Inesperado

2 Capítulo 1


Notas iniciais
Mais um cap de Inesperado! o// Agradeço à 13 pessoas que já comentaram apenas no prólogo e aos 25 que já acompanham. Conto com vcs para continuar o próximo, lembrem-se que um review escrito faz uma autora feliz, e uma autora feliz faz capítulos bons e grandes ;) Lembrem-se, cenas alteras e outras acrescentadas!!

Capítulo 1

– Tem dezoito anos mesmo? — perguntou o soldado desconfiado a Edmundo.

Edmundo estava na central de alistamento de um dos pelotões do exército inglês. Não aguentava mais a espera para sua volta a Nárnia, depois de quase mais um ano, então simplesmente aproveitou a oportunidade que teve para tentar se alistar. Já participara de duas grandes guerras em Nárnia e outras tantas pequenas, de conquista, durante o reinado com seus irmãos em Cair Paravel; não seria problema mexer com uma arma de fogo aqui na Inglaterra. Seu único problema era justamente a sua pouca idade.

– Por quê? Pareço mais velho? — ele perguntou rapidamente ao soldado. Ele era alto e tinha um bom físico, mas não sabia se seria suficiente para enganar o general que alistava.

O soldado estendeu-lhe a mão e Edmundo lhe entregou o registro nacional que estava em sua mão. Que, na verdade, era de sua tia.

– Alberta Mísero? — o soldado perguntou.

– Foi erro de impressão. — disse Edmundo, tentando se safar. — Era para ser Albert A. Mísero.

Edmundo!– ele ouviu a voz da irmã mais nova e quase se xingou quando não resistiu ao impulso de ver o que ela queria. Perdera sua chance de se alistar. — Você veio para me ajudar com as compras.

O homem que estava atrás de Edmundo riu, enquanto ele pegava de volta o registro da tia.

– Mais sorte da próxima, fedelho! — caçoou o homem, enquanto Edmundo caminhava até a irmã, que tinha nos braços uma caixa de legumes.

– Fedelho? — Edmundo perguntou indignado quando ele e Lúcia saíram do prédio. — Ele era no máximo dois anos mais velho! Eu sou um rei! Estive em guerras... e liderei exércitos.

Lúcia entregou-lhe a caixa, que foi devidamente colocada sobre uma bicicleta e amarrada com cordas.

– Não neste mundo. — disse ela.

– Pois é... — concordou Edmundo, mal-humorado. — Mas estou preso aqui, brigando com Eustáquio Clarêncio Mísero. Ele bem merece o nome que tem.

Enquanto o irmão reclamava, Lúcia percebeu um casal que havia há vários metros dali. A mulher era loira e bonita, e Lúcia sentiu certa inveja ao perceber que isso atraía estupidamente a atenção do soldado que estava com ela. Disfarçadamente, Lúcia tentou imitar o gesto da mulher de colocar uma mecha do cabelo atrás da orelha, perguntando-se se era isso que tanto atraía os homens.

– O que foi? — Edmundo perguntou, percebendo que a irmã estava distraída.

– Nada. — respondeu Lúcia, tentando não ficar envergonhada, enquanto arrastava a bicicleta, sendo seguida do irmão. — Sabe, acho que isso tudo é uma falta de namorada, Ed.

– Namorada! — resmungou Edmundo, indo ao lado da irmã. — Não preciso me preocupar em ter namoradas.

– Claro que não. — brincou Lúcia, revirando os olhos. — Ao menos não enquanto você estiver preocupado em imitar sua vida como era em Nárnia.

– Ou então não enquanto estiver dividindo um quarto com Eustáquio. — ele disse, arrancando um riso da irmã e logo a acompanhando também.

~*~

Caro diário,
hoje faz 253 dias que meus insuportáveis primos, Edmundo e Lúcia, invadiram a nossa casa. Eu não sei mais quanto tempo vou aguentar morar com eles e dividindo as minhas coisas. Se desse para tratar parente como se trata insetos, os meus problemas estariam resolvidos. Era só botá-los num jarro, ou alfinetá-los na parede.

– Chegamos! — Lúcia gritou quando passaram pela soleira da porta da casa do primo, tirando-o sua atenção de seu diário. — Olá!

Lembrete: descobrir as implicações legais por esganar parentes.

Edmundo entrou pela porta da sala de estar no momento em que Eustáquio terminava suas anotações e guardava seu diário.

– Oi, tio Arnaldo! — cumprimentou Lúcia, passando pelo tio a caminho da cozinha. — Tentei comprar cenouras, mas só tinha nabos mesmo. — ela tirou seu casaco e o colocou sobre uma cadeira, antes de voltar à sala de estar. — Quer que eu comece a fazer a sopa? A tia Alberta já está vindo pra casa.

O homem, porém, não desviou sua atenção do jornal que lia.

– Tio Arnaldo? — Lúcia perguntou mais uma vez, tentando chamar a atenção do tio.

Edmundo, vendo o desinteresse do homem, mandou língua infantilmente.

– Pai! — gritou Eustáquio, descendo as escadas e vendo a ação do primo. — O Edmundo está fazendo careta pra você!

– Ora, seu... — Edmundo correu atrás do primo, com o punho fechado, após este jogar algo em seu pescoço.

– Pai, ele quer me bater! — Eustáquio clamou por ajuda, encolhendo-se nos degraus.

– Edmundo, olha! — Lúcia chamou pelo irmão. — Carta da Susana!

Como eu queria que estivessem aqui com a gente. Tem sido uma aventura, mas nada que se compare aos nossos tempos em Nárnia. Os EUA são bem divertidos, só que nunca vemos o papai. Ele trabalha demais. Eu fui convidada para uma chá no Consulado Britânico por um oficial da marinha, que aliás é muito bonito. Eu acho que ele está me paquerando. Parece que os alemães não deixam ninguém cruzar o Atlântico. São tempos difíceis. Mamãe espera que não se importem de passar mais alguns meses em Cambridge.

Lúcia, que lia inicialmente a carta com alegria, mas que sua estima diminuíra à medida que Susana relatava sobre o oficial da marinha, agora interrompera a narrativa de forma exasperada.

– Mais uns meses? — ela perguntou alto, para ninguém em especial, mas chamou a atenção do irmão, que analisava um quadro que havia no quarto de Lúcia. — Como vamos sobreviver?

– Deu sorte. — disse Edmundo, sentando-se ao lado de Lúcia e tomando a carta. — Pelo menos tem seu próprio. E eu que durmo com aquele chato?

– Susana e Pedro é que são sortudos. — Lúcia disse tristemente, levantando-se da cama. — Vivendo aventuras.

Edmundo jogou-se de costas na cama, com a carta ainda em mãos.

– São mais velhos e nós somos os mais novos. — Edmundo disse ironicamente, mas ainda assim tinha uma pontada de tristeza em seu tom de voz. — Não somos tão importantes.

Lúcia caminhou até o espelho que havia ali no quarto. Não era de hoje, mas sempre pensava em sua aparência, perguntando-se se garotos de sua idade reparavam nela e sentia-se inferior à muitas garotas que ela julgava ser mais bonitas. E ao ler a carta da irmã, sua auto-estima, que já era baixa, chegou a níveis extremos de inferioridade. Jamais chegaria aos pés da irmãs que, nem ainda completava vinte anos, e já tinha homens aos pés.

– Você me acha parecida com a Susana? — perguntou Lúcia, tentando não mostrar um tom de voz muito afetado por seus pensamentos.

Edmundo deixou a carta de lado e se levantou. Já estava cansado de perguntas do tipo feitas pela irmã e, para não se irritar, preferiu perguntar sobre algo que realmente o incomodava.

– Lúcia, você já tinha notado esse barco?

O moreno se referia a um quadro que mostrava um barco ao longe, navegando por águas desconhecidas e sendo levado pela correnteza. Lúcia suspirou derrotadamente, sabendo que seria difícil conseguir qualquer resposta do irmão sobre o assunto.

– Já. — ela respondeu, virando-se de costas para o espelho. — É bem o estilo de Nárnia, não é?

– É. — concordou Edmundo, observando tristemente o quadro. — Só serve para nos lembrar que estamos aqui e não lá.

– Era uma vez órfãos desocupados — ouviram a voz irritante do primo e viraram-se para a porta -, que acreditavam em Nárnia e contos de livros empoeirados.

– Agora você apanha... — Edmundo ia furiosamente até o primo, mas Lúcia segurou seu braço.

– Não!

– Não saber bater?!

– A casa é minha. Entro onde eu quiser. São só convidados. — Eustáquio disse convencidamente, mas tinha medo de apanhar do moreno. Ele adentrou o quarto e se sentou na cama. — O que há de tão fascinante nessa pintura? É horrorosa!

– Não dá pra ver do outro lado da porta. — Edmundo disse sarcasticamente, mas sem lhe dirigir o olhar.

– Edmundo, parece que água está se mexendo. — disse Lúcia, ignorando o primo e admirando o quadro com o irmão.

– Quanta bobagem, viu?! — disse Eustáquio, sem se importar que a fala não lhe fosse dirigida diretamente. — É nisso que dá ficar lendo esses romances imaginários e contos de fadas.

– Era uma vez Eustáquio, o chato. Só lia livros inúteis, de fato. — contra-atacou Edmundo, arrancando uma risada discreta de Lúcia.

Irritado, Eustáquio tentou argumentar.

– Gente que lê contos de fadas viram sempre um fardo horroroso para gente culta como eu, que lê livros com informações reais.

Edmundo, que já não sentia mais a paciência que mantinha com o primo durante todos aqueles meses, virou-se irritado.

– Fardo horroroso? Eu não vi você mexer uma palha desde que nós chegamos.

Eustáquio se levantou assustado e tentou fugir, mas Edmundo era mais velho, mais alto, mais rápido e mais forte, e conseguiu bater a porta antes que o primo corresse.

– Eu devia era contar pro seu pai que foi você que roubou os doces da tia Alberta. — o moreno continuou.

– Mentira!

– Ah, será?!

– Edmundo, a pintura! — Lúcia tentou chamar a atenção do irmão.

Sentiu o ventou balançando seus cabelos e alguns pingos de água salgada banhando seu rosto e mais uma vez teve a impressão de que o barco se mexia de acordo com as ondas do mar. Viu uma fina linha de água escorrendo pelo quadro, e soube que não estava ficando louca.

– Eu achei eles debaixo da sua cama, e sabe o que eu fiz? Eu lambi um por um! — Edmundo continuou, absorto demais em descontar os meses de sofrimento para reparar no que a irmã falava.

– Urgh, eu fui infectado por você! — gemeu Eustáquio.

Um espirro de água saiu do quadro e molhou Eustáquio. Isso chamou a atenção dos garotos para fora da briga e Edmundo rapidamente olhou assombrado e esperançoso para o quadro.

– O que é isso aí? — Eustáquio perguntou assustado.

– Lúcia, será que...

– Só pode ser um truque. — Eustáquio disse rapidamente, procurando uma razão lógica para a água que escapava pela moldura. — Pára, senão vou contar pra mamãe! — ele ameaçou, se aproximando da porta. — Mamãe!

Agora a água saía aos jorros e, no auge de seu desespero, Eustáquio correu até o quadro e o arrancou da parede.

– Eu vou pisar nesse quadro mofado!

Esperaram tempo demais por algum sinal de sua volta a Nárnia, e não seria uma simples birra de garoto mimado e tiraria a oportunidade deles. Então, entre "nãos" e "para", Edmundo e Lúcia fizeram o possível para impedir o primo e estragar o quadro. A água jorrava em seus rostos e Eustáquio, vencido pelo cansaço, soltou o quadro no chão, que já estava banhado de água. Poucos segundos depois, e já não sentiam o chão sobre seus pés. Móveis se espalhavam pela água, que subia o nível cada vez mais. Edmundo, Lúcia e Eustáquio nadaram para cima, procurando algum jeito de respirar. De repente, o quarto sumiu e só havia a luz ali no alto.

– Edmundo! — Lúcia gritou, quando emergiram no mar aberto. — Edmundo!

Edmundo emergiu, e Eustáquio veio logo atrás.

– O que está havendo?! — Eustáquio perguntou exasperado, mas antes que algum deles pudesse responder, a sombra de um navio apareceu acima deles.

– Nada, Eustáquio! — ordenou Lúcia, nadando para fora do alcance do barco.

Ouviram o barulho de pessoas se jogando no mar. Alguns segundos depois, Lúcia sentiu alguém segurando-lhe pela cintura.

– Calma! Te peguei. — e ela imediatamente reconheceu a firme e segura de Caspian.

– Caspian!

– Lúcia...! — Caspian se surpreendeu ao ver sua antiga amiga.

– Edmundo, é o Caspian! — ela gritou para o irmão.

Edmundo parou de nadar e olhou para trás. Sua visão estava embaçada por causa da água e sol forte e viu duas pessoas vindo ajudá-los.

– Calma, estão à salvo. — ele ouviu uma voz diferente lhe dizendo. Uma voz fina, quase feminina; e ele se perguntou se não estava ficando louco.

– Estamos em Nárnia? — perguntou.

– Estão em Nárnia. — uma segunda voz lhe respondeu e ele soube que não estava louco.

Eustáquio, diferente dos primos, nadava na direção contrária, gritando histericamente.

– Eu não quero ir! Eu vou voltar pra Inglaterra! Eu vou voltar pra Inglaterra!

Lúcia e Caspian já estavam em uma tábua suspendida com cordas, prontos para embarcarem.

– Segura.

Pouco depois, veio Edmundo junto com um garoto de cabelos cumpridos e presos em um coque alto, que dava um ar bastante feminino ao rosto já fino e limpo. Não reparou nas vestes dele, pois logo foram puxados para dentro do barco, mas Edmundo não tirou da cabeça que aquele talvez fosse o que lhe parecia ter uma voz fina.

– Foi emocionante! — dizia Lúcia, já sendo coberta por uma toalha.

– Como foi que vieram parar aqui? — perguntou Caspian, entregando toalhas para os recém-chegados.

– Eu não faço ideia. — respondeu Lúcia.

– Caspian! — disse Edmundo.

– É um prazer ver você! — disse Caspian, puxando Edmundo e Lúcia para perto das escadas que levavam ao leme.

– Você não chamou a gente? — perguntou Lúcia.

– Não. Não dessa vez.

– Seja qual for o caso, é um prazer estar aqui. — disse Edmundo.

Caspian!– ouviram uma voz atrás de si e se viraram.

Era o mesmo garoto estranho que Edmundo vira.

– Não é melhor mandá-los trocar as roupas antes que fiquem resfriados?! — perguntou e Edmundo estava quase se dando o diagnóstico de loucura quando pensou ter ouvido sinos delicados na voz.

– Tem razão, obrigado! — Caspian agradeceu.

– Quem é você? — perguntou Lúcia delicadamente. — Nunca vi você em Nárnia.

O "garoto" sorriu e Edmundo viu um lindo sorriso e segurou a vontade de se lançar novamente ao mar. Estou ficando louco, acho que tem muita água no meu cérebro, pensou.

Caspian se aproximou do "garoto" e o abraçou pelos ombros. Edmundo finalmente olhou para o corpo dele. As calças e a camisa pretas estavam molhadas e delineavam curvas demais para um garoto, deixando Edmundo desconfortável em si.

– Lúcia, Edmundo. — Caspian disse sorridente. — Essa é Selena, minha prima.

Edmundo percebeu então, o que tanto o incomodava. O porque do tanto de curvas, na voz afeminada e do cabelo longo preso em coques em um garoto. Porque não era um garoto. Era uma garota.

Notas finais
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