Indigna Rosa Negra
68 Epílogo - A Rosa de Verão
Notas iniciais
Querida Rose,
Onde quer que esteja passando seu verão, tomara que seja divertido. Eu acho que sei com quem você está, pelo menos. Só não posso escrever nada aqui porque não quero complicar você (provavelmente eu nem deveria estar escrevendo que não quero complicar você, porque já parece suspeito). Escrevi para o endereço da sua tia em St. Catchpole e ela me deu o outro, de uma caixa postal em Dunderness. Nem imagino o que estaria fazendo em Dunderness, o lugar parece meio chato. Mas não é da minha conta, né? Isso é o que você me diria se eu perguntasse.
Sei que faz um tempo que não nos falamos. Da minha parte, foi porque eu ainda estava magoado com você, sabe, por causa daquela noite. Demorou um tempo para passar, um bom tempo. Eu ocupei a cabeça com outras coisas. A temporada de amistosos começou aqui na Escócia, então precisei treinar pesado e por muito tempo tudo em que eu pude pensar foi no quadribol. Isso ajuda a pôr as coisas em perspectiva. Antes que você role os olhos e pule o parágrafo inteiro porque fala de quadribol, vou só dizer que é a melhor coisa que já me aconteceu na vida, o time reserva do Puddlemere. É como se todo o quadribol da escola fosse brincadeira de criança perto do que eles fazem aqui. É bárbaro!
Certo, fim do assunto quadribol. Essa carta é mais para dizer que não guardo mágoa de você. Eu precisava escrever isso (você provavelmente vai me achar um babaca sentimental por precisar, mas no final é isso mesmo). E eu também estou te enviado o anel (Que eu nunca devia ter comprado. Acho que você estava certa. Você deu todos os sinais de que não queria nada do tipo e parece que eu ignorei cada um deles, parabéns, Oliver). Mas a questão é que agora está comprado e não sei o que fazer com ele. Não daria para outra pessoa. Pode fazer o que quiser então, inclusive jogar fora. Eu nunca vou saber, mesmo. Eu sei que eu não poderia jogar fora. Covardia Grifinória? Hahá. Quem imaginaria?
Eu sinto sua falta. Droga. Não acredito que escrevi isso. Agora vou ter que amassar o pergaminho, jogar fora e começar tudo de novo.
Mas é verdade. Essa é a hora que eu te ouço retrucar “Porque você sempre diz tudo que te vem à cabeça? Mas que droga, Oliver”. Sou obrigado a concordar. Como daquela vez que eu disse que te amava. Acho que foi ali que tudo começou a desandar.
Merda. Não era pra ser esse tipo de carta. Vou resumir: sinto sua falta, mas não estou pronto para te ver de novo. Entendo porque a gente terminou (na maior parte das vezes, então digamos que eu entendo uns 70%). Estou te ouvindo dizer agora “Deveria mesmo entender, já que foi você quem terminou.”. É uma droga te ouvir falando o tempo todo na minha cabeça, sabia? Se você tiver jogado essa azaração em mim, por favor a retire (isso foi uma piada, sei que não me azarou. Acho.)
Vou encerrar, isso já está ficando longo e vergonhoso. Espero mesmo que um dia a gente possa ser amigo, ou coisa parecida, mas não por agora. Acho que ainda estou meio chateado em como as coisas terminaram, e acho que você também está. Ou não está nem um pouco (não sei se quero saber qual das duas opções é verdade).
Apenas faça o que quiser com o anel, ok? Fico rolando ele de um lado para o outro e isso está me deixando meio louco.
Abraço, espero que esteja bem. Mande minhas lembranças pra Anne, se ela estiver com você.
Oliver.
PS: Por favor, não responda essa carta.
Bervely terminou a leitura com uma careta, apesar de ter sorrido em algumas partes, porque ler Oliver era quase exatamente como ouvi-lo falar. Então ela deixou o segundo conteúdo do envelope cair em sua palma estendida, o pequeno aro cintilando na luz que entrava pela janela.
Ali estava o anel da discórdia, de aro fino e simples, uma parte mais larga onde haviam as duas pedras, uma vermelha e uma verde. Tinha quase certeza que não eram preciosas, mas o que a surpreendeu foi perceber um detalhe não notado na clareira; cada pedra era o olho de uma pequena cabeça esculpida em alto revelo no ouro. Duas cabecinhas, uma aninhada à outra, dois minúsculos dinossaurinhos. Seus braços se arrepiaram, seu estomago se apertou e Bervely quis realmente ter azarado Oliver quando teve a chance.
— Bevy? Algum problema?
Quase se esqueceu que Anne ainda estava ali. Devia ter xingado em voz alta.
— Não. Wood lhe mandou um beijo. — comunicou a contragosto. Como sabia que aconteceria, o rosto da irmã se iluminou à menção do garoto.
— A carta é dele? Pensei que vocês não estavam se falando!
— Não estamos. Eu não sou suposta a responder, como ele gentilmente informa no post scriptum.
Anne franziu o cenho.
— Nunca entendi direito porque terminaram.
Bervely esfregou seu rosto com ambas as mãos, uma já conhecia frustração lhe retorcendo os nervos. Não tinha ânimo para explicar à irmã como uma combinação de péssimo timing, um ímpeto de sinceridade proporcionado por poção da verdade diluída na sua bebida e muita impulsividade Grifinória tinham-nos levado à beira do precipício, e daí a uma inevitável queda livre.
— É complicado, passarinho.
A menina rolou os olhos mas decidiu não insistir no assunto, querendo impedir que a irmã mais velha ficasse de mau humor pelo resto da tarde. Anne há muito decidira que todos os dias na cabana precisavam se desenrolar do melhor jeito possível até que as férias terminassem.
— E sua amiga Tara? Respondeu as suas cartas?
— Não. — Bervely soprou, irritada. — Nada ainda.
— Sinto muito.
— Uma hora ela vai acabar aparecendo.
Algo que Bervely repetia, mas estava acreditando cada vez menos. Tara não dava notícia desde a sua evasão da escola, no dia da formatura. Havia uma nota permanente no Profeta Diário, na seção de Intimações, que convocava “Tara Holmes, 18 anos, romena naturalizada inglesa” para depor em um “processo em curso”. Todos os dias Bervely checava a sessão e constatava que o nome dela ainda estava lá, provando que a justiça bruxa não estava tendo maior sucesso do que ela em localizar a garota.
Não que Bervely estivesse se esforçando. Se Tara queria espaço, ela lhe daria espaço. Não é todo dia que se descobre que seu pai é na verdade um psicopata que matou seu verdadeiro pai e ficou ocupando o corpo dele por quinze anos.
— Se quiser tentar de novo, não precisa ir até o correio-coruja de Dunderness. Angry Bevy está ficando bem boa com as entregas.
— Quem? — franziu, olhando para Anne por cima do resto das cartas, que incluíam uma de Andrômeda e outra de Snape.
— Angry Bevy, a cacatua¹ pintadinha! — a garota explicou com paciência, embora exasperada por Bervely não saber — Lembra, eu e Sirius estamos treinando elas, Angry Bevy e Grumpy Lupin! Mas Grumpy Lupin ainda deixa as cartas caírem quando vê um ninho de gafanhotos no caminho, ele tem um fraco por gafanhotos...
— Você não colocou meu nome num daqueles pássaros malucos, Johanne!
— Eu não! — Sorriu arteira e nem de longe arrependida — Sirius colocou! Ele disse que ela parece exatamente com você quando alguém mexe do seu kit de poções sem permissão.
Bervely soltou ar forçosamente por suas narinas, os olhos estreitos para a irmã. Não que Anne pudesse ver, mas ela com certeza podia intuir sua exasperação, tanto que a menina comentou, após morder seu lábio inferior travessamente.
— Acho que era a essa cara que Sirius se referia.
— Calada. — A mais velha ralhou, se levantando da cama para lhe dar um tapinha na testa. — Black é uma má influência para você. Não sei por que raios eu sugeri que te buscassem em St. Sensille.
— Porque nem você é tão má. — respondeu de prontidão, acompanhando com a cabeça o movimento de Bervely pelo pequeno quarto. — Pra onde você vai?
— Treino. — Bervely guardou o anel dentro do saquinho de pano em que viera, decidindo que descobriria o que fazer com ele depois.
— Ah. — Anne fez uma careta, mas dessa vez não pediu para ir também. Bevy nunca deixava, mesmo. — Divirta-se.
— Eu irei. E você, vê se não fica andando de hipogrifo o dia todo. Qualquer hora dessas vai cair e quebrar o pescoço.
— BD —
— Arcum genua!
Sentiu o feitiço aferroar seus joelhos, tentando derrubá-la na areia. Resistiu, se esforçando com o contrafeitiço não verbal, mas era difícil se concentrar. À sua frente e uns dois metros adiante, seu oponente brandia a varinha, forçando-a a se curvar à sua frente e ficar vulnerável.
O seu oponente estava longe de se parecer com o homem que fugira em cima de um hipogrifo em junho, após quase perder a sua alma para os dementadores. Ganhara peso e uma cor saudável e bronzeada, que parecia quase dourada à medida que o sol tocava o horizonte, lançando laranjas, amarelos e róseos sobre eles.
Seu oponente abriu um sorriso de trinta dentes ao ver que ela estava sucumbindo. No fim, foi o sorriso que aferrou seu estomago e lhe tirou qualquer chance de realizar o contrafeitiço, a lançando na areia úmida daquela faixa de litoral com seus joelhos e palmas no chão.
— Ouch! — ele exclamou, dando risada. — Essa foi bem patética, boneca.
— Você é suposto a ensinar, não a zombar de mim, Black. Merlin, eu odeio tanto você. — resmungou por entre os dentes cerrados, tentando reunir forças para levantar. Cada músculo de seu corpo doía. Não era a primeira, mas a vigésima vez que treinavam aquela defesa, e ela só tinha conseguido resistir metade das vezes.
Uma mão morena e grande surgiu em seu campo de visão.
— Anda, mais uma vez. Que tal transformar todo esse ódio em ímpeto defensivo?
Bervely aceitou a mão de Sirius, se içando e limpando a mistura de areia e água do mar dos joelhos de sua calça.
— Trabalhe a rotação do seu pulso, esse feitiço é tudo sobre rotação do pulso. E cuide para não mexer os lábios, você não quer que o seu adversário faça leitura labial e antecipe a sua defesa.
— Vá pro inferno. — xingou, ficando em posição de duelo novamente, a varinha em punho.
Sirius deu sua risada de cachorro ruidosa, brandindo a varinha no ar como se fosse uma baqueta. O feitiço fluiu de sua varinha até ela; Bervely sentiu a onda quente de energia abraçar as articulações de suas pernas.
Se ao menos houvesse ódio para transformar em ímpeto defensivo, pensou, rolando os olhos mentalmente. Concentre-se. Não ia deixar aquele ex-Grifinório petulante lhe jogar no chão de novo. Impetua genua! Ela sentiu o aperto folgar nas pernas, sustentou o encantamento, a mão firme em sua varinha. Arriscou olhar para Sirius, percebendo que agora sugira um sorriso de aprovação crescendo em seu rosto, ao notar que ela resistia ao seu feitiço.
Ele tornava as coisas muito difíceis desse jeito.
— Impetua Genua! — rosnou Bervely em voz alta, não só conseguindo rebater a azaração como jogando-a contra ele. Sirius foi lançado para trás, rolou uma vez e se levantou batendo palmas.
— Muito bom! Agora, essa foi fácil, porque eu disse o feitiço em voz alta, seu adversário não será tão caridoso! Seu contrafeitiço também precisa ser não verbal...
Bervely o deixou falar e se jogou na areia, exausta. O fim de uma marola tocou seus pés e subiu encharcando seus jeans, mas não fez caso; não só fazia calor como ela estava aquecida pela intensa atividade física que já durava umas quatro horas. Duelar – duelar de verdade, como Sirius estava lhe ensinando – exigia muito tanto da mente quanto do corpo, e sua resistência física estava longe do ideal, embora melhorasse semana após semana.
— Já chega por hoje. Não quero quebrar você nem nada.
— Não sou feita de cristal, sabe. — caçoou, embora concordasse plenamente em decretar o treino do dia como encerrado. Só não ia dar o braço a torcer. Ouviu ele sentar ao seu lado na areia, rindo.
— Cristal não, porcelana.
— Vai à merda, Black.
O silêncio recaiu entre os dois, confortável, enquanto ela recuperava o ritmo normal da respiração. Bervely abriu os olhos para o céu, que estava rajado de laranja, amarelo e dourado, num pôr do sol tão impressionante que nem parecia de verdade. Será que era sempre assim naquela parte do país?
Sentiu um toque em seu braço estendido e virou o rosto para reparar no que Sirius estava fazendo. Com a ponta do dedo, ele traçava o novo caminho que os ramos da rosa faziam em seu braço, do ombro até o pulso. A marca não retrocedera desde então, continuava a tomar grande parte do seu braço, serpenteando cheia de espinhos pela pele branca.
— Ainda machuca você? — ele perguntou num tom diferente do que usava para treiná-la. Era mais íntimo e preocupado, e Sirius só o usava em raras ocasiões, sempre quando estavam sozinhos.
— Não. Não tem me incomodado.
Ele assentiu, pensativo. Bervely lhe contara tudo sobre os acontecimentos pós-formatura em Hogwarts, como ela planejara para emboscar o Olho de Hórus e entrega-lo para os aurores, sem que com isso precisasse confessar suas próprias atividades criminosas em Azkaban. Ele ficara em parte impressionado – especialmente com a sua sorte, de ter conseguido encaixar peças de um plano tão arriscado – e depois, muito aborrecido com ela ter contado com Lucius Malfoy para reconhecer Carmichael. Não, a palavra era ofendido. Sirius ficara ofendido porque fora Lucius a defende-la de Thor. Não que ele fosse admitir, nunca em sua vida.
Ela também lhe explicara sobre a rosa; como a protegia agora, e não respondia à Bellatrix, mas a ela, Bervely. Isso o deixara aliviado. Mas é claro que ele ficaria aliviado, quem quer ter alguém ao seu lado com uma conexão direta com uma comensal da morte? Mas parecia mais do que isso. Bervely ainda estava tentando entender essa parte, nem sempre as reações de Sirius eram claras para ela.
Também lhe falara sobre a maldição do fogomaldito que Lucius conjurara e então a fizera sustentar em torno de Thor. Segundo Sirius, aquele era um encantamento muito complexo de se controlar, e se ela conseguira de primeira, devia estar com muito ódio acumulado.
Ela não duvidava do ódio que sentia pelo Olho de Hórus. A questão era outra. Algo que vinha lhe perturbando desde aquela noite em que, por uma questão de segundos, ela não fechara o anel de fogo em torno do bruxo e o transformara numa fogueira humana.
Naquele momento, onde as únicas pessoas num raio de quilômetros eram eles dois e ela sentia que a dúvida a atormentaria por um longo tempo se não colocasse para fora, Bervely deixou a pergunta escapar dos seus lábios.
— Você acha que eu o teria matado?
Apesar de abrupta, fez um sentido imediato para Sirius. Talvez ele tivesse se perguntado o mesmo, a certa altura. Após um momento em que suas sobrancelhas se encostaram brevemente uma na outra, ele anuiu.
— Acho que você poderia, se tivesse a chance.
— Eu tive a chance. — rebateu, rouca, olhando para o céu cor de rosa. — Eu poderia ter feito.
— E por que não fez?
Fechando os olhos, ela conseguia se transportar para aquele exato momento em que segurava sua varinha na direção de Thor Carmichael. Sentia a energia ardente do encantamento fluindo de si e poderia, se apenas quisesse, estreitar o anel de fogo incandescente e mortal em torno dele até que não sobrasse nada a não ser seus restos carbonizados. Ela até podia respirar o ar pesado na sala, enquanto o oxigênio ia sendo consumido, e ver os olhos dele, os olhos profanados de Hector, lhe prometendo vingança se ela ousasse não ir até o fim. Até Thor sabia que ela ia mata-lo. Ele esperava isso dela. Lucius esperava isso dela. Ela esperava isso...
Era o que Bellatrix faria. Ela ficaria orgulhosa, você sabe que ficaria.
No entanto...
— Eu não sou como ela. — murmurou, surpresa.
Surpresa por ser esse o motivo. Surpresa por ter dito em voz alta. Mas quando olhou para Sirius ele sorria em plena concordância, sabendo muito bem a quem ela se referia.
— Não. Você não é como ela. Você é muito melhor.
— BD —
Retornaram caminhando, apesar de ser uma boa distância até a cabana. Bervely não sabia qual era a desculpa dele para não aparatar, mas a sua era bem nobre:
Sirius Black andando pela praia ao pôr do sol era uma visão de doer o coração.
De propósito, ela atrasou o passo para observá-lo. O cabelo dele estava ainda mais comprido, ultrapassando a cintura, mas Sirius se recusava terminantemente a cortá-lo. Caia pelo vale entre os ombros largos, até a cintura estreita, a poucos centímetros da barra da calça de treino. Eram parte do seu apelo rebelde, junto com as tatuagens das runas de Azkaban, que ainda ilustravam seu peito, braços e nós dos dedos.
Ela sentia um estranho orgulho em vê-lo saudável, bonito novamente, com o brilho de volta aos seus olhos. Se o preço a se pagar por tudo isso eram aqueles treinos longos de duelo, ela estava disposta a duelar até que seus braços caíssem.
Sirius se virou de repente para trás e flagrou o sorriso enviesado nos lábios da garota. Ele espelhou a expressão, o canto de sua boca se erguendo torto do mesmo jeito.
— O que foi?
O rosto de Bervely esquentou. O bastardo sabia que estava sendo admirado. Estava escrito bem em sua cara convencida que sabia.
— Nada, Black. — Negou com a cabeça, olhando para o mar, apertando seus lábios firmemente para reprimir qualquer expressão em seu rosto e não alimentar ainda mais o ego de Sirius. — Apenas continue andando.
Ele lhe deu uma piscadela cúmplice e seguiu em frente.
Um feitiço revelava o caminho para a cabana, subindo uma inclinação onde a praia se transformava em floresta fechada. Por cerca de quinze minutos, andaram na trilha pouco iluminada, cada vez mais embrenhados na floresta até onde ficava a pequena habitação que os abrigava há quase quatro semanas, desde o início das férias de verão.
Era a única propriedade que os pais de Lupin tinham lhe deixado como herança. Se não fossem os feitiços de expansão, mal seria suficiente para ele, quanto mais para quatro pessoas e um gato mágico. Era minúscula, embrenhada no parque nacional de Dunderness, e servira no passado para que o lobisomem passasse as luas cheias, quando ficou perigoso demais que ele se transformasse na casa de seus pais em Londres. Como a sua localização era protegida e quase ninguém sabia da sua existência, lhe parecera um bom lugar para esconder Sirius provisoriamente.
Isso até aquela noite. Quando Sirius estancou em sua frente e fez um sinal com a sua mão para que esperasse, Bervely sentiu o coração enrolar no peito. Ela sabia que havia alguma coisa errada.
— Temos visita. — disse num tom sombrio, puxando a varinha. Os ombros dele ficaram tensos.
Bervely o imitou, armando-se, sentindo todos os seus pelos arrepiarem. Não tinha como ser um tipo bom de visita; ninguém deveria saber que eles estavam se refugiando ali.
— Você precisa se esconder. — ela lhe advertiu, enquanto se moviam entre as árvores à procura de um ângulo melhor para ver a cabana. Conseguiu divisar duas silhuetas sentadas à mesa da minúscula cozinha, através da janela aberta. Estavam de costas. Lupin, de pé, se movia pela cozinha, mas era impossível descobrir o que estava fazendo. Anne não estava à vista. — Devem estar atrás de você, é melhor não entrar...
— Nem fudendo que eu não vou entrar — rosnou Sirius, se transformando em seguida. No minuto seguinte, a silhueta negra e enorme do cão cobria a distância até a cabana, rosnando.
— Merda. Merda.
Bervely saltou uma raiz alta e seguiu correndo atrás dele, o elemento surpresa mandado às favas. Viu o cão entrar pela porta encostada, ouviu os gritos na cozinha e quando atravessou pela mesma a porta, viu uma cena improvável se desenrolando:
Sirius tinha os dentes arreganhados, rosnava alto, literalmente sobre de um dos visitantes, suas massivas patas cravadas em cada um dos ombros do bruxo que ele claramente derrubara da cadeira. Sua vítima era um exangue Severus Snape.
— Já chega, Snuffles — disse Remus tranquilamente, dando batidinhas na cabeça do cão, algo que Bervely jamais teria arriscado dado o nível de exasperação do animago naquele momento. — Não precisa comer a visita, ele veio aqui atrás de Bervely, e não... bem, outra pessoa.
O cão rosnou ainda mais alto e mais perto do rosto pálido de Snape, se é que isso era possível.
— Atrás de mim? — Bervely estranhou, seus olhos correndo para Remus e para o outro homem estranho na cozinha, que vestia uma farda roxa e parecia incerto sobre defender o mestre de poções ou não. — Mas eu não tenho nada para falar com ele.
— Na verdade sou eu quem gostaria de lhe falar, Srta. Black. O Prof. Snape fez a gentileza de me acompanhar até aqui... de desvendar o seu paradeiro, na verdade.
A voz do outro estranho era familiar, e isso a fez o olhar novamente, desta vez com atenção. Não era à toa que ele era familiar; já tirara a roupa na frente dele uma vez. Bem, usando o corpo de Charlotte, mas ainda assim.
— Shadowtamer?
O jovem piscou, surpreso. Os mesmos olhos claros e rasgados, embora usasse o cabelo mais comprido e estivesse fora do uniforme de Quarter em que ela se acostumara a vê-lo no tempo em que estivera infiltrada em Azkaban. Era muito estranho vê-lo sem o uniforme. Era muito estranho vê-lo ali na cabana de Remus numa floresta do sul da Inglaterra, acompanhando Snape. Querendo falar com ela. Um arrepio de horror perpassou sua coluna; será que ele tinha descoberto...
— Nós já nos conhecemos? — o jovem perguntou, franzindo o rosto. Tentando se lembrar dela. Bervely se empertigou, negando.
— Não. Não, eu apenas... o reconheci do jornal. Você não é o filho daquele cara importante de Azkaban? Vi sua foto no Profeta Diário, naquela época em que Black escapou da prisão.
Era uma péssima desculpa; Theodor fora citado nos jornais a respeito da fuga de Sirius, mas ela nem lembrava se havia uma foto dele na matéria. De toda forma, o rapaz pareceu ligeiramente sem graça.
— Ah, certo. Que memória impressionante a sua. — Ele deu um sorriso amarelo. — Não é em nome de Azkaban que eu estou aqui. Na verdade, já faz um tempo que não trabalho mais lá. Mais ou menos desde essa reportagem, na verdade. — outro sorriso sem graça. Claramente Theodor não pretendera ser reconhecido por esse fiasco do seu passado.
— Nesse caso, o que o traz aqui? — ela exigiu saber, desconfiada. Percebeu que ainda empunhava a varinha, mas não se sentia inclinada a largá-la. Sirius ainda rosnava em cima de Snape, que tentava se livrar do cão, desgostoso.
— Eu vim em nome do Instituto Flamel. — ele explicou rápido, percebendo que a tensão dentro da pequena cozinha estava se elastecendo perigosamente — Estou trabalhando com a minha mãe desde que deixei o meu posto em Azkaban... Você deve conhece-la, Calidora Agrippa? Ela assinou a sua carta se admissão para a vaga oferecida no nosso programa de Alquimia.
— Eu recusei essa vaga. — ela disse de imediato, sem se mostrar impressionada pelas credenciais dele. Theodor assentiu, parecendo um pouco ansioso.
— Sim, mas se pudermos conversar, eu trago uma proposta...
— Eles querem negociar com você, Bervely. — Remus explicou, prestativo, do seu canto da cozinha. Ela reparou que ele estava servindo chá para as visitas antes de Sirius irromper pela cozinha. Por que infernos Lupin serviria chá para o homem que entregara seu segredo peludo para a escola inteira há pouco mais de um mês, Bervely não saberia responder.
— Se alguém puder tirar o animal de cima de mim — Snape esbravejou, indignamente esmagado pelo cão contra o piso de lajotas de Remus, e parecendo usar cada resquício de suas forças para parecer digno nessa posição. — Tudo será devidamente explicado.
Bervely olhou de Sirius (que inclinou a cabeça e começou a rosnar bem perto ao rosto de Snape quando ele começou a falar, forçando o bruxo a torcer o pescoço e encostar sua bochecha no chão) até Remus, que parecia indeciso. Eles trocaram um breve olhar e ela viu a sombra de um sorriso debochado se anunciando no canto da boca do lobisomem. Ele fez um movimento de ombros sutil, como em “você quem sabe”.
Bervely suspirou, rolando seus olhos para o cachorro.
— Snuffles, se não for pedir muito, você faria a gentileza de sair de cima da visita?
O cão lhe olhou com indignação. Estava claro que ele preferia continuar destruindo a dignidade de Snape até que só restassem frangalhos grudados no piso.
— Você pode colocá-lo para correr, se não gostar do que ouvir. — ela sugeriu, com um meio sorriso.
O cão deliberou e então, devagar e a contragosto, saiu de cima do mestre de poções. Snape se ergueu, recuperando debaixo da pia a varinha que perdera na queda. A cozinha ficou em silencio esperando que ele espanasse a longa capa negra da poeira imaginária. O brilho maligno em seus olhos prometia torturas horríveis para o cão, mas antes que ele dissesse qualquer impropério, Bervely cortou seu raciocínio.
— Você veio aqui sem ser convidado, Prof. Snape. — ela lhe lembrou, desafiadora. — Não pode esperar ser recebido com festejos.
Ele transferiu seu olhar maligno para ela. Bervely não se arrependeu – anda não o perdoara. Claramente, a recíproca era verdadeira.
— Aproveite enquanto pode, Bervely. — disse azedamente. — Os seus dias com o vira-lata estão contados.
Ela ergueu uma sobrancelha para ele, que rodopiou a capa e saiu ventando a cozinha, sob latidos ruidosos de Snuffles. Ouviu Remus murmurar “dramático”, e reparou que ele parecia tranquilo sobre Snape parecer saber a verdadeira natureza do cão, se o estava deixando sair tão facilmente. O único que parecia perdido na cozinha era Theodor Shadowtamer.
— Espero não ter causado uma indisposição, trazendo o Prof. Snape comigo. Ele parecia interessado em vê-la, não só conseguiu o seu endereço com o diretor de Hogwarts como se ofereceu para me acompanhar. Estou certo em acreditar que ele é seu padrinho?
— Sim. — ela disse de má vontade. — Não se preocupe com ele, só está com o ego espezinhado. Vai demorar um tempo até superar. Então, sobre a sua proposta? Desculpe precisar vir até aqui, eu realmente não tenho interesse na vaga.
Theodor olhou de relance para Remus, que ainda estava por ali, a mão displicentemente enfiada no bolso da calça listrada. Ela teve a impressão de que ele segurava a varinha, e estava muito pronto para lançar um feitiço se fosse necessário. Apesar de sua aparência calma, o bruxo certamente saberia melhor do que confiar na história de Shadowtamer, ainda mais sendo ele o filho do diretor de Azkaban. Se Bervely não soubesse que o rapaz era também filho da famosa alquimista e diretora do Instituto Flamel, ela própria já o teria azarado.
— Será que podemos ter um pouco de privacidade? — ele perguntou.
Ela viu Lupin ficar um pouco menos blasé. Sirius voltou a rosnar baixinho. Quem eram os dramáticos mesmo?
— Tudo bem, Remus, pode me dar uns minutos com o Sr. Shadowtamer aqui. De qualquer forma, é melhor dar uma olhada em Snape, não queremos que ele saia por ai espalhando que temos um cão de guarda... muito violento.
Será que ele percebeu a sua deixa? Mas Remus ainda parecia resistente a deixa-la com Shadowtamer.
— Bervely...
Ela bufou.
— Vai logo. Snuffles vai ficar aqui comigo, quem precisa de varinhas quando se tem presas, não é o que ele sempre diz?
Remus enfim saiu, lhe lançando um olhar bem claro de “cuidado”. Bervely se voltou, encontrando uma expressão bem curiosa no rosto de Theodor.
— Seu cão fala?
— É modo de dizer. Ele é bem expressivo quando quer, é quase como se falasse.
Com um olhar estranho, Shadowtamer ergueu a cadeira que Sirius derrubara ao atacar Snape e se sentou nela. Bervely puxou a outra, vendo, pela visão periférica, Sirius se sentar bem ao seu lado e alerta.
— Vocês parecem bem preocupados com segurança aqui. — Theodor comentou, suas sobrancelhas escuras ainda franzidas. — Há alguma razão para estarem tão escondidos no meio da floresta?
— Lupin é um eremita, ele gosta do isolamento. Nós aparecemos no verão para aliviar sua existência miserável. — Suspirou com ares de grande sacrifício. — Então, Shadowtamer, o que o traz aqui?
Theodor preencheu os minutos seguintes explicando a sua proposta. Sobre como o Instituto estava interessado em tê-la em seu programa de formação em Alquimia e resolvera incrementar a proposta para deixa-la mais atrativa, de forma que Bervely não tivesse opção senão aceitar a vaga. Eles incluíam aposentos particulares, uma pré-aprovação para qualquer projeto que quisesse desenvolver em seu primeiro ano, desde que cumprisse os pré-requisitos éticos da Diretriz Padrão de Produção em Alquimia, e lhe garantiam recursos quase infinitos em termos de material e estrutura física, incluindo quatro horas diárias em seu melhor laboratório de Alquimia, que calhava de ser o maior da Europa.
E então, havia a outra coisa. A que provava não só que o Instituto estudara muito bem seu histórico, mas também que Theodor não fora até ali para receber um não e estava disposto a usar dos artifícios mais baixos:
— Nós também temos um programa de estudo avançado em doenças e afecções mágicas, no qual estamos dispostos a incluir sua irmã como sujeito. Nossa taxa de sucesso é de noventa e nove por cento, o que significa que é praticamente certo que encontraremos a cura para a condição dela. Nós podemos fazer sua irmã enxergar de novo, Srta. Black. E tudo que tem que fazer é aceitar. Perceba que é uma situação onde só há ganhos. Dizer não seria loucura.
Bervely estava tonta. O olhar persuasivo de Theodor sobre ela não estava ajudando em nada, nem mesmo o silencio incomum do cão ao seu lado. Olhou através da janela; não havia sinal de Snape, mas ela viu a silhueta de Anne se aproximando da cabana, vinda da floresta. Certamente estivera voando em Bicuço, uma das poucas coisas que colocavam um sorriso em seu rosto depois de tudo. Mas ela não ia poder ficar em cima de um hipogrifo para sempre.
— Então? — Theodor chamou sua atenção, esperançoso, embora certo de que sua proposta era muito difícil de recusar. — O que me diz?
— BD —
Uma hora depois, Bervely achou Sirius nos fundos da cabana, sentado sobre o muro baixo que separava o quintal de Remus da floresta. Era possível ver a lua quarto crescente a caminho do topo do céu, ao que ela fez um rápido cálculo; em uns três dias, seria lua cheia. Mas isso não a preocupava, pois a sua Wolfsbane garantiria que Lupin não precisasse se embrenhar na floresta durante a transformação. Também dispensara a preocupação de que Snape fosse denunciar o paradeiro de Sirius, porque Dumbledore garantira ao próprio Remus, há poucos minutos pela lareira, que Snape não só sabia que o cão era Sirius como acreditava na palavra do diretor sobre a inocência dele (aparentemente, Dumbledore era capaz de operar milagres, mais um item para sua lista de talentos improváveis).
Sirius no entanto – ela soube pela postura dele, e pelo fato de que não se moveu quando ela se aproximou – ainda estava emburrado. Desde que Theodor Shadowtamer fora embora que ele não dizia (nem latia) uma palavra, e a certo momento sumira de casa sorrateiro.
Bervely se aproximou do muro onde ele estava, conseguindo ver a linha dura de seu maxilar, indicação factual de seu humor azedo. Sentou ao lado dele do mesmo jeito, içando o corpo para cima do muro e quebrando o silencio que já a deixava agoniada.
— Esse mau humor todo é só porque Snape é meu padrinho?
Sirius demorou um tempo para responder, a voz soando cavernosa quando o fez.
— Eu já sabia. Remus me contou há algum tempo. Que tipo de idiota escolhe Snape para ser padrinho de uma criança?
Ela mordeu o lábio, segurando a resposta que não faria nenhum bem.
— Não sabia que vocês eram próximos. — ele completou num tom emburrado de acusação.
— Não somos mais. Não desde que ele tentou entregar você aos dementadores, em Hogwarts.
— Hum. — resmungou e ficou silencioso de novo. Depois, após um longo tempo que fez Bervely acreditar que uma greve de silencio estava entrando em vigor, ouviu-o de novo: — Você sabe que tem que ir, não sabe?
Bervely não tinha dado uma resposta para Theodor; no lugar disso, lhe pedira um tempo para pensar. Era suposto a enviar uma coruja para ele até a segunda feira.
— Por causa de Anne?
Sirius negou, e isso sim foi uma surpresa. Ela achava que tanto ele quanto Remus lhe acusariam de egoísmo se ela recusasse a proposta, se recusasse uma chance de Anne enxergar de novo. Ela esperou, lendo sinais de frustração nos gestos dele; um suspiro pesado, as mãos escovando o cabelo longo para longe do rosto.
— Você tem que ir, porque não ir seria estúpido. Por que eu vi a expressão em seu rosto quando ele disse que veio em nome do Instituo Flamel.
— Não importa a expressão em meu rosto, eu n—
Eu não posso ir e ficar sabe-se lá quanto tempo longe de você.
Mas Sirius era lerdo demais para entender, e ela covarde demais para confessar.
— Além do mais, lá você estaria segura. Vocês. Mas você principalmente, que se mete em problemas cem vezes mais do que Johanne sequer sonharia.
Ela se virou para ele, um vinco entre suas sobrancelhas.
— Do que está falando? O Olho de Hórus está preso! Não tem ninguém mais atrás de mim! Você não acha que eles seriam loucos de soltá-lo...
— Eu não posso arriscar. — disse baixo. Por um momento, ela pensou não ter entendido bem. Não até Sirius pegar sua mão no escuro, e envolve-la no meio das dele. E lá estava de novo a voz íntima e preocupada, paterna, que ele só usava de vez em quando, quando estavam só os dois, quando ele queria que ela entendesse.
— Eu quero caçar Pettigrew, provar minha inocência e ficar com vocês sem ter que me esconder. Mas para que eu consiga, eu preciso que você esteja fora de alcance.
Ela sentiu os olhos pinicarem e aquele familiar nó crescer e se apertar em sua garganta. Sabia do que ele estava falando. Só não queria...
— Do alcance de quem? — perguntou com amargor cínico — Do seu?
— Também. Só por um tempo. Só até eu resolver tudo por aqui.
Ela negou, pronta para protestar aquela lógica ridícula dele, só que não disse nada porque sabia que sua voz sairia toda falha e entrecortada.
Eu não consigo resolver as coisas com você por perto, Bervely. Ela ouvira aquilo, ou imaginara? Não importava, era a verdade.
— Vamos fazer um Feitiço Fidelius para proteger a localização de vocês, assim ninguém vai acha-las. Eu vou ser o Fiel, dessa vez. — completou, a voz rígida. — Será por pouco tempo.
Ela quis gritar que não. Que não estava pronta para se separar dele. Que não queria se afastar. Que não havia nenhum perigo. Que podiam até ficar ali na cabana para sempre, depois que o verão terminasse, e por muitos anos. Que provar a inocência era besteira, e pra que ele queria parar de se esconder, se todo mundo que importava estava ali e sabia que ele era inocente?
Mas ao invés de dizer qualquer uma dessas coisas, ela se pegou assentindo.
— Tudo bem. Só até você pegar o rato nojento.
Ele abriu aquele sorriso. O que valia uma Ordem de Merlin, primeira classe. Que produziria um patrono forte o bastante para afugentar um milhão de dementadores.
O sorriso que transformava seu interior em líquido quente, e contra o qual seu ‘não’ não tinha nenhuma chance.
Sirius se inclinou e plantou um beijo em sua têmpora.
— Obrigado, filha.
Bervely fechou os olhos. Pelo menos aquela noite, não tinha que ir para lugar nenhum. Lugar nenhum longe da sua família.
— De nada... pai.
They say the true black rose does not exist.
That the blackest rose in the world
has just a deep shade of crimson,
what causes an illusion of darkness.
There is something they don’t know, however.
Black is not a matter of color…
is a state of mind.
(Ly Anne Black)
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