Indômitos
6 Lembre-se de mim
Notas iniciais
Esperei por cinco minutos e comecei a arrumar o pano branco que envolvia meu pescoço e a acomodá-lo em minha cabeça, para que cobrisse todo meu cabelo, jogando o segundo tecido por cima.
Olhei minhas vestes. O hábito de coro estava alinhado em meu corpo. Minhas roupas já estavam guardadas em minha discreta bolsa de lado. A missa estava em seus últimos dez minutos. E eu... Bem, eu estava sendo minada por uma raiva inata aos Kudrow.
Sem ter mais tempo para perder, pulei a janela e corri pelas sombras até a garagem.
Empurrei pausadamente o portão de madeira e acendi uma fraca lâmpada que ficava postada ao seu lado. A garagem tinha uma altura mediana, com suporte para dois carros, mas tudo que havia era uma caminhonete amarela desbotada ano 62. As paredes continham três sequências de prateleiras empoeiradas e abarrotadas de objetos inutilizados. Em seu final, achei o que me carecia, pegando também uma corda de pequena espessura, mas aparentemente resistente, a qual julgava possuir sete metros em média, e coloquei-a em minha bolsa.
Voltei para a parede lateral dos dormitórios, a qual estava imersa nas sombras e, prendendo meus equipamentos nas costas, comecei a escalar as enormes paredes, pulando a cada janela e me apoiando na madeira detalhada que lhes cercava. Assim, logo cheguei ao terceiro andar.
Forçando meu peso contra o parapeito da janela, ergui-me e pulei para dentro do quarto.
Sem poder perder tempo, sai rapidamente do quarto e deparei com um corredor semelhante com o do primeiro andar, com a diferença de possuir quadros santos mais exuberantes postados ao longo das paredes.
Como previsto, o corredor se encontrava deserto, mas o timbre das vozes soando ao longe já chegavam-me aos ouvidos enquanto eu seguia em direção ao quarto com o número 36 dourado em sua fachada. Sem hesitar, entrei.
Os móveis eram comuns, com imagens santificadas espalhadas por toda superfície, um guarda-roupas reservado ao canto próximo à janela, cortinas brancas e uma cama de casal com lençóis claros e, tão comum era, uma cruz simples de madeira permanecia na parede atrás da cama. Continuei parada, observando a complexidade do simples. O abrigo da crueldade que só poderia ser combatida no mesmo nível.
Era difícil, mas eu compreendia. Compreendia que confiança não morava na aparência, ou na posição em uma hierarquia hipócrita. A confiança, ali, estava tão bem escondida, que a esperança fugia de tantos corações para apenas ir à sua procura. Esperança e confiança perdidas por ações alheias.
Isto era algo o qual eu não conseguia suportar. O abuso de iguais. A destruição que um crê poder causar sobre o outro, seguindo leis meramente inventadas por si e para si.
Não! Esta era a minha reposta para o que acorria. E assim fui repetindo-a enquanto, sobre o chão, largava o galão de gasolina e nas sombras esperava, resoluta, o maldito padre.
[...]
O padre Toledo havia rezado a missa daquela noite. A cada pessoa a qual entregava a mão para ser beijada, via o respeito depositado em si.
Era característico. Sua pele era levemente enrugada, os olhos marcados devido a idade, mãos leves quando tocada na cabeça de um fiel, desesperado por ajuda. Seu sorriso transbordava paciência... Uma paciência múltipla.
Seu sorriso era permanente. Era amigável. Assombroso se analisado de perto.
A imagem da Igreja nas cidades era acolhedora, morna e, por mais que a corrupção houvesse invadido tantas almas, a paz ali era harmoniosa. Por mais espantoso que pareça, a humanidade continha a necessidade da paz, e fora ali, outro lugar envolto por mentiras humanas, que ela encontrou abrigo.
O padre. Bem... Seguiu seu caminho para os dormitórios.
Em seu trajeto, passou pela porta de sua recente aquisição. A Irmã Dilly. Garota jovem, largada por uma família pobre.
Ah, jovens. Eram as melhores. As quais encararam o sofrimento face a face. Eram as conformadas. O padre sempre dialogava sobre o vigor e o amor jovem, uma de suas paixões.
Apenas encarou a porta levemente, mas não adentrou. Quão errado ele não estava naquela noite.
Pe. Toledo era, como outros, o responsável pelos ensinamentos das freiras recém chegadas. Não eram muitas, em média cinco ao ano, mas o suficiente para a fuga de sua castidade.
Subiu lentamente as escadas, suspirando. A missa fora tranquila, mas a semana estressante. A Igreja vinha sendo cercada por várias questões burocráticas devido a morte de um homem poderoso na economia da cidade. Diziam ter sido assassinado, mas ninguém realmente acreditava. O homem possuía forte vínculo com os negócios da Igreja, a qual era o ponto econômico do qual surgiam as ramificações com as outras cidades. O homem era o chefe da família Kudrow e, pelos boatos, deixara uma mulher no controle de seus bens. Veja só! Uma mulher! E não foi a sua devida esposa, a qual era uma coitada, insana, incapaz de cuidar dos próprios filhos... Mas tudo para sua filha, a qual nem era a primogênita. Um disparate! Mas ele próprio se propôs a contatar a garota. Daria um jeito naquela situação, porém não com suas mãos, com 47 anos, sentia-se cansado de crianças malcriadas.
Chegando ao seu quarto adentrou o cômodo com tranqüilidade. Fechou a porta e acendeu a luz. Caminhou em direção a sua cama, desejando apenas descansar, o dia seguinte seria tão longo quanto o que havia tido.
Foi quando ouviu uma voz por suas costas:
– Padre Toledo? – sussurrou uma voz com timbre suave.
O padre virou-se e encarou o rosto de uma jovem freira. Tinha o rosto rústico, com traços severos, mas olhos vivos e profundos, como se chamas ardessem em suas órbitas. Era alta para uma mulher, porém nada nela combinava com a roupa com a qual usava. Havia uma força em sua expressão a qual fugia a paz espiritual. Definitivamente, nunca havia visto aquela mulher.
Toledo, inconscientemente, deu um passo para trás.
– Sim, minha filha. Com que intenção habita meu quarto neste horário? – perguntou encarando-a.
– Desculpe meu atrevimento, Padre, mas cheguei ao convento esta tarde, sou do convento de Tyler – dizia calmamente, com a voz neutra e as mãos atrás de suas costas – Preciso de seu auxílio, Padre. Estou perdida e a procura de verdades.
– Verdades? – o padre estava confuso e seu instinto dizia para que saísse do quarto, mas a jovem ocupava a saída. Não queria parecer grosseiro, porém tudo lhe soava estranho. Jovens lhe atraíam, aquela lhe repelia.
– Sim, Padre – deu dois passos para frente, encurralando o homem – Tenho uma irmã, Padre, e ela está neste convento há tão pouco tempo que me assusto com sua tristeza crescente. Talvez o senhor a conheça...
– Sim... É possível... Mas podemos falar sobre ela amanhã, durante o dia. Não é adequado uma jovem ficar no quarto de um padre a esta hora – disse temeroso, aquele situação não lhe agradava.
– Inadequado!
Pela primeira vez, sua voz soou estridente, raivosa, fazendo com que o padre se assustasse. Aproximou-se mais do homem, ficando cara a cara.
– Senhorita, saia do meu quarto imediatamente e prometo não reportar a Tyler seu comportamento impróprio.
– Seu velho desprezível!
Neste momento Toledo tentou empurra-lhe para longe, mas a jovem Moran foi mais rápida, segurando seu braço direito em defesa, enquanto com o esquerdo colocava sua adaga na garganta do padre.
– O que pensa...
– Silêncio! – exigiu estridente – Confesse, Padre. Confesse! E sua morte não será injusta.
– Eu não tenho o que... – Moran apertou mais a lâmina em sua garganta, causando um pequeno corte e aprofundando-o aos poucos.
– Confesse...
Para surpresa de Moran, Toledo riu.
– Você irá para o inferno! Assim como todas as raparigas as quais passam por meu quarto – continuou rindo insanamente.
– Como seria possível... Um homem tão insano quanto minha família, a qual foi julgada por você... O mundo estará mais nobre com sua morte.
O padre arregalou seus olhos ao identificar a mulher a sua frente.
– A jovem Kudrow... – encarou-a severamente desta vez, enfim, seu trabalho viera até seu ninho, armada, mas viera – Uma assassina, como o esperado de sua família.
Moran riu acidamente.
– Com tantos largados nestes caminhos, Padre, devo dizer que, pela sua idade, sua imprudência não precisa de um assassino, ela própria o devorará.
Toledo soltou um sorriso desafiador de lado.
– Não antes que devore a sua própria.
Antes que Moran raciocinasse sobre o que havia escutado, Toledo acertou-lhe um soco potente no maxilar, fazendo-a ir ao chão e, ao mesmo tempo em que tentava levantar, chutou-a nas costelas, apoiando o joelho direito em seu peito.
Virou o rosto da jovem e o analisou desgostoso. O sangue descia pelo canto de seus lábios, mas seus olhos ardiam mais do que antes, aquele ódio lhe agradou, porém não era uma vida que se adequava aquele mundo. A jovem Kudrow só traria problemas a humanidade.
– Que desperdício – Toledo lamentou – um rostinho tão belo tentando fazer um trabalho que não lhe pertence. Um rostinho que não sabe seu lugar.
– Vai para o inferno! — cuspiu na face do padre e em resposta Toledo acertou-lhe outro soco, apertando o joelho no tórax da jovem já sem ar.
– Não, minha jovem. Você irá.
Quando o padre ameaçou enforca-lhe, Moran alcançou sua adaga e provocou um corte mais profundo na garganta do homem sobre si, não o suficiente para que morresse imediatamente, mas o necessário para que agonizasse sem poder gritar, logo o chutando para que saísse de cima de si.
– Kudrow... – disse o padre em um sussurro horrorizado, enquanto agarrava, desesperado, sua garganta.
Moran arrastou o corpo agonizante para a cama e pegou o galão de gasolina, espalhando ao redor do padre e pela entrada do quarto. Apagou a luz e seguiu para a janela. Do bolso de sua mochila tirou o antigo isqueiro prateado de seu pai e ligou-o.
– Lembre-se de mim no inferno – jogou o isqueiro no chão e assistiu por mais uns instantes seu trabalho. Esperou, mas o remorso não veio. Apenas sentia-se confortada. Passou a mão sobre sua boca, o gosto de sangue veemente, mas nada importava.
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