Inesperado

21 Capítulo 20


Capítulo 20

O dragão voou em direção ao Peregrino da Alvorada, ainda receoso se deveria realmente seguí-los. Silêncio. Nada mais do que isso percorria a tripulação do navio que ia em direção à Ilha Negra. Um silêncio desconfortável, onde quase era possível apalpar a tensão e nervosismo no ar.

– E... O que você acha que tem lá dentro? — perguntou o minotauro para o grupo que estava próximo ao leme.

– Os piores pesadelos. — disse Edmundo, engolindo a saliva com aparente dificuldade.

– Os desejos mais sombrios. — disse Caspian, seu olhar fixo na névoa negra que envolvia a Ilha à frente.

– Loucura e insanidade. — sussurrou Selena, com um olhar vago e fora de órbita.

Edmundo, que estava ao seu lado, envolveu sua cintura com um braço e a puxou para mais perto de si, procurando passar-lhe uma força que ele mesmo não tinha.

– Maldade pura. — finalizou Drinian, resumindo todos os pontos em duas únicas palavras. Palavras que, por acaso, não trouxe conforto algum para qualquer dos marinheiros que as ouviram. — Travos, abra o arsenal. — Drinian ordenou, se afastando do leme e se dirigndo ao minotauro, que estava prestes a descer as escadas em direção ao convés.

O minotauro assentiu, e disse em uma voz grossa antes de se retirar. — Milorde.

– Arqueiros! — gritou Drinian para o convés, e a tripulação logo parou para ouvi-lo. — Fiquem a postos!

– Sim, capitão!

– Acendam as lanternas! — ordenou o minotauro, prevendo que na ilha não haveria qualquer fonte de luz.

– Vamos nos preparar. — disse Caspian, descendo as escadas junto com os outros.

~*~

– Preparada? — perguntou Lúcia a Selena, enquanto elas entravam no camarote. Tentou fazer piada da situação, o que geralmente era papel da outra, mas não conseguiu. Era tensão demais para ser quebrada com um jogo de palavras ou mudança no tom de voz.

– Sinceramente? Nem um pouco. — Selena respondeu, sorrindo em cumprimento a Gael, que estava sentada na cama e Lúcia, e indo colocar o cinto da bainha de sua espada. — Mas por mais que eu esteja nervosa, não estou preocupada. Farei o possível e o impossível para conseguir superar a loucura que estão tentando implantar em mim e proteger quem precisar.

– Boa sorte com isso. — desejou Lúcia, em um tom sarcástico e nervoso. — Foi difícil superar minha tentação, imagina a loucura em si!

– Vai ser difícil. — concordou Selena. — Mas eu vou conseguir, sei disso.

Ficaram em silêncio, enquanto as duas revisavam seu cinto, até que a menininha Gael se pronunciou.

– Quando eu crescer, quero ser igualzinha a vocês. — disse, chamando a atenção das duas.

Lúcia olhou pelo reflexo do espelho pendurado, e enxergou um brilho nos olhos da menina. Um brilho, que ela reconheceu de seus próprios olhos, tempos atrás. Virou-se para Gael, sorrindo docemente, e se sentou ao seu lado, abraçando-a pelos ombros.

– Quando crescer, deve ser igualzinha a você.

Selena virou-se para Lúcia, com um sorriso orgulhoso no rosto. A mais nova havia lhe contado qual fora sua tentação alguns dias depois do ocorrido.

– Além disso — Selena completou, agachando-se em frente as duas e sorrindo abertamente. -, ser quem você é, é o que te define. Seja quem você quer ser, não deixe que os outros obriguem você a ser o que não quer.

~*~

– Caso a gente não passe... Err... Seja o que for... — disse Caspian, enquanto terminava de ajeitar sua armadura e esperava que Edmundo fizesse o mesmo. — Quero que saiba que te considero um irmão. — ele disse, observando a reação que ele teria.

Edmundo ficou um pouco surpreso, e sem graça, com tal revelação.

– Eu também. — ele disse.

Um momento constrangedor se seguiu, ambos se recordando da briga que tiveram, até que Caspian se aproximou e ajudou o mais novo a fechar o resto da armadura.

– Está sem espada. — notou Caspian.

– Aquela não era minha. — disse Edmundo, referindo-se a espada de Lorde Bern, que carregava desde as Ilhas Solitárias.

Caspian se afastou, enquanto Edmundo terminada de fechas as correias, e voltou, estendendo-lhe a espada que o outro tanto desejou. A espada do Grande Rei Pedro.

– Mas esta é... — Edmundo tentou argumentar, mas foi logo interrompido.

– Pedro ia querer que usasse.

Edmundo nada disse, e hesitou antes de segurar a espada com firmeza.

~*~

– É agora, amigão. — encorajou Ripchip sobre a cabeça do dragão alaranjado, que sobrevoava a ilha de modo um tanto quanto receoso. — A batalha aguarda.

O dragão arregalou os olhos, finalmente tomado pelo medo, e fez uma curva de volta.

– Eustáquio! — exclamou o ratinho, esperando que apenas isso trouxesse o bom-senso para o amigo.

Ripchip puxou algumas escamas, tendo a cabeça do dragão abaixada por reflexo. Quase caiu em pleno, mas conseguiu se segurar.

– Eu não aceito rendição! — disse com firmeza, olhando nos olhos azuis do dragão. — Um nobre guerreiro não foge por medo.

O dragão desviou o olhar, envergonhado por tal repreendida. Será que ele sempre teria medo de alguma coisa?

– Olha pra mim! — disse o rato. — Olha pra mim quando eu falo com você.

O dragão voltou a olhar para o ratinho que estava sobre seu nariz.

– Eu sou um rato. Você é um dragão. — continuou ele, quase caindo, mas rapidamente recuperando o equilíbrio. — Você tem uma pele que é uma armadura, você cospe fogo! — ele dizia, subindo para a cabeça do dragão. — Coragem! — incentivou, desembainhando a espada. — Vamos conhecer nosso destino. — apontou a espada para a ilha, encerrando seu discurso.

O dragão hesitou por um momento, antes de abrir as asas e se lançar em direção à ilha. Por mais que o destino mencionado por Ripchip lhe parecesse sombrio, ele tentaria provar o seu valor.

~*~

Selena saía juntamente com Lúcia do camarote, quando foi cercada por Edmundo.

– Edmundo! — ela exclamou, surpresa em vê-lo logo ali. Ele não deveria estar se preparando?

– Sel, você tem certeza que não prefere ficar no camarote, protegendo a Gael? — ele perguntou, nervoso e receoso.

Selena revirou os olhos, e disse em tom irônico. — Gael ficará segura lá, não se preocupe.

– Eu sei, mas... — ele começou, mas logo foi interrompido.

– Ei, Eddie! — Selena disse, depositando uma mão sobre o rosto do moreno e percebendo seus olhos escuros desanuviando aos poucos as preocupações. — Eu sei me cuidar também, não se preocupe. Se não fiquei louca ainda, não será hoje que ficarei.

– Por favor, só não faça nenhuma imprudência. — ele implorou, segurando a mão dela sobre seu rosto.

Selena abriu um sorriso sarcástico e sádico. Sádico demais para que Edmundo pensasse que ela estivesse livre da loucura daquela ilha.

– Imprudência é meu sobrenome. — ela disse, dando-lhe um selinho e se afastando.

– Pensei que fosse Restimar. — Edmundo comentou brincando, enquanto se virava para vê-la se afastando.

Selena riu. — Se pronuncia imprudência.

~*~

– Não importa o que aconteça aqui. — dizia Caspian no alto das escadas do leme, para toda a tripulação que estava ali embaixo no convés, ouvindo atentamente cada palavra do seu rei. — Cada alma de pé diante de mim mereceu seu lugar na tripulação do Peregrino da Alvorada. Juntos chegamos até aqui. Juntos enfrentamos perigos. Juntos vamos enfrentar outra vez. Então agora não é hora de cair na tentação do medo. Sejam fortes, não se rendam. Nosso mundo, nossa vida em Nárnia, depende disso. Pensem nas almas perdidas que viemos salvar. Pensem em Aslam. Pensem em Nárnia.

Ele sabia que muitos ali carregavam seus próprios medos, suas próprias angústias. Esperava apenas que suas palavras fossem ao menos um pequeno incentivo para não desistirem. Desceu alguns degraus, já sem esperança alguma, até que um dos marinheiros puxou o coro que tomou todo o navio.

– Por Nárnia!

E assim se seguiu, enquanto todos os marinheiros brandavam aquelas duas palavras, com uma força de vontade fortificada. E isso fez novas esperanças resurgirem dentro de Caspian. Como ele pudera pensar que não conseguiria? Viu Lúcia e Selena gritando animadamente entre os marinheiros, Edmundo mais atrás, sorrindo orgulhoso e encorajando o outro rei.

E os gritos dos narnianos invadiam o silêncio que era provocado pela escuridão.