Indomável

2 Companheiro de quarto


"Sentei na cama, na sua cama. O quarto não havia mudado nada desde a última vez que estive ali. A colcha com detalhes de florzinha (totalmente gay) ainda era a mesma, os travesseiros também. Somente eu havia mudado, eu espero.

Eu ainda não acreditava que de todos os cursos possíveis nesse mundo, eu havia escolhido aquele em que o pai dele era diretor, na cidade dele. Eu não podia recusar a oferta, eu necessitava daquele curso e se o pai dele quis me oferecer moradia, tudo bem, ótimo, totalmente satisfatório. Mas ele ter feito a gente ficar no mesmo quarto, foi sacanagem.

– Sério que a gente vai dormir na mesma cama? — perguntei enquanto o olhava em pé, de cueca box preta.

– Eu não abro mão da minha cama, e se você quiser, o sofá está disponível. — disse ele com todo aquele jeito arrogante, mas pela primeira vez no dia, o olhar era malicioso.

Me empoleirei na cama murmurando algo sobre abduções alienígenas enquanto construía um muro de travesseiro.

Ele se deitou e retirou o travesseiro que separava nossas cabeças.

– Você está invadindo meu espaço pessoal. — murmurei.

– Eu não to nem aí. — ele disse me encarando e passando a mão suavemente em meus cabelos. — Eu senti tanto a sua falta.

Retirei a mão dele dali com um tapa.

– Eu não estava nem lembrando mais de você. — cof cof, oi mentira. — Meu tempo livre era meticulosamente ocupado. Tive que deixar você para perceber que você nunca foi homem suficiente pra mim.

Minhas palavras o atingiram como facas. Ele estreitou os olhos e olhou para o teto. Pronto, eu havia ferido seu ego. Strike! Ponto pra mim. Mas por que raios eu não me sentia melhor?

– Não poderia ser mais estranho... Na cama com alguém que você sequer conversa. — murmurei.

Ele me olhou e sorriu ironicamente.

– Para mim não é a primeira vez. E nem vai ser a última.

– É, para você seria algo como só mais uma noite com uma conquista.

– Na verdade seria algo como uma noite com só mais uma conquista.

Virei para o lado antes que perdesse o controle e socasse sua cara. É só um mês. Eu sobrevivo.

°

Eu estava em pé, diante de uma rua desconhecida. Enquanto meu cérebro tentava raciocinar e descobrir onde estava, avistei uma garotinha do outro lado da rua. Seu semblante era tão triste que me vi indo em sua direção. Porém, parei a alguns metros de distância dela. Seus olhos me olharam e ela suplicou:

– Por favor... Ele vai me matar.

Diante da ameaça de perigo, meu coração acelerou. Tentei correr, mas meus pés não saíam do lugar.

– Por favor, por favor... Ele ta vindo. — ela suplicava enquanto me olhava.

Foi aí que o sonho virou pesadelo. Enquanto não conseguia mais me mover, ela se aproximou de mim gritando.

– A culpa é sua! Você podia ter feito algo, e não fez.

Suas mãos se tornaram garras e seus olhos não tinham mais pupila. Ela se aproximou mais.

– Agora eu vou ter que matar você. — seu riso era convulsivo.

Acordei gritando a plenos pulmões. Me sentei na cama e recordei onde estava. "Calma, respira. Foi só um pesadelo." Levei a mão ao meu coração acelerado.

– O que foi? — ele murmurou sonolento, ainda deitado mas apoiado sobre os cotovelos.

– Nada, um pesadelo. — mas minha voz vacilou no final. Não, por favor, não chora. Eu ainda podia enxergar a boca escancarada da menininha.

Ele se sentou e me abraçou. Eu não queria impedi-lo, eu não queria me mover, eu não queria estar ali. Só percebi que estava chorando quando ele limpou minhas lágrimas com o polegar. Raios, quando eu havia me tornado tão mariquinha?

Ele beijou lentamente minha testa e murmurou:

– Já acabou, eu to aqui.

Ele me deitou e eu apoiei meu rosto em seu peito nu; calmamente ele acariciava meu cabelo.

Amanhã, amanhã eu alimento meu ódio, amanhã eu me vingo... adormeci.

°

Quando acordei senti sua respiração próxima a mim. Sua boca estava em minha testa, sua mão em meu cabelo e sua perna repousava entre as minhas.

Me desvencilhei e levantei bufando. O que tinha acontecido comigo? A magia da noite anterior parecia nunca ter existido, e no momento eu só conseguia sentir raiva, ódio, amargura... Dele, de mim, e do resto do mundo que me obrigava a conviver com aquele... Suspirei.

Me lembrei do toque gentil dele em meu rosto e quis me matar por permitir. Na primeira noite eu havia fraquejado.

Me sentei na mesa da cozinha, de frente a seus pais e ao lado de seu irmão. Ele ocupou o lugar ao meu lado mas não disse nada e também não tocou em mim. Agradeci ao deus das pequenas causas por isso. Não pretendia vomitar na frente de sua família.

– Está tudo bem com vocês? Como foi a noite? — disse seu pai com um sorriso um tanto quanto suspeito.

– Tirando a companhia... — murmurei de forma quase inaudível. Mas ele ouviu.

– Talvez seja melhor arranjar outro quarto pra princesinha aqui. Ela não me parece muito satisfeita. — disse ele da forma mais sarcástica possível.

– Eu discordo. Minha noite foi maravilhosa. A sua não? — disse o olhando ingenuamente enquanto piscava o olho. Ele me encarou, mas não disse nada.

Terminei meu café e me dirigi a pia para lavar meu copo. Ele se aproximou e parou ao meu lado.

– Bem, quanto a minha noite... Os pesadelos foram bastante desagradáveis. Mas valeu a pena te ver suspirar nos meus braços.

Ele saiu antes de perceber o olhar mortal que lançava a ele.