Indigna Rosa Negra

59 O Feitiço da Rosa


Notas iniciais
Cumprindo minha promessa, atualização dobrada. Enjoy it ;) Música: The Point of No Return (The Phanton of the Opera) – sim, de novo, porque sim.


When will the blood begin to race?
The sleeping bud burst into bloom?
When will the flames, at last, consume us?

(Quando o sangue começará a correr?
O botão adormecido começará a florescer?
Quando as chamas vão nos consumir finalmente?)


Bervely gritou, um escape gutural através de sua garganta, quando a carne queimou e a dor reverberou por seu corpo inteiro. Não importava. Não podia se mover, só suportar.

Eram várias dores – da queimadura, do feitiço de contenção perfurando seus músculos enquanto ela se retesava, um queimor em seu braço esquerdo, na altura do pulso, que era familiar, mas não menos terrível. E porque ela abriu a boca para gritar, também havia seu maxilar traumatizado pulsando.

E durou séculos. Uma vida inteira, gritando e tentando espernear sem ser capaz de mover um músculo. Ela piscou algumas vezes e teve vislumbres do par de olhos verdes cravados nos seus, com bastante frieza e até certo prazer em vê-la agonizar. Queria xingá-lo, mas não era capaz de qualquer coerência em seus gritos.

Então, duas coisas aconteceram muito rápido.

A primeira foi uma sombra enorme se movendo atrás dele. A segunda foi um tombo que atingiu seu corpo, arrancando a cadeira e consequentemente seu corpo do chão, e a lançando vários metros adiante.

A dor foi terrível, mas o feitiço que a prendia à cadeira tinha sido desfeito. Ela ergueu a cabeça rápido o bastante para ver o que os atingira: alguém mais… alguma coisa… estava rosnando.

O Olho de Hórus gritou horrivelmente. Houve um ruído úmido estranho.

Bervely entendeu a movimentação na escuridão no exato momento em que a mão de Gavril-Thor– a mesma que segundos antes prensava o pirografo contra ela – foi arrancada da extremidade por mandíbulas raivosas.

O Olho de Hórus desabou no chão quando o animal recuou, sacudindo a mão sangrenta entre os dentes. O bruxo sacou sua varinha, seu rosto transfigurado pela dor e pela fúria.

— MESTRE! MESTRE, EU NÃO SEI COMO– ELE INVADIU… – a elfa entrou correndo, mas estancou ao se deparar com a cena.

— CRUCIUS!

A luz azul elétrica inundou a sala, houve um estampido e um novo rosnar, e novos gritos da elfa, dessa vez de horror.

— EU VOU DESTRUIR VOCÊ, CÃO ENDEMONIADO!

Novos estampidos, gritos e confusão. Bervely tentou se sentar, ofegante. Seu corpo recém liberado não lhe obedecia como deveria. Cão, ele tinha dito? Havia um gato, mas não um cão…

Como se conjurado pelo pensamento, o gato estava ao seu lado. Ele voltara a ter uma certa iridescência prateada em sua pelagem, ela notou. Jinx esfregou a cabeça em sua bochecha, e Bervely se sentiu um pouco mais forte. Não muito, o suficiente para erguer o corpo e compreender..

O Olho de Hórus lançava feitiço atrás de feitiço na direção de um enorme cão negro, ao passo que este continuava desviando dos raios e luzes, pulando e se esgueirando entre os corpos. A elfa tentava ajudar, mas ela mal podia evitar ser atingida pelas maldições enviadas por seu mestre. Gavril estava errático, no entanto, segurando a varinha com a mão direita. A extremidade dilacerada do seu braço direito, que ele dobrara contra o peito, sangrava copiosamente.

Bervely deu uma nova olhada curiosa pela sala e achou a mão dele, parcialmente destruída, jogada perto de onde antes se encontrava a sua cadeira. O pirografo fumegante caíra no chão, ainda incandescente. O cheiro de carne queimada no ar, misturado ao criogênio, era enjoativo. Sua carne queimada.

Não é hora de perder tempo vomitando, Bervely.

Ela não fazia ideia do que aquele cão estava fazendo ali ou como sequer a encontrara, mas estendeu a sua estratégia. Black estava ganhando tempo, distraindo o oponente. Reuniu forças, engatinhando pelas sombras e por trás dos corpos, pegando o pirografo no caminho. O cão acabara de abocanhar o outro braço do homem, o sacudindo entre seus dentes, mas a varinha continuava soltando fagulhas explosivas que poderiam atingí-lo a qualquer momento.


A elfa tentava encontrar um ângulo para socorrer seu mestre, a mão estendida e pronta para enfeitiçar o atacante.

— Não senhora, você não vai, sua maldita! – rosnou, girando o ferro no ar e atingindo-lhe a nuca. A criatura caiu no chão com um baque surdo, e Bervely se apoiou na parede para se levantar. Ela sentiu uma dor excruciante desde os músculos machucados das pernas até a queimadura em seu braço, o mundo ficou negro e quase foi ao chão, até o gato se enroscar em seus tornozelos.

Sua visão ficou clara novamente.

— Accio varinha!

Sua varinha voou do bolso de Gavrila-Thor até sua mão, o que o distraiu por um momento, então Sirius o derrubou entre as suas patas. Ela avançou, a varinha em punho, desejando saber o feitiço certo para matá-lo. Infelizmente, só o conhecia na teoria e só tinha uma chance.

— ESTUPEFAÇA!

O corpo de Romansek amoleceu sob Black, e seus olhos se fecharam. Bervely ofegou, cambaleando para trás no minuto seguinte, mas mãos firmes a ampararam. Sirius tomara a forma humana ao se levantar, impedindo que ela desabasse.

— “Estupefaça”, sério? Vamos ter uma conversa sobre a sua educação mágica quando sairmos desse lugar.

Havia energia e adrenalina brilhando nos olhos dele. Ela sentiu um alivio doloroso ao ver seu rosto e ouvir o tom zombeteiro.

— Isso vindo do vira-lata que à pouco estava se defendo com os dentes! – ofegou, se apoiando nele. Ainda não acreditava que Black tinha arrancado a mão do Olho de Hórus fora.— O que houve com a sua varinha?

— A casa está encantada com feitiços de detecção de artefatos mágicos estranhos. Precisei deixá-la lá fora para não perder o elemento surpresa.

— Então você achou que era uma boa ideia entrar aqui desarmado? — chiou, escandalizada. Ele deu de ombros.

— Eu tinha de entrar de algum jeito, não tinha? Além do mais, olá, presas! Eu não estava desarmado. – disse, apontando para a boca ensanguentada. Ela acabara de perceber esse detalhe. Ele estava coberto de sangue desde seu nariz até os ombros e pescoço, como se acabasse de sair de um banquete canibal à la carte.

O cheiro pungente do sangue lhe deu uma nova tontura; não era um bom acréscimo ao já insuportável odor da sala. Bervely balançou precariamente em suas pernas e Sirius a segurou mais firme, seu olhar se tornando preocupado.

— O que esse homem doente estava fazendo com você? – a raiva em sua voz a surpreendeu pela intensidade.

— Me marcando.

— Te marc… – ele bateu os olhos na queimadura. Bervely imaginou que o aspecto deveria ser horrível, pelo fogo que queimou em seus olhos. – ESSE FILHO DE UMA PUTA!

Sirius chutou o corpo inconsciente do homem, de novo e de novo. Bervely teve que virar o rosto.

— ME DÊ SUA VARINHA, EU TENHO QUE MATAR ESSE DESGRAÇADO!

O gato começou a miar alto, em tom de aviso.

— Não, nós temos que ir. – disse com ansiedade. – Matá-lo não vai resolver.

— Mas ele queimou você com um ferro incandescente! Você não pode querer poupar a vida desse desgraçado!

— Eu não quero. – ela garantiu, mais calma do que realmente se sentia. Achou que devia soar controlada, já que Black estava ficando insano e assustado, ainda mais com todo o sangue em sua cara. – Mas matá-lo não resolve. Ele tem outros… corpos.

Ela indicou a sala e todas as silhuetas cobertas. Acompanhando seu olhar, ele compreendeu.

— Não me diga.

— Sim. – ela afirmou com urgência. – Vamos sair daqui antes que ele ocupe a próxima casca, eu não sei quanto tempo isso demora.

— Não! Vamos matar todos, então ele não como voltar. Me dê a varinha, Bervely!

Ela o segurou pela manga. Mal conseguia ficar em pé, mesmo com ajuda. Sirius não entendia, a dor era muito grande, e se ela ficasse ali dentro, não aguentaria muito mais. Olhou no fundo dos olhos dele, tentando transmitir o pedido que não ia conseguir elaborar com palavras.

— Eu tenho… outra ideia. Confie em mim.

Ele a encarou por um momento, e então assentiu.

Por alguma razão, ele confiava.

— BD –

Bervely se arrastou até o quarto de Tara no andar de baixo, amparada por Sirius. O avanço não era tão rápido quanto ela gostaria, já que o seu corpo inteiro parecia ter passado pelo moedor de carne. Evitou os espelhos. Não queria ver o seu aspecto, e mais importante, não queria ver aquela marca horrível em sua pele.

Jinx os seguia, em nenhum momento longe de seus calcanhares. Quando ela finalmente chegou ao quarto de Tara, alcançou a mochila e a jogou nas costas. O mundo girou por um momento, pontos pretos dançaram na frente dos seus olhos e ela se sentou na cama, se sentindo fraca. Sirius sentou ao seu lado, pegando seu rosto entre os dedos e o levantando para olhar em seus olhos. O toque era cuidadoso e terno, muito diferente do de Carmichael.

— Suas pupilas estão dilatadas. Ele fez você beber alguma coisa?

— Uma poção verde brilhante. Não sei que merda era. Gosto de folha e inseto radioativo.

A preocupação no olhar dele se intensificou. Mas não só isso. Medo. Que logo foi ocultado, quando ele tentou soar confiante.

— Você vai ficar bem, garota. Vamos dar o fora dessa casa de loucos.

Sirius jogou o braço dela por cima de seu ombro e passou um braço por sua cintura, ajudando Bervely a ficar de pé. Eles começaram a andar para fora do quarto, mas ao passar pela porta, Bervely resistiu, olhando para trás.

— Jinx.

— Jinx é o gato? Ele vai nos encontrar lá embaixo. Deve ter ido buscar sua própria mochila.

Ela riu, sem acreditar que ele estava fazendo piada num momento como aquele. Começaram a descer vagarosamente as escadas para o andar de baixo, seus passos ecoando no estranho silencio da casa.

— Seria mais fácil se você me desse sua varinha e eu a flutuasse até embaixo. – ele resmungou. Mas ela sacudiu a cabeça; já estava se sentindo humilhada o suficiente.

— Posso andar, já estou melhorando. Escuta, ele tem dois outros elfos…

— Eu os subjuguei na entrada. – disse com prontidão, orgulhoso de sua eficiência.

— Com seus dentes?

— Com minhas mãos, Bervely. Que tipo de monstro você acha que eu sou? Atacar elfos, honestamente!

— Desculpe pela minha impressão equivocada, eu acabei de ver você arrancar a mão de um ser humano.

— Ele mereceu. E aquele filho da puta desgraçado dificilmente pode ser chamado de ser humano.

Ela sentiu uma estranha satisfação pelo modo feroz com que ele disse aquelas palavras.

Quando chegaram no patamar térreo, já se sentia mais firme em suas pernas. Achava que o efeito estava da poção estava passando, porque se sentia menos tonta, e também conseguia pensar com mais clareza. Estavam perto da porta de agora, bastava atravessar o hall de entrada e estariam fora.

— Ouça… – disse, ficando de pé sozinha e se virando para ele – Eu lancei um encantamento na casa, para o caso… para o caso de uma emergencia. Então, se derramarmos meu sangue no chão e ativá-lo, acho que podemos dar um fim na casa…

— Não pense que eu vou deixar você sangrar no piso, fraca como está. Seja lá o que for, vamos nos virar sem ele. Me dê sua varinha, acho que consigo abrir a porta da frente.

Bervely negou, impaciente.

— Não vamos fazer nada sem esperar por Jinx.

Sirius se balançou impaciente ao seu lado.

— Bervely, vamos embora, o gato é mais inteligente que nós dois juntos, provavelmente já está do lado de fora!

Mas ela não ia deixar o gato de Hector para trás. Ela tinha a nítida impressão de que ele salvara a sua vida.

— Foi ele quem ajudou você a entrar na casa, não foi?

Sirius assentiu, dando de ombros com convencimento.

— Gatos me adoram. Nunca entendi bem o porquê. – ele suavizou sua voz, envolvendo o ombro dela com seu braço, apesar de saber que ela já não precisava de amparo. – Vamos, garota, o gato vai ficar…

Foi quando a luz acabou.

Mergulharam num escuro tão profundo que só podia ser mágico – era como o próprio espaço na frente de seus olhos tivesse sido pintado de negro. Bervely se lembrou do momento em Azkaban em que as sirenes haviam disparado, quando descobriram que Sirius estava fora da cela, e as luzes se apagaram para que os Dementadores pudessem rastrear melhor.

Havia um monstro naquela casa, e ele estava tentando rastreá-los também…

— Tudo bem. – disse Sirius, bem baixo ao seu lado. – Não acenda sua varinha, não vá nos denunciar.

— Eu não ia…

Um raio de luz cruzou o espaço acima da cabeça deles, e ambos se abaixaram no último minuto. O feitiço encontrou um vaso de vidro num aparador mais à frente e o explodiu em mil pedacinhos.

Viera do alto, como se da escada, mas era impossível enxergar seu executor.

— Vocês devem esperar o dono da casa, é rude ir embora sem se despedir.

Era a voz da elfa. Sirius segurou o antebraço de Bervely, falando em seu ouvido.

— Vamos logo, antes que ela sele as entradas.

Começaram a seguir pelo hall, tateando no escuro, e teriam conseguido alcançar a porta se o tapete não tivesse criado vida aos seus pés lhes dando uma violenta rasteira e os lançou de encontro ao chão.

Bervely tentou levantar o mais rápido que pode, as mãos estendidas, desorientada. Sirius voltara à ser um cão, pois ela o ouvia rosnar. Houve um brilho prateado lá em cima e quando Bervely ergueu os olhos, conseguiu ver, pela luz débil refletida na pelagem de Jinx, a silhueta de Dill ao pé da escada. O gato estava bem seguro em seus braços, ao passo que os olhinhos da elfa cintilavam vitoriosos.

Sirius disparou em sua direção como uma bala, os dentes arreganhados, deixando bem claro que sua política de não estraçalhar elfos acabara de ser revogada. Mas a elfa estalou os dedos e ele foi lançado para trás no ar.

— NÃO! – Bervely gritou.

Não precisava ter se preocupado; ele caiu ao fim da escada sobre as patas, sacudindo a pelagem. Ela floreou a varinha e lançou um feitiço na direção da elfa, mas errou seu alvo.

Não. Não errara. O feitiço foi bloqueado. Absorvido por Jinx, para ser mais exata.

— IMPEDIMENTA! – gritou, mas foi barrada pelo gato que miou alto. Ela percebeu que, não importa ao que fizesse contra a elfa, atingiria o animal em seu colo – ele funcionava como um escudo vivo.

O cão mordeu a barra do seu vestido, lhe puxando em direção à saída, latindo sem parar.

— Eu não posso ir! É o gato de Hector! – gritou, sabendo que isso não faria sentido para ele. Se fosse qualquer outro gato, ela não teria hesitado em deixá-lo para traz para salvar a própria vida.

Sirius voltou à forma humana, agarrando-a pelo braço.

— Bervely, pelo amor de Merlin, vamos agora mesmo!

Ela não entendeu a urgência na voz dele – quer dizer, não era como se a elfa parecesse uma ameaça. Mas então ela ouviu os passos… no andar de cima, se aproximando… seu coração caiu até o chão, mas mesmo assim tentou correr na direção que ele lhe puxava.

Deram contra a porta selada, como previsto.

— Varinha. – pediu.

Ela hesitou.

— Bervely!

Mas era tarde. Soube disso quando ouviu a voz no topo da escada.

— Por que a pressa, minha garota? Ainda precisamos acertar as nossas contas. – a voz que vinha do andar de cima tinha o timbre diferente, mas continha o tom sarcástico carregado em ameaça que ela se acostumara a ouvir vinda do corpo antigo…

Sirius a puxou para baixo, ao mesmo tempo que uma onda de energia invisível muito forte sacudiu o ar ao seu redor, destruindo tudo que havia pelo caminho. Mais passos, indicando que o Olho de Hórus descia as escadas, degrau por degrau, cheio de deliberação. Sirius e ela estavam agachados no canto entre a porta e a parede.

— Será que a senhorita poderia, por obséquio, me emprestar sua varinha?

Havia um leve tom de irritação na voz dele, provavelmente por todas as vezes que pedira isso antes e ela tinha ignorado. Dessa vez, Bervely não ousou desobedecer.

Ele fez tão rápido que seus olhos doeram; um clarão de luz inundou o corredor, mostrando exatamente onde o Olho de Hórus estava. Ele usava outro corpo – um jovem e encovado bruxo que ela não conhecia, mas os olhos verdes predadores eram inconfundíveis.

O segundo e o terceiro feitiço de Sirius zuniram através da escuridão e foram aparados por um escudo luminoso. Eles começaram a trocar azarações – tão rápido e tão violentamente que seus olhos mal acompanhavam. Ela via apenas seus contornos quando os raios os iluminavam, os zunidos, os estalos e as explosões dilaceravam seus ouvidos, via os movimentos fluidos de Black e sua rápida resposta, seu corpo girando para um lado e para o outro para amparar o que era enviado na direção deles, sem nunca deixar que chegassem até onde ela estava.

— Vá para a cozinha! – ele disse entre um fôlego e outro – Solte os elfos e os convença a abrir a porta, lá é o ponto vulnerável da casa!

— E você? – ela perguntou, impressionada em como ele podia esquivar, defender, azarar e falar, tudo ao mesmo tempo e com uma elegância elástica.

— Vou arrancar todos os membros que restaram nele. Todos os trezentos se precisar.

— Tecnicamente restaram quarenta e sete.

— Vá!

Bervely puxou todo o fôlego que conseguiu, então, prendendo a respiração, começou a engatinhar no corredor escuro, rente à parede, como um gato faria. À essa altura, o novo corpo já tinha descido o lance de escadas e estava a poucos metros de Sirius, duelando com fúria. Seu rosto se contorcia em concentração e estava claro que ele tentava matá-lo, não havia qualquer prazer no duelo em si.

Quanto a ela, o único modo de chegar à cozinha era atravessar todo o hall e a sala de refeições. Já estava perto da porta desta última quando deu uma olhada para o topo da escada, no mesmo momento em que uma explosão enviada por Sirius jogou uma chuva de raios vermelhos nos degraus. Ela viu a silhueta da elfa sumindo no escuro, recuando para o primeiro andar, e seus nervos formigaram.

Bervely mudou sua rota. Sirius percebeu, dando uma breve olhada em sua direção. Pagando pela distração, foi atingido por uma flecha de fogo no braço e soltou uma exclamação de raiva. Devolveu a gentileza transformando os destroços do vidro no chão em um enxame de insetos, que lançou na direção do Olho de Hórus. Aproveitou da distração para trocar um olhar questionador com Bervely, que murmurou um ‘sinto muito’ sem som.

Então ela correu escada acima, na direção em que Dill e Jinx tinham desaparecido.


— BD –

Foi tateando o caminho no escuro, os sons da luta lá embaixo lhe deixando apreensiva. Jamais pensara que Black poderia duelar daquele jeito, mas sabia que o Olho de Hórus pretendia matá-lo e a verdade é que ele tinha mais nove chances para conseguir, enquanto Sirius só tinha uma para vencê-lo.

Seu peito se espremeu em inquietação, mas pouco podia fazer para ajudá-lo sem a sua varinha. Já quanto à Jinx…

O gato estava no antigo quarto de Bae. De alguma forma Bervely sabia, mesmo que não houvesse qualquer indicação. A voz sensata em sua cabeça sinalizava que subir ali era arriscar tudo, mas ela precisava.

Empurrou a porta com a ponta dos dedos; estava destrancada e deslizou com facilidade. O interior do quarto não estava na penumbra, pois o luar que vinha da janela o preenchia. A elfa se virou quando ela entrou, de um ponto próximo à janela, segurando Jinx ainda em seu colo. Nervosa, Bervely notou. Seus olhos eram os de um animal acuado se preparando para reagir.

— Deixe o gato em paz. – mandou, contrariada. – Ele não quer seguir você.

— Você não sabe o que está dizendo. – retrucou a criatura em sua vozinha afinada. – Não devia ter subido aqui. Está desarmada. Não tem medo que eu machuque você?

— Não. – disse-lhe, encarando-a com curiosidade, apesar de tudo. Nunca na vida tivera interesse em elfos, e era um hábito que seu olhar passasse por eles sem se prender. Eram coisas feias e desproporcionais, pernas e orelhas compridas, olhos saltados, a pele enrugada desde que nasciam até o dia em que morriam.

— Eu tenho mágica. Posso usar em você. – ameaçou, apertando Jinx nos bracinhos. Com uma das mãos ela esfregava o colar cor de carne, que tinha um pingente vermelho leitoso. O gato mal se movia, mas os olhos estavam pregados em Bervely do outro lado do quarto.

— Elfos não tem autorização para usar sua magia contra bruxos, a não ser diante de uma ordem expressa de seu dono.

— Bem… eu e meu mestre seguimos regras diferentes.

Bervely deu uma risadinha sem humor pelo nariz.

— Aposto que sim. O que houve, entre todos aqueles corpos lá embaixo ele não tinha um legal pra te dar? Você teve que ficar com esse daí, do elfo da Suíça? Que falta de consideração do seu mestre.

— Eu não sei do que está falando. – disse a elfa, um nítido tremor em sua voz.

Um barulho alto de vidro se partindo foi ouvido no andar de baixo e à sua frente, a elfa estremeceu e fechou os olhos. Bervely desejou ardentemente que Black estivesse bem.

— Dill. – ela estalou em seus lábios.

A elfa a olhou com desconfiança, notando que seu tom não era de chamamento, mas como se enunciasse a palavra e testasse seu efeito em voz alta. Bervely inclinou sua cabeça ligeiramente para a direita, reparando nos trejeitos da elfa com bastante atenção enquanto continuava.

— Bucaneira Dill era o nome de pirata de Wendy Darling. Merlin, eu demorei pra lembrar! Mas sabia que já tinha ouvido em algum lugar. Até que combina – nome de pirata para a sua versão pirata.

— Não sei mesmo do que…

Suspirou, cansada. Mal podia ignorar suas dores naquele momento, não estava com paciência para aguentar sonsice também.

— Já chega, Charlotte. Sabe do quê mais? Notei que os olhos não mudam de um corpo para o outro. Então eu ainda posso ver esses seus olhos de gatinho assustado me encarando, e acredite eu os conheço, porque os usei o verão inteiro.

O queixo ossudo da elfa tremeu, mas ela não se esforçou em negar. Algum sentimento defensivo cresceu em seu semblante, ao mesmo tempo que os dedos apertavam o pingente do seu estranho colar com mais força. Bervely pensou o que aconteceria se ela usasse magia de elfo nela. Bem, não importava. Desde que o maluco no andar de baixo tentara queimar seu caminho para dentro do seu corpo, estava mais interessada em saber a verdade do que sair ilesa.

— Eu vou começar simples. – disse, a voz ganhando nova energia. Reparou que os sons tinham cessado no andar de baixo, sinal que havia pouco tempo para os esclarecimentos, para o bem ou para o mal. – Para onde você e Hector estavam indo, no dia em que ele… você sabe. Foi assassinado?

A elfa negou forte com sua cabeça desproporcional.

— Não vou te responder nada!

— Ah, você vai. – ela deu um passo à frente, na direção da criatura que tinha um terço do seu tamanho. – O que você disse pra ele, para convencê-lo a fugir com você? Deve ter sido uma mentira das grandes, para Hector aceitar deixar a família dele para trás.

— Vocês nunca foram a família dele. Você nunca entendeu isso, não é? Ninguém entendia. – disse ela, atropelando as palavras, nervosa com a aproximação. – Ele era como eu, um estranho dentro daquela casa. Um deslocado…

— Hector era AMADO naquela casa. – explodiu, irritada. – Não era como você! Você não passava de uma empregada pra nós!

— Bem, não era assim que ele me via. Ele estava decidido a ir embora comigo, naquele Natal, formar uma família de verdade!

— E ainda assim – ela sibilou, avançando mais um passo, agora perto o suficiente para ver o seu reflexo nos grandes olhos azuis – Ainda assim você o traiu, não foi?

Bervely ergueu sua mão, pronta para pegá-la pelo pescoço, mas Jinx escolheu o momento para riçar no colo da elfa. Seus pêlos das costas se levantaram e os dentes ficaram à mostra, provavelmente as garras também, de modo que Dill o derrubou no chão e ele pousou entre elas.

— Eu não o traí, Bervely, você sabe muito bem que eu jamais…

— VOCÊ DEU MORTO–VIVO PRA ELE! – ela gritou, perdendo qualquer traço de controle que ainda pudesse ter àquela altura – O gato me mostrou a lembrança! Você recebeu a poção de Thor e fez Hector beber, e a poção o matou!

— Era parte do plano, eu não tinha como saber… A poção não devia matá-lo, era segura!

— E ainda assim você está com esse homem, depois de ele ter causado a morte de Hector? Você serve ao assassino de Hector? Charlotte!

A elfa esfregava e repuxava seu colar nervosamente, os olhos enormes de um lado para o outro.

— Não, você não entende, Thor só queria o filho dele de volta!

— …e você forçou o gato a te seguir durante todo esse tempo contra a vontade dele, isso é doentio!

— Nós tinhamos um plano, teria dado certo… – ela continuou, se balançando para frente e para trás.

— Thor te fez o ELFO dele! Isso não te diz nada sobre o tipo de gente que ele é?

Bervely foi jogada violentamente para traz, como se o coice de uma explosão a atingisse. Seu corpo foi empurrado e ela bateu a nuca na estante de livros, caindo no chão, os livros de Bae desabando sobre ela com suas lombadas pesadas e encadernações duras de couro.

Houve outro riço; Jinx saltou sobre a elfa, impedindo-a de chegar até Bervely, o que lhe deu tempo para levantar. No mesmo momento, passos apressados invadiram o corredor, culminando um segundo mais tarde na aparição de Sirius Black no portal para o quarto.

Ele estava agitado e bagunçado, mas vivo; sua camisa rasgada e ensanguentada – sangue do velho corpo de Gavril em sua maior parte – alguns machucados e o longo cabelo em desalinho, afora um brilho implacável nos olhos que faziam parecer muito perigoso.

— Oi. – falou, dando uma rápida olhada pelo quarto e parando em Bervely. – Eu pensei ter dito cozinha!

— Desculpe, ouvi errado. – ela gemeu. Um livro lhe atingira nas costelas, ainda era difícil respirar.

Ele pousou seus olhos na luta feroz entre o elfo e gato, intrigado.

— Será que eu deveria…

— Sim, por favor.

Sirius fez um aceno; a elfa caiu estuporada no chão. Jinx saltou para longe dela andando de costas, como quem admira um trabalho bem feito. Obviamente pensava que fora ele a finalizá-la.

— Vamos embora antes que eu tenha que acabar com o corpo número quatro.

Quatro? — se impressionou. – Você é rápido.

Ele sorriu para o elogio, enquanto Bervely pegava Jinx no colo e tentava deixá-lo mais calmo. Ela deu uma última olhada para a elfa, mas o bruxo ao seu lado a apressou, dando um empurrão persuasivo em seu ombro, a guiando para o corredor…

… onde sete dos corpos restantes, com olhos verdes implacáveis, estavam de pé e armados os esperavam.

— BD –

Quando Bervely se lembrasse daquele momento, ela se lembraria dos estalos. Eram os sons que os feitiços arrancavam do ar, quando eram lançados tão rapidamente que formavam um vácuo ao seu redor.

Ela se lembraria de Black, duelando como se dançasse. O patamar era iluminado pela lua, atravessando a vidraça ao fim do corredor, conferindo-lhe contornos azulado-brilhantes. Os sete oponentes não agiam de forma independente, lutavam como um; azarando e defendendo todos em macabra sincronia. Bervely desconfiou que havia, em algum lugar da casa, um mestre de marionetes os manipulando.

Ele não estaria ali, é claro. Era o rei das sombras e da enganação. Mesmo assim, arriscara sua coleção inteira para terminar com eles.

O Olho de Hórus devia estar com muita raiva.

Logo se tornou claro que não haveria um vencedor naquela disputa. Por mais que Sirius enfrentasse a iniquidade com surpreendente competência, os corpos não sentiam dor. Eram atingidos, machucados, e prosseguiam atacando. Miravam apenas em um alvo de cada vez – Sirius garantia que fosse ele, e não ela – mas a intensidade de cada feitiço e azaração era multiplicada por sete.

Ele se cansaria, eventualmente. Ele cometeria um erro, daria um passo em falso, fora do ritmo, e eles morreriam.

O mestre das marionetes ia rir, seu novo corpo fora de perigo. Havia apenas uma coisa que ela podia fazer para atingí-lo.

Bervely procurou por um caco no chão. Não foi difícil – grande parte dos espelhos fora estraçalhada nos últimos segundos, de forma que coisas afiadas coalhavam o chão como um tapete de farpas. Jinx, ao seu lado, deu um miadinho de resignação, percebendo o movimento no minuto que ela arrastou a lâmina por seu braço direito e abriu a pele em duas.

Sangue brotou, mas a adrenalina era tanta que não sentiu a dor. Ela virou o braço para baixo, sentindo escorrer lentamente até sua palma, e depois pelos dedos.

E pingar.

O mundo explodiu em chamas cor de laranja.

— BD –


Pirosanguinem.


Um incêndio mágico que podia ser iniciado em qualquer construção, bastando para isso que o bruxo fizesse uma poção especial com seu próprio sangue e a usasse para desenhar determinado símbolo numa superfície da propriedade. O feitiço se instalava nas fundações, dormente, bastando uma gota desde mesmo sangue para ser ativado.

O fogo vinha de dentro para fora; em poucos instantes, devia queimar a casa inteira. Ela teria explicado a teoria para Sirius, mas segundos era tudo que tinha. No momento em que chegou até ele, a parede de vidro no fim do corredor trincou, como resultado das chamas.

— VENHA! – exclamou para Sirius. Jinx estava preso em seu outro braço, e puxando os dois, ela correu em direção ao novo vão que se abrira.

Ele dava para um precipício, e depois para o mar, lá embaixo.

Bervely não olhou para trás. Ela sabia, no entanto, que os sete corpos vinham atrás deles, e que os feitiços estavam chegando também.

Ela pensou em Charlotte no corpo de elfo, inconsciente no quarto ao lado.

E em Neverland de Hector, na prateleira do escritório.

Sirius segurou sua mão. Ele já tinha entendido, de forma que trocaram um último olhar de mútuo encorajamento.

Pularam.

A mansão, com todos os seus vidros e todos os seus ângulos, explodiu às suas costas com um som ensurdecedor.

Desaparataram antes de atingir a água.


Past the point of no return
the final threshold,
The bridge is crossed,
So stand and watch it burn

(Além do ponto sem retorno
A última porta de entrada
A ponte foi atravessada
Então fique e veja-a queimar)


— BD –

A próxima coisa que soube foi que aterrizou sobre uma superfície dura. O estalo da aparatação foi suave, então ela piscou várias vezes para adaptar os olhos ao escuro, as pupilas ainda contraídas em reação ao clarão do fogo que devorara a Mansão Romansek.

Estavam numa espécie de depósito de teto baixo. Pilhas de caixas e caixotes se espalhavam pelo lugar, a maioria com estampas chamativas, mas as cores e palavras eram engolidas pela escassez da luz.

— Uau. – ouviu Sirius exclamar ao seu lado. – Isso foi… Opa. – se apressou para ampará-la, mas Bervely conseguiu sentar sobre uma caixa, zonza. O gosto horrível da poção verde retornava à sua garganta, queimando tóxico em seu caminho de volta para cima.

— Estou bem. – se apressou em dizer, a voz embargada.

— Não, não está não. Você precisa…

— Onde estamos? – olhou ao redor, ansiosa por um assunto que não fosse seu próprio estado.

— No porão da Dedosdemel. – ele disse, a sombra de um sorriso travesso atravessando seu rosto. Ela percebeu que também apreciava a ironia de fugir da casa de um psicopata de doze corpos e parar numa loja de doces.

— Eles não tem proteção anti-aparatação aqui?

— Eles tinham.– afirmou, diabólico. – E acham que ainda tem.

Ela então fez uma pequena careta, lembrando-se do que tivera que sacrificar para entrar na mansão.

— Sua varinha…

— Não era minha varinha, só ‘uma’ varinha. Posso roubar outra mais tarde. Por falar nisso, obrigada pelo empréstimo. Teria sido uma bagunça dar conta daqueles caras só com meus dentes – não que eu não tivesse conseguido. – acrescentou, devolvendo a varinha para ela. Bervely pegou, notou que sua mão tremia; seu braço inteiro tremia. Sirius também percebeu.

— Você devia voltar para a escola agora. Precisa ir à ala hospitalar ver essa queimadura, o seu rosto, esse corte em seu braço…

Bervely olhou para ele com um olhar tão emblemático que Sirius parou de listar seus ferimentos. Os dois se encararam por um tempo longo, mas o silencio começou a preencher a cabeça dela com coisas que se sentia incapaz de suportar naquele momento. Fechou os olhos apertados, tentando expulsá-las.

— Não posso aparecer na ala hospitalar desse jeito, vão querer saber o que aconteceu comigo.

— Tenho certeza que arranjará uma desculpa.

Ela achou que Black estava tentando se livrar dela o mais rápido que pudesse. Bem, é claro que estava; por causa dela, tivera que duelar, explodir uma casa, arrancar uma mão, perder uma varinha, e tudo isso em pleno natal. Tentou se levantar com o máximo de dignidade, mas a verdade era que a medida que seu sangue esfriava, as dores em várias partes do seu corpo começavam a retornar, mais fortes do que nunca.

A do ombro nem era a pior. Ela achava que era a do orgulho; a satisfação de ter visto a casa queimar existia, mas amargada pelas perdas envolvidas. Perdera Wolfsbane Edition, perdera sua chance de se redimir com Snape, e isso sem falar em todas as coisas que ela descobrira, mas que pareciam estripá-la também…

Um miado lhe lembrou do seu último ganho; Jinx. Ele veio esfregar a cabeça na barra do longo dourado, transmitindo gratidão através da estranha conexão que compartilhavam.

— Há um alçapão bem ali que leva de volta para a escola, é uma caminhada relativamente longa, mas eu posso te acompanhar até a outra ponta como cão. Acha que pode andar?

— Não precisa me acompanhar. – disse, sem olhar para ele. Mas sentiu Sirius que passava por ela, abrindo um alçapão no chão.

— Não seja ridícula, eu faço questão.

Seguiram em silencio pelo corredor estreito no subsolo, cavado no chão como o buraco de uma minhoca muito grande e muito gorda. Uma parte dela se perguntava quando a enxurrada de perguntas começaria: como você foi parar lá, o que estava fazendo. Como se meteu nessa loucura, o que a marca do olho significa. Quem é aquele homem e porque ele tem uma coleção de corpos. Qual era a do gato, quem era Hector…

Mas Sirius não parecia interessado ou curioso, apesar de seu desejo ardente de que ele preenchesse o silêncio. O silencio a torturava – sua mente cansada tentava evitar a borda daquele precipício antigo de dor, mas a falta de distração a jogava nessa direção sem piedade. Resistia, prestando atenção em coisas idiotas: o ecoar dos seus passos, o rabo peludo de Jinx indo de um lado à outro, o cheiro de sangue que se desprendia do ex-prisioneiro enquanto ele caminhava diante dela.

Não se transfigurara em cão; ela notou que ele mancava ligeiramente da perna direita. Se perguntou o quão mais ele poderia ter se machucado e não deixara transparecer, como ela mesma fazia.

— Black…

— Psiu. – Sirius estancou no caminho, fazendo um aceno com a mão. – Consegue ouvir? Tem alguém vindo.

O coração dela disparou de imediato. Sim, agora que ele falara, podia ouvir os passos breves ecoando no escuro, vindos na direção contrária.

— Pensei que a passagem fosse secreta!

É secreta, ou pelo menos costumava ser. Apague a varinha.

Bervely não fez isso. Ela decidiu que quem quer fosse, ela ia azarar por ter ousado irromper em seu caminho. Estava cansada de correr e cansada de surpresas, diabos, farta de não estar no controle das coisas. Avançou para frente dele e pelo túnel, a varinha em riste, o feitiço na ponta da língua.

— Impedim…

— BEVY!

Entre o chamado e os braços ao redor de seu pescoço, ela só teve um segundo de intervalo para reconhecer a irmã. Anne quase a estrangulou por um tempo, depois soltou, então Bervely pode perceber que a menina não usava os óculos habituais. Não havia nada sobre seus olhos grandes e prateados, o que tornava seu rosto estranhamente luminoso.

— Johanne, o que você está–

— Você a trouxe de volta! – a corvinal exclamou na direção de Sirius, impressionada e grata. – Eu fiquei com tanto medo!

— Eu disse que traria, não disse? – respondeu Sirius com um ar eficiente.

— Obrigada!

— De nada, pequena.

Bervely teve a nítida sensação de ter atravessado sem perceber o portal para uma dimensão paralela. De todas as coisas que tinham acontecido aquela noite, aquela interação tinha que ser a mais inexplicável.

— Bevy, você não pode voltar pra a escola agora. – a menina avisou, ansiosa e ligeiramente sem graça. – Eu posso ter alardeado o seu sumiço um pouquinho, e agora meio que estão todos procurando por você. Se você aparecer do nada e com esse cheiro de sangue, pode ser um pouco difícil de explicar.

Quis abrir a boca para dizer que o cheiro de sangue não vinha dela, mas a fechou em seguida. Na lista de protestos, aquele era de longe o menos importante.

— Anne – recomeçou, organizando seus pensamentos da melhor forma possível – Como, exatamente você…

— Melhor irmos para um lugar mais seguro. – Sirius interrompeu – Se estão procurando vocês, quanto mais longe da escola melhor. Bervely, se você puder me emprestar sua varinha de novo, sei um bom lugar–

Ela entregou a varinha, sem nem esperar ele terminar, em seguida pegando Jinx no chão.

Sirius os aparatou pela segunda vez no dia, desta levando ambas as filhas consigo.

— BD –

— Eu trouxe poções, comida da cozinha e uns gorrinhos vermelhos.

— Gorrinhos?

— Como aqueles que Papai Noel usa. Sabe, aquele da lenda trouxa, com a barba branca e os oclinhos…

Sentada no chão, com os olhos fechados e a cabeça encostada à parede, Bervely ouvia a improvável conversa entre seu pai e sua irmã ecoar pela caverna. Era o mesmo lugar que ela ficara com Hector-alucinação após vê-lo pela primeira vez em Hogsmeade. Achava irônico Sirius tê-las aparatado logo ali – será que não só teria de revisitar a morte do primo, mas também todos os lugares que tinham visitado juntos, em sua versão real e imaginaria?

Há poucos minutos, Anne lhe contara a história sobre como ela recebera a caixa de memórias em seu quarto e achara que era alguma coisa perigosa enviada por Sirius Black. Procurara Bervely para tirar a dúvida, mas a menina não estava em qualquer lugar do castelo, o que por fim a levara (depois de alardear as pessoas mais contra-indicadas possíveis: Snape, Andrômeda e Oliver) até o seu quarto, onde ela encontrou o seu bilhete.

O bilhete a levara a finalmente abrir a caixa, e então à procurar Sirius Black e exigir que ele ‘devolvesse sua irmã imediatamente’.

Sirius prometeu que devolveria. A rastreara pela pedra da lua da coleira, mas a demora foi considerável porque a pedra estava avariada desde a fuga de Azkaban.

Então ali estavam.

De alguma forma, Anne parecia saber no tipo de coisa em que a irmã estava metida, porque ela não fez nenhuma pergunta ao lhe entregar praticamente todo estoque de poções curativas que Bervely guardava em seu dormitório. A impressão é de que estivera à postos no castelo, com uma mochila cheia de coisas, esperando que eles retornassem a salvo.

E o mais óbvio: ela não tinha mais medo de Black. Pelo visto, o raciocínio era: ele salvara sua irmã de algo terrível, não devia ser perigoso.

Anne obviamente não tinha visto Black estraçalhar a mão do Olho de Hórus, ou não estaria tão convencida.

— Ainda está doendo? – ouviu a voz da irmã, ao mesmo tempo que a mão pousava em seu ombro direito. Bervely negou, depois se lembrou que ela não podia ver o gesto.

— Não se preocupe, vou ficar bem. – lhe garantiu, a voz baixa. Viu com o canto de olho que Sirius lhe deu uma olhada rápida, mas ele desviou o rosto e continuou lançando um monte de feitiços de proteção usando a varinha dela.

Ele limpara a própria camisa, iluminara a caverna com esferas de luz amarelas e quentes, a selara contra o vento enregelante que vinha do lado de fora. Estava calado, mas atento a cada movimento das duas. Bervely se perguntou o que passava em sua cabeça, se estava irritado por ficar preso com elas aquela noite. Era difícil ler suas expressões naquele momento.

— Bevy? – chamou Anne baixo, para não ser ouvida pelo bruxo. – Por que não me disse antes?

— O quê? – respondeu no mesmo tom, voltando a fechar os olhos.

— Que ele era… legal.

Ela sorriu, seus lábios se dobrando e fazendo a bochecha estapeada pelo Olho de Hórus doer.

— Você teria acreditado em mim?

Anne hesitou, mordendo o lábio.

— Acho que não.

Sirius veio se aproximando, Anne se calou. Bervely voltou a abrir os olhos, vendo-o de baixo para cima, a luz focal no topo da caverna lançando sombras em seu rosto e acentuando uma certa tensão.

— Então… porque vocês não comem alguma coisa? Se estiverem com fome, quero dizer. Também tenho uns doces roubados da Dedosdemel, sapos e feijõezinhos, mas é melhor do que nada, e depois, sempre há a cerveja…

— Uma ceia de natal. – disse Anne de repente. Os dois pousaram os olhos nela com expressões quase idênticas de incredulidade. – ainda é Natal, afinal de contas. Podemos… podemos enfeitar a caverna, eu trouxe umas coisas do meu salão comunal. – corou ligeiramente ao dizer isso, mas continuou no que Bevy achou ser uma atitude corajosa – Festões, bolas que piscam e fadinhas, embora essas últimas não estejam nada felizes em minha mochila.

— Ah, não, Anne, eu não acho que…

— É uma ótima ideia. – Sirius contrapôs.

A sensação de ter tropeçado numa realidade alternativa se tornou mais forte do que nunca enquanto Bervely acompanhou o ex-prisioneiro e a garota cega enfeitarem a pequena caverna com todas as coisas roubadas da torre Corvinal. Jinx veio se deitar ao lado de Bervely, e ela teve a impressão que ele também estava incrédulo. Afagou sua cabeça com a ponta dos dedos, dividindo o sentimento.

As comidas contrabandeadas por Anne foram unidas às caixas de doces afanadas por Sirius numa mesa improvisada no centro da caverna, que era nada mais do que uma pedra transfigurada. As bebidas disponíveis eram cerveja amanteigada vencida e suco de abóbora, duas coisas que Bervely jamais colocaria em sua boca novamente.

O mais espantoso era ver os dois colaborando. Sirius era cuidadoso com Anne, mas não de uma maneira óbvia que a deixasse pouco à vontade. Em troca, Anne mantinha sua atitude reservada, mas inevitavelmente doce e assertiva. Com seu volumoso cachecol azul, os olhos prateados e a ponta rosada do nariz, dando palpites no jeito de pendurar festões que ela nem podia ver, era a coisa mais adorável do mundo.

Não espantava Sirius olhá-la como se ela fosse uma pequena joia viva. Algo especial demais para existir, mas que ao mesmo tempo podia muito bem ser a sua razão de existência.

Ela não os ajudou; ficou bem quieta, os braços apertados em torno de si mesma, evitando pensar na coisa toda. Era mais seguro desse jeito. Jinx, empoleirado ao seu lado, estava de acordo.

Sirius olhou para o seu lado pela terceira vez, aquele vinco entre as suas sobrancelhas surgindo de novo.

— Bervely?

Ela estivera quase fechando os olhos, e tomou um pequeno susto. Notou Anne sentada à um canto, ouvindo com atenção os dois.

— O quê?

— Está se sentindo bem?

— Ótima. – Mentira do século. O vinco cresceu, e ele prolongou o olhar para ela, os olhos parando em seu ombro esquerdo. Uma sombra de irritação cruzou os orbes negros, a mesma que o tomara antes de ele chutar o corpo inconsciente de Gavril Romansek cinco vezes. Ela achou que era melhor distraí-lo – Então, a grande ceia de Natal da família Black está pronta?

Falara com ironia. Não se deu conta do significado de suas palavras até tê-las dito, agora era impossível engolir de volta. Foi Anne quem abençoadamente quebrou o silencio:

— Ele tem diabinhos de pimenta, Bevy! Não seus preferidos?

Realidade Alternativa de Natal seguiu adiante, com conversa sobre doces e comidas de compartilhada em torno da mesa. Logo, Sirius estava contando sobre como eram os doces da sua época com exageros ridículos – chifrinhos de rinodonte que faziam roncar, pastilhas elétricas que deixavam quem as comia com o cabelo arrepiado pro resto da vida – e Anne começou a gargalhar. O som preencheu a caverna, levando Bervely a perceber há quanto tempo não o ouvia. Desde o acidente na floresta, pelo menos.

Mais tarde, Anne tomou coragem para lhe perguntar como ele se transformava em cão e ele não só explicou como provou, deixando que ela reconhecesse com as mãos a sua versão canina. Bervely ficou surpresa com a coragem da irmã; há poucos meses, aquele era o bicho papão dela. Há poucas semanas, Black jurava que não iria se aproximar da filha mais nova enquanto não provasse a sua inocência.

— Nós devíamos tirar uma foto. – sugeriu a caçula timidamente, quando a questão-cão estava resolvida. – Colin… meu colega Colin Creevey me emprestou sua câmera. Eu pedi a ele, na verdade, para poder tirar uma foto do nosso primeiro Natal, Bevy. Mas de nós três é melhor ainda… quero dizer, eu sei que eu não vou poder ver ela agora, mas gostaria de guardar. Para se um dia eu voltar a ver de novo, sabe.

Ela disse aquela última parte baixinho. Provocou um aperto em seu peito, como só Anne tinha a capacidade de provocar. De toda forma, aquilo não podia acontecer.

— Anne, Black está fugindo da justiça. Não é uma boa ideia ter uma foto dele por ai, pode cair em mãos erradas.

— Ah, é. – a menina murchou visivelmente.

— Tenho certeza que Johanne vai guardar a foto com cuidado. – Sirius interpelou. Bervely o olhou como se ele fosse um completo maluco, o que ele claramente era. – Posso estar em forma de cão!

— Isso! – Anne se iluminou – Ninguém sabe sobre ele ser um cão!

Não era bem verdade, pensou. Algumas pessoas sabiam agora, incluindo Remus, que não acreditava na inocência de Sirius e poderia se tornar um problema caso encontrasse uma evidência como aquela. Os dois lhe olhavam como se ela fosse a responsável pelo veredicto.

— O quê? Eu não vou me responsabilizar por isso! Black, se você voltar pra Azkaban por causa de uma fotografia, vou fazer questão de colocá-la em um pôster grande na sua cela!

A foto foi tirada.

Essa foi a primeira vez de muitas em que Bervely percebeu o quanto negar uma vontade para aquelas duas pessoas agindo em complô era uma missão fadada ao fracasso.

— BD –

Anne eventualmente caiu no sono com a cabeça em sua mochila, enrolada no gato como se fossem melhores amigos da vida inteira.

Bervely sentia que não ia conseguir dormir por muito, muito tempo. Fitava o teto da caverna fixamente, seus pensamentos girando num redemoinho agitado. A poção espalhada sobre a queimadura diminuíra em muito o ardor, e o seu maxilar estava quase curado. Sabia que seria difícil evitar a roxidão no dia seguinte, mas pelo menos não ia precisar repor nenhum dente – parte boa de ser metamorfomaga.

Outra coisa a incomodava – por debaixo da coleira, a rosa negra queimava num ardor vivo como não fazia em muitos meses. Ela não teve coragem de espiá-la; estava decidida a ignorar a marca até que a sensação desaparecesse.

Enquanto olhava no teto, pensava no fogo torrando doze corpos, o que isso significava. Ela demorou a entender quando o teto sumiu, e no lugar dele surgiu o céu noturno com um monte de estrelas.

— Se vai ficar encarando, é melhor olhar para algo interessante. – Sirius murmurou em um ponto ao seu lado esquerdo. Bervely se assustou; estivera certa de que ele dormia.

— Feitiço legal. Pretende me devolver minha varinha algum dia?

— Desculpe. – Estendeu seu braço e pousou a varinha na barriga dela com um movimento cuidadoso. – Fazia tempo que eu não pegava uma varinha que me aceitasse bem. A minha tinha o mesmo cerne.

Bervely não disse nada. Ficou mastigando o lábio inferior com tanta força que podia muito bem arrancá-lo. Finalmente, se aproveitando do escuro e da clandestinidade envolvida em não ter de encará-lo, as palavras deixaram sua boca:

— Black… obrigada por me achar na Mansão Romansek.

— Não me agradeça. Afinal… agora estamos quites, não é? Uma fuga pela outra.

Ela esticou os lábios para um sorriso curto. Lá em cima, a constelação Canis Major teria passado desapercebida para olhos desatentos. Mas ela nunca perdia de vista a estrela mais brilhante do céu noturno.

Então ele disse:

— Eu sinto muito por não ter chegado antes e evitado que ele encostasse em você.

Foi sincero, soou como se estivesse desapontado consigo mesmo por ter falhado. Bervely sentiu o fundo dos olhos pinicarem; tinha vergonha de admitir, mas queria a mesma coisa. Não fora Black que falhara, no entanto: fora ela. Podia ter pedido ajuda.

— Eu sou tão estúpida. – murmurou mais para si mesma, apertando os dentes com força.

— Não, eu era estúpido na sua idade. Você só se sente assim porque está lidando com coisas com as quais não deveria até ser muito, muito mais velha, e ter pelo menos uma formação de auror completa. Hey, eu ainda não esqueci aquele ‘estupefaça’.

Quando ela não disse nada, Sirius se moveu ao seu lado e ela soube que ele tinha se virado para encará-la. A caverna estava iluminada o bastante para ver seus contornos, mesmo da sua visão periférica. No escuro, as marcas de Azkaban sumiam, e ele era facilmente a homem-cão do Beco Diagonal de novo.

— Bervely? – chamou suavemente, esperando que ela se virasse. A garota o fez, apoiando a cabeça no braço dobrado. Olhos negros cintilavam no escuro, azulados pelo brilho da lua. Seu semblante era sério, e ela soube que era hora.

— Você quer saber, não é?

Ele assentiu:

— Tudo.

Ela mordeu o lábio inferior brevemente, encheu seus pulmões de ar – e contou ao seu pai tudo, desde o início. Desde quando ela se lembrava.


Past the point of no return,
The final threshold,
What warm unspoken secrets will we learn
Beyond the point of no return?

(Além do ponto sem retorno
A última porta de entrada
Que segredos quentes e não ditos
Nós aprenderemos, além do ponto sem retorno?)

(Continua…)

Veja a Foto da Anne aqui

Entre no grupo de Indigna Rosa Negra!

Notas finais
Malfeito Feito! ;*