Indigna Rosa Negra

12 Cartas Para a Rosa


Notas iniciais
Obrigada pelos comentários, lindos e lindas, e também pela participação e discussões no grupo do face! Boa Leitura!

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Absorvido pelo enigma que Bervely Black representava, o Dr. Fritz as vezes se esquecia de que ela era, antes de tudo, uma adolescente aflingida por acontecimentos com os quais não pudera lidar, e que aquilo, em primeiro lugar, a levara a ser internada naquele hospital. Se cometera o deslize de deixar essa verdade escorregar para baixo das suas percepções sobre a paciente, era confrontado com a realidade naquele exato momento, enquanto a garota, sentada na habitual cadeira de sua sala de atendimentos, soluçava.

Andrômeda tentava consolá-la, sem com isso atravessar o limite medibruxo-paciente e deixar transparecer o quanto estava devastada pelo modo como a sua sobrinha fora tratada pela Sra. Longbotton. O esforço para não levar as mãos até o cabelo de Bervely – agora preto lustroso – era evidente, bem como fora o esforço para não azarar a matriarca Longbotton e acabar perdendo o seu cargo no hospital, e muito provavelmente arruinando a sua carreira.

Isso tudo estava escrito em seu rosto: piedade e impotência diante da injustiça que não fora capaz de evitar.

– Me deixe conversar com ela, Andrômeda. – ele pediu, num tom baixo para que só a colega o ouvisse. Ela pareceu resistente, mas enfim assentiu e saiu, suas narinas infladas, tudo na sua expressão e postura indicando perigo. O Dr. Fritz não queria estar no lugar de Augusta Logbotton naquele momento.

Fechou a porta, isolando os barulhos externos, evidenciando os soluços da garota. Ao invés de se sentar na sua própria cadeira, apoiou-se à mesa, em frente a ela.

– Bervely. – ele chamou, suavemente. Ela tremeu sob o som do seu nome, e não levantou o rosto das mãos, onde o escondera. – Eu posso imaginar como foi terrível ouvir aquelas coisas.

– É mesmo? E quantas pessoas sua mãe matou? – ela contra-atacou, sua voz abafada pelas mãos, mas clara. Fritz cerrou seus olhos, se sentindo péssimo. Não havia resposta para aquilo e ela estava certa, como ele poderia saber? – Quantas pessoas a sua mãe torturou até enlouquecer?

– Mas como você mesma disse, você não é ela. Há uma diferença…

– Cale a boca! A única diferença é que eu sinto a dor, enquanto ela não sente nada! Eu sinto a culpa, e eu me odeio, mas ela, ela… – sua voz morreu, cortada pelo retorno dos soluços.

– Como pode saber disso? Da última vez que a viu, você tinha apenas quatro anos…

– EU A VEJO TODAS AS NOITES! Eu a vejo nos meus sonhos, nos meus malditos sonhos sempre que eu sou fraca o bastante para deixá-la entrar!

Ele assentiu, surpreso com a confissão, mas não com o fato em si. Já desconfiava daquilo, com base no que ouvira quando ela murmurava durante o seu longo período de inconsciência.

– Não são reais, Bervely, os sonhos. É apenas uma projeção da sua mente, mas você pode contê-los…

– Não! Não, eu não posso… oh, você simplesmente não entende!

Naquele exato momento, sua velha tatuagem da rosa em seu pulso ardia, e pulsava, e ela sabia que onde quer que estivesse, sua mãe se regorgizava da sua agonia. Era tão intensa que atravessava o laço mesmo agora, estando acordada, e chegava até ela.

– Você precisa me prender. Com aquelas… aquelas algemas! Dentro do quarto, na cama, e não me soltar, e trancar a porta e as janelas – começou a falar atropeladamente, com uma urgência doente impressa em seus olhos.

Olhos negros. Profundamente negros.

– Não, sem mais quarto para você. Nem anilhas de contenção. Muito pelo contrário, eu acho que você deve receber alta.

– Alta! Você enlouqueceu? Eu não estou pronta! Não estou curada!

– É normal sentir medo, Bervely.

Ele deu a volta na mesa e pegou o espelho, entregando-o para ela. Não pode reprimir um sorriso.

– Você conseguiu.

Bervely olhou para o próprio rosto, o seu rosto. As suas maçãs do rosto altas, os cílios molhados de lágrimas, meia dúzia de sardas sobre o nariz. Seu cabelo preto emoldurando o rosto, sua herança genética Black ali implantada, e inegável.

– Mas… como…? – murmurou, aturdida. Não fazia qualquer sentido lógico para ela. Naquela mesma manhã acordara e checara que ainda estava com o rosto de Wendy, como vinha fazendo todos os dias. E o dia fora perfeitamente comum, a nãos ser por ouvir da Sra. Longbotton que ela era desprezível como a sua mãe.

– Se quer mesmo ouvir minha hipótese – o medibruxo sentou-se novamente no tampo da sua mesa, se inclinando para ela. – eu acho que era a sua própria magia a responsável por modificar a sua aparência. Isso acontece às vezes, embora seja raro… um trauma pode gerar uma magia involuntária, e eu acho que foi o caso. Alguma coisa aconteceu, e a afetou de forma tão profunda que interferiu até mesmo na sua identidade.

– Um trauma? – ela repetiu, os lábios brancos.

– Sim. Por um momento, o que quer que tenha acontecido com você lhe fez ter vergonha de ser quem você era. E você inconscientemente escolheu a identidade mais próxima como um esconderijo. Obviamente o nível a que levou essa defesa, gerando para si mesma um novo rosto, e mantendo-o por tanto tempo e mesmo inconsciente, é espantoso. Nunca vi acontecer antes.

Ela negou, tentando processar a explicação do médico, mas esbarrando em vários pontos.

– Eu não posso ter gerado um novo rosto por magia involuntária. Eu sou uma puro-sangue!

– E o que uma coisa tem a ver com a outra?

– Você tem que saber disso! Emissões involuntárias de puro-sangues são sempre extra-corpóreas, o que significa que elas sempre afetam o ambiente, e não ao corpo do bruxo! Esse tipo de coisas só acontece com sangue-ruins!

– Sim, eu estou ciente dessa premissa de fisiomagia. Mas hoje em dia, mesmo os bruxos mais puros podem ter traços mestiços entre as suas gerações…

– Não na minha família! – rebateu com ultraje – Os Black são puros e eu sou puro-sangue por cinco gerações! Honestamente, você não tem uma droga de uma ficha sobre mim? Isso tem que estar escrito lá, em algum lugar!

Ele assentiu. Há muito tempo aprendera que discutir com bruxos provenientes de famílias como a dela sobre pureza de sangue e mestiçagem era um beco sem saída.

– O importante é que você recuperou o seu rosto, Bervely. E eu não vejo motivo pelo qual ainda precise ser mantida aqui. Já não há dano mágico, e sete meses de internação são mais do que suficientes, não acha?

– Mas eu não sei que “trauma” é esse sobre o qual está falando, não faço a menor ideia!

– Não tem que se preocupar com isso. Sua memória vai retornar aos poucos, e a sua família vai te ajudar. São eles que podem te auxiliar a partir de agora, muito mais do que que eu ou o hospital. Realmente sinto muito por tudo que precisou ouvir da Sra. Longbotton, mas não podemos negar a sua utilidade, pois no final das contas parecia ser a peça que estava faltando para lhe trazer de volta completamente.

Ele sorria, genuinamente feliz, genuinamente satisfeito em olhar para o rosto verdadeiro de Bervely Black pela primeira vez.

Ela não compartilhava a sua empolgação. Já não tinha certeza se queria voltar para casa.

– BD –

– Você está ansiosa para voltar para casa? Acha que vai haver uma festa? Oh, aposto que os seus pais vão te dar o que você quiser, não vão? Um unicórnio filhote ou até mesmo a sua própria biblioteca de gibis se você pedir!

Bervely rolou os olhos e ignorou Arty, que não parava de perguntar as coisas mais absurdas desde que descobrira que ela tinha recebido alta. Sem pressa, arrumou os poucos pertences em uma sacola fornecida pelo hospital: o livro de P. Malfoy, alguns frascos de Poção do Sono Sem Sonhos feitas por ela mesma na manhã anterior, e que obtivera autorização para levar consigo, e um casaco de frio que estivera usando quando dera entrada no hospital, mas que no verão de Londres não fazia sentido vestir. Depois, ela olhou indecisa para os dois papéis de doce que recebera de Alice Longbotton, em ocasiões diferentes no último mês. Não sabia porque os tinha deixado em sua gaveta ao invés de jogá-los fora.

– Você precisa de alguma coisa, Bervely?

Levantou o rosto a tempo de ver a medibruxa-chefe Tonks entrando na ala e chegando até a sua cama, e se perguntou se a encarregada do departamento vinha pessoalmente ajudar todos os pacientes que recebiam alta. Talvez fosse o fato de ela ser uma Black, Tonks finalmente entendera com quem estava lidando e decidira lhe dedicar tratamento especial.

Era a última coisa que queria no momento. Principalmente porque desde o incidente com a Sra. Longbotton na manhã anterior, a medibruxa lhe lançava aquele olhar estranho que se parecia horrivelmente com pena.

– Não, eu estou bem.

– Sua carruagem já está lá fora. Há alguém de quem queira se despedir antes de ir?

Seu estômago embrulhou ao pensar na carruagem, não sabia muito bem o que encontraria lá dentro, então desviou seu pensamento para a pergunta. Ao avisar à Sra. Grandgnol que recebera alta, e que não ia mais retornar ao laboratório de poções, recebera uma lamentosa recomendação de que pensasse em voltar para fazer um estágio ali depois que terminasse a sua educação mágica. Além disso ela supunha que a sua última conversa com o Dr. Fritz servira como uma espécie de despedida, e não havia mais ninguém…

A não ser… olhou duvidosa para a cortina florida, que estava fechada. Mas os gritos da Sra. Longbotton ainda ardiam em seus ouvidos, então concluiu que não poderia.


– Ela não quer se despedir de mim, porque é doloroso demais. Mas seja forte, pequena Bervely, você consegue. – disse Arty sorrindo matreiro da sua cama.

– Tem razão. – suspirou, num falso pesar – Adeus, garoto-bolha. Nossa, até que não foi tão difícil.

Andrômeda deu um sorrisinho divertido.

– Tem tudo que precisa? – perguntou, olhando para a sua mala ainda aberta. Bervely assentiu – ótimo, então vamos, eu te acompanho até a porta.

Num impulso, ela catou os dois papeis de doce amassados e jogou na mala, antes de fechá-la.

– Me escreva! – gritou Arty, quando estava saindo. Ela ainda pode ouvir ele resmungando algo como “essa garota me ama, pena que não pode admitir pra si mesma”, e não pôde evitar um sorriso tardio em seu rosto.

A Dra. Tonks cruzou os corredores do quarto andar em silêncio com ela, que começou a se perguntar se quem quer que tivesse vindo lhe buscar não tinha querido subir os elevadores. Talvez fosse uma política do hospital, esperar na recepção? A ansiedade rolava em seu estômago enquanto pensava nas possibilidades. Narcissa? Charlotte? Ambas? Todos eles?

Como ia explicar para qualquer um o que lhe acontecera, porque ficara presa em outro rosto, porque dormira uma eternidade?

Porque ninguém tinha vindo lhe visitar e não recebera nenhuma carta?

Ah, que bom que eu alcancei vocês! Pensei que não ia dar tempo. – ela ergueu os olhos com surpresa para o Dr. Fritz, que entrava no elevador quase um segundo antes das portas se fecharem. Ele usava suas roupas casuais, não o jaleco verde do hospital.

– O que está fazendo aqui? Hoje não é seu dia de trabalho. – ela estranhou, e estranhou mais ainda como ele parecia com alguma expectativa e nervosismo. Mais ou menos como ela mesma se sentia, mas ao ouvir suas palavras sorriu e trocou um olhar significativo com a Dra. Tonks.

– Vim dizer até logo. – ele explicou ainda com os olhos meio franzidos, da sombra do sorriso – e desejar boa sorte.

– Então você também acha que eu preciso de sorte? – perguntou meio azeda.

– Todo mundo precisa de um pouco de sorte. E quero que saiba que pode me escrever, se achar que precisa. Será sempre bem-vinda.

– Isso é política padrão do hospital, ou você só está mascarando muito mal o fato de que acabou se apegando a mim?

Ele riu, e até a Dra. Tonks não reprimiu um sorriso. Tinham chegado à recepção, onde ficavam um monte de cadeiras de madeira e havia um ar geral de caos porque muitos bruxos com as mais estranhas afecções mágicas faziam barulhos, e era uma correria de gente para um lado e outro.

– Eu não preciso mascarar o fato de que me afeiçoei a você, Bervely. Apesar de se esforçar no caminho contrário, você tem uma personalidade cativante. Foi um prazer ser o seu medibruxo durante esses meses.

Ela rolou os olhos para todo o sentimentalismo, mas acabou dando um mínimo sorriso de reconhecimento e apertando sua mão.

–Obrigada pela sua curiosidade incurável e suas devoluções irritantes, Dr. Fritz.

– Eles não estão aqui. – A medibruxa murmurou ao seu lado, e a garota logo percebeu que seus olhos varriam os vários bruxos que esperavam no lobby, e que deveria se referir a alguém da família dela.

– Eles devem estar na carruagem – se adiantou, a voz apressada – sabe como é, não gostam muito de se misturar com… gente estranha.

– É… – concordou, pensativa.

– Então eu vou indo. Obrigada por tudo.

– Bervely – a Dra. Tonks a chamou quando ela quase tinha conseguido fugir deles e se misturar a caminho da multidão. Se virou com o coração apertado, e encontrou um olhar muito mais intenso no rosto da bruxa do que tinha esperado – se você precisar de qualquer coisa…

– Eu escrevo, entendi. Não estou pensando em dormir direto por meses ou trocar de rosto de novo, então, obrigada.

Ela escapou antes que o momento ficasse mais estranho ou pessoal demais, e correu para a porta, atravessando-a e ao encantamento que a fazia se parecer com uma vitrine de vidro de uma loja abandonada. Num segundo, estava de pé na calçada da rua Ledenhall, o ar quente e estagnado tocando sua pele exposta, os olhos buscando ansiosamente qualquer sinal de que eles estavam mesmo ali. Mas tudo que viu foi um monte de carros, bicicletas, gente trouxa com suas roupas e aparatos estranhos, indo e vindo, e aquele céu enorme, meio cinza meio azul, indefinido.

Um carro começou a buzinar do outro lado da rua, e o barulho a irritou, e ela procurou qual era até parar os olhos num luxuoso automóvel branco que tinha semelhanças engraçadas com as carruagens Malfoy, o que incluía as maçanetas em formato de serpente e os frisos verde-escuros.

Seu cérebro finalmente estalou. Obviamente eles teriam ilusionado a carruagem para se parecer um carro trouxa, como iam explicar uma carruagem mágica com um cavalo alado parada no meio de Londres? Com um suspiro de exasperação para si mesma, atravessou a rua o mais rápido que pode (quase atropelando um ciclista) e agarrou a serpente da porta traseira. A magia se dissolveu só para seus olhos, e a carruagem se mostrou como era na realidade. A esse ponto ela já sentia cólicas de ansiedade sobre o que teria de enfrentar quando entrasse ali.

A não ser pelo fato de que quando a porta se abriu, o seu interior estava vazio.

– O quê…?

– Menina Black! – uma forma se materializou do nada, a fazendo saltar. – Dobby estava escondido para o caso de ser um trouxa a abrir a porta! Entre, entre! Dobby muito feliz em ver menina Black depois de tanto tempo!

Bervely obedeceu a sugestão, principalmente porque não queria ser vista falando com um elfo doméstico. Ela se sentou meio dura em um dos bancos, observando a criatura que continuava exatamente como se lembrava, olhos enormes e aquosos e a fronha suja à guisa de camisola. Ele fez alguns estalos para indicar ao cavalo que podiam ir, e começaram a se movimentar.

– Menina Black se sente bem? Precisa voltar para o hospital?

– Eu me sinto bem – mentiu – Onde estão… meus tios?

Ela não completou com “que não vieram me buscar”. Não queria soar como alguém carente, nem dar a entender que aquilo era importante demais para ela.

Mas estivera no hospital por sete meses inteiros

Mestre Malfoy estar trabalhando. Mestra estar muito, muito, muito ocupada em casa.

Dobby saltou no banco oposto ao dela para espiar na janela, e pareceu concluir que estavam em algum lugar isolado, pois deu a ordem para a carruagem voar. O cavalo obedeceu e a carruagem ficou leve por um momento, provocando um ondular desagradável em seu estômago. Voar sempre lhe deixava enjoada.

– Dobby – arriscou, a voz um pouco embargada – e… Charlotte?

O elfo demorou propositadamente para responder, puxando as suas orelhas grandes para frente.

– Dobby não saber.

– Onde Charlotte está?

– Dobby não saber! – o elfo guinchou, como se a questão o perturbasse profundamente.

Impressionada com a reação exagerada a uma questão simples, Bervely decidiu não fazer mais perguntas ao elfo. Primeiro porque toda vez que abria a boca podia ser aquela em que poria o café da manhã para fora, e segundo que, no fundo, estava com medo de ter as respostas.

– BD –

A primeira visão da Mansão Malfoy sempre fora, para ela, de parar o coração. Haviam muitos feitiços protegendo o espaço aéreo dos Malfoy, portanto era sempre mais prático pousar no topo da colina e cavalgar o resto do caminho de Princenton até o topo quando se chegava de carruagem, e naquele último momento ela sempre olhava pela janelinha e esperava a Mansão surgir, não aos poucos, mais na diferença de um passo, sem aviso, como se não estivesse lá, e de repente estivesse, inteira, em seu esplendor atordoante.

Era toda corte retos e janelas compridas, enormes do chão ao teto, negras contra o fundo marmóreo das paredes. Quatro andares, seis torres, trinta janelas frontais que àquela hora do dia refletiam a luz e pareciam espelhos. Ela crescia e engolia o seu campo de visão enquanto se aproximavam, e parecia exatamente a mesma de quando a deixara, a não ser pelo fato de que agora não estava coberta de neve, mas reluzindo sob o forte sol de agosto.

– Dobby vai anunciar sua chegada para Sra. Malfoy.

Anunciar…?

Mas o elfo já tinha ido na frente, apressado levando a sua mala, e tudo que lhe restou foi segui-lo num passo lento e preocupado. Estava muito silencioso no caminho para o hall, e também quando atravessou as portas duplas tão altas que deixariam entrar um gigante. O pé direito da Mansão era todo alto e costumava lhe dar a sensação de liberdade, mas agora a fazia se sentir pequena.

Parou na sala de visitas com o peito queimando, passando os olhos por cada detalhe da decoração, como sempre, impecável. Vasos longos de cristal com copos de leite, os inúmeros quadros, trapeçarias, móveis pesadíssimos de ébano que eram impossíveis de mover sem magia.

E nenhuma alma viva ali para recebê-la.

Bervely respirou fundo e subiu as escadas. Não importava o quão quente era o verão, dentro da mansão estava sempre frio, e ela nunca soube se eram os feitiços de resfriamento ou se, simplesmente, a construção não permitia que o calor entrasse. Mais ou menos como o coração de um Malfoy… certo?

Já tinha decidido que ia direto para o seu quarto quando ouviu movimento na biblioteca. Sentindo uma súbita saudade do lugar e querendo checar se também continuava o mesmo, desviou o seu caminho, imaginando que encontraria ali um dos outros elfos, fazendo alguma limpeza nas centenas de livros da coleção dos tios.

O amplo cômodo se abriu na sua frente, muito maior, muito mais alto, do que se lembrava. Devia haver o dobro de livros ali, e alguém estava em cima de uma escada flutuante, ordenando-os. Não era um elfo, mas uma mulher esguia em vestes azuis, cuja primeira coisa a se destacar eram os cabelos loiros clarríssimos.

– Tia?

Narcissa Malfoy se virou, sua expressão se congelando no que, na falta de uma palavra melhor, Bervely classificou como surpresa. Ela então colocou o último livro em sua mão na prateleira, em perfeito alinhamento, e depois desceu elegantemente a escada, alisou as vestes e veio andando na sua direção, tudo isso sem nenhuma pressa. Bervely achou por um momento que a tia ia abraçá-la, mas ela não o fez. Ao invés disso parou em sua frente e a observou com as sobrancelhas franzidas.

– Você está pálida. – proferiu por fim.

O queixo de Bervely quase caiu, mas ela o segurou no último momento e optou por uma reação menos deselegante.

– Isso é porque eu estive longe da luz do sol pelos últimos sete meses.

– Oh, querida. Pensei que só chegaria em mais algumas horas. Eu estava tão ocupada com a organização da nova ala da biblioteca, que precisei mandar Dobby buscar você. Fez boa viagem? Está com fome?

Ela não conseguia encontrar a voz para responder, e ao invés disso olhou confusa para a biblioteca, reparando que não era a sua imaginação, realmente estava mais alta. Como se tivessem arrancado o teto e a unido com o cômodo logo acima dele, mas qual era a necessidade de dobrar a quantidade de livros numa casa onde nenhum dos moradores era um grande leitor, não conseguia compreender. As palavras “muito ocupada” e “precisei mandar Dobby” se repetiam em sua cabeça num eco sem sentido.

– Então vocês ampliaram a biblioteca. – ela repetiu, amortecida.

– Sim! – Narcissa deu um sorriso. Era completamente falso, mas ela o fazia bem. – Você gosta?

– Eu… vou para o meu quarto. – foi tudo, realmente tudo que conseguiu. Antes que percebesse já estava na porta, e ouviu a voz da tia de novo.

– Bervely! – Narcissa chamou, e ela se virou com um fio de esperança. – não se esqueça de descer para o jantar.

– BD –

Seu quarto cheirava exatamente do mesmo jeito, o que foi um consolo quando Bervely se jogou na cama e agarrou um travesseiro contra o seu corpo. Ela ficou por algum tempo na mesma posição, respirando em fortes arquejos e com os olhos ardendo, embaçados, sem entender direito o que estava sentindo. Era como algo a devorasse por dentro, e ela queria quebrar alguma coisa, mas ao mesmo tempo se sentia paralisada até os pulmões, e tudo pelo caminho, e os dentes travados com força contendo um grito.


Era horrível estar de volta, tanto quanto fora horrível ficar longe. Ver tudo igual, mas não sentir que estava tudo igual doía horrivelmente. Do angulo que estava parada, via a sua velha penteadeira, que fora da sua tia quando ela era mais nova, do mesmo jeito que a penteadeira idêntica aquela, que ficava em seu quarto em Blackburn Hall, fora da sua mãe um dia. Heranças de família. Estava em casa, não estava? Então porque se sentia tão estranha, tão exposta?

Sabia que encontraria a sua varinha dentro da gaveta da prateleira, onde a deixara da última vez, mas não se sentiu impelida a pegá-la, com medo do que poderia fazer se tivesse o objeto nas mãos. Tanto tempo sem fazer magia, e se sentia tão fora do controle, com toda a coisa da mudança de aparência…

A dúzia de bonecas blythe numa prateleira alta a olhavam, vinte e quatro olhos zombeteiros. Nunca as tinha tocado, mas o seu desinteresse por bonecas não levara a tia a tirá-las dali, pois também eram heranças de família. Cada uma com sua estúpida história. Não ligava para histórias de bonecas. Num rompante, saltou da cama para arrancar aquelas bonecas dali, mas pelo canto do olho viu alguém parado à porta e se virou.

– Draco!

O menino fez um movimento para ir embora no segundo que fora percebido espiando, mas congelou quando ouviu seu nome. O jeito como a olhava, era como se visse um fantasma. Um do qual tinha medo.

– Você cresceu. – ela reparou, com certa surpresa. O primo estava uns bons cinco centímetros mais alto, e suas feições mais finas, principalmente o queixo, agora muito parecido com o do pai. Havia algo diferente nos olhos acinzentas, alguma coisa quebrada?

– Eu tenho que ir. – ele disse rápido, mas ela correu para a porta a tempo e pegá-lo virando o corredor.

– Draco!

Ele se virou, a expressão inescrutável. E ela que crescera com ele, aprendera a ler suas expressões à medida que foram surgindo em seu pequeno rosto, teve a incomoda sensação de que já não o conhecia mais. Puxou ar, tomando coragem.

– Eu sei que foi você – ela ergueu o braço, lhe indicando a coleira de couro antiga – Você quem mandou pra mim, não foi? Pelo correio coruja, há um mês.

Ele piscou uma vez, seu cabelo loiro cortando bem reto escapando de trás da orelha e tocando a bochecha.

– Não sei do que está falando. – e foi embora.

A negativa era falsa, ela sabia, e o que a perturbou foi o fato de o primo também estar ficando bom nisso, como o era o resto da família.

– BD –

Bervely descobriu que a Mansão Malfoy não era mais a mesma, ao contrário do que pensava, quando estava indo jantar, mas desviou o seu caminho no último segundo. Precisou de muita coragem para isso, e a reuniu durante toda a tarde, mas enfim ela atravessou o corredor para a oeste da mansão, rumo ao antigo quarto de Hector.

E descobriu que ele não mais existia.

O choque a pegou do mesmo jeito que aquela sensação de quando se está subindo a escada meio distraído, e pensa que ainda há um último degrau, mas não há. Ela perdeu o fôlego por um segundo, atordoada por aquele erro fundamental. Onde antes havia uma porta, já não havia mais nada. Só a parede lisa, que ela ficou encarando um bom tempo, enquanto a cabeça rodava.

Depois ela checou os outros quartos, mesmo sabendo que era impossível se enganar sobre o caminho. Quantas vezes se esgueirara para ali, no meio da noite, sabendo que o primo estaria acordado, e que lhe contaria mais uma história “inédita” de Pan? Ela nunca erraria o caminho até Hector, nunca. E obviamente nenhum dos outros quartos era o dele.

Em menos de um minuto ela atravessou a distância entre os andares, descendo as escadas sem sequer vê-las, até parar na sala de jantar, onde os tios e Draco já estavam sentados e falando baixo.

– ONDE ESTÁ?

– Bervely! – a tia pousou uma mão sobre o peito, sobressaltada.

Draco congelou olhando assustado para o pé da escada, onde ela parara. Lucius nem levantou o rosto.

– Onde está, o que vocês fizeram com o quarto dele? – exigiu, o coração aos saltos, o corpo todo tremendo, como eles puderam…

– Bervely, por favor. Narcissa ergueu as sobrancelhas para ela, como se estivesse sendo inconveniente.

– Não está mais lá! O que vocês fizeram com o quarto de Hector? Eu não… – então ela teve uma súbita realização, uma horrorosa realização – vocês destruíram! Para aumentar a biblioteca! Como…?

– Já chega! – Narcissa se ergueu, pousando o guardanapo ao lado do prato com brusquidão – ou você se senta para comer em silencio, ou pode se retirar dessa sala agora mesmo!

A injustiça do tratamento, mas especialmente a indiferença dos três ocupantes na mesma, a atingiu até a medula dos ossos, e ela sentiu como se olhasse para estranhos, e não para as pessoas com que vivera quase toda a sua vida. Draco, ela percebeu, também estava olhando para o seu prato como se a sopa fosse mais interessante que explicar porque o quarto do seu primo tinha sumido da Mansão subitamente. Ela sentiu a cabeça rodar. Sentiu nojo.

– Onde estão… onde estão todas as coisas dele?

Nenhum dos três parecia disposto a falar. Ou a olhá-la, na verdade.

– Como eu disse, ou você pára se fazer um show e se senta para jantar, ou pode se retirar para o seu quarto.

Ela abriu a boca, puxando ar que se juntou a todas as perguntas presas no fundo da sua garganta. Mas tudo que saiu foi:

– Nesse caso, boa noite. – e antes que qualquer outra coisa pudesse escapar, ela deu as costas e foi embora para o seu quarto mais uma vez.

– BD –

A semana que se passou após a sua chegada na Mansão Malfoy foi mais longa do que o mês inteiro que Bervely tinha estado consciente no hospital St. Mungus. Eventualmente, ela disse a si mesma de que o fato de que estava recebendo um tratamento de silencio tinha de ser bom. E daí que a tia não lhe olhava nos olhos? E dai que Draco fugia de todo cômodo ao qual ela chegava? Ela estava em casa agora, e ela estava grata por, pelo menos, ter o seu pequeno laboratório de poções na torre oeste de volta.

Gastou a maior parte dos dias limpando os frascos de vidro, jogando fora o que não prestava e rotulando o que restou. Escrevendo pedidos de novos ingredientes e aumentando a intensidade da Poção do Sono Sem Sonhos. Precisava dela mais do que nunca, agora sempre tinha a impressão de que havia um eco em sua cabeça, pronto para tomar conta ao seu menor descuido.


A parte boa era que a nova fórmula a fazia dormir muito, e quanto estava acordada, deixava seu pensamento lento. Assim ela não se prendia ao fato de que tudo que um dia fora de Hector – ou de Charlotte – naquela casa tinha desaparecido, como se eles nunca tivessem existido, para começo de conversa.

No sábado, Dobby pediu permissão para entrar no laboratório, e ela imaginou que trouxesse o jantar. Vinha comendo as suas refeições no quarto ou ali, evitava a companhia dos tios o máximo que podia. Normalmente era fácil pular o café da manhã e o almoço apenas acordando tarde, e ninguém lhe cobrava a presença. Os jantares, que sempre tinham sido uma tradição famíliar naquela casa, aparentemente se tornaram optativos para ela.

– A Sra. Malfoy pedir a Dobby para avisar que amanhã haverá almoço especial, e menina Black deve estar presente.

– Qual a ocasião? – ela perguntou com desdém, jogando alguns ingredientes no caldeirão com um gesto amplo e seguro.

– O aniversário de menina Black.

– Oh. – Bervely mordeu o lábio, surpresa. Pelo curso que as coisas iam, esperara que a data fosse completamente ignorada. – Ok.

– Sra. Malfoy pedir a menina Black para se comportar devidamente em jantar especial.

– É mesmo? E porque ela não vem me pedir isso pessoalmente? – disse com deboche, mas Dobby não era bom com perguntas retóricas, e fez a menção de torcer o pijama.

– Dobby pode ir perguntar a ela…

– Não – ela rolou os olhos – deixa pra lá. Eu vou estar no almoço, eu e o meu devido comportamento, pode avisar à sua dona. Agora some daqui, você está cheirando a cebola.

O elfo fez uma exagerada reverência e sumiu de vista, e só então ela se permitiu um suspiro de desanimo. Não sabia o que esperar daquele almoço. Não sabia o que esperar daquelas pessoas. Mas de uma coisa ela sabia: aquele não ia ser um bom aniversário.

– BD –

Agosto de 1987, quatro anos antes.

Aquele ia ser o melhor aniversário de todos.

Ela soube isso antes mesmo de ver a tenda no quintal, as fadinhas dançantes, a fonte de caramelo ou a pilha de presentes. Vinha esperando a data há séculos, afinal, para uma bruxinha, fazer 11 anos era muito especial.

Significava que não era mais uma criança. Poderia ir para a escola e aprender magia. Alguns dias antes da data, tia Narcissa lhe chamou e perguntou o que ela queria ganhar de presente no seu dia especial.

– Posso pedir qualquer, qualquer coisa?

– Sim – disse a mulher, com um sorriso ao ver a expressão iluminada da sobrinha. Mas completou, numa reflexão tardia – menos um cachorro.

A animação da menina esmoreceu um pouquinho, mas ela logo se animou.

– Posso ver a minha mãe, então?

Narcissa apertou os lábios, preocupada. Chegara a pensar que aquela ideia fixa havia passado, que a menina finalmente deixara a lembrança de Bellatrix para trás, mas aparentemente não era tão fácil assim fazer uma menina esquecer da sua mãe. Mesmo se fosse a pior mãe de todas.

– Não, querida, já conversamos sobre isso. Não há qualquer outra coisa no mundo que queira, mas que seja própria para a sua idade e não vá lhe colocar em perigo?

– Ah, eu já sei! – Bevy abriu um sorriso, e fez o seu pedido. Narcissa assentiu, porque para suprir aquele desejo, ela tinha a solução perfeita.

Na tarde do aniversário, eles se reuniram sob a tenda, aproveitando o frescor do fim de verão, o cheiro da grama e das árvores do bosque e da torta de maçã caramelada feita todinha e especialmente para a aniversariante. Havia um brilho mágico em seus olhos quando todos ao seu redor cantavam Have a Magic Birthday, Draco, o maior fã da musica, liderando o coro, em pé na cadeira, dentro de um macacão cinza e laranja, e tendo perdido os dois dentes de leite da frente.

Bervely, ladeada por Hector e por Charlotte, soprou onze velas e fez um pedido, depois correu para a pilha de presentes. Ela mesma escolhera um vestido vermelho para a ocasião, e o contraste com o cabelo muito preto a deixava mais do que nunca parecendo uma boneca viva.

– Esse é meu – Hector puxou da pilha uma caixa comprida em embalagem bordô. Ele estava passando pela puberdade com certa dignidade, atingindo aos poucos a elegância fácil que sua mãe um dia tivera. Herdara dela o físico esguio e flexível, mas a voz era definitivamente do pai, grave e macia. – abra primeiro.

Bervely recebeu o presente com um sorriso e rasgou a embalagem. Lá dentro havia uma caixa com a insígnia de Durmstrang, e de dentro dela tirou um broche com as cores da escola. Seus olhos se arregalaram para o presente.

– Uau!

– É algo para te dar boa sorte na seleção. Aqui, eu coloco – ele se ofereceu para pregar o broche em seu vestido, sob o olhar atento de Charlotte. Bervely acariciou a peça com fascinação.

– Obrigada, Hector.

– Agora o meu! – Draco exigiu, como o pequeno ditador que ele era. Bervely rolou os olhos e catou o presente porcamente embalado em um papel colorido.

– Oh, mas o que será? Uau, dragões. Que surpresa. – disse sem grande emoção, tirando do saco um móbile feito com varetas e dragões de papel que ele fizera pessoalmente, mas que pedira a Narcissa para encantar, de forma que se moviam e tentavam comer as caudas uns dos outros.

Ela bagunçou o cabelo do primo à guisa de agradecimento, deixou a peça de lado e puxou a próxima.

– Esse é o meu – avisou Charlotte, com uma expressão de antecipação insegura. – espero que goste.

Era um colar de pedrinhas muito delicado, mas obviamente barato. Ela olhou para a garota, desconfiada.


– Isso é um colar de trouxas, Charlotte?

– Não! Eu comprei no Beco Diagonal, juro. As pedras, elas mudam de cor de acordo com o seu humor. – explicou, apressada.

– É bem bonito, Charlie – Hector elogiou, dando um sorriso para a menina – quer que eu coloque em você, Bervely?

– Não. – e quando ele lhe olhou feio, ela buscou explicar – não agora, depois. Não combina com o meu broche.

Narcissa se divertia com a dinâmica das crianças, mas achou que talvez fosse a hora de dar o seu presente, que não tinha colocado na pilha por precaução. Quando entregou a caixa fina e comprida para a sobrinha, o rostinho se iluminou de expectativa e por um momento fez-se silêncio no grupo, todos eles imaginando o que havia dentro da caixa.

Ela abriu cuidadosamente, para revelar uma varinha pousada sobre o veludo azul escuro. Era ricamente talhada em seu cabo de nogueira, e trazia em seu núcleo a fibra do coração de um dragão. Não era nova; era melhor que isso.

– Foi a primeira varinha da sua mãe, a que ela usou nos tempos de escola. Imaginei que gostaria de tê-la.

– Ai meu Merlin, é incrível, tia, é tão linda! – ela saltou para abraçar Narcissa, que beijou o topo de sua cabeça. Bervely se afastou então com receio – será mesmo que posso usar? Será que ela vai gostar de mim?

– Você só vai saber se experimentar – Hector a encorajou – vamos lá, teste!

Bervely reuniu coragem e pegou a varinha, enquanto o grupo a olhava com expectativa. Nada aconteceu.

– Faça um movimento – Cissa disse, sorrindo.

A menina fez um floreio inseguro com a varinha, mas não precisava ter medo. De sua ponta, ela fez fluir uma centena de pétalas de rosa reluzentes.

– BD –

Presente, agosto de 1991.


Prendeu seu cabelo no alto, sem muito cuidado. A franja estava longa demais e caia sobre os olhos, mas meramente a afastou para o lado até prendê-la atrás da orelha. Escolheu um vestido cinza chumbo de corte reto e sem muitos detalhes, e calçou sapatos fechados pretos, os que faziam barulho no assoalho, e quase nunca tinham sido usados.

Depois, desceu as escadas, aparentando calma. O seu melhor comportamento, repetiu a si mesma. E daí que queimava por dentro? E dai que odiava a ideia de participar daquele ato de hipocrisia que iria se desenrolar no andar de baixo?

Nenhuma pergunta sobre como se sentia.

Ou sobre como fora para ela ficar todos aqueles meses longe.

O cheiro do salão de jantar era estonteante, mas o que mais a impressionou foi a mesa montada pelos elfos. Conseguiu identificar pelo menos cinco tipos de prato principal. Eles estavam usando a prataria completa – prato fundo de sopa, pratos de salada, de carne, três tipos de facas e de garfos e de colheres e taças de água e vinho e de contreau. Oh, aquela seria uma tortura longa. Se aproximou da mesa, onde Narcissa já estava, em um longo bege, o cabelo num coque rígido. Ela corrigia o alinhamento do prato de um pernil que tinha quase o tamanho do seu único filho.

– Quantas pessoas estamos esperando, mesmo? – perguntou com deboche, puxando uma cadeira.

– Seremos só nós, Bervely. – o tom frio, ali estava ele – Feliz aniversário.

– O que é isso, uma afirmação? Uma imposição?

Narcissa fechou seus olhos por um segundo. Quando os reabriu, estava impávida novamente.

– Vamos esperar o seu tio para jantar, ele já está chegando.

– É claro que vamos. Sem ele a felicidade não ia ser completa. – ela sentou-se duramente em seu lugar de hábito, ajeitando as costas no mesmo momento que Draco entrava. Ele usava vestes sociais elegantes e uma gravata borboleta verde, que ela ficou encarando um minuto inteiro.

– Sério mesmo? Você está usando gravata para o jantar?

– Mamãe falou que era traje completo – ele murmurou sem emoção, sentando do outro lado.


Lucius não demorou muito numa contagem de tempo objetiva, mas na subjetividade angustiada de Bervely, ela sentiu como se estivesse sentada ali, vendo Narcissa esfregar uma sujeira inexistente da taça de cristal, e Draco alinhar os fios de seu cabelo emplastrado de gel no reflexo do vaso de água, há exatos três dias.

– Turno cheio no departamento hoje – ele anunciou ao se sentar na mesa, não antes de se inclinar e beijar Narcissa, acenar para Draco e ignorar completamente que a exuberância daquele jantar era em razão do aniversário da sobrinha. – uma confusão sobre permissões de transmutação de residências em Seattle, e de repente eles acham que isso é motivo para convocar o conselho. Francamente, os motivos mais mesquinhos, como se eu não tivesse o suficiente de processos nas mãos…

Bervely deixou de prestar atenção no tio, se concentrando na sopa que lhe era servida. Ela ficou olhando as batatas boiando, e parecia deliciosa, mas não tinha nenhuma fome. Muito pelo contrário, a garganta estava trancada e nada ia passar por ali, pelo menos não no sentido de fora para dentro.

Porque havia tanta coisa a segurar, que até suas mãos tremiam. Ela levantou os olhos, e pegou um movimento brusco de Draco, que abaixou o rosto rapidamente. Suspirou. Ele parecia tão estúpido com aquela gravata borboleta.

Como imaginou, a sucessão dos pratos se seguiu lenta e dolorosa ao som da conversa enfadonha de Lucius sobre trabalho, ocasionais comentários de Narcissa e Draco brincando com sua comida no prato, desinteressado.

Quando ela foi solicitada a escolher entre assado e pernil, ela quis perguntar se não havia a opção de um veneno rápido que lhe poupasse da agonia, e a sua hesitação não passou despercebida pela tia.

– A comida não está do seu agrado, Bervely?

Os três Malfoy olhavam para ela agora. Como se a desafiassem a fazer uma reclamação.

– A comida está perfeita, tia Narcissa.

– Ótimo. Sirva a ela o pernil, Pollock.

Depois disso, Bervely moveu seu pernil suculento de um lado a outro sobre a porcelana, mas ele não tocou a sua boca e o prato foi recolhido com a mesma quantidade de comida que lhe fora servida. A conversa fora recuperada, e a sobremesa servida. Bervely franziu para o crême brulée impecável, e de repente, era tudo o que faltava. Como ela ousava? Crême Brulée em seu aniversário?

Foi como se a última gota de um caldeirão muito cheio quebrasse a superfície, e ela transbordou como uma poção venenosa e caustica.

– Eu entendo.

Sua voz saiu amarga e cortante de tal forma que calou a conversa. Narcissa se ajeitou na cadeira de espaldar longo e brocados de ouro, apertando seus olhos como fazia quando pressentia a chegada de uma animosidade.

– O que disse, Bervely?

– Eu entendo o que está acontecendo aqui.

– Bem, isso é meio que um alívio. – Draco deu um falso suspiro do seu lugar na mesa – por um momento pareceu que você estava achando que era o seu velório, e não o seu aniversário.

A palavra velório apenas borbulhou na superfície da sua raiva, uma péssima escolha de palavras, mas não se virou para o primo. Continuava fuzilando os tios com o olhar.

– Vocês me culpam pelo que aconteceu.

– Ora, mas como ousa… – Lucius começou, sua parede de indiferença rachando. Mas Narcissa fez um aceno imperativo com a sua cabeça.

– Não, Lucius. Deixe-a falar.

Novamente aquele tom, aquela expressão, a desafiando a ser insolente, a ser uma má menina… não, isso não ia impedí-la. Estava cheia e transbordando e não podia ficar calada nem mais um segundo.

– Vocês me culpam por eles terem ido embora! É por isso que não conseguem olhar para mim, e é por isso que não foram me visitar nem uma vez no hospital! Vocês me culpam por ter perdido Hector e Charlotte e isso NÃO É JUSTO!

– Você não faz a menor ideia – disse Narcissa, numa voz que era um sibilar injustiçado – de como foi para nós… de como foi ficar aqui, depois que você escapou…


– ESCAPEI!

– Sim, você escapou! Talvez você não quisesse, mas você escapou, e não esteve aqui depois que… depois que…

– Eu estive no INFERNO! – ela gritou, incapaz de controlar sua voz – Eu estive no inferno por meses! E nenhuma visita! E nenhuma notícia! Vocês me deixaram completamente sozinha! Completamente sozinha por sete meses!

– BEM, VOCÊ MERECEU! – Draco gritou, e ela se virou para ele. O primo tinha o rosto completamente vermelho e os punhos fechados. Ela nunca o vira com tanta raiva. – VOCÊ MERECEU, FOI CULPA SUA E VOCÊ MERECEU! Por isso ninguém foi atrás de você!

– Já chega! – Narcissa deu a ordem, no momento em que parecia que Draco estava prestes a jogar a sua faca na direção da prima. Ela também tremia, mas não parecia com raiva, só a beira de um ataque de nervos. – Os dois, para seus quartos! E eu não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre esse assunto nesta casa! Agora!

Draco empurrou sua cadeira e saiu zunindo para cima como um furacão, e depois de um segundo congelada no mesmo lugar, Bervely também foi para o seu próprio quarto, batendo a porta ao entrar e sentando em sua cama, tensa e a flor da pele demais para deitar, para fazer qualquer coisa a não ser ficar sentada em choque, o olhar fixo em seu reflexo no espelho, do outro lado do quarto.

Eles a culpavam, eles realmente a culpavam.

Eles a odiavam.
Ela merecia.

Esteve no inferno, mas ainda estava.
Era a culpada.

– BD –

Agosto de 1987, quatro anos antes.

Hector entrou em seu quarto (como sempre, sem esperar convite) e a encontrou sentada em sua cama, olhando obstinada pela janela, e segurando um envelope pardo. Ele saltou no colchão, lhe sobressaltando, e roubou a carta de sua mão antes que ela pudesse reagir.

– Hector, não! Devolve!

Sem lhe dar ouvidos, ele partiu o selo e arrancou lá de dentro um pergaminho, e mantendo-o longe do alcance da prima, que lutava para recuperá-lo, começou a ler em voz alta:

Prezada Sra. Bervely Black, temos o prazer de informar que V. Sa. tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts…”

– Eu sei o que tem escrito, idiota – praguejou, finalmente recuperando a carta e a enfiando dentro do envelope de qualquer jeito – Não era pra você ter aberto, seu intrometido.

Ele riu gostosamente e bagunçou o cabelo dela, coisa que Bevy odiava com todas as suas forças.

– Como poderia saber se não abriu? Quanto tempo tem que isso chegou, três dias? Me espanta eles não terem enviando mais um monte, eu soube que é o que acontece quando você ignora a primeira.

– Eles podem mandar um milhão, não me interessa. – disse, emburrada. Para confirmar seu ponto, cruzou os braços e voltou à posição de vigília à janela aberta.

– Você sabe o que dizem, se você ficar olhando para o céu, a coruja nunca chega. – provocou em seu ouvido, com a voz cantarolada.

– Isso é o provérbio mais sem sentido que eu já ouvi.

– Você não precisa ficar tão tensa, sabe? Eles vão aceitar você. Não me disse que foi bem no exame? Se não fez nada explodir em cima do examinador, já é quase certo que foi aprovada.

– Eu não explodi nada. – ela bufou. – mas o problema não é o que eu não fiz, o problema… você sabe qual o problema. – completou, sugestiva e incomodada.

Entrar em Durmstrang não era tão simples como em Hogwarts; não bastava ser uma criança bruxa para que eles enviassem uma carta. Por ser a melhor escola de bruxaria entre todas, era preciso que se fizesse uma solicitação para entrar, e por só aceitarem bruxos puro-sangue e com o mínimo de habilidade mágica, eles enviavam um avaliador para checar o solicitante pessoalmente. Ela tinha feito o exame há quase duas semanas, e estava certa de que fora, na maior parte, impecável. A não ser pelo Teste do Estresse.

Era a parte onde eles avaliavam a que nível andava a emissão mágica involuntária da criança. Normalmente a submetiam a uma situação que causasse medo ou perigo iminente e avaliavam a resposta. E quando o examinador a levou para o telhado e lhe pediu para pular de lá de cima, apesar de seu pavor de altura, ou talvez justamente por causa dele, sua magia respondeu gerando uma corrente de ar que a levou para baixo em segurança.


Isso tinha sido perfeito, o que a preocupava era o resto da emissão mágica involuntária.

– Você disse que não aconteceu mais nada. – Hector tentou tranquilizá-la.

– Eu disse que não senti que aconteceu mais nada, eu sempre tenho esse formigamento antes de acontecer, e dessa vez não… mas eu estava tão nervosa, eu posso ter deixado passar.

– Se você deixou passar, então o examinador deve ter deixado também. Não se preocupe.

A tranquilidade e confiança de Hector só a deixavam mais e mais nervosa, pois ele só estava daquele jeito porque a sua vaga em Durmstrang já era garantida. Mas ela, ela não podia estar certa que nada em sua aparência mudara quando ficou em cima do telhado, ela não podia jurar que os seus cabelos não tinham se encaracolado nas pontas, como acontecia quando ficava nervosa, ou mesmo se não diminuíra alguns centímetros, o que já tinha acontecido uma vez quando esteve muito muito apavorada, daquela vez que Draco bateu a cabeça e ficou coberto de sangue.

– Eles enviam uma carta para dizer se eu não for aprovada?

– Eu não sei. Eu fui aprovado, lembra? – ele lhe deu uma piscadela.

– Ah, não enche, Hector.

– Olha o tom comigo, mocinha. – ralhou, e ela lhe deu língua. Em troca, ele avançou para fazer cócegas em sua barriga até ela chorar de rir, o que era a punição padrão por ser insolente com ele, é claro.

Devidamente punida (e sem fôlego), ela teve sua companhia na espera da carta, mas a noite caiu, e quando ficou claro que nenhuma coruja chegaria, Hector lhe distraiu contando uma história, da vez que Peter e os Meninos Perdidos estavam esperando uma correspondência muito importante de um gigante, mas quando ela chegou, era tão grande que eles só conseguiam ler uma letra por dia. Bevy adormeceu antes de saber todo o conteúdo da carta, ainda rindo da história obviamente recém e oportunamente criada.

Acordou com alguma coisa roçando sua bochecha, e quando foi espantar o incomodo, sua mão tocou em algo quente, que descobriu ser a mão do primo, ao abrir os olhos.

– Você dormiu aqui? – ela perguntou confusa. Parecia ser cedo, porque a luz que entrava pela janela era filtrada pela copa das árvores e isso só acontecia bem de manhãzinha.

O sorriso de Hector a cegou. Ele tinha a roupa toda amarrotada, o cabelo pior ainda, mas segurava algo na mão como se fosse um troféu. Ela só percebeu o que era quando viu uma coruja-do-bico-de-ferro pousada em seu parapeito. Saltou da cama com um grito.

– Chegou! Eu não acredito! Você abriu?!

– Lógico que não. Se for uma carta dizendo que você é uma sangue-ruim, quero que descubra por conta própria. – mas ele disse isso sem parar de sorrir, e ela não acreditou nem por um segundo que ele achava que havia uma notícia ruim ali dentro.

Rasgou o envelope e encontrou um papel áspero com o qual não estava acostumada. Ela leu, sua voz crescendo com a empolgação à medida que prosseguia:

Cara Srta. Bervely Rose Black,

A Academia de Magia Durmstrang tem o prazer de informar que a sua candidatura foi aceita, e os seus estudos em magia terão início neste 1 de setembro. Favor adquirir o material listado abaixo e nos escrever no caso de qualquer dúvida.

Nós lhe desejamos um bom final de férias e aguardamos com expectativa a sua chegada.

Atenciosamente,

Igor Karkaroff,

Diretor da Academia de Magia Durmstrang

Ela explodia de felicidade. Ia estudar na melhor escola de magia da Europa, e até onde sabia, do mundo inteiro!

E o melhor de tudo, não ia estar sozinha. Hector lhe deu uma piscadela e veio bagunçar seu cabelo.

– Parece que você não é uma sangue-ruim no fim das contas, Bellzinha!

– BD –

Presente, julho de 1991.

Acordou com um ruído ritmado e incomodo, meio seco, como ferro contra vidro, e custosamente abriu os olhos. Atordoada, demorou a entender o que era aquele aperto incomodo no peito, mas as lembranças da discussão da noite anterior voltaram à sua mente, e com ela a ânsia e a sensação de inadequação.

E o toc, toc, toc.

Diabos”, Bervely praguejou, levantando e cambaleando até a janela. Quem estava lhe mandando uma droga de uma coruja tão cedo? Só quando identificou o espécime, a coruja vermelho-escura com bicos e garras de ferro e olhos cinza-chumbo, ela percebeu do que se tratava.

No meio de toda a confusão do seu retorno, esquecera completamente, mas ali estava a sua carta para mais um ano letivo em Durmstrang, ou o que fosse. Recebeu a correspondência e dispensou a ave, lendo a carta com a caligrafia do próprio diretor.

Karkaroff escrevia uma por uma, de seu próprio punho. Ele era um completo maluco.

Mas o que estava escrito ali superava qualquer tipo de absurdo. Devido ao seu abandono precoce e injustificado das aulas no curso do ano letivo, caso pretenda retornar, deve repetir a série e as disciplinas em que esteve matriculada, sem exceções.

Amassou a carta até virar um bolo em sua mão, mas não a jogou fora. Precisava informar a sua decisão, e tinha a impressão de que não seria fácil. Não quando parecia que todos naquela casa queriam vê-la pelas costas.

Tomou coragem (se alguém precisava reunir coragem para cada passo dentro de sua própria casa, certamente algo estava muito errado, pensou enquanto o fazia) e foi até a biblioteca no segundo andar. Sabia que Narcissa estaria ali, ela sempre estava, era o seu novo lugar preferido da casa. Talvez até dormisse ali, entre os livros.

Como imaginou, a tia alinhava uma nova remessa de livros na prateleira mais alta, dessa vez usando a varinha. Lançou um olhar desinteressado à sobrinha quando a garota entrou.

– Bom dia, Bervely.

Seu tom era a perfeita neutralidade. Como se toda a gritaria que arruinara o jantar na noite anterior nunca tivesse acontecido. Bervely respirou fundo.

– Eu acabei de receber a minha carta de Durmstrang.

– Hum. Foi mesmo?

– Sim. E eu vim avisar que não vou voltar para lá esse ano.

Silêncio. Narcissa terminou de alocar todos os quatorze volumes, para então se virar, assentindo.

– Certo.

– O q-o que? – piscou, surpresa. Esperara resistência, e um pouco mais de discussão, mas não… não isso.

– Eu disse “certo”. Não vai voltar para Durmstrang esse ano.

Ela andou calmamente até a mesa de mogno enorme onde os novos livros estavam empilhados, e começou a mover mais alguns. Bervely ergueu uma sobrancelha, cética.

– Ah, é mesmo? Suponho que a senhora minha tia já saiba para onde vai me mandar, então? Talvez para bem longe, onde não possa me ver, ou para uma nova cela? Um outro hospital com algemas?

– Não, nenhuma dessas opções. – Cissa moveu os livros e tirou de lá uma carta, um envelope pardo com um selo vermelho que guardava uma vaga familiaridade para Bervely. Ela lhe estendeu, um sorriso plácido no rosto comprido – Isso chegou há algumas semanas para você, querida. Esse ano, tanto você quanto Draco estarão indo para Hogwarts.

(Continua…)

Grupo no Face!

Notas finais
Finalmente, para quem estava ansioso por algumas respostas, aqui está! Sabemos mais sobre o porquê de ela ter ido para o hospital e da sua aparência ter mudado. A nossa rosa não foi para Hogwarts, ainda. E ai, fez mais sentido porque ela não recebeu nenhuma visita no hospital, ou tudo ficou mais confuso? Por que será que ela acha que a família a culpa pela perda de Hector e Charlotte, e o que raios isso significa? Por que Draco acha que ela mereceu? Eu sinto que cada vez que eu coloco esses suspenses vocês querem me matar, mas eu adoro ler os palpites de vocês, que são muito interessantes (e alguns acertam em cheio, como quem disse que os pesadelos dela tinham haver com Bellatrix!) Para quem não entendeu ainda porque ela estava com medo de não ser aprovada por Durmstrang, lembrem-se que ela pensa que teve uma emissão mágica intra-corpórea, o que seria um sinal de que ela não tem o sangue puro. Continuem comentando bastante como no cap passado, e quem ainda não entrou no grupo, tá esperando o que? Já tem material extra lá, e essa semana vou postar mais, mas só se a IRN atingir 100 reviews! (Vamos lá, tá fácil fácil!)