Indomável

3 O jogo iniciou


O dia passou sem mais emoções. Eu havia ganhado a sexta e o final de semana para me preparar para o curso que se iniciaria na outra semana. Ele havia ido ao trabalho, então eu não precisaria fazer minha cara de nojo toda vez que ele se aproximava. Pelo menos durante o dia eu podia ter paz de espírito.

Quando a noite chegou, eu desliguei a TV com a minha maratona de GoT e fui dormir. Minutos depois, senti que a cama afundava com o peso dele. Ele cheirava a whisky.

O fim de semana seguiu no mesmo modelo. Ele saía de casa cedo e voltava a noite. Sempre sem dizer uma palavra. Sempre cheirando a whisky. Queria dizer para ele as maravilhas que um chuveiro poderia fazer antes de dormir, mas achei melhor ficar calada, controlando meus instintos de hóspede mal agradecida.

Isso ocorreu até a noite de segunda-feira. Eu estava deitada lendo um livro de guerra com direito a muitos tiros, sangues e tripas quando ele chegou e se jogou ao meu lado.

– Eu nunca tive uma ressaca tão infernal.

– E por que eu me importaria? — perguntei sem desviar a atenção do livro.

– Porque a culpa é sua! — ele disse e sorriu pra mim, sorriu de verdade. — Sabe, eu decidi te perdoar. Não quero ser do tipo de cara que guarda mágoas.

Abaixei o livro e o olhei incrédula.

– E desde quando sou eu que tenho que pedir perdão? Desde quando eu pedi perdão?

– Ainda não, mas vai pedir. — ele disse enquanto se dirigia a porta, já tirando a camisa. — E pelo jeito que me abraçou naquela noite, não vai demorar.

Ele começou a rir e eu joguei um travesseiro errando sua cabeça por pouco. Ele revidou e saiu do quarto gargalhando.

Eu comecei a rir, mas parei de repente e bufei. Sério que eu estava brincando com ele? Virei de lado querendo me socar e murmurando algo sobre homens, Marte e garrafas de conhaque.

°

Noite de terça-feira. Hoje eu já briguei, me revoltei com essa droga de curso, chutei o balde, voltei atrás, e agora estou vendo uma porcaria de filme romântico mau dublado (que provavelmente eu já sei o final).

– Juro que se você chorar eu filmo tudo e coloco no YouTube!

Ô inferno, chegou a benção de Deus na minha vida!

Revirei os olhos e fitei a TV. Ele se sentou ao meu lado e pôs os pés sobre as minhas pernas. Tirei minhas pernas dali e me espremi mais ainda no sofá, aumentando consideravelmente a distância entre nós.

– Dia ruim?

– Semana ruim.

– O que aconteceu?

– Sua presença exauri minhas forças.

– Sempre prefere palavras difíceis.

– Do mesmo modo que você prefere garotas fáceis.

Me levantei e dirigi à porta do quarto enquanto ele ria baixinho, o que, é claro, me deixava com mais raiva ainda. Ele me seguiu se interpondo entre a porta e meu corpo. Suas mãos pousaram gentilmente sobre meus ombros e ele sussurrou se aproximando:

– O que eu faço com essa saudade de nós dois? Daquela época?

– O que você fazia naquela época. Vai para a boate enquanto eu fico em casa. Talvez passe.

– Você é impossível.

– Só pra você.

Ele saiu rindo, mas antes me deu um olhar penetrante.

– Você sabe que esse é um jogo pra dois né?

– Que bom. Detesto jogar sozinha. — respondi, mas diante da sutil ameaça dele, tremi por dentro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.