Notas iniciais
Esse é só um prólogo da fic. Ela tem uma história muito complexa e complicada, então, de início, vocês não entenderão muito bem o que está se passando. Mas, com o tempo começarão a entender. Boa leitura ;)

Não existia época mais alegre e gratificante para os argentinos do que o verão. Período em que o sol reluzia durante o dia inteiro, e seus raios amenizavam o frio constante da cidade, que dava preguiça aos moradores todas as manhãs. Os dias ensolarados davam força de vontade para trabalhar, estudar ou fazer qualquer outro tipo de atividade. Via-se a cada esquina inúmeros rostos sorridentes, como se viver fosse a maior dádiva existe – e de fato é. Mas é claro que, como dizem, cada regra tem sua eterna exceção.

A garota mirava sua própria imagem no espelho enquanto terminava de pentear-se metodicamente. Os cabelos batiam exatamente em seus ombros e as mechas douradas combinavam perfeitamente com seu estilo. Suas roupas, escuras demais para um dia caloroso, chamavam a atenção de quem a visse. Quem usaria esses trajes em pleno verão? Ou melhor, quem usaria esses trajes em qualquer época do ano? E por fim, seu rosto, pálido como sempre fora. Os lábios, antigamente rosados, pareciam não ter cor. Enormes bolsas arroxeadas rodeavam seus olhos, olheiras de quem não dormia há dias. E seus olhos, que tinham tudo para serem vivos, não tinham brilho. Um eterno sentimento de dor e solidão emanavam deles.

Muita coisa já se passara pela vida daquela garota. Coisas que nem ela mesma compreendia, que dirá as pessoas ao seu redor. Quem a via, jamais chegaria a imaginar que algum dia a mesma fora feliz e radiante, assim como a maioria dos jovens com quem era obrigada a conviver todos os dias. Mas sim, ela já fora feliz, porém teve toda essa alegria arrancada de maneira precoce e inesperada. E agora, o que lhe restava? Somente dor e solidão.

Foram ouvidas três leves batidas na porta. A menina, com o serviço já terminado, afastou-se lentamente do espelho rachado na extremidade e sentou-se na cama. Logo em seguida, pediu que a pessoa entrasse. Em menos de um segundo depois a porta fora aberta e um homem extremamente alto colocou a cabeça para dentro do quarto, com um sorriso fraco nos lábios.

- Está pronta? – O homem perguntou.

- Estaria mentindo ao dizer que sim. – Sua voz mal era audível. – Mas te digo que posso suportar.

- Você vai ter que superar isso alguma hora, querida. – falou em tom preocupado. – Vida nova, espírito novo. Não pode ficar com essa angústia para sempre.

- Eu sei, eu sei. – Suspirou, levantando-se e apanhando a bolsa que encontrava-se jogada no chão. – Já vou indo.

- Tenha um bom primeiro dia de aula, e boa sorte.

A garota acenou levemente para o homem, cujo era seu tio e um dos únicos parentes que lhe restara, e rapidamente saiu da pequena casa, em ruma a sua nova escola. Seus passos eram lentos, assim como suas expectativas. Ela sabia bem que nunca conseguiria se adaptar a uma nova vida, por mais que tentasse ao máximo. As manchas que o passado deixara jamais seriam encobertas, e a sombra do medo sempre a perseguiria. E algum dia, sem hesitação, a capturaria.