Indigna Rosa Negra
2 A Voz da Rosa
— Quem é você, Pan? — perguntou com a voz rouca.
— Eu sou a juventude, sou a alegria, sou um passarinho que acabou de sair do ovo. — Peter respondeu sem pensar.
Evidentemente isso era um disparate, mas mostrou ao pobre capitão que Peter não tinha a menor idéia de quem ou o que mesmo ele era, o que constitui o grau supremo de boa educação.
— Vamos começar tudo de novo — Gancho gritou, desesperado.
(Peter Pan — James Barrie)
— Eu demando saber o que eu estou fazendo aqui!
Estava nervosa. Reação aceitável, pensou o doutor, se você acorda num lugar estranho do qual não está autorizada a sair, e ninguém parece disposto a explicar o que está acontecendo.
A paciente doze — ele decidira chamá-la assim, quando se referisse a ela mentalmente — o olhava de forma aborrecida do outro lado da sua mesa. Ele fizera questão de que ela fosse até ele, em sua sala, ao invés de falar com ela no quarto. Se surpreendera com a sua aparência quando ela entrou, mas buscou não esboçar isso. Se levantou, para apertar a sua mão e se apresentar, só que não teve a chance.
— Você está ouvindo o que eu estou falando? — ela exigiu, as mãos pousadas sobre a mesa dele, o corpo inclinado para frente. — Eu exijo saber o que está acontecendo aqui! Quem são essas pessoas? Por que tem correntes no meu quarto? E porque eu não posso tirar essa roupa horrorosa e ir para casa?
— Isso são um monte de perguntas — ele disse, olhando nos olhos dela. — E eu reconheço a urgência de cada uma delas. Mas não tenho resposta para todas. Você está aqui porque sofreu um dano causado por magia. Esse é o Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos. As pessoas às quais você se refere, eu imagino que são os curandeiros e os medibruxos que estão ajudando a cuidar de você. As coisas em seu quarto não são correntes, são anilhas de contenção. Servem para impedir que você machuque a si mesma. E eu realmente não sei sobre as roupas horríveis, me pergunto a mesma coisa desde que cheguei aqui.
Ela olhou de esguelha para as vestes dele (o seu avental de trabalho verde-limão) e franziu brevemete. Depois seu olhar ficou pensativo, e ela por fim se largou na cadeira, levemente impressionada.
— Você se lembrou de todas.
— De todas…? — Dr. Fritz perguntou, se sentando também
— Eu fiz um monte de perguntas e você se lembrou de todas. Respondeu na ordem.
Ele sorriu. — Menos a última.
Ela mesma demorou um tempo para recordar sua última pergunta.
— Ah, é. Por que eu não posso ir para casa?
— Essa é uma das perguntas para a qual eu preciso de ajuda.
— De quem?
— Sua. — olhou para os olhos dela de novo.
A sua paciente não sustentou o contato visual, ao invés disso, olhou ao redor da sala dele com um interesse vago. Observou a janela, que estava fechada e deixava passar um brilho difuso. Seus dedos tamborilavam na cadeira sem fazer barulho.
— Vocês precisam do meu endereço? — ela disse por fim. — ou do contato de algum parente?
— Não no momento. Nós temos uma política de liberar alguém apenas quando temos certeza de que está curado. É por isso que você vem a um hospital, para começo de conversa, não é? Eu sou seu medibruxo, bom, eu sou um de seus medibruxos, e cabe a mim me certificar da sua saúde.
Ela passou os olhos rápido por ele.
— Eu estou bem. Me sinto bem. Não há nada de errado comigo.
O doutor Fritz assentiu, compreensivo.
— Você sabe há quanto tempo está aqui?
— Seis… meses? — disse, incerta. — Ninguém queria me dizer, então eu li na minha ficha.
Ele quase riu, e talvez a sombra desse sorriso tenha passado em seus olhos. Devia lembrar de ser mais rígido sobre as políticas de sigilo com as curandeiras. Não era suposto que os pacientes acessassem suas fichas, pelo menos não sem a autorização prévia de um medibruxo.
— Mas eu… não pode ser. Seis meses? Eu não me lembro de estar aqui. Não me lembro de nada sobre este lugar. É… impossível.
— Onde você se lembra de ter estado?
Ela desviou para a janela de novo. Não lhe respondeu. As unhas arranhando o braço da cadeira, silenciosamente.
— Você esteve inconsciente a maior parte deste tempo. — ele explicou, olhando de relance para a suas anotações sobre ela. Tinha os gráficos a respeito dos níveis de consciência dela, os quais fizera com a ajuda de feitiços complexos para medir as ondas cerebrais. — até hoje. Por algum motivo, hoje você voltou para nós. O que acha disso?
Ela deu de ombros, impaciente.
— Eu não saberia, saberia? Por que alguém acorda em uma determinada hora, de qualquer maneira?
— Hoje é 29 de junho. Essa data significa alguma coisa especial para você?
Negou, seus olhos presos na janela fechada.
— Verão? Eu gosto do verão.
— Por que? — ele perguntou, genuinamente curioso. — Calor? Dias longos?
Ela balançou a cabeça, pensativa.
— Noites curtas.
O doutor Fritz fez uma nota no pergaminho, e ela acompanhou a pena se mover, os olhos um pouco estreitos.
— Dr. Fritz? — chamou, o levando a levantar a cabeça surpreso. Ia perguntar como ela sabia seu nome, não tinha se apresentado, mas se absteve. Uma garota com o espírito de ler sua própria ficha certamente não deixara passar o nome dele escrito na porta.
— Sim?
— Quando eu posso ir para casa? Quando… quando o senhor vai saber que eu estou bem para ir embora? O senhor disse que precisa da minha ajuda para saber disso, mas eu já disse que me sinto bem. Não há nada de errado comigo.
Ele assentiu suavemente. Normalmente anotava o mínimo possível na frente do paciente, e se segurou para não fazer a segunda nota seguida. Ela já repetira aquilo duas vezes, “não há nada de errado comigo”.
— Às vezes você pode sentir como se não houvesse nada de errado, só porque você não se lembra bem como era quando estava “certo”. Isso faz sentido para você?
— Isso parece com algo que você tirou de dentro de um biscoito da sorte de Cassandra.
Desta vez ele riu. Ele decidiu que gostava dela; bem melhor acordada e ali do que dormindo e gritando, onde quer que seus sonhos a levassem.
— Eu estou muito satisfeito em saber que você se sente bem, mas eu não estou completamente convencido. Dar alta envolve muita responsabilidade, entende.
Ela rolou os olhos, mas não disse nada.
— Você se importa se conversarmos um pouco antes de eu decidir que está bem?
— Parece que eu não tenho muita escolha. — resmungou, retraindo um pouco seus braços.
— Você me perguntou duas vezes sobre quando pode voltar para casa. Pode me falar um pouco sobre isso?
— Sobre querer voltar para casa? — ela franziu, como se ele estivesse perguntando de que cor é o céu.
— Sobre casa. A sua casa.
A garota por um momento pareceu impaciente — que espécie de pergunta era aquela? Ora, a casa dela era…
A casa dela…
Doze piscou, confusa. Deu um olhar vazio e um pouco alarmado para ele.
— Eu não me lembro.
✿
10 anos atrás — 1980
Sabia que ia ficar de castigo porque estava ouvindo atrás da porta. Mas só se tio Lucius soubesse. Os castigos de tio Lucius eram ruins de verdade — ficar um tempão olhando para uma parede, ou então esfregar com um paninho todas as fivelas de cinto dele até brilharem. Os de tia Narcissa não; recitar as regras. Prometer que estava arrependida. Às vezes, arrumar toda a sua bagunça sozinha sem os elfos. Tudo bem com arrumar, ela até gostava.
— Ela não preenche essa lacuna, Lucius! — a voz de Tia Narcissa flutuou através da fresta da porta da biblioteca. Ela pressionou o ouvido ali contra a madeira, tentando ouvir melhor. — Eu ainda quero um herdeiro tanto quanto você!
— Você fala o que eu quero ouvir, mulher — disse o tio, parecendo aborrecido — mas quando eu viro as costas, toda a sua dedicação é para a bastarda! Ela enche seus olhos, e ela ocupa o seu tempo! E se você ficasse grávida, então, como seria? Será que você ao menos se dedicaria ao nosso filho como o fez para ela durante esses anos?
— Lucius! Eu nem mesmo vou responder a essa questão absurda. Como você pode?
— Tudo que eu estou dizendo, é que você se doa demais a ela. A garota nem mesmo é sua!
— Que relevância tem se ela não é minha filha? Eu fiz um juramento, e eu não vejo como eu poderia cumprí-lo se eu não desse tudo ao meu alcance para a educação da minha sobrinha. Até mesmo todo o meu amor.
Tio Lucius fez um barulho que significava que ele não levava a sério o que estava ouvindo. A garotinha sabia que ele não gostava da palavra com “a”, ele fazia aquele barulho toda vez que tia Narcissa a usava.
— Você pode lhe dar todo o seu amor, esposa. Toda a educação e toda a chance, mas no fim, ela ainda vai ser filha de quem é. O fruto de uma árvore podre.
— Você não deve falar assim sobre a minha família!
— Eu não estou falando de toda a sua família, só da parte degenerada dela! Aquela sua irmã completamente…
Aquilo era um monte de palavras complicadas, a pequena pensou. Os adultos falavam coisas difíceis quando estavam sozinhos, às vezes parecia até outra língua.
— Já chega, Lucius! Nem mais uma palavra sobre esse assunto.
— Você pode fugir dessa discussão o quanto quiser, esposa. Mas não pode fugir do fato de que ela não pertence a você. Lembre-se de não ficar muito apegada, nunca se sabe o que o futuro reserva.
— Isso por acaso é uma ameaça?
— Eu só acho que você está esquecendo os termos do seu tão prezado juramento. E de que ele tem um prazo de expiração!
A porta da biblioteca se abriu bruscamente e ela teve de se afastar num salto para evitar ser atingida. O tio a viu ali caída de bunda no tapete e suas narinas inflaram.
— Ótimo! Ouvindo atrás das portas! Narcissa, sua boneca de luxo está ouvindo atrás das portas agora! Tanto por uma educação à altura da linhagem sangue puro, — ele saiu pisando duro e resmungando — e ela se comporta como um elfo doméstico.
Narcissa veio correndo para fora e a pegou no colo.
— Oh, querida, você se machucou?
Ela negou, o coração ainda disparado pelo susto. Por sorte, tia Narcissa cheirava muito bem e seu colo fazia o susto passar mais rápido.
— Não se preocupe com tio Lucius. Ele só está aborrecido porque… — ela suspirou pesadamente — bem, porque ele quer ter seu próprio bebê.
Ela assentiu. Sabia que tio Lucius queria um bebê (só que ele chamava de herdeiro), mas que ele não seria seu irmão. Ela era o bebê de outra pessoa, só estava emprestada para tia Narcissa. Não ligava de estar emprestada, nem um pouquinho, mas estava preocupada com a conversa que tinha acabado de ouvir.
— Tia Cissa, o que é bastada?
Estavam indo para o quarto, em cima, depois das escadas. Era hora do banho e então da história, e depois de apagar a luz e ficar olhando o fogo da lareira até dormir.
— Bastarda, é como a gente chama alguém que teve pais que não eram casados.
— Eu sou bastada.
— Não se preocupe com isso, meu bem. — disse a tia, beijando o topo da sua cabeça e a colocando na cama. Uma ampla cama com dossel, mas um dia ela seria bem grande para ocupá-la toda. — e seu tio está certo, é muito feio ouvir a conversa dos adultos atrás da porta.
— Mas… — ela ia explicar que precisava ouvir, porque era sobre ela. Isso era um monte de explicação para uma menininha de quatro anos, e tia Narcissa lhe deu um olhar severo que a fez desistir, de qualquer maneira.
— Sem mais de ouvir atrás da porta, certo?
— Tudo bem — ela suspirou. — mas, tia. O que é espiralação?
— Espiralação? — Narcissa pensou em que momento da discussão com Lucius essa palavra surgira. — Oh, você quer dizer expiração? Prazo de expiração?
A sobrinha assentiu.
— É o tempo até alguma coisa acabar.
Ela preparou a banheira com água quente e bolhas, e a levou para dentro. Podia deixar os elfos fazerem aquilo, mas não confiava neles para dar banho em sua garotinha. Talvez Lucius estivesse certo. Talvez colocasse muito esforço na menina.
— O que o tio Lucius acha que vai acabar?
— Já chega com essas perguntas, Bevy, querida.Os assuntos dos adultos não lhe dizem respeito. Aqui, vista a sua camisola. Qual a história de hoje? Babbity, a Coelha e Seu Toco Gargalhante?
— Não! — ela foi se enfiar debaixo das cobertas fofas da sua cama.
— A Fonte da Sorte?
— Não!
— Qual então?
— A Bruxinha Emprestada.
Narcissa sorriu complacente e largou o livro de contos no criado mudo. Veio se sentar ao lado da criança, tirando a franja preta de cima dos seus olhos.
— Muito bem. Era uma vez uma bruxinha muito, muito especial. Ela era especial porque…
— Era feita de coisas especiais. — recitou a pequena.
— Isso. Cada coisa que usaram nela foi matéria prima da maior qualidade. A flor mais bonita para sua boca cor de rosa, e os botões mais redondos para seus olhos pretos. Uma estrela cheia de luz para que seus pensamentos fossem muito brilhantes. E assim por diante.
— Só que a mãe dela não podia cuidar dela.
— Isso. Essa bruxinha precisou ficar com a tia dela. A tia teve de prometer que ia cuidar dela muito bem, e lhe dar uma educação de realeza. Fazê-la saber que ela é a melhor bruxinha de todas. E que ela vai fazer encantamentos incríveis quando crescer.
— Só que ela precisa aprender desde pequena.
— Sim, ela precisa. A ser uma boa menina, a saber sobre a sua família e também sobre magia. E sobre como é importante se manter pura…
— Para não estragar a matéria pima.
— Para continuar sendo especial e a melhor de todas. Boa noite, querida — desejou, beijando o topo de sua testa. — Durma bem. Nada de escapar da cama durante a noite.
Narcissa já estava quase na porta quando a sobrinha lhe chamou.
— Tia?
— Sim, Bevy?
— O meu tempo com a senhora vai acabar logo?
A mulher suspirou. Tão inteligente para o seu próprio bem, ela era.
— Já conversamos sobre isso, querida. Um dia a sua mãe vem buscar você, e vai te levar com ela para casa.
— E porque ela não vem logo?
— Você… quer que ela venha logo? — perguntou, se sentindo fria por dentro.
— Eu não sei. Eu gosto daqui… aqui é minha casa.
— É claro que é, meu bem. — concordou, sorrindo no escuro, enquanto deixava o quarto.
✿
Narcissa estava supervisionando o jantar três dias depois, quando um dos elfos entrou na cozinha, todo nervoso, torcendo a barra da fronha que lhe servia de roupa.
— Minha senhora, Dobby tem um aviso.
— As questões sobre administração da Mansão devem ser reportadas à Lucius. elfo, quantas vezes…?
— Mestre Malfoy pediu Dobby para avisar minha senhora — ele guinchou, começando a ir para o forno se castigar. Ela segurou a porta para impedí-lo.
— Diga logo o que é. — ordenou, impaciente.
— Minha Senhora tem uma visita inconveniente, senhor Lucius que disse “inconveniente”, porque Dobby jamais…
— Quem é, elfo? — exigiu, um pouco pálida. Sabia a resposta antes mesmo de ouvir. A impossível resposta. Quatro anos… pensou, gelada.
— Vossa irmã, minha senhora. A senhorita Bellatrix Black está na sala de visitas aguardando-a, ela pediu a Dobby para dizer que ela veio buscar o que é dela.
(Continua…)
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