Inesperado
1 Imperdoável
Notas iniciais
Só algumas palavrinhas nos fariam imensuravelmente felizes, sim? :3
Obrigada e boa leitura!
Os olhos atentos, o sorriso falso, os lábios vermelhos, o vestido apertado, a máscara perfeita. Era minha arma, minha proteção, minha religião. Era tudo em que eu acreditava, tudo que eu almejava, tudo que me fortalecia. No meio dos homens engravatados, o salão chique com cheiro de tabaco e bebida era meu lugar, era a minha vocação. Eu era paga para estar naquele cassino. Ser acessível e intocável. A sorte e o azar. O bom dia e o boa noite. Eu e aquele lugar representávamos os extremos. O ápice do bom e o clímax do mau.
Todas as noites milhares de pessoas passavam por ali. De todas as cores, ínguas e lugares. Para todos os tipos de religião. Aquilo ali era a pura perdição.
Era só mais uma noite, de milhares que eu já havia presenciado. Mas algo me chamou a atenção. Num sofá afastado, três homens sorriam galantes e tentavam se mostrar para as demais atendentes, como eu. No colo de um deles, uma guitarra. Mas não era qualquer guitarra. Não que fosse um dos modelos mais caros, mas... parecia tanto com a que me pertencia. Não se viam mais modelos como aquele. O formato, a cor, e o som de uma corda em que me transportaram para lembranças que já não pareciam fazer parte de mim.
No aeroporto, há muito tempo atrás, meu coração batia tão forte que eu podia sentir o sangue correr por minhas veias mais forte que a correnteza de um tsunami. Na minha cabeça eu praguejava contra todas as entidades que conhecia graças às centenas de pessoas pareciam ter escolhido aquela data para viajar. No meio de minha ansiedade que mal ligava para a dor que tomava os músculos de meu ombro direito por carregar a guitarra carmim que parecia pesar uma tonelada.
Meus óculos estavam tortos e embaçados, equilibrados debilmente na ponta de meu nariz, eu estava ofegante e desesperada como nunca antes, meu cabelos antes perfeitamente arrumados agora já tinham vários fios desprendidos, me deixando provavelmente com o coque antes alto agora na altura da nuca. E eu já não tinha mais tanta certeza se conseguiria alcançar Klaus.
Meu coração bateu mais forte assim que ouviu a voz impecável e macia, distorcida eletronicamente de alguma aeromoça que anunciava as últimas chamadas para Bremen. Aquele era o momento mais tenso de minha vida e se não conseguisse alcançá-lo a tempo, provavelmente morreria.
Eu já soluçava, tentando manter um fiapo de esperança que me levou a apertar o passo e me tornar menos delicada ao me esgueirar entre as centenas de corpos enfileiradas.
Esbarrando em pelo menos umas cinquenta pessoas, consegui chegar a plataforma certa, quase não me aguentando de felicidade. Entre as várias pessoas sisudas na fila, eu buscava ele. O único meu.
E como por um milagre, eu vi.
No começo da fila estava ele, tão impecável quanto a três dias atrás, quando tinha dado aquela terrível notícia à minha família e sido expulsa da forma mais clichê por meu pai, em fúria pela traição. Mas nada mais importava. Não agora.
Eu empurrei a guitarra de qualquer jeito para de trás das costas e agarrei Klaus o apertando contra meu corpo enquanto as lágrimas escorriam. E o nó que dificultava minha respiração se desfez só por sentir o cheiro dele. Simples assim.
Eu sabia que estava suando, descabelada e desesperada, mas ele não era tão superficial, ele me amava do mesmo jeito que eu o amava, e não existia nada mais certo que nós dois juntos, esbocei um sorriso, a mente se enchendo de lembranças viçosas que se repetiriam milhares de vezes enquanto permanecêssemos juntos.
De repente, como um raio anunciando uma chuva de verão num dia ensolarado, cabisbaixo, o loiro me empurrou brutalmente e virou de costas.
E minha mente ficou limpa.
Os sonhos foram brutalmente cortados antes de se tornarem realidade e eu senti meu coração falhar uma batida. Céus, o que aconteceu com você, Klaus?
Eu estava ali. Ele estava ali. Seu amado instrumento estava ali. Nós fugiríamos juntos para Bremen. Então porque você me mostrava essa face raivosa, parecendo aborrecido como nunca antes?
– Saia daqui... — A voz rouca e melodiosa sussurrou as palavras com acidez. Eu tinha ouvido perfeitamente bem, mas pensava que minha mente estava a me pregar peças. Por que diabos ele diria uma coisa daquelas?
– O que disse, querido? — Abri um sorriso forçado e fiz minha melhor expressão de confusa. Não. Não. Não, aquilo não era...
– Saia daqui agora Sabine. — Repetiu agora em voz alta.
– Não, K-Klaus, o que aconteceu? Não se preocupe, eu sei que tudo que disse à meus pais era mentira. Um plano para que possamos fugir e viver juntos. Eu sempre soube que não era um adeus e aceito a sua decisão de fugir, amor. Por mais que as pessoas achem que o mais sensato seria esperar a minha maioridade, eu sei que você quer ficar comigo antes, pois eu também desejo o mesmo, amor. — Eu já estava mais calma, na minha cabeça, eu sabia que as perguntas infundadas eram ridículas, mas ainda sentia o frio na barriga, mas agora era mais suave, só me restava a emoção de estar fazendo algo ilícito por amor.
Mas o homem à minha frente não parecia pensar do mesmo jeito.
Com um sorriso maldoso em sua face, ele me agarrou o pulso e aproximou nossos rostos. O hálito mentolado de seu cigarro não parecia mais ter um sabor tão bom assim. Na verdade, me deixava com medo. Eu estava muito assustada e o cheiro de tabaco, somado ao medo de Klaus estar agindo de forma tão diferente da habitual, me fizeram fraquejar, embrulhando meu estômago. Ah, que Deus me ajude...
– Tá vendo aquela ruiva falando com a aeromoça? Ela está grávida de quatro meses e nós estamos noivos há dois anos. Vê aquilo? Aquilo é a minha família de verdade, e você nunca vai ser metade do que ela é. Você é só uma tola que me quis uma vez, mas eu entendo, você não pôde resistir. — Ele se aproximou mais, apertando meu pulso com tanta força que eu não sabia sechorava mais pela dor física ou pela que cortava meu coração, me fazendo engasgar. — Pode ficar com a guitarra. Pra onde eu vou, eu posso ter dezenas, mais caras e melhores do que essa.
Ah, meu amor, quando foi que você mudou assim? A culpa foi minha?
– Eu ainda não acredito que você realmente achou que eu lhe amava, mas tudo bem, você me deu mais do que eu podia sonhar em ganhar. De graça. Eu só tinha que te beijar e fingir que gostava de você pra que aquele velho gordo do seu pai gravasse meu álbum.
Meus olhos que há muito escorriam, deixavam transbordar tudo aquilo que meu coração parecia não saber conter. Silenciosamente, minhas dores escorriam. Os soluços morriam antes mesmo de chegar à minha garganta e minhas pernas ameaçavam ceder. Céus, o que eu deveria fazer numa situação dessas?
Mais forte que qualquer dor física, aquele incômodo que corroía meu ser de dentro pra fora e parecia que me faria ia morrer de dor. Meu coração sangrava e parecia que iria explodir dentro do peito. Eu queria acreditar que não era verdade, mas nunca seus olhos pareceram tão expostos a mim. Tão verdadeiros. Tão cruéis.
Ele se afastou e sumiu na multidão. Eu não conseguia me mover, os momentos que passamos juntos corriam para fora de meu coração junto com minhas lágrimas. Cada sentimento, cada sonho e cada alegria que eu pensava ter foram arrancados de dentro de mim, junto com meu coração, que não batia mais em compasso com o meu igual. E eu só pude girar os calcanhares e correr.
Aquilo era sim era uma despedida banhada em lágrimas.
Lembro-me que depois de voltar para casa, não chorei mais. Eu me afogara profundamente naquela letargia estuporante com tal vontade que fora necessária a morte daquela 'Sabine', antes que eu pudesse me reerguer novamente.
Mais forte que o gosto da bebida cara que era obrigada a tomar, as memórias me faziam, mesmo depois de tanto tempo, sentir um gosto amargo, e junto com ele, meu peito apertado, mas não de raiva. Nunca de raiva. Somente saudades. Saudades de quando a menor de minhas preocupações eram garotos mimados que achavam que podiam tudo.
Já se fora meu tempo de chorar por amortes não correspondidos.
Passei os braços delicadamente envolta do senhor robusto a meu lado, soprando um "seis" meio rouco em seu ouvindo, ouvindo-o engolir seco e apressar-se para apostar.
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