Inesperado

17 Capítulo 16


Capítulo 16

O dia já amanhecia e Gael acordava aos poucos. Os poucos raios de sol que banhavam as águas do mar e os dorminhocos sobre as pedras à orla da praia. E Gael viu um pequeno ponto azul brilhante no céu. Mas o que fazia ali uma estrela azul quando já era de manhã? Estrela azul?!, ela se perguntou, levantando-se apressadamente. Estrela azul! Ela estava bem ali! Depois de semanas!

– Lúcia! — Gael balançou a menina adormecida ao seu lado. — Lúcia, acorda!

Lúcia se sentou rapidamente, exasperada pela forma como foi acordada.

– Olha! — disse Gael, apontando para o céu.

– A estrela azul! — exclamou Lúcia, sorridente. — Pessoal! — disse em alto e bom som, acordando os outros.

– Ahn... O que foi? O que houve? — perguntou Ripchip atordoado.

– Pessoal, acorda! — repetiu Lúcia, balançando Selena ao seu lado. — É a estrela azul!

Foi como uma bomba sendo jogada. Todos se levantaram rapidamente, surpresos e boquiabertos. Todos quietos, admirando o ponto azul no céu, perguntando-se se era real ou sumiria diante de seus olhos. Quando ficou claro que não era uma miragem, Ripchip quebrou o silêncio.

– Vamos, amigo, acorde. — disse, cutucando o dragão ao seu lado.

~*~

A euforia de ver a estrela azul foi quase dizimada alguns dias depois. O navio tinha dificuldades para atravessar os mares, e Drinian havia mandado que os marinheiros descessem para o compartimento dos remos, onde dois em cada um se esforçavam ao máximo para movimentar o navio.

– O vento foi embora. — disse Drinian, preocupado.

– E como vamos chegar agora à Ilha Ramandu? — perguntou Edmundo.

Drinian suspirou, passou por Edmundo e Caspian e se dirigiu ao leme.

– Eu digo que alguma coisa não quer que a gente chegue lá.

Edmundo olhou para Caspian, procurando por algumas respostas, mas apenas suspirou e foi atrás de Drinian. Edmundo cruzou os braços sobre o peito, frustrado. Ele tinha que concordar com Drinian. A tempestade de dias atrás e agora essa calmaria completa. O que quer que fosse que não os queria em Ramandu, estava usando métodos bem inteligentes para deixá-los loucos antes mesmo que pegarem a rota correta. Mas, no momento, Edmundo também tinha alguns outros problemas preocupando sua mente. Desde que saíram da Ilha do Dragão, como a haviam nomeado, ele não encontrara com Selena. Se perguntava a cada segundo se ele fizera alguma coisa errada, mas então, ao repassar toda a cena do beijo, dizia a si mesmo que ela havia tomado a iniciativa.

Então, por fim, o moreno decidiu-se por ir ele mesmo procurá-la. Mas quando se virou, porém, esbarrou de frente com alguém. Pediu desculpas rapidamente quando algo chamou sua atenção. Verdes. Ficou hipnotizado por aquela cor arrepiante durante alguns segundos. Até que percebeu que aquele verde intenso eram os olhos de Selena sob os raios de sol.

– Ah, desculpe. — ela disse rapidamente. — É que eu estava procurando o Caspian...

– Não tem problema. — ele disse, sorrindo meio nervoso.

Ela estava prestes a dizer algo quando Drinian se juntou novamente a eles.

– Caspian a está chamando, senhorita. — disse ele a Selena, e ela bufou, irritada com o modo formal como ele às vezes se dirigia a ele.

– Tudo bem, eu já estou indo. — garantiu ela.

Mas não foi. Pois no momento em que ia, a voz de um marinheiro chamou sua atenção, não muito longe dali.

– Se minha fome aumentar — comentou ele, raivoso, com outro marinheiro -, eu janto aquele dragão!

Selena olhou para cima, para Eustáquio, que voava próximo ao mastro principal.

– Não se preocupe, Eustáquio, primeiro vão ter que passar por mim. — garantiu Ripchip, sobre sua cabeça, enquanto se afastavam em pleno voo.

– Se não acharmos terra até de noite, eles podem mesmo jantar esse dragão. — disse Drinian sarcasticamente, já subindo de volta as escadas para o leme.

Selena fora ao chão, junto com tantos outros marinheiros pegos desprevenidos por um movimento brusco do navio. Caspian puxou Drinian para se equilibrar em seus próprios pés.

– Batemos em quê? — perguntou Caspian.

Edmundo levantou-se sozinho e ajudou Selena a se levantar, antes de ir para a lateral do barco, procurando por algum possível dano causado naquele forte impacto. Nada na lateral. Até que olhou mais à frente.

– Eustáquio! Ótima ideia! — elogiou ele, para o dragão que tinha a cauda enrolada na cabeça de dragão do Peregrino, puxando-o com força para movimentar o barco pelas águas.

Ripchip atravessou toda a extensão das costas do dragão e, empunhando sua espada, chegou até o nariz do dragão decorativo, segurando-se no chifre.

– Adiante!

~*~

– Caspian, queria falar comigo? — perguntou Selena, entrando no camarote de Drinian, onde o mesmo dissera que seu primo havia ido.

– Não que eu me lembre. — respondeu Caspian, virando-se da grande janela que havia ali, por onde observava finalmente as águas passando.

Selena ficou confusa. — Não tinha mandado Drinian me chamar antes de Eustáquio dar aquele show de força lá fora?

Caspian riu levemente, lembrando-se da reação admirada dos marinheiros ao verem o suposto show.

– Ah, sim, agora me lembrei!

Selena sorriu, entrando completamente pela porta e fechando-a em seguida. Puxou um cadeira e sentou-se confortavelmente.

– Agora só depende saber se requer a minha presença como sua prima ou como marinheira... Ou você quer algum consolo? — sugeriu ela, arqueando uma sobrancelha em tom de provocação.

– Na verdade, acho que eu que vou te aconselhar dessa vez. — respondeu Caspian, no mesmo tom provocativo que a prima usara.

Selena deixou a provocação comum entre eles de lado, confusa, enquanto Caspian caminhava em sua direção e se sentava à sua frente, na beirada da cama que tinha ali. E ela odiava aquela expressão séria que ele trazia no rosto, principalmente depois de ele dizer-lhe que era para aconselhá-la. Selena sempre foi responsável o suficiente, e quando Caspian vinha querer aconselhá-la, ela sempre pensava que nada de bom sairia dali.

– O que está acontecendo? — ela perguntou, antes que ele tivesse a oportunidade.

Caspian suspirou. — Não vai me contar pessoalmente o que aconteceu na Ilha do Dragão, não?

Selena engoliu em seco nervosamente.

– O que quer dizer com isso? — ela perguntou, mesmo já tendo certa ideia do que seria.

– Você sabe bem o quê. — ele perguntou, sorrindo marotamente.

– Você viu ou ele te contou? — Selena perguntou, desviando o olhar e corando violentamente. Sabia que mentir pra ele na cara dura não ia resolver; ele a conhecia bem demais.

E Caspian riu abertamente. — Com a cara que vocês passaram os últimos dias, seria um milagre se alguém não descobrisse. — ele disse, fazendo-a corar cada vez mais.

– Okay, então sobre o quê, exatamente, você queria falar comigo? — ela perguntou, tentando não passar muita mais vergonha.

Exatamente é sobre isso. — disse Caspian, retornado à sua expressão séria. — Você tem que conversar com ele.

– M-mas ele... — ela gaguejou, ainda atônita.

– Mas nada. — interrompeu Caspian autoritariamente. — Ele já tentou várias vezes falar com você, eu vi!

– Eu tinha pensado mesmo em tentar enquanto ainda posso ser feliz — disse Selena melancolicamente, de cabeça abaixada. -, mas depois eu percebi que isso vai me fazer sofrer mais.

– Ninguém garante isso.

– Você garante! — disse ela, quase aumentando uma oitava de sua voz. — Eu me lembro bem do estado em que você ficou quando Susana Pevensie foi embora! E assim que a névoa for embora, eles vão junto!

Caspian suspirou derrotadamente ao ver indícios de lágrimas ameaçando cair pelos cílios de Selena. Ele se levantou rapidamente, puxando-a pelas mãos para também se erguer, e a puxou para um abraço apertado.

– Ele tinha dito a mesma coisa. — sussurrou Caspian e Selena fungou, impedindo que as lágrimas caíssem. — Mas vou te dizer a mesma coisa que disse a ele. Eu sei, você sabe e ele também. Agora basta sofrer sozinha ou ter depois lembranças para amenizar a dor.

~*~

Selena, ainda meio abalada pelas palavras de Caspian, saiu do camarote de Drinian diretamente para o seu. Desviou de qualquer pergunta de Drinian ou de qualquer pedido de algum marinheiro, dizendo que se sentia indisposta e que iria se retirar aos seus aposentos. Não tem melhor mentira do que uma meia verdade. Entrou no camarote que divide com as garotas, e agradeceu mentalmente por elas não estarem por lá. Jogou-se em sua cama, sentindo que todo o estresse mental que passara nesses dias estava se transformando em um cansaço extremo.

Até há alguns dias, achava que talvez falar com Edmundo seria o certo, mas assim que trombara com ele pouco antes da ajuda de Eustáquio com o curso do navio percebera que talvez não fosse a melhor ideia a ser tomada. Nesse momento, ela percebera que as reações que seu corpo tinha quando estavam próximos já passava do simples conforto. Seu coração acelerara consideravelmente para que ela julgasse ser saudável, suas pernas bambearam e ela achou que estivesse prestes a desmaiar, por um momento pensou que sua voz havia ido dar um passeio e esquecera-se do caminho de volta, e suas mãos começaram a suar frio.

Não poderia se enganar por muito mais tempo, conhecia os sintomas. Eram os mesmos que Caspian dizia sentir quando estava perto de Susana Pevensie.

E ela estava apaixonada pelo irmão dela.

De que adiantaria continuar negando daquele jeito? Para sofrer mais? Mas ela não queria sofrer depois, quando ele já tivesse ido embora de volta para a terra de onde viera. O que ela faria? E então as palavras de Caspian retornaram aos seus ouvidos. Agora basta sofrer sozinha ou ter depois lembranças para amenizar a dor.

É, ele tinha razão. Era o que ela faria. Criaria boas lembranças sobre a melhor época de sua vida.

Selena levantou-se apressada da cama em um pulo, pronta para colocar em prática o mais rapidamente possível. Antes só precisava falar com Caspian, pedindo ajuda de como fazer isso. Mas sua passagem para fora de seu camarote fora impedida por Drinian, que parecia prestes a bater à porta.

– Olá, Selena. — disse ele. — Queria saber se precisa de alguma coisa para aliviar a indisposição.

– Na verdade, eu já estou melhor, obrigada. — ela disse, sorrindo agradecida. — Você viu meu primo?

– No meu camarote ainda, eu acho.

– Obrigada! — agradeceu ela, correndo em direção ao camarote.

~*~

Edmundo, na sacada da varanda do camarote de Drinian, sentia a brisa fresca do oceano desalinhar mais seus cabelos negros, a refrescância finalmente amenizando o calor excessivo que fazia há apenas algumas horas atrás. Mas era mais do que isso. Aquela brisa não refrescava apenas o calor, mas também seus pensamentos difusos. Desde que esbarrara com ela, horas atrás, não conseguia parar de pensar em como resolver aquela situação embaraçosa em que estavam metidos. Que, na verdade, ela o submeteu. Mas nada que ele estivesse realmente se importando.

Caspian, sentado à mesa e de frente para as três espadas expostas, também já pensara em alguma coisa sobre isso. Mas tudo o que ele poderia fazer, já fora feito, agora era apenas esperar que eles dessem os passos seguintes por si mesmos. Agora, ele tinha assuntos importantes para resolver.

– Nem sabemos se os outros fidalgos chegaram à Ilha de Ramandu. — comentou ele, chamando a atenção de Edmundo, depois de analisar uma das três espadas dispostas à mesa.

Faltavam ainda quatro espadas, mas nada lhes garantia que não tivessem ficado em outra ilha da qual eles desviaram o percurso.

Edmundo entrou no camarote, e se sentou em uma cadeira.

– Não se preocupe, vamos conseguir. — disse ele confiante.

Caspian, prestes a discordar, calou-se quando a porta abriu-se de repente.

– Caspian, eu... — a pessoa também se calou.

Era Selena, paralisando assim que vira Edmundo ali também presente.