voz – Ele deve ter saído, sei lá!

–Ninguém saiu daqui, Elesis.

As meninas ficaram me encarando. Por um tempo, continuei parada olhando para Edel, tentando absorver tudo o que aconteceu. Se colocassem uma legenda para cada situação em que me encontro, estaria escrito agora: “Ela não sabe o que dizer”.

Acabei dando passagem para as garotas e me afastei um pouco do banheiro.

–Elesis? – Edel me chamou.

–Tinha um menino no banheiro. Alguém que eu nunca vi aqui na escola. – Disse no tom excessivamente sério.

–Olha... – Edel suspirou, levantando e abaixando os ombros – Deve ter sido algo da sua cabeça, sei lá, você está se sentindo pressionada pelos testes e...

–Você está sendo redundante! Isso não tem nada a ver com os testes. Eu vi!

–Tá! – Pensei que ela se daria por convencida e tentasse me entender, mas isso não aconteceu – Você deve estar com fome, então.

Edel se virou para as mesas do point.

–Olha que legal! O menino está levando nosso lanche, vamos. – Ela se virou rapidamente para mim e puxou meu pulso.

Eu não daria aquele assunto por encerrado. Por ora, era melhor não comentar sobre isso com mais ninguém.

Voltamos para a mesa e conversas aleatórias começaram. Eu não conseguia me concentrar em mais nada. Aqueles olhos...

–Elesis? – Olhei para quem havia me chamado e quase me engasguei com o hambúrguer. Os olhos azuis...

–Sim.

–Você não ouviu o que o Sieghart acabou de falar? – Perguntou Lass.

–Perdão. – Olhei para o professor.

–A sua professora, Mônica, teve que ir para uma reunião. Ela acabou de me ligar, avisando que é para eu ir também. Então você pode aproveitar esse tempo para ensaiar com o Lass, entendeu?

Balancei a cabeça em resposta, dizendo que sim.

Sieghart se levantou. Ele ainda não tinha terminado de comer e deu um gole no copo de suco, deixando o restante na mesa. Foi até o balcão e pagou pelo o que havia pedido e depois partiu em direção ao corredor que dava para a coordenação.

Voltei a olhar para Lass e ele já havia terminado.

–Estarei te esperando na minha sala, ok? – Ele se levantou, afastando a cadeira para trás. Fez o mesmo procedimento que Sieg e pagou seu lanche, depois saiu.

–Está tudo bem? – Edel parou de comer e olhou para mim — Você parece tão enevoada.

–Vai ficar. Como você disse, deve ser a pressão dos testes. – Sorri forçado.

–Sei... – Edel colocou o hambúrguer no prato e o deslizou sobre a mesa – Para mim, já deu. – Disse ela, levantando também.

–Não vai terminar? – Questionei.

–Não quero te atrasar para a sua aula de reforço. – Ela enrugou o nariz – Além disso, terá um desafio antes do professor retomar a aula. Iremos tentar tocar Bring Me To Life, sabe? O desafio é maior porque a música é no piano, mas será tocada no violão.

–E o vencedor ganha o quê? – Perguntei, antes de dar um gole no copo de refrigerante.

–Um mês sem pagar a refeição aqui na escola. Preciso ganhar isso. – Edel riu e eu não pude deixar de achar graça.

–Boa sorte, então.

–Valeu. – Ela começou a andar, voltando para a sua sala – Ah! Paga aí para mim, por favor. – Pediu ela, num tom audível de onde ela estava para que eu escutasse com perfeição. Ri novamente.

Também não terminei de comer e fui pagar o que faltava. Fiquei aguardando no balcão pelo troco e observava todos os meninos que passavam por mim.

Assim que recebi, segui o caminho para a sala do Lass. Diferente da primeira vez que passei pelo corredor das salas, agora estava quase deserto.

Adiantei os passos e parei em frente à porta da sala. Bati antes de entrar.

–Eu tomei a liberdade de ir à sua sala e peguei a partitura que você estava estudando. – Lass a abanou no ar – Sieghart me disse que você estudava na sala ao lado.

–É... – Entrei e fechei a porta – Olha, se você quiser ir embora, eu...

–Não precisa se preocupar. – Ele interviu – Assim eu pratico também.

–Tudo bem. – Disse e me sentei na banqueta.

Lass ficou de pé ao meu lado, colocou a partitura aberta num apoio do atril do piano.

–Pode começar.

Respirei fundo e toquei a primeira nota.

–Hm... Ele começa com um som crescente e tem um momento pianíssimo, entende? – Lass sentou na banqueta do piano ao lado e começou a tocar, fazendo com que eu parasse – Um som muito suave, bem baixinho... – Era como ouvir o som do rio descendo e deslizando pelas pedras sem o menor problema. Era incrível sua habilidade. Era como ouvir minha professora tocando, sendo que com um toque... Indiferente, o que não tirava a beleza da música.

Lass tocava com os olhos fechados, o rosto pálido não emitia qualquer expressão que fosse. Seus lábios ficavam imóveis.

Ele parou e me encarou.

Entendi que era para eu voltar a tocar e assim fiz. Deixei que meus dedos se movessem em liberdade em cima das teclas, não sendo pressionada pela situação em que me encontrava. Deveria dar o meu melhor.

–Não! – A voz de Lass estava insensível e alta.

–Já entendi o motivo de a sua professora te criticar tanto. Você persiste em errar essa passagem de nota – Ele apontou – que começa largo e depois moderado, você, incrivelmente, consegue trocar as posições. – Isso não foi um elogio...

Minha vontade era de desafiar esse Lass a fazer melhor, mas ele já era melhor. Então tive que suportar suas críticas. Críticas essas que eu não havia me acostumado nem quando é a professora quem as faz.

–Essa melodia foi uma dedicação, Elesis, uma dedicação de Chopin para o Embaixador de Hanover, na França. Toque como se fosse dedicar essa canção a alguém. Não toque como se fosse um encargo.

Eu não encarava Lass, olhava o tempo todo para as minhas mãos ou as teclas do piano.

–Mais uma vez.

E esse “Mais uma vez” foi se repetindo no decorrer da aula. Mais de uma hora escutando os meus erros. Lass não se importou com minha postura, pelo contrário, pouco prestou atenção em como eu me sentava e como eu tocava. Sua preocupação era outra: A minha melodia.

Para ele, eu fugia do tom exuberante, no meio da música, e mudava para algo mais surreal e desanimado.

Se não fosse pelo cansaço e por ele ter me dispensado após a longa hora de prática, eu teria me irritado com aquele garoto.

Saí da sala, sem ao menos despedir-me e bati a porta. Deu a entender que eu não estava nem um pouco satisfeita em ensaiar com o Lass, porém... Os seus olhos me faziam lembrar os que eu vi no espelho e me faziam sentir algo diferente.

O que poderia ser isso? Seria mesmo a pressão dos testes que estavam me fazendo ver coisas?

Apressei os passos pelos corredores vazios. Algumas turmas já haviam sido liberadas, outras ainda estavam tendo aula.

Cheguei à saída da escola. O crepúsculo se fazia presente no céu. Aquele azul... Fiquei um bom tempo olhando para cima.

–Outro problema: A distração. – Aquela voz que eu ouvira por uma hora.

–Acho que já está bom, Lass. Eu entendi que preciso melhorar isso.

–Você só tem mais um dia. – Ele avisou, como se eu não soubesse.

Lass seguiu seu caminho e eu bufei. Ele seguia a mesma direção do meu percurso para casa. Eu não preciso pegar ônibus para voltar para casa, pois moro perto da escola.

Comecei a andar atrás de Lass. Ele carregava uma mochila preta e aparentemente vazia, pois não tinha muito volume. Ele não havia percebido minha presença, o que estava sendo bom. Até eu esbarrar numa cadeira que estava na calçada, pois tinha um bar ali e as mesas ficavam do lado de fora.

Fechei os olhos e torci para que ele não tivesse ouvido. Abri-os.

Droga.

–Tsc. – Lass estalou a língua.

Estava virado para mim e, assim que o olhei, ele voltou a andar.

–Ficou com tanta raiva que está me seguindo para me bater em algum beco? – Perguntou ele, enquanto andava.

Eu havia me aproximado. O que poderia fazer? É o meu jeito de andar rápido. A noite já estava caindo e, como eu saio quase sempre nesse horário, precisei acelerar os passos para não correr nenhum risco em andar por essas ruas. Acabei pegando essa mania.

–Não, eu não vou te bater. – Mesmo querendo muito, pensei.

Ele nem se limitou a olhar para trás.

–Ainda vai querer meu auxílio amanhã? – Lass parou. Havia um cruzamento. Deduzi que era ali que nossos caminhos se separavam.

Respirei fundo.

–Não posso desperdiçar ajuda, ainda mais faltando pouco tempo para os testes. – Disse, parando também.

Não estávamos tão distantes, mas havia um espaço considerável entre nós. Que desapareceu, quando Lass desceu a calçada e atravessou a rua.

Nessa despedida silenciosa, virei a esquina e segui meu caminho de casa. As luzes estavam apagadas. Ou minha mãe já estava dormindo ou havia saído. A porta estava destrancada. Ela estava dormindo.

Entrei e tranquei. Passei pela sala e subi as escadas, que levariam ao meu quarto. Acendi a luz do corredor e, antes de ir para meu cômodo, dei uma olhada no quarto da minha mãe, que era defronte ao meu. Abri a porta vagarosamente, fazendo uma pequena brecha de luz entrar. Ela estava deitada e coberta. Fechei a porta e fui para meu quarto.

Nem vi a hora. Só sabia que meu corpo estava exausto. Dirigi-me até o armário e peguei uma peça de roupa confortável para dormir.

Fui para o banheiro. Fiquei encarando o espelho a minha frente. Nada. Fiz um coque alto no cabelo, para não molhá-lo. Liguei o chuveiro e deixei que a água gelada caísse como cascata no chão. Entrei no box e deixei que o cansaço fosse deixando meu corpo a cada pingo de água que escorria em mim.

Assim que terminei, enxuguei-me, me troquei, soltei o cabelo e saí do banheiro. Deitei na cama e deixei que o sono me dominasse por completo. Depois disso, encontrei-me imersa numa escuridão sem sonhos.

Acordei com o despertador. Minha mãe já havia saído para o trabalho. Fiquei da hora que acordei até antes de sair estudando a partitura que tinha em casa. Percebi que Lass estava certo em reclamar da minha melodia...

Esperei até vinte minutos antes da hora das aulas começarem e saí de casa.

Minha professora estava na sala assim que cheguei. Sem fazer qualquer cerimônia, pediu que eu tocasse.

Ouvi as mesmas reclamações que ela faz, começando pela postura. Ela me fez parar umas cinco vezes para recomeçar tudo de novo. Eu já não estava mais aguentando. Calhou de o meu intervalo não ser junto com o de Edel.

–Agora só irei vê-la amanhã antes dos testes... – Murmurei, enquanto voltava para a sala depois de ter lanchado sozinha. Nem me sentei em uma mesa, fiquei num dos bancos próximos ao balcão. Nem mesmo avistei Lass.

Entrei na sala e a Mônica apontou para o piano. Recomecei. Ouvi Lass tocar na sala ao lado. Uma música diferente. Que combinava mais com ele. Também era de Schumann. Träumerei,Kinderszenen (Cenas da infância), Nº 7. Uma melodia nostálgica... Combinava com ele, de certa forma.

–Elesis! – Repreendeu minha professora – Como consegue ser tão distraída?

Voltei a tocar, ignorando-a.

–Você deveria... – Ela se silenciou e ficou com os lábios entreabertos, como se não tivesse mais voz para pronunciar uma só palavra.

Fechei os olhos e deixe-me novamente ser levada pela Balada número 1. Dedicação... Inspiração vinda de um poema... Era o resumo dessa obra.

Terminei de tocar. Fui afastando cautelosamente as mãos das teclas, sem fazer o mínimo de som. Olhei para Mônica, que trajava um belo vestido preto, na altura dos joelhos, justo ao corpo e tinha o cabelo preso. Sua pele clara reluzia em contraste com a cor do vestido que se equiparava a cor do cabelo.

–Você me surpreendeu. – Disse ela – Conseguiu acertar a nota que mais errava. E o começo... Foi tão sereno. Diferente dos últimos dias – Lá vêm os insultos – que você começava de forma bruta.

–Obrigada.

–Não pense que isso foi um elogio, mas, sim, uma parabenização pela melhora notável de hoje.

Não pude impedir que um sorriso se fizesse presente em meu rosto. A aula já havia acabado. A professora, antes de sair, disse que Sieghart lhe contou que eu estava tendo uma ajuda extra e reforçou que isso era bom para mim, assim eu não deixava de praticar.

Saí da sala logo depois de Mônica e fui até a sala ao lado. Lass já estava lá, acabava de tocar algo, que não soube identificar quem era. Entrei.

–O que estava tocando? – Perguntei.

–Um clássico. – Ele se levantou – Beethoven. – Ele deu uma pausa, para que eu me sentasse e ficasse em posição – Comece.

A aula repercutiu os mesmo erros e as mesmas reclamações do dia anterior. Com exceção das notas que acertei durante minhas aulas com a Mônica, mas Lass nem ao menos me parabenizou. Apenas disse “assim é melhor” e ficou me encarando enquanto eu continuava a tocar.

–Você precisa tocar com mais empolgação quando passa para a segunda oitava no piano! – Exclamou Lass e eu vi algo que jamais pensei que veria: Lass impaciente.

Ele tem uma característica de não parecer ligar muito para as coisas e, quando algo está irritando-o, ele apenas evita. Mas naquele momento... Ele quase explodiu. Não fiquei por baixo. Levantei-me tendo o braço esticado e as palmas apoiadas no piano, bati minhas mãos nas teclas.

–Se continuar falando nesse tom comigo, não conseguirei melhorar! – Disse.

Lass se sentou, cruzou os braços na altura do peito e as pernas.

–O que foi? – Perguntei e ele ficou calado – Vai ficar sem falar comigo, é?

Como eu havia previsto sobre ele, estava sendo evitada.

–Tudo bem, você terá que falar no final da aula se eu estou bem ou não. – Voltei a me sentar e comecei a tocar.

Percebia meus próprios erros e recomeçava. Como Lass não estava ajudando muito com suas reclamações, comecei a ficar mais atenta no que fazia. Depois me dei conta que isso poderia ter sido um dos seus objetivos em me ignorar.

A aula chegou ao seu fim. Minha mão estava pesada e eu levantei com as pernas dormentes.

–Como fui? – Perguntei.

Lass se levantou, pegou sua mochila que estava em um canto, colocou-a nas costas e foi para a porta.

–Bom.

–Bom? O que isso significa?

–Que seu tom foi bom, acho que isso é óbvio.

–Não me refiro a isso. É que... Eu me esforcei tanto para melhorar meu desempenho e você diz que meu tom ficou bom?

–É. – E saiu da sala sem dizer uma palavra a mais.

Voltei para casa intrigada. Dessa vez não me encontrei com Lass, pois ele tinha saído alguns minutos antes de mim. Quando cheguei a casa, minha mãe estava fazendo o jantar. Mas entrei tão rápido que ela nem notou minha presença naquele momento.

Fui para o meu quarto e estudei mais ainda a música sentada na cama. Não tinha um piano em casa, o que dificultava um pouco minha situação. Mas tinha um teclado e ele quebrava o galho, às vezes.

A noite caiu por completo, deixando o céu negro, com uma lua lindamente prateada que dividia seu deslumbre com as infinitas estrelas.

Minha mãe me chamou algumas vezes para jantar, mas estava muito focada no que fazia. O dia seguinte seria a minha prova. Eu não poderia falhar.

Acabei pegando no sono e dormi em cima das folhas e meu teclado amanheceu na pontinha da cama. Levei um susto quando ele quase caiu quando me mexi e o empurrei sem querer. Num reflexo rápido, o segurei.

Como já era um hábito, eu acordei cedo e minha mãe já havia saído. Os testes começariam cedo. Tomei um banho para tirar toda a pressão, me arrumei, tomei o café da manhã e saí.

Antes de entrar no auditório, tinha um aviso na parede com os pré-requisitos e repertórios exigidos para os testes. Esse mesmo aviso foi colocado em cada sala e nos corredores, para que ninguém errasse na escolha.

Os estudantes de piano tinham três escolhas: Schumann, Chopin e Clementi; os de violão tinham o tema livre, assim como a maioria dos instrumentos. Poucos tinham suas exigências.

Entrei no auditório e tinha um piano bem no centro do palco. Senti um frio na barriga. Os outros instrumentos estavam numa mesa ou encostados na parede. Os alunos que fariam os testes e alguns que já eram de um período mais avançada, estavam espalhados pelo grande salão.

Vi o professor Sieghart, na primeira fileira, com outros avaliadores. Avistei Edel sentada próxima aos professores. Lass também estava ali. Juntei-me a eles.

–Estão preparados? – Perguntei, ao me aproximar deles e sentar ao lado de Edel, que acabou ficando entre mim e Lass.

–Confesso que estou um pouco nervosa.

Lass não respondeu.

–Também estou. Está dando aquele frio na barriga. Mas... – Olhei para trás – Não está tão cheio, então acho que isso dará um pouco mais de segurança. – Voltei a olhar para Edel, que assentiu positivamente.

Ficamos em silêncio por um tempo.

–Então... – Puxei novamente assunto – Ganhou o desafio?

Edel riu.

–Se eu conseguir passar no teste, você saberá a resposta.

Os testes começaram. Havia vinte avaliadores. Cinco para cada instrumento: Violão, Violino, Piano e Saxofone. Seria por número de chamada e, pela ordem, seria a Edel primeiro, com o número quatro; depois o Lass, com o número doze e, por fim, eu era a número dezenove.

Edel foi chamada assim que os três primeiros se apresentaram. Segundo a Edel, os professores avaliariam o desenvolvimento técnico e artístico e também a criatividade na escolha da música, que deveria ser escolhida e mandada para o professor, assim ele mostrava aos avaliadores para ser estudada. Eles estariam prestando atenção em tudo: notação musical, acordes, intervalos, tonalidades e modulações a tons vizinhos.

Eu sabia que Edel estava preparada e iria surpreendê-los. Ela foi até o final palco, pegou o violão e voltou para frente, sentando-se numa cadeira, que ficava a frente do piano. A iluminação estava apenas no palco. Onde eu estava a iluminação era muito fraca e dava uma sensação de conforto para quem apresentava.

Edel pigarreou antes de começar, ajeitou o violão na perna e abaixou o rosto, posicionou a mão nos acordes que ficavam a frente da boca do violão.

–Firefly, Ed Sheeran. – Disse uma avaliadora, indicando a música que Edel tocaria.

Edel não estava usando palheta, o que me surpreendeu. Ela começou. Os professores se remexeram. Acho que foi um bom sinal. Era lindo o jeito que ela tocava, seus cabelos balançando conforme o ritmo da música, a concentração, que deixava cada movimento seu tão brando, encantava-me. Edel tinha uma habilidade acima do normal no violão.

Ela terminou sua performance e desceu do palco, voltando para onde estávamos. Como ela se sentou em silêncio, preferi não comentar nada, mas eu só faria elogios.

Logo depois foi a vez do Lass. Eu nem o vi levantar, de tão quieto que aquele garoto estava. Só me dei conta que era a sua vez, quando ele já estava subindo no palco e indo em direção ao piano.

Sentou-se.

–Papillons, opus 2, Roberto Schumann. – Apresentou Sieghart, que estava avaliando os estudantes de piano. O grupo de avaliadores havia trocado, quando os estudantes de violão deram a vez para os pianistas.

Lass começou a tocar. Fechou os olhos e se manteve sem expressão em seu semblante. Ele sabia exatamente o que fazia, abria os olhos para apreciar o próprio desempenho. Ele era perfeito. Sem um erro aparente. Sem qualquer dúvida de que fosse capaz de passar. As pausas... Era como se o piano combinasse com ele o momento exato para a sua parada. O seu silêncio. Então, retornava com mais sagacidade ou mais suavidade. Impecável.

Terminou sua apresentação e voltou até onde estávamos da mesma forma que saiu, em sua quietude estranha.

Passaram-se algumas apresentações e chegou a minha vez.

Passei por Edel e ela sorriu para mim, o mesmo não aconteceu quando passei por Lass.

Olhei para Sieghart e ele estava sério. Como se eu fosse uma desconhecida. Talvez, naquele momento, eu fosse.

Subi os cinco degraus da escada que levava ao palco. Caminhei até o piano. Sentei.

–Balada Nº 1 em Sol menor, Opus 23, Frederic Franciszek Chopin. – Anunciou Sieghart, olhando para o papel e depois para mim.

–“Dedicação...” – Pensei, enquanto tocava as teclas – “Lass disse para que eu tocasse como se fosse uma dedicação. Para quem?”.

Fiz a passagem da primeira oitava para a segunda de forma excepcional. Até melhor do que na última aula que tive com a minha professora.

–“Aqueles olhos... O rosto... É para ele que vai minha dedicação. Seja lá quem for, essa música...” – Fechei os olhos – “Essa música será para ele...”

Abri os olhos e a cena do espelho dominou minha mente, enquanto eu corria com as mãos pelas teclas, desconcentrei-me e não mudei o tom perto do final da música. Não parei de tocar. Consertei minha melodia e continuei.

Terminei a peça sem aplausos. Não era preciso. Desci do palco e não olhei para ninguém e nem voltei a me sentar. Resolvi ir embora. Saí do auditório.

–Ei! – Olhei para trás e era Lass vindo em minha direção – Por que você fez aquilo? Estava indo... – Ele fixou seus olhos nos meus olhos e, depois de um tempo, que eu não consegui distinguir quanto, Lass olhou para outro ponto – Você estava superando seus erros, como pôde perder a concentração no final?

–Você não entenderia. – Disse e voltei a andar.

–É, sendo você tocando, não dá para entender o que se passa em sua cabeça. – Senti um vazio naquele momento. Lass, com certeza, havia voltado para o auditório.

Saí da escola e fui para casa. O sol tilintava. O céu estava azul sem qualquer resquício de nuvem. Cheguei a casa e fui para meu quarto. Queria, por um momento, desaparecer.

Deitei e deixei que minha mente ficasse absorta de pensamentos aleatórios. Dormi.

Acordei com a minha mãe me ligando, avisando que chegaria tarde por causa do congestionamento. Olhei para a hora na tela do celular e já era de noite. Parecia que eu não tinha dormido há dias para apagar daquela maneira. Havia seis chamadas perdidas da Edel. Depois eu falaria com ela.

Fui para o banheiro e lavei o rosto. Olhei para o espelho.

–Estou enlouquecendo... – Murmurei. Enxuguei-me com a toalha e saí.

Caminhei até a janela e o céu estava constelado. A lua, mais uma vez, se mostrava vaidosa. Apoiei-me no vão da janela e deixei que meus pensamentos fluíssem enquanto admirava aquela imensidão do universo.

Vi um risco rápido no céu. Uma estrela cadente. Um aperto no peito e uma angústia inexplicável.

–Eu queria poder entender o que está acontecendo comigo...

“Há quem me julgue perdido, porque ando a ouvir estrelas. Só quem ama tem ouvido para ouvi-las e entende-las.”

(Olavo Bilac)

Notas finais
Pode ser que seja comum os capítulos ficarem grandes assim.