Enchantés de vous connaitre, monsieur Marquês.”

Mon plaisir, senhorita Rossignol. Por favor, me chame de Vitorio.”

“Como desejar, monsieur Vitorio! Sendo assim, chame-me Tina. É um apelido pelo qual sou conhecida em Moulineaux, ouvirá muitas vezes.”

“Perfeito, srta. Tina.” — afirmou — “Esteve em silêncio durante quase todo o percurso, permite-me perguntar o motivo de tamanho suspense?”

“Oh, pardon. Estava pensando na melhor maneira de prepará-lo para o que virá a seguir…”

“O que virá a seguir?”

“Refiro-me à mademoiselle Noelle. A duquesa pode ser um tanto quanto… Intempestiva à primeira vista. Devo desculpar-me desde já por qualquer reação adversa, contudo creio que o baile organizado para esta noite torne o humor de mon mademoiselle ameno.”

Ho sentito antes de vir até aqui, mesmo antes de assinar o contrato, mas como poderia me basear em boatos pouco confiáveis? A esta hora estaria esperando um mulher tão respeitável quanto as margens de um córrego, não uma duquesa. Confio que suas palavras serão de muita ajuda, srta. Tina”. — concluiu — “Quer dizer que a duquesa de Moulineaux está planejando uma festa esta noite? Qual a ocasião?”

“Espero que tenha trazido trajes de gala, monsieur. Mon mademoiselle ama bailes com boa música!”

Assim se iniciou uma conversa breve onde a dama de companhia de Noelle Lauzier, a duquesa de Moulineaux, detalhou tanto quanto era capaz de se lembrar do comportamento de sua ama para o potencial futuro marido, pelo menos, assim gostavam de pensar a moça e o próprio rei da França.

A carruagem sacolejava em níveis imprevisíveis à medida que avançavam pelo caminho até o palacete onde o aguardado encontro estava marcado. Era outono e as folhas secas se distribuíam pelo chão como grãos de arroz em meio a chuva sobre recém-casados. Ambos cenários tão românticos que faziam o coração da pequena Tina se aquecer.

Tinha expectativas sobre o encontro de sua senhora com o moço bem apessoado que levava a eu presença, o Marquês de Cesenà, uma região abastada na Sicília que em muito combinava ao charme italiano do rapaz.

Vitor Lattiere, quase em seus trinta anos, ainda possuía uma aura jovial e a gentileza que poucos cavalheiros sabiam praticar. Um princípe preso no título de marquês.

Conforme o veículo se afastava das árvores com copas altíssimas da floresta e se aproximava de seu destino, as estradas de pedra surgiam junto a uma vista de propriedades das mais distintas. Haviam laranjeiras por entorno das estradas e ao horizonte infindáveis plantações prontas para a colheita.

A cidade tomava forma com grandes faixas e luzes se entrelaçando, as crianças corriam por todos os lados segurando fitas coloridas enquanto os adultos ponderavam se deveriam seguir com os arranjos ou ir atrás dos materiais levados por elas.

Tina havia se empolgado em seu discurso enquanto os olhos do rapaz se perdiam na paisagem que em alguns momentos o faziam recordar de sua própria casa, contudo não demorou muito para que finalmente estacionassem na propriedade de Noelle Lauzier.

Apesar da estação, o jardim da mansão da duquesa se mantinha quase como magicamente em tons de verde vibrantes, as flores desabrochando como em plena primavera adornavam estrategicamente todo o viridário que a certa altura se perdia de vista. Era possível enxergar ao longe alguns animais, ouvir o som dos gansos e o trotar de cavalos.

Definitivamente o casamento não era por dinheiro, considerou o recém-chegado. Identificar a acomodação como palacete era apenas um elogio simbólico, as dimensões facilmente se aproximavam a de qualquer castelo de dinastias menores. Os tons de cinza e azul marinho cobriam as paredes e não havia sequer um ornamento em maneira que não estivesse tingido para completar o quadro. Dezenas de janelas consideravelmente grandes se estendiam desde o nível mais baixo até o último andar da casa evidenciando muitos quartos disponíveis.

Era possível assistir através dos vidros mais baixos os criados circulando pelos corredores e pela cozinha, as panelas fumegantes e a fartura de pães e tortas que se produziam em massa naquele momento. Os servos pareciam estar a todo vapor para organizar e cuidar dos detalhes do evento sediado na mansão aquela noite.

O lacaio se apressou em abrir a carruagem enquanto o mordomo da casa estava pronto em oferecer ajuda à Clementine em sua descida. Ao seu comando outros criados silenciosos retiraram toda a bagagem e a posicionaram aguardando por maiores ordens enquanto o marquês firmava os pés no chão.

Benvenuto, monsieur Marquês de Cesenà” — o mordomo o saudou arriscando recepcioná-lo em sua língua materna. — “Chamo-me Gifford, será um prazer atendê-lo durante sua estadia na mansão.”

Grazie, Gifford. Por favor, não sejamos tão formais. Vitorio é suficiente.”

“Esperamos com grande expectativa sua chegada, há um quarto preparado para recebê-lo assim que estiver pronto para conhecê-lo.” — com um pequeno sinal, os outros funcionários presentes — com exceção da dama de companhia da duquesa — se retiraram para que os pertences do visitante fossem deixados em seus novos aposentos.

“Estou ansioso por isso.”

Antes que Vitorio pudesse dar o primeiro passo rumo ao tour com o mordomo, Clementine tocou delicadamente seu ombro para impedi-lo.

Pardon, meus prezados cavalheiros. Confio plenamente nas habilidades de guia de meu colega, do qual senti muitíssima falta nessas horas em que não pude desfrutar de sua presença” — comentou divertida, arrancando um breve sorriso do senhor de quase sessenta anos de idade — “Contudo, acredito que há algo mais urgente, certo, Gifford?”

O criado olhou para os lados evidenciando um breve desconforto, mas logo retomou sua postura impecável.

“Querida Tina, temo que a duquesa ainda não esteja pronta para receber monsieur Vitorio.”

Por dentro, os olhos da mulher se reviraram até que não fosse mais capaz de enxergar nada além de suas próprias cavidades oculares, externamente um sorriso compreensivo se apossou dos lábios finos da senhorita que rapidamente os dispensou.

“Certo, vou encontrá-la e me certificar de que tudo se acerte. Sabe como são os homens, Gifford certamente fez um trabalho exemplar ao preparar seus aposentos, monsieur, porém não estou tão certa quanto a suas qualidades como dama de companhia” — todos riram brevemente do comentário — “Desfrute do passeio, espero que estejamos à altura de suas expectativas. Os vejo novamente no chá da tarde.”

Afastando-se de forma sutil, curvou-se antes de deixá-los.

Messieurs.

E assim, os homens seguiram rumo ao interior do palacete.

O mordomo, assim como todos os outros servos com quem tivera contato, era polido e dotado de uma gentileza poucas vezes vista pelo rapaz.

Em sua mente não era capaz de montar um quadro de como seria a duquesa de Moulineaux, todos os rumores que ouvira acerca dela eram, no mínimo, assustadores. Não para ele, claro, mas para qualquer um que se permitisse levar por eles.

Antes de sua viagem até a cidade recebeu os mais diversos avisos e conselhos, pessoas que diziam o quão má Noelle poderia ser, que sua frieza e crueldade eram tamanhos que nenhum dos homens mandados pelo rei foram capazes de suportar e arriscar um casamento. Haviam boatos de que a sua riqueza vinha de casamentos secretos com outros cavalheiros da nobreza aos quais ela teria matado com as próprias mãos, alguns inclusive diziam que era uma bruxa.

Apesar de tantas suposições horríveis a cercando, conhecendo a mansão não encontrou nenhum sinal entre os serventes de que vivessem sob o comando de alguém tão bárbaro. Todos pareciam bem satisfeitos e até felizes em seu trabalho, não fora capaz de ouvir nenhum sussurro maldoso sobre a senhora em nenhum dos cantos.

Por falar em empregados, era impossível contá-los. Centenas deles se distribuíam pelos cômodos, organizando a mobília, zelando pela limpeza, cozinhando, polindo a prataria e mais outras funções que Vitorio sequer poderia imaginar. Não podia se lembrar da última vez que havia visto tantos criados na casa de uma duquesa, se é que alguma vez já presenciara algo tão grandioso.

Sem dúvidas essa era a forma mais simples de tentar explicar o quão abastada era a proprietária, o interior do casarão era, no mínimo, de tirar o fôlego.

À medida que os tons frios no exterior da casa sugeriam um meio gélido e sem vida, por dentro as paredes eram de um tom cinza quente, claramente puxado para um bege. O chão seguia a linha escura, porém grandes tapetes persas se estendiam por todas as partes, trazendo a vibratilidade dos tons vermelho, amarelo, azul, uma explosão de cores contrastando com a estrutura e, ao mesmo tempo, casando perfeitamente com as pinturas que cobriam quase todas as paredes.

Os adornos em dourado não apenas possuíam a cor, mas eram feitos do mais puro ouro. Uma escadaria enorme se erguia no meio da sala de estar, bem em frente à porta de entrada, e se dividia em outras três, levando os convidados as outras seções da casa que ele mesmo acreditava que levaria algumas semanas ou meses para conhecer todas. A grande lareira lateral aquecia todo o ambiente e seu calor se alastrava para além das escadas, atingindo até mesmo a região coberta por ela.

Tamanha grandiosidade trazia questionamentos à mente do rapaz, é verdade. Afinal, por que o rei tanto se interessaria em casar uma duquesa que claramente não necessitava de dinheiro para manter seu título ou sua posição na sociedade?

Era impossível negar que não havia ouvido metade das palavras de Gifford enquanto o apresentava os cômodos mais importantes, entretanto assim que pararam frente a uma grande porta branco-pérola completamente esculpida em madeira em meio a um enorme e largo corredor repleto de outras idênticas a esta seus ouvidos se voltaram à voz do mordomo.

“E este, monsieur Vitorio, é o seu quarto. Neste corredor ficam os aposentos destinados à família e hóspedes pessoais da duquesa e, como não são muito utilizados, tomei a liberdade de prepará-lo para que se sentisse um pouco mais perto de casa. Consultamos alguns viajantes e decoramos de acordo com aquilo que ouvimos que soaria mais como lar para o senhor.” — esclareceu, recebendo um agradecimento do marquês antes de prosseguir — “Agora vou deixá-lo conhecer por conta própria, fique à vontade. Estamos próximos da hora do chá com a duquesa, aconselharia um bom descanso visto a longa viagem até aqui. Existem toalhas preparadas, caso deseje tomar um banho, por favor, não hesite em avisar. As criadas logo aparecerão com água quente e ervas.”

Vitorio acenou com a cabeça e colocou a mão sobre a maçaneta.

“Certo, Grifford. Por ora estou bem, agradeço pelo tempo. Só me avise quando chegar a hora do chá, não quero me atrasar.”

Acenando brevemente com a cabeça, o mordomo desceu a escadaria que ficava imediatamente à frente dos aposentos do marquês. Assim que se viu só, o rapaz abriu a porta e observou admirado o que havia sido preparado.

Diferente de todos os tons de cinza observados pela mansão, aquele cômodo tinha tons de bege, marrom e vermelho. As paredes se mesclavam entre o branco tímido e os tons de areia tão comuns em seu lar. Os móveis de madeira maciça foram lustrados e até podia enxergar seu próprio reflexo. Espelhos, alguns quadros de sua terra natal e cortinas exuberantes vermelhas enfeitavam as paredes e haviam tapetes macios e monocromáticos em tons de marfim pelo chão.

A janela — assim como todos os itens de mobília — parecia um pouco grande demais, e através dela podia ver todo o ducado desde os jardins da propriedade até as fazendas mais distantes. Os lençóis de linho se sobrepunham delicadamente e a cama estava repleta de travesseiros.

Definitivamente era extravagante, mais do que estava realmente acostumado, todavia não podia dizer que o conjunto da obra não lembrava seu lar em Cesenà, onde havia deixado sua família.

O cansaço pela viagem pesou em suas costas de uma só vez assim que fechou a porta atrás de si, não tinha notado a própria exaustão até aquele momento e, aproveitando a folga até o tão esperado momento de conhecer sua potencial futura esposa, deitou-se sobre a infinidade de fios e penas de ganso e adormeceu.

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Do outro lado da propriedade, ou melhor, por todos os lados era possível ouvir os pequenos saltos dos sapatos de Clementine se chocarem contra o chão, fosse o de madeira ou mesmo a grama verde dos jardins.

Por todos os lados buscava incessantemente a duquesa de Moulineaux que, como sempre, tinha arranjado uma forma de retardar o primeiro encontro com o pretendente escolhido pelo rei.

Lá pelas tantas, após muita caminhada e perguntas aos serviçais, aproximou-se da adega da mansão e ali avistou sua senhora.

“Por onde esteve?!”

A mulher se virou delicadamente ao responder, segurando uma tacinha contendo algum líquido avermelhado.

“Ora, onde estão seus modos, Tina? Onde foi parar o seu característico ‘bonjour, mon mademoiselle’? Sequer me cumprimentou hoje, passou todo o dia fora.”

“Elle, sabemos o porquê disso. Passei o dia fora porque fui buscar o rapaz que o rei enviou, e você está se escondendo como sempre tenta fazer e sabe que nunca funciona.”

“Que calúnia! Não estou me escondendo, não tenho nada a temer.”

“Você sequer bebe, Elle. Está fazendo o que na adega à essa hora?”

“Você tem razão, Clementine. Eu não bebo, mas os meus convidados sim. Gosto de garantir que apenas o melhor seja servido a eles.” — seu tom ácido ecoou entre as paredes antes que ela se virasse e sorrisse gentilmente a criada que separava as bebidas — “Merci, Arianne. Mais tarde continue a seleção com Gifford, por ora está dispensada. Aproveite o chá, sairá em breve.”

A empregada sorriu e fez uma breve reverência antes de se retirar, levando consigo a pequena taça que a duquesa havia lhe devolvido para retornar a cozinha.

“Por que não torna as coisas mais fáceis pra si mesma, Elle?”

A expressão no rosto da mulher se torceu levemente antes de responder.

“Porque não poderiam ter escolhido um dia pior para começar essa cena novamente. Estou tentando manter o meu bom humor para o baile desta noite, algo que não vou permitir que estraguem com toda essa história.”

“Você sabe que o rei é irredutível e de qualquer forma terá que conviver com o rapaz durante os próximos meses, vamos lá. Dê uma chance, ele é um nobre italiano, Vitorio Lattiere, muito bonito por acaso. E principalmente: o homem não tem culpa de nada nessa situação. Se há um culpado é o rei e eu duvido que ouse puni-lo.”

“Tenho meus métodos” — deu de ombros antes de suspirar — “Tina, por favor, pare de fantasiar histórias de amor. Não é assim que elas começam e, o mais importante, eu não quero me casar.”

“Certo, Elle. Certo, porém estão nos esperando para o chá da tarde. Seu possível futuro marido e Gifford. Podemos?”

A dama de companhia lhe ofereceu o braço e, relutante, a mulher o aceitou.

Mais uma vez recomeçaria essa história, Noelle já não conseguia mais dizer com exatidão quantos homens se abrigaram por esse motivo em sua casa e estava cansada de ter que lidar com as expectativas irreais do rei e de sua criada e amiga Tina, que tanto fantasiava.

Antes de adentrarem a sala do chá sua dama fez questão de fazer uma pausa dramática para alinhar seus vestidos e o cabelo, era impossível lutar contra a jovem quando se tratava de protocolos que, na visão da ama, eram completamente dispensáveis.

Assim que as portas da sala se abriram os olhos de Noelle varreram rapidamente os rostos presentes até encontrar o único que não lhe era familiar.

Os traços nitidamente italianos não negavam as origens do rapaz, os olhos profundos e os lábios proeminentes, juntos ao cabelo escuro formavam o que muitas mulheres achavam o ápice da atração, mas que para ela não significava nada além de mais um hóspede indesejado.

O nobre a observou de forma rápida, indiscutivelmente surpreso com a aparência da mulher à sua frente. Da maneira que diziam as más línguas, esperava encontrar uma mulher de mais idade, pouco vaidosa. Na verdade a jovem a sua frente, apesar da expressão fechada, possuía um rosto delicado, pele bem cuidada e estava impecavelmente bem alinhada.

O marquês se colocou de pé e deu um passo em direção à mulher para que, simultaneamente, se reverenciassem.

Enchantée, duquesa, eu sou…”

“Vitorio Lattiere, sim. Creio que saiba meu nome, porém para sanar quaisquer dúvidas sou Noelle Lauzier. Bom, pelos próximos meses estaremos convivendo e para tornar mais rápido o passar do tempo o palacete possui uma sala de música e de artes, que estão livres todos os dias excetos pelas terças-feiras de manhã. Há um lago, uma adega, cavalos e todo tipo de entretenimento que desejar, Gifford já deve ter apresentado seu quarto e explicado que tem livre acesso aos cômodos de interação e área comum.” — sua voz soava nitidamente entediada enquanto o rosto de Tina se enrubescia à medida que o constrangimento tomava conta da sala e a duquesa se encaminhava para a saída — “Bom, sinto informar que não poderei ficar para o chá. Devo me aprontar para a festa esta noite a qual provavelmente já foi informado, espero encontrá-lo melhor trajado.”

Imediatamente ao finalizar a frase a duquesa deu as costas ao seu convidado e avançou para as escadas, sendo acompanhada da dama de companhia que, constrangida, sibilava um pedido de desculpas entre os passos apressados e vacilantes.

Antes de sumir completamente do campo de visão do homem ainda em pé que tentava lidar com a apresentação pouco hospitaleira, a voz de Noelle ecoou pela última vez por entre os cômodos.

Bon appétit.

Notas finais
Bonjour, caros leitores!

Bom, gostaria fazer alguns poucos avisos sobre a história.

Primeiramente espero que tenham gostado e que a cada capítulo sejam conquistados por estes textos que tenho amado escrever depois de um longo hiato de quase seis anos sem produzir nada. Não tenho a intenção de fazer de Indômita uma história com muitos capítulos - estes que serão postados uma vez por semana.

Espero levar com leveza o desenvolvimento e trazer o melhor possível para você aí do outro lado da tela. Agradeço a atenção até aqui e não esqueça de deixar um comentário com a sua opinião (ou apontando alguma falha que deixei passar, serei eternamente grata!).

Au revoir!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.