Indigna Rosa Negra

28 A Rosa e o Clube de Voo


Notas iniciais
Att extra! *todos de pé para a dancinha do cap extra* Rebolou? Boa leitura!

– Eu posso estar errada – disse, conferindo novamente, e mais uma vez por garantia o nome escrito ali onde o seu dedo marcava a página – Mas de outro modo… parece que eu tenho uma irmã.

— Uau. Que legal!

Bervely fez questão de virar para se certificar que o capitão da Grifinória não estava sendo irônico, mas tudo em seu rosto indicava sinceridade genuína e empolgada.

— Eu sempre quis descobrir algum irmão perdido por ai — ele continuou divagando — Provavelmente eu tenho alguns, meu pai deve ter arranjado umas cinco mulheres depois que deixou a minha mãe. Uma de cada vez, quero dizer, não todas juntas, ele não é nenhum pervertido...

— Cale a boca, Wood. Apenas coloque a droga da ficha de volta onde achou e vamos embora daqui antes que um professor nos ache.

O rapaz a olhou com espanto, mas fez o que ela disse enquanto Bervely o assistia voar e atravessar de novo a entrada de corujas que era quase apertada demais para ele. Se sentia pregada ao chão, completamente confusa com o que acabara de descobrir. Como assim a garotinha esperta da Corvinal era sua irmã? Quantos filhos Black tinha espalhado por ai antes de sumir do mapa? E porque diabos Johanne usava o sobrenome da sua mãe, e não o dele?

Wood pousou de novo na grama à sua frente, intrigado e um pouco corado por causa do frio e do vento em cima da vassoura.

— O que vai fazer agora? Vai contar a ela? Você acha que ela sabe? Como será que ela vai reagir?

— Eu preciso ir para as masmorras. — cortou o fluxo de perguntas dele secamente, toda a situação em que Wood sabia de coisas muito pessoais sobre a sua vida se tornando desconfortável.

— Não, Rose, espera!

Bervely estancou no caminho, de costas para ele, um frio tomando o seu estômago.

— Do que você me chamou?

O capitão, não que Bevy soubesse, teve um impulso súbito de bater a cabeça com força em uma quina por ser tão boca grande, mas não havia nenhuma por perto.

— Desculpe. — pediu com arrependimento – Eu pensei que você também tinha percebido.

— Eu não sei do que você está falando. — retrucou com rispidez, sem nem ao menos se virar para olhá-lo. — Me escute bem agora, por que é assim que vai ser: eu apreciei a sua ajuda hoje à noite, mesmo que eu tenha sido obrigada a aceitá-la, e você foi útil em buscar a pasta pra mim, mas isso termina aqui. Eu vou agir como se nenhuma dessas interações tivesse acontecido e você fará o mesmo. Se falar uma palavra sobre o que leu na ficha...

Ele tinha cruzado os braços, como ela pode perceber pelo canto do olho.

— Isso não é justo. — reclamou. — Eu posso te ajudar.

— Não há em que me ajudar e se eu precisasse de alguma, não seria a você que eu iria pedir!

— Por que eu eu sou um grifinório?

— Entre outros motivos. Me deixe em paz. — estreitou os olhos para ele com toda a ameaça que pode reunir — e para o seu próprio bem, é melhor manter a boca fechada.

— BD —

Em poucos momentos da sua vida Bervely tinha sido assaltada por tamanha quantidade de perguntas e tão poucas possibilidades de encontrar respostas. A existência de uma irmã sua ali, em Hogwarts, era tanto uma perturbação quanto uma incógnita, e assombrou seu fim de semana de forma tal que arruinou qualquer chance de ela se concentrar em outra coisa.

Tinha possibilidades remotas de obter respostas, é claro. Poderia escrever para Andrômeda e obrigá-la a contar o que sabia, mas dado a sua última interação no feriado de Natal, não se via nem começando aquela carta. A bruxa deixara bem claro sua opinião de que Bervely devia tirar Black da cabeça, e que o bruxo estava completamente fora do seu alcance.

Mas, estaria ele fora de alcance para Johanne Loren também? Por algum motivo não conseguia imaginar a menina voltando para as férias de verão numa casa onde o primo traidor de Bellatrix a aguardava paternalmente, lhe levando para passeios no Beco Diagonal com sorvetes e compras na loja de logros. Havia alguma coisa bem improvável com aquela imagem mental.

— Olá, mundo para Bervely? O que tá pegando? — Tonks estalou os dedos na frente do seu rosto.

Elas estavam em uma sala de treino no sétimo andar, iniciando as revisões para as provas práticas da Academia de Aurores com as quais Bervely se comprometera em ajudar. Tinham escolhido começar com técnicas de disfarce, nas quais Tonks já era bem boa por causa da metamorfomagia, mas precisava cumprir alguns tópicos específicos.

— Não tem nada "pegando" — negou, com um olhar vago através da janela da sala, que dava vista para as estufas. Naquela manhã o primeiro ano tinha aula com a professora Sprout segundo ouvira falar, e talvez conseguisse ver a turma da Corvinal passando.

— Engraçado, porque acabei de fazer uma pergunta super importante e fui completamente ignorada.

— Apenas repita, Tonks — suspirou. Se tratando da lufa-lufa, provavelmente tinha a ver com a sua recém adquirida habilidade de fazer crescer uma verruga ou algo do tipo.

— Eu quero saber se você já fez a sua inscrição para as aulas de aparatação! Vi o aviso no quadro hoje, e o prazo é só até semana que vem. Você vai querer garantir sua vaga e fazer o teste durante o verão depois do seu aniversário, porque senão, só ano que vem.

Bervely tinha visto o aviso, mas descartara a possibilidade quando lera as exigências do curso. Deu de ombros com desinteresse.

— Eu não tenho doze galeões.

— Ficou louca? Eu posso te emprestar, isso é importante! Você não vai querer se formar sem saber aparatar, é pré-requisito para quase qualquer emprego que valha à pena!

— Ah, é, e de onde você ia tirar dinheiro pra me emprestar? Até onde eu sei são os seus pais que te sustentam.

— Eles me dão uma mesada, lembra?

— Ainda é dinheiro dos seus pais, e eu não quero. — retrucou orgulhosamente. — Eles já fizeram o bastante por mim.

Tonks emitiu uma espécie de urro frustrado com uma mão cerrada batendo na frente do rosto.

— Cristo, você é tão cabeça dura!

— É, grande novidade. Anda, me dá aqui essa lista de conteúdos, vamos logo com isso — tomou da colega o manual da prova prática que a AA enviara junto com o convite para a segunda fase; era assustadoramente grosso e detalhado. — "Habilidades em Disfarces” – leu com ênfase, deixando claro que o assunto anterior estava encerrado – "avalia a capacidade do candidato em realizar transfiguração humana avançada, modificando a própria aparência em níveis diversos, de alguns detalhes à uma extensa mudança que o torne irreconhecível. Pontos a serem avaliados: controle da transfiguração, precisão, rapidez, criatividade e capacidade de voltar à aparência original."

Quando terminou o parágrafo, Tonks sorria enormemente.

— Eu vou arrasar esse teste. Vou ser tão boa que vão ter que passar a chamá-lo Teste Prático Tonks de Seleção.

— Você tem sorte que modéstia não é um dos critérios — sorriu. — Aqui tem alguns dos exemplos do que eles podem te pedir para fazer na hora, vamos ver... "Envelhecer a sua aparência em dez anos", "Rejuvenescer a sua aparência em dez anos", "se assemelhar com outro membro da sua equipe", "se assemelhar com a pessoa de uma fotografia", "se transfigurar na sua versão do sexo oposto"... Isso é insano!

Mas pela cara de Tonks, parecia que o Natal tinha chegado mais cedo.

— 'Ce tá brincando? Isso é irado! Eu vou amar esse teste!

— BD —

Já passava da hora do almoço quando elas conseguiram cobrir todos os pontos do primeiro conteúdo, e Bervely precisou admitir que a forma com que a garota controlava a metamorfomagia era um tanto invejável. Ela não teve problema algum em rejuvenescer ou envelhecer alguns anos, fazendo isso de forma muito convincente, e quando precisou treinar a habilidade de "se parecer com outro membro da equipe" decidiu se transformar em Bervely, o que resultou numa experiência perturbadamente realista. Ficou claro que o seu maior problema era controlar variações de altura; aparentemente fazer crescer ossos era um tanto complicado.

Depois, Tonks usou um quadro de Caciopola, a Etonisa, que estava pendurado na sala, e tentou imitar a sua aparência. Teve alguma dificuldade em acertar a aparência da bruxa da cintura para baixo, já que isso não aparecia na imagem, e recebeu pesadas críticas da pintura, o que propiciou à Bervely grande divertimento.

Se transformar na sua versão masculina provou-se o único ponto no qual a metamorfomaga achou impecílios reais. O máximo onde chegou foi na diminuição do seu cabelo e seios e fazer crescer uma barba, mas continuava parecendo uma garota magra que enfiara a cara em uma poção capilar por acidente.

– Isso foi um desastre – ainda resmungava a caminho do almoço, tendo mantido o cabelo curto e espetado castanho claro, o que só ressaltava o pescoço longo e os olhos grandes e a deixava se parecendo com uma fadinha irritada — como raios eu vou saber como ser um garoto? Eu nunca fui um garoto antes! Eu nem sequer sei como alguém se sente num corpo de garoto!

— Que pena que não é o mesmo que sentir um corpo de garoto, não é mesmo? Se não você estaria feita — insinuou maldosamente. Ela ainda não se esquecera dos amassos quentes entre Tonks e Charles na casa dos Weasley, na véspera de natal.

— É, mas agora que você falou, talvez eu possa perguntar pra um como é a sensação. Você acha que Hugo me diria?

— Soa como algo muito pessoal para se perguntar.

— Nós estamos muito pessoais — sorriu maliciosa.

Bervely rolou os olhos para ela, e mal reparou quem se aproximava andando contra o fluxo de alunos a fim de alcançá-las.

— Olha, é o Wood. Oi, Wood!

— Oi, Tonks. E ai, como vai? Eu soube que você recebeu a sua aprovação para a segunda fase da Academia de Aurores, parabéns. — sorriu cordialmente, apertando a mão dela. Bervely fingiu que estava interessada no quadro de um feiticeiro caolho na parede ao lado, mas não adiantou nada. — Hey, Black. Posso falar com você um segundo?

— Eu acho que você acabou de fazer isso. — retrucou de cara fechada. Tonks franziu o cenho para ela, tentando entender a origem da hostilidade súbita, mas Wood não pareceu surpreso.

— É do seu interesse, na verdade. — ele adiantou, as sobrancelhas grossas ligeiramente franzidas.

— Não vejo o que você pode ter a me falar que seja do meu interesse.

— Apenas fale com ele, Bervely. — Tonks retrucou, lhe dando batidinhas no ombro um pouco mais fortes do que precisavam ser. Elas claramente diziam "vamos ser educadas com o coleguinha, sim?" — Eu te encontro mais tarde na sala de treino, talvez a gente consiga evoluir um pouco no último ponto. Ah, quem sabe Olivio não possa dizer algo sobre aquela sensação que estamos procurando, huh? — deu uma piscadela para Bevy e um tchauzinho para o capitão, e sumiu na multidão tão rápido que não teria qualquer problemas no módulo "evasão" do seu exame prático.

Uma vez que eram só eles dois, Bervely cruzou os braços e apertou seus lábios, deixando claro que a aproximação não era bem vinda. Wood, no entanto, parecia intrigado.

— De que sensação ela estava falando?

— Ela precisa saber se transfigurar na sua versão masculina para os testes. Está fazendo uma pesquisa sobre a "sensação de ser um garoto" pra ver se acerta o tom.

— Ah — ele piscou, aturdido — Não faço ideia do que eu responderia à isso.

— Não acho que alguém faz — suspirou — Então? O que você quer?

Ele sacudiu a cabeça, espantando pensamentos de um jeito bem literal, e catou um pergaminho todo dobrado do bolso das vestes escolares, desamassando-o enquanto explicava.

— Eu sei que você me mandou ficar na minha, mas eu achei que você se interessaria por isso. Sua irmã se inscrev—

Xiu! — ralhou, olhando para os lados para ver se algum dos passantes os ouvira — Não fale isso alto, qual é o seu problema?

— Desculpe. A primeiranista da Corvinal, Loren — recomeçou com ênfase nas palavras — se inscreveu para o Clube de Voo que eu decidi abrir de forma experimental esse ano.

— Não é um pouco tarde para abrir um Clube,Wood?

— Sim — resmungou, parecendo compartilhar da opinião — Mas demorei a convencer a professora McGonnagal de que fazia sentido abrir um Clube de Voo para trabalhar as habilidades de todo mundo sem separação de casas. Ela acha que isso pode ser ruim para o Quadribol.

— E não é? Por que você ia querer que os outros alunos das outras casas voassem tão bem quanto os seus?

Ele rolou os olhos, deixando claro que já tivera aquela discussão antes.

— Quadribol é sobre espírito de equipe! E é só para quem não está em time ter a chance de aprender o esporte sem nenhuma competitividade. Voar é divertido!

Ela ficou encarando o capitão como se ele tivesse acabado de falar algo como "nadar em bosta de hipogrifo é divertido". Wood se empertigou.

— Enfim, não importa, foi aprovado e começa no próximo sábado. Como eu disse, a sua irm—, digo, Loren se inscreveu. Achei que você ia gostar de aproveitar essa chance para se aproximar dela.

Bervely franziu o cenho para aquela ideia tão ingênua e simplista.

— Você acha que eu quero me aproximar dessa garota?

— Bem, lógico. O que mais você faz quando descobre algo assim?

Bervely teve de rir zombeteriamente. Wood devia vir de algum lugar onde o café da manhã era feito de arco-íris e você tinha que dar três abraços antes de meio dia.

— Você é inacreditável.

— Enfim. Eu tenho uma vaga de auxiliar de voo se você quiser. Preciso chamar alguém de outra casa e honestamente seria bom se fosse da sonserina, porque de todos que se inscreveram até agora, nenhum é de lá.

— É claro que não, os sonserinos são orgulhosos demais para aceitar lições de voo de um grifinório. — disse, divertida. Pelo menos a sua casa não estava decepcionando.

— Não são lições, é muito mais sobre compartilhar experiências e... — mas ela estava lhe olhando daquele jeito de novo, com as pálpebras pesadas de descaso, e ele se interrompeu — Ótimo. A vaga está aberta de qualquer forma. Me avise se mudar de ideia.

— Garoto louco — Bevy se achou murmurando sozinha, quando Wood já tinha ido embora — chamar para auxiliar um Clube de Voo alguém que odeia vassouras. Louco.

— BD —

Deveria ser mais simples manter o olho numa primeiranista de outra casa, mas Bervely logo chegou à uma conclusão que nunca lhe ocorrera: Hogwarts era uma escola grande demais, e bastava você querer cruzar com alguém nos corredores, nos intervalos da aula, que isso absolutamente não acontecia. Era uma questão de probabilidade, e a sorte estava claramente agindo contra a sua vontade.

Se ao menos ainda fosse monitora de poções, podia voltar atrás sobre a sua posição de não ir até as turmas das crianças e arranjar um motivo para acompanhar o primeiro ano. Poderia manter um olho na filha de Black e descobrir qualquer coisa sobre ela. Se ela o conhecia, por exmplo. Se ela gostava dele. Se eles trocavam cartas. Ou se o fato de ela usar outro sobrenome significava o que Bervely achava que significaria: a garota era tão alheia à existência de Black quanto ela fora por todos aqueles anos.

— O que você está fazendo?

Bervely se ajeitou com um sobressalto. Estivera espiando entre as frestas da porta da sala de feitiços, tentando descobrir se a turma de Johanne Loren estava tendo aula ali no momento – mas nunca ia admitir isso para Tara Holmes.

— Nada da sua conta. O que você quer?

Não foi hostil por acaso. Estava difícil perdoar Tara por aquela detenção ridícula com as vassouras.

— Bem, você está filando aula de Pocões de novo, por isso dez pontos a menos para a Sonserina.

— Você que sabe, é a sua casa que está afundando, afinal de contas.

— Não posso fazer nada — ela resmungou, toda mau humor e cara feia — Foram ordens do Snape. Você faltou a quarta aula de poções seguida, Black! Ele quer você na sala dele agora, e me mandou acompanhá-la até lá no momento em que te achasse. E ele também disse que é melhor você não fazer ele te buscar onde quer que você estiver, porque não vai ser bonito. Palavras dele. Pare de ser louca! Onde já se viu, provocar Snape? O lema da escola não te diz nada??

— Infernos, pare você de tagarelar. Eu estou indo para a droga da masmorra, ok?

— Agora! — elucidou, suspeitando da súbita boa vontade de Bervely.

— Sim — rolou os olhos — Estou indo agora mesmo, Merlin tenha pena da minha alma. Essa pode ser a última vez que me vê viva, Holmes.

— Pode apostar nisso. — concordou sombriamente. Mesmo quando dava as costas para seguir o caminho da sua execução, Bervely achou ter identificado um vislumbre de preocupação nos olhos de Tara.

— BD —

A sala de Snape nas masmorras estava exatamente como se lembrava; muitos graus mais fria que o resto do castelo, mergulhada na penumbra e temperada com cheiros ácidos e picantes em suspenso no ar. Inspirou devagar e intensamente, inundando os pulmões e tendo arrepios de prazer saudoso. Evitara pensar no que estava abrindo mão naquela ultima semana, mas a sensação de estar ali de volta era massacrante.

Mas você não tem escolha, repetiu para si mesma, atravessando resolutamente a sala sem olhar para os lados, direto para a porta na parede oposta, atrás do púlpito, onde sabia que Snape estaria esperando. Porque as bestas preferiam emboscar as presas em seu próprio território, afinal de contas.

— Entre — a voz cavernosa ordenou através da porta quando ela bateu. Bervely respirou fundo, o coração acelerando de nervosismo só em identificar a provável nota de irritação na voz dele.

O laboratório cheirava deliciosamente. Ela identificou torta de maçã, essência de valeriana, o muito particular aroma de estanho aquecido sob o maçarico e algo como couro. Ficou curiosa para saber que tipo de poção unia ingredientes tão peculiares, mas o que estava borbulhando no caldeirão de Snape era um líquido cor de rosa suave que lembrava suco de morango.

— Sra. Black. Decidiu me dar a honra da sua presença.

Ela até quis retrucar que tinha sido praticamente obrigada a ir até ali, mas mordeu a língua. O inflexão desdenhosa de Snape era surpreendentemente incomoda. Ele lhe olhou de esguelha e voltou os olhos para a sua poção, que mexia com suavidade devotada.

— Sente-se.

— Estou bem de pé.

Sente-se.

O tom de Snape dobrava os seus nervos. Irritada consigo mesma por não conseguir contrariá-lo, sentou-se no banco alto do outro lado do pequeno caldeirão, olhando o ondular do elixir e respirando o cheiro que dele se desprendia.

— Sabe que poção é essa? — perguntou o mestre de repente. Ele parecia calmo, mas Bervely sabia que era só no exterior, mais ou menos como uma serpente cercando sua vítima antes de cravar presas venenosas em seu pescoço. Negou. — Bem, isso é uma lástima. Eu me pergunto o que fazia durante a aula de hoje, quando deveria estar decompondo esta poção junto aos seus colegas.

Decompondo? Bervely sentiu um aperto no coração por ter perdido aquilo. Trabalhos de fracionamento de ingredientes eram extremamente avançados, exigiam técnicas que nenhum livro poderia explicar sozinho. Certamente Snape conhecia métodos incríveis e tinha muito a ensinar, mas ao invés disso ela estivera matando o tempo na biblioteca, num livro qualquer sobre constituição bruxa.

O silêncio se arrastou no laboratório, enquanto o mestre finalizava a poção e desligava a chama sob o caldeirão. Bervely se viu desejando que ele explodisse logo a sua ira sobre ela, porque qualquer coisa era melhor do que a ansiedade da antecipação. Mas ele não parecia com qualquer pressa de finalizar sua agonia.

— Quando o semestre recomeçou, eu me peguei questionando em que condições você teria passado o recesso. Tive a esperança de obter essa resposta em nossa primeira reunião de planejamento da monitoria, antes da aula de segunda feira.

Bervely demorou uns bons segundos para pegar a mensagem. Ele esperara saber se ela tinha passado um bom natal?

— Quando a minha expectativa foi frustrada, eu cheguei à conclusão de que talvez não tivesse sido um bom feriado para a senhorita. — ele prosseguiu, sem lhe dar a chance de responder. O que era bom, porque havia um bolo em sua garganta. — e que talvez ainda não estivesse pronta para voltar ao ritmo pesado de aulas do sexto ano. Que estúpido — Snape deu uma pausa enfática, parando para encará-la com aqueles olhos matadores — da minha parte.

— Eu apenas—

— Qual foi a minha surpresa — continuou o professor, sua voz retumbando no laboratório fechado sem que ele precisasse fazer esforço — quando eu constatei que a senhorita estava frequentando todas as aulas, menos a minha.

Bervely engoliu em seco. De repente ela preferia não ter afogado aqueles bilhetes na frente dele, no Salão Principal. Sentia que ia pagar por cada um que derretera dentro de um copo.

— Você acha que eu sou algum idiota, senhorita Black? — ele arrastou a pergunta muito seriamente. Bervely percebeu que não era retórica pelo modo como Snape lhe fuzilava.

— Não... professor.

— Engraçado. Então por que motivo sobre a terra a senhorita ousaria ignorar as minhas notas, se ausentar das minhas aulas e menosprezar as suas atividades de monitoria, Srta. Black?

Ela esperara a pergunta, é claro, mas de repente notou que nenhuma resposta que pudesse ter seria boa o bastante. Não para Snape, e certamente não para ela própria, como o aperto em seu peito deixava bem claro.

— Eu sinto muito, professor Snape. Eu apenas não tenho mais interesse em Poções.

Mesmo enquanto falava, a dor era quase física. Snape pareceu senti-la também em algum grau, porque ela viu suas mãos longas e brancas se fechando em punhos.

— O que isso deveria significar?

Bervely ergueu o rosto. Não conseguia olhar para ele, mas bem que podia tentar fingir alguma dignidade no seu posicionamento.

— Eu acho que fui bastante clara. Não quero mais trabalhar com Poções, cheguei à conclusão de que não é uma atividade boa suficiente para dedicar o meu tempo. Eu peço perdão por ignorar as suas cartas, estava apenas tentando evitar a necessidade dessa conversa. Como eu disse na minha resposta, pode suspender os benefícios da monitoria o quanto antes.

Ele estava se controlando, ela sabia. Diante de qualquer outro aluno usando aquele tom, Snape já o teria colocado em seu lugar, que era esmagado sobre a sola do seu sapato se sentindo menos que gosma de lesma. Mas não, ele estava se contendo, Bervely só não sabia porque. Talvez o que o mestre reservasse para ela fosse ainda pior, pensou com um arrepio.

— Você está me dizendo que poções não é bom o bastante para você. — repetiu o bruxo. Havia uma vibração por trás da sua voz, que podia muito bem ser a gana assassina se manifestando.

— Isso. Sinto muito se desperdicei o seu tempo comigo. Não vai acontecer novamente.


Agora, ela pensou. Agora ele vai falar naquele tom que não é um grito mas soa pior do que um, como mil garras de aço enfiadas em meu cérebro.

Para a sua surpresa, a entonação que se seguiu foi suave.

— Está certa disso?

— Sim. — confirmou para um ponto sobre o ombro dele.

— E não tem mais nenhum motivo para essa decisão, a não ser a sua súbita decepção com essa atividade inferior e inútil que é o pocionismo?

— Isso. — retesou seus ombros. Era agora. Resistiu a tentação de fechar os olhos e tapar os ouvidos como fazia quando era pequena e precisava enfrentar um ataque de fúria de Bellatrix.

Mas tudo que ele disse foi:

— Não.

Bervely pestanejou. Mas explicações adicionais não vieram e ela foi forçada a encará-lo.

— Não o quê… professor?

Não. — o Prof. Snape repetiu, pacientemente, apesar do que diziam seus olhos de besouro pregados na afilhada — Eu não permito que você abandone a monitoria ou as aulas de poções no meio do ano letivo. Minha matéria não é um hobby do qual você pode largar mão quando bem entende, Srta. Black. Além do mais, devo lembrá-la que os seus serviços de monitoria são uma substituição ao pagamento dos seus estudos neste colégio, portando, obrigatórios para a sua permanência.

— Eu posso fazer outras coisas! Não preciso ficar presa ao senhor, preciso? Esse é um pais livre!

Se ele ficou magoado por ela levar a questão para o lado pessoal, não demonstrou.

— O que mais você faria? — ao invés disso perguntou, com pesado desdém.

— Eu não sei, qualquer coisa! Eu posso ser auxiliar do Clube de Voo com Wood, por exemplo! — esganiçou-se. Se sentiu ridícula dizendo aquilo. Snape erguera o cenho em incredulidade.

— Clube de Voo? Você odeia quadribol!

— E quem o senhor é para me dizer o que eu odeio? O senhor não sabe nada sobre mim!

— Ora, por favor, Srta. Black!

As mãos de Bervely tremiam, mas entendeu que briga era opção melhor do que a conversa anterior, cheia de silêncios longos e nós no estômago.

— Você não pode me obrigar! Não pode me fazer tocar em uma concha ou maldita faca, não pode me fazer ler um livro texto nem ferver nenhuma maldita poção nem tirar dúvidas de qualquer dos seus alunos imbecis! Eu não vou fazer! Minhas mãos estão atadas e eu não vou encostar num maldito caldeirão outra vem em minha vida!

— JÁ CHEGA! VOCÊ NÃO VAI ABRIR MÃO DISSO, BERVELY, EU NÃO VOU PERMITIR!

Aquele fora um grito, de uma forma que ela nunca o vira fazer. Nem quando algum aluno arruinava um caldeirão, nem mesmo se era Potter ou Longbotton, os terrores das suas aulas. Ele tinha socado o seu punho na bancada, fazendo com que diversos frascos de vidro se chocasse uns contra os outros e trincassem. A poção no caldeirão transbordou e salpicou pelo seu braço, mas ele sequer se deu conta. Estava lívido, assustador, e pela primeira vez na vida, Bervely quis deixar aquele laboratório correndo e nunca mais voltar.

A não ser pelo fato de que estava paralisada de choque.

Snape nem olhava para ela. O que era bom, porque ela não achava que aguentaria o seu olhar agora. Teve dificuldade em ouvir as próximas palavras dele, porque seu coração pulsava ensurdecedor em suas orelhas.

— Você está dispensada temporariamente das atividades de monitoria. Mas é bom comparecer às minhas aulas, Srta. Black, porque cada uma que faltar vai custar cinquenta pontos para a sua casa. Agora, saia do meu laboratório.

Voltou-se irritadamente quando viu que ela continuava ali pregada ao chão.

— O que está esperando? SAIA!

Não parou de andar até se achar na sua cama do dormitório, sem saber bem como parara ali. Pacey, que tinha acabado de entrar no quarto cheia de livros de astronomia, arregalou os olhos para ela.

— Você está bem? Não está tendo outra coisa no coração, está?

— Eu não sei — arfou — talvez eu esteja.

Sua cabeça rodava. O que infernos tinha acabado de acontecer naquele laboratório?

— BD —

A semana transcorreu quase normalmente.

Não fosse, é claro, que a somar com o constante e perturbador fluxo de dúvidas que rondavam a sua cabeça no que se referia à Sirius Black e Johanne Loren, ela ainda precisava lidar com a ansiedade de comparecer às aulas de poções e encarar aquele novo e irado Snape.

Tentou sair pela tangente na quarta feira, para logo descobrir que a monitora chefe fora informada a respeito da penalidade que seria infligida à Casa caso Bervely cabulasse mais uma aula. Quando ousou insinuar que não dava a mínima para a Copa das Casas, Holmes subiu numa mesa do salão comunal cheio e avisou para a casa inteira que eles seriam pessoalmente responsáveis pela perda de cinquenta pontos se de alguma forma permitissem a ausência dela numa aula de Snape até o fim do ano.

Isso arruinou qualquer chance que Bervely tinha de contrariar as ordens do professor, é claro.

Mas Snape a ignorou completamente. Ele nem mesmo fez qualquer comentário sobre o fato de ela se recusar a tocar em um ingrediente ou utensílio, e fazer vista grossa para os erros de Sia na Poção da Alma Ardente. Não sabia dizer se o silêncio e descaso do mestre era um alívio ou parte da punição, mas de toda forma ficou muito feliz quando a sexta feira terminou.

Outra coisa na qual falhou miseravelmente foi em descobrir qualquer coisa sobre a primeiranista da corvinal com quem supostamente tinha laços de sangue. Seus horários não podiam ser mais discrepantes, e a vista da mesa da Sonserina para a Corvinal era bem desfavorável.

Diante de tudo, Bervely se viu acordando cedo no dia seguinte para uma manhã clara e limpa, provavelmente uma das últimas desse tipo que teriam antes da temporada de chuvas começar.
Num passado próximo, o seu hábito do sábado era preparar um banquete de moscas para a Sra. Calliway, mas a aranha não retornara desde outubro. Bervely começava a pensar que talvez ela tivesse tido mesmo um encontro fatal com a Mme. Norra, como sugerira Greengrass esperançosamente no retorno do recesso.

Estava um pouco frio, então ela vestiu um suéter cinza chumbo e dispensou o cachecol, deixando o pescoço livre. Depois parou no espelho um segundo, considerando, talvez, mudar o comprimento do seu cabelo.

A última vez que o cortara foi aos treze anos, mas ele estava constantemente no comprimento que ela mais gostava: na altura dos ombros, com as pontas desfiadas e uma franja lateral arrumada para a direita. Se acostumara a pensar que tinha um crescimento de cabelo lento, mas se parasse para pensar, era da verdade um crescimento inexistente. Seria esse um dos sintomas da sua metamorfomagia, manter a sua aparência exatamente como preferia, de forma inconsciente?

Quais outras características do seu corpo estaria mantendo sem saber? Embora tivesse se arranhado várias vezes durante as brincadeiras da infância com os primos, não podia encontrar em si mesma nenhuma cicatriz. E uma vez os Weasleys e Tonks tinham lhe pirraçado sobre sardas, mas ela mesma nunca as vira em seu rosto.

— Hipnotizada pela própria imagem, Bervely? — Sia cantarolou, tendo acabado de acordar e encontrando a colega parada em frente ao espelho.

— Você acha que eu sou perfeita demais? Tipo... quase impossível demais pra ser verdade?

A negra ergueu tanto as sobrancelhas arqueadas que elas quase sumiram em seu cabelo.

— Ai está uma pergunta existencial com que se preocupar num sábado de manhã. — zombou.

— Não, eu falo sério. Tem alguma coisa na minha aparência que quase se parece errada, de tão certa?

A outra deu uma gargalhada incrédula, saltando da cama.

— Esse é um nível de narcisismo completamente novo que você está alcançando, Black. Cala a boca, garota, você nem tão bonita assim, pra começo de conversa. Só se for pra o padrão fantasma, e mesmo pra eles você talvez seja branca demais.

— Não precisa ser despeitada — a garota deu um muxoxo — Além do mais, todo mundo sabe que as minhas maçãs do rosto deixam os garotos loucos.

Sia rolou os olhos, passando por ela pra ir ao banheiro.

— Garotos são loucos por peitos, Bervely, não maçãs do rosto.

— Eu tenho peitos! — exclamou em defesa própria, mas Sia já tinha fechado a porta, e através dela podia ouvir sua gargalhada.

Voltou-se ao espelho, pensativa. Talvez pudesse aprender com Tonks uns truques de aparência, afinal de contas. Não faria mal nenhum dar um pouco de destaque ao bonito corte em V daquele suéter...

— BD —

Quarenta minutos depois, ela estava descendo os terrenos da escola em direção ao campo de quadribol. Sem surpresas, Wood já esta a lá; vestia o uniforme de quadribol e dispensava o time do que parecia ser o final de um treino. Bervely nunca entendera o que fazia alguém querer se levantar tão cedo num sábado para passar frio em cima de uma vassoura, mas ela não entendia muitas coisas relacionadas ao quadribol e isso nunca tinha lhe perturbado.

Esperou o time da Grifinória se dispersar completamente antes de se aproximar do capitão, que arrancava o casaco do uniforme apesar do tempo gelado. Ele estava todo suado e a blusa que usava por baixo se grudava ao seu corpo. Não era uma visão ruim em nenhum sentido.

— Hey! — ele abriu um grande sorriso quando a viu— eu estava me perguntando se você vinha mesmo!

— Ninguém se perguntou isso mais do que eu essa semana, acredite. Mas eu imagino que seja tarde demais? Você com certeza arranjou uma auxiliar a essa altura. – sondou, esperançosa.

— Na verdade não. Preferi acreditar que você ia aceitar o convite.

— Audaz da sua parte.

— Deve ser coisa de grifinório. — ele deu uma piscadela — Então, isso é um sim? E antes que eu me esqueça, você está ótima hoje.

— Não precisa puxar o meu saco, Wood. E sim, isso é um sim — disse com alguma má vontade, para não perder o costume — Mas só por hoje. Não vou acordar cedo todo santo sábado pra ver um monte de pirralhos voando sem objetivo num campo.

— Isso é ótimo! — ele vibrou, ignorando tudo que ela dissera depois do "sim" — Os meninos vão chegar às nove em ponto, se importa se eu tomar uma ducha antes?

— Vá em frente. — ela lhe fez um aceno encorajador, enfiando as mãos no bolso em seguida. Não fora tão boa ideia assim subestimar o frio de janeiro, afinal de contas.

— Você pode esperar lá dentro do vestiário. Vai congelar parada aqui.

— Vou ficar bem. — insistiu teimosamente. A ideia de ficar sozinha com Wood mais uma vez, no vestiário vazio e envolvendo ele tirando suas roupas lhe provocara um apertão peculiar no estômago.

— Se você diz — ele deu de ombros, sorrindo. Como Bervely se lembrava, eram bons ombros, largos e angulados do jeito certo. Ela desviou o rosto, zangada consigo mesmo por estar reparando. — Volto já. Se alguém chegar, pode ir tomando a dianteira.

Ele saiu antes que ela perguntasse o que seria tomar a dianteira. Sentada num dos bancos que ladeavam o campo, ficou torcendo para que ninguém chegasse e a encontrasse ali sozinha, já que não sabia a primeira coisa sobre aquele clube estúpido de Wood. Felizmente ele voltou dez minutos depois, cheirando a sabonete e loção masculina, o cabelo castanho úmido e um casaco grosso marrom. Trazia sob os braços um monte de vassouras que despejou amorosamente na grama aos pés dela.

— Isso vai ser legal — ele fez uma espécie de balanço animado com o corpo, que também podia ser para espantar o frio — Está empolgada? Oh, lá estão eles. Vamos ensinar o que é bom na vida pra esses pestinhas, Black.

Ela meneou a cabeça, observando um grupinho de primeiranistas se aproximar inseguro, e respirou fundo. Aquela ia ser uma longa manhã, sem sombra de dúvidas.

— BD —

— Você precisa segurar com as duas mãos, Kevin... Assim. Não, não incline o corpo desse jeito... Oh, bosta.

Tretton caiu e rolou pela grama pela centésima vez aquela manhã, e como em todas as outras, ele caiu sorrindo e se levantou quicando. Olívio correu até lá para ver se tinha se machucado, mas o menininho era indestrutível.

— É verdade que Harry Potter conseguiu fazer uma pirueta no ar em sua primeira aula de voo?

Bervely abafou um sorriso. Tinha cada vez mais certeza de que o garoto tinha se inscrito naquele clube com único objetivo de bombardear Wood com perguntas sobre o grande astro de quadribol do segundo ano. Potter, ela descobrira naquela manhã por culpa do inquérito incessante de Tretton, era o apanhador mais novo a conseguir entrar para o time naquele século.

Ela também descobrira outras coisas inúteis até então; aparentemente, se você dava um impulso muito forte em uma vassoura ela podia ficar fora do controle, e se montasse muito atrás no cabo, ao tentar mudar de direção no ar acabaria empinando em sua vassoura e despencando de costas, o que era um tantinho alarmante de ver acontecer.

Para ela, pelo menos. As seis crianças que compunham o Clube de Voo estavam se divertindo, conseguiam se manter no ar com relativa estabilidade e aprendiam os comandos básicos de voo com facilidade.

Entre eles estava Loren. Finalmente tivera a chance de observá-la mais de perto sem que isso parecesse suspeito, afinal era a "auxiliar" de Wood, era suposto que estivesse olhando para que nenhum deles quebrasse o pescoço.

E ela era boa. Fora a primeira dos seis a dominar o comando de mudar de direção enquanto subia, o que devia ser algo complicado de se fazer para um principiante. Seu semblante era concentrado quando ouvia o capitão da Grifinória, mas se relaxava quando estava executando algo no ar. Havia um claro prazer no que estava fazendo, despreocupada enquanto o cabelo impossivelmente preto voava atrás de si como uma bandeira. O recorte do seu rosto era delicado, um nariz fino, uns olhos grandes, os lábios cheios e um queixo pequeno. Não podia decidir se, em algum nível, elas se pareciam.

— Muito bem! — Wood soou o apito pendurado em seu pescoço, a liderança nata de capitão impressa no tom e na postura mesmo quando não precisava — Todos no chão! É o bastante por hoje. Vocês foram muito bem!

— Mas eu ainda não consegui o giro baixo completo que você falou mais cedo! — Loren se queixou — Posso tentar só mais uma vez? A Madame Hooch nunca vai me deixar tentar um desses na aula!

— Você pode tentar na próxima semana. — ele disse tranquilamente, dando tapinhas em seu ombro quando Loren pousou. Os outros vieram se aproximando, empolgados comparando seus avanços e com as bochechas rosadas do esforço. O capitão fez um sinal para Bervely se aproximar e ela levantou do banco, esticando-se. — eu pensei que como esse é o nosso primeiro dia, podíamos almoçar aqui fora juntos e nos conhecer mais um pouco, o que vocês acham? Pedi para os elfos servirem a nossa comida em uma mesa ao lado dos vestiários.

— Legal! — um garotinho chamado Belby vibrou, quase tropeçando na vassoura — podemos conhecer como é dentro dos vestiários?

— Eu suponho que podemos. Black, vem conosco?

Ela deu de ombros. Não estava morrendo para ver um monte de armários e banheiros, mas ali fora estava frio, especialmente para ela que tinha ficado parada o tempo inteiro os assistindo. Mesmo o sol mais alto no céu não abrandara muito a temperatura ali no campo de quadribol.

— Eu tenho um casaco extra do uniforme lá dentro, se você quiser emprestado. — Wood lhe ofereceu casualmente quando acompanhavam os primeiranistas até o bloco. Ela estreitou os olhos para o capitão.

— Eu, vestindo algo vermelho e dourado? Sob o meu cadáver, Wood. Prefiro morrer congelada.

Ele deu uma gargalhada, e ela se deu conta, tardiamente, que o garoto fizera a oferta de propósito para provocá-la.

Ao tour nos vestiários se sucedeu o almoço improvisado numa espécie de área externa coberta atrás dos vestiários, onde uma mesa de olmo fora arrumada pelos elfos com oito pratos e copos. Algumas travessas se encheram magicamente quando eles se sentaram; pães, carne assada, salada e batatas, e dois tipos de suco. Aparentemente Wood tinha alguma moral na cozinha.

— Você não vai voar com a gente? — Ida, a outra garota do grupo e única representante da lufa-lufa entre eles, perguntou para Bervely, que quase engasgou com o suco. Estivera disfarçadamente observando Loren se servir e tentando descobrir quais traços do seu rosto poderiam ser provenientes da família Black.

— Eu não... Hm, voo.

Seis pares de olhos se viraram espantados para ela. Aqueles pirralhos deviam ser da mesma igreja que Wood. Este se adiantou, pigarreando.

— A função de Black é ficar observando do chão, assim ela vê coisas que eu não posso ver lá do alto.

— Parece chato — Loren pontuou — talvez vocês devem trocar de vez em quando para ficar justo.

Wood sorriu para Bervely, que estava torcendo a boca.

— Tem razão Johanne, vamos pensar nisso. E quanto a vocês, lembrem-se da minha indicação de leitura. Quadribol Através dos Séculos é indispensável para qualquer um que esteja interessado em se inserir no esporte no futuro.

— E eu pensando que esse Clube ia ser divertido — resmungou um amiguinho de Tretton, Hemingway — mas lá vem dever de casa.

— Eu tenho esse livro, meu avô me deu quando eu tinha sete anos. — disse Loren orgulhosamente, provando a teoria de Bervely de que a garota era uma traça desde as origens — é claro que era uma versão para crianças e as páginas podiam ser coloridas, mas não acho que mexeram muito no conteúdo.

— Hey, eu tive essa edição! — Wood vibrou. — não era o da capa verde com um pomo de ouro vivo na frente?

— Esse! E o pomo de ouro piava quando você tocava nele!

Bervely rolou os olhos. Kevin, que era tão pequeno que mal se via sobre a mesma, quis saber o que era um pomo de ouro vivo, e a conversa degringolou para quadribol outra vez. Ela voltou os seus olhos à Loren, juntando cada informação sobre ela mesma que a menina oferecia. Mas aquilo não era o bastante, precisava saber mais. Precisava saber tudo sobre ela.

— Foi uma ótima manhã, realmente. Não foi, Bervely?

Assentiu, distraída. Eles haviam acabado a refeição e os restos de comida sumiram dos pratos e travessas. No céu, uma tempestade estava se formando, e sentia frio novamente.

— Tive ordens expressas de McGonnagal para acompanhar vocês até as suas salas comunais, por causa, vocês sabem, dos problemas de segurança que a escola anda enfrentando.

— O monstro da câmara — Tretton disse o óbvio. Pelo seu tom, parecia que ele era um grande fã.

— É. — Wood franziu ligeiramente — então eu posso ir com os grifinórios e com você, Ida, porque a sua sala comunal também é no caminho. Black, pode acompanhar Loren e Belby até a a torre da Corvinal?

Ela percebeu imediatamente o que ele estava fazendo.

— Claro.

— Nos encontramos mais tarde?

Olhou para o capitão com marcado estranhamento.

— Com que propósito?

— Relatório das atividades do Clube. Faz parte da burocracia do Clube, e desde que você é minha auxiliar...

Ele deixou implícito o resto. Bervely decidiu que ia ignorar aquilo.

Dali a pouco, acompanhava os dois primeiranistas pelos corredores do castelo. Apesar da boa intenção de Wood em colocá-la quase a sós com Loren, não fazia ideia de como puxar algum tipo de conversa. Para a sua surpresa, não precisou; a garotinha adiantou o passo para alinhar o ritmo com o dela, deixando Belby um pouco para trás.

— Então, você não acha estranho que alguém no Clube de Voo não voa?

— Não. — retrucou. — Quem tem de voar é vocês, eu gosto do chão firme e de observar como são desajeitados.

Loren não conteve um sorriso esperto.

— Você tem medo de altura.

— Quê? De onde tirou isso?

— Não tem problema, não precisa ter vergonha.

Bervely não lhe dignou resposta, tinha se esquecido daquela mania de Loren de ser direta, a qual demonstrara naquela aula de poções agora tão remota em que quase envenenara a sua amiga. Decidiu que não ia permitir a garotinha ficar no controle tão facilmente.

— E você? Do que tem medo?

— Florestas. — ela disse prontamente.

— Qualquer floresta? — franziu o cenho, curiosa.

Loren assentiu. Eles precisaram parar, porque a escada que estavam subindo resolveu mudar de lugar no meio do caminho. Mas Bervely continuava intrigada.

— Por que alguém tem medo de floresta? Já se perdeu em uma?

— Eu não. — a menina mordeu o lábio ligeiramente. — Mas minha mãe sim, há muito tempo. — disse num tom mais baixo.

— Mas ela achou o caminho, não é? É fácil achar o caminho quando você tem uma varinha.

— Não. — disse a menina — Ela nunca voltou.

— Ah. — e depois, lembrando-se dos seus modos — Sinto muito.

— Tudo bem. Isso foi há muito tempo, e eu nem lembro dela, eu era bebê. Foi a minha avó quem me contou que a culpa foi da floresta.

Elas retomaram o caminho pelo terceiro andar quando a escada se encaixou novamente. Belby ainda as seguia, mas não prestava atenção na conversa, bocejando de dois em dois passos.

— E você ficou com seu pai depois disso? — Bervely arriscou, uma vez que estavam em movimento. Tentou usar o tom mais natural possível para uma pergunta tão pessoal.

— Não, com os meus avós. Não conheço meu pai.

— Certo. — murmurou, esperando que a decepção não tivesse transparecido em sua voz. E depois: — É por isso que não usa o sobrenome dele?

Johanne quase tropeçou no novo lance de escadas.

— Como sabe disso? — seus olhos, que já eram grandes, estavam arregalados feito pires chineses.

— Eu vi sua ficha, vi a de todos os que se inscreveram no clube — mentiu, mas isso pareceu convencê-la.

— Não uso o sobrenome dele porque a minha avó não quer. — disse baixinho. Pareceu que ia completar com alguma coisa, mas ao invés disso manteve o silencio na próxima subida, e só foi fazer a pergunta óbvia quando estavam quase na porta da sua sala comunal — Você acha que somos parentes, você e eu?

Foi a vez de Bervely quase tropeçar. Mas ao contrário de Loren, tinha anos de prática em ocultar as emoções, então o que apareceu em seu rosto foi um sorriso vago.

— Eu não me preocuparia com isso se fosse você. No fim das contas, todas as família sangue puros são aparentadas em um grau ou outro.

— É... Eu acho — Ela disse pensativa. Depois abriu um sorriso fácil e estendeu a mão para Bervely formalmente — foi bom conhecer você de verdade hoje, Black. Sempre te achei legal, desde que deu aquela aula pra a gente.

Ela devia ser louca, se tinha gostado daquele grande desastre que fora sua estreita e ruína como professora substituta. Apertou a mãozinha quente, no entanto.

— Igualmente, Loren. Você voou bem hoje.

O sorriso dela duplicou de tamanho.

— Até sábado que vem, então?

— Eu suponho.

Belby também se despediu, e eles entraram no salão comunal depois de responder uma charada. Bervely deixou a torre com uma sensação engraçada no peito, uma espécie de cócegas quente.

— BD —

— Ai está você. Lhe procurei pelo castelo inteiro.

Bervely fechou seus livros com resignação irritada, olhando para os lados enquanto o interlocutor sentava na mesa em frente à ela.

— Pelo amor de Merlin, Wood! Não em público!

— Dificilmente dá pra chamar a última mesa da sessão de História Mágica Oriental de "público". Você é a única louca a vir se enfiar aqui em pleno domingo.

Ele tinha um ponto. A biblioteca estava um tanto vazia naquela tarde, a maioria dos alunos querendo aproveitar o fim de semana para relaxar enquanto os exames finais ainda estavam longe. Bervely, no entanto, se engajara na redação pedida pelo professor Binns para ver se conseguia deixar um pouco de lado a sua obsessão com Sirius Black.

Não estava funcionando muito bem, especialmente quando a sua concentração era prejudicada por grifinórios chegando furtivamente pelas suas costas.

— Então, você e a irmãzinha conversaram ontem? Como foi?

Ela cogitou mandá-lo pastar. Mas isso não tinha dado resultado algum nas últimas vezes, tinha? O capitão continuava voltando.

— Foi inútil. E ela não sabe qualquer coisa sobre Black, tenho a impressão de que isso tem alguma coisa a ver com a avó dela, que até a proibiu de usar o sobrenome dele.

— Humm. Curioso.

— Ultrajante! Quem prefere um sobrenome banal como Loren a um nobre, como Black? Essa mulher deve ser alguma completa maluca.

— Ela mora com a avó? Isso explica... Quero dizer, não explica muito, mas torna tudo ainda mais intrigante.

— Tudo o que? Do que está falando?

Ele tirou um papel de dentro da mochila, com o que parecia um endereço, enquanto explicava.

— Depois que vimos a ficha de Loren na semana passava, eu fiquei intrigado com uma coisa e tomei a liberdade de investigar. Eu tinha certeza que o nome da mãe dela, Olivia Loren, não me era estranho. Sempre me ligo quando ouço alguém que tem o nome igual ao meu, sabe, é meio que uma obsessão, enfim... Eu pesquisei e descobri que essa mulher aparece em algumas notícias de jornais bruxos em 1982. Ela sumiu após um ataque de comensais, próximo à um vilarejo chamado St. Sensille…

— Numa floresta? — completou. Ele assentiu com surpresa — Loren comentou isso. Mas se foi durante um ataque de comensais, ela não deve estar morta?

— Foi o que se concluiu. Apesar de nunca terem achado um corpo, de acordo com as notícias.

— Ok. — Bervely não se importava muito com uma mulher qualquer que morrera misteriosamente durante a guerra há um bocado de tempo. Um monte de gente morrera, afinal de contas. — e o que tem demais você lembrar o nome dela de uma notícia de jornal?

— Ai que está! Não foi no jornal que eu li o nome, afinal eu nem sabia ler direito em 82. Eu o vi foi em outro lugar, nos documentos do meu pai, para ser mais específico. Meu pai é corretor de imóveis trouxas para bruxos, e eu costumava pegar a sua lista de clientes e marcar todas as pessoas que tinham o nome igual ao meu – eu tinha acabado de aprender a identificar o meu nome, veja bem. Há, isso deixava papai pirado. — riu-se — Tinha um monte de Olívios mas era raro aparecer uma Olivia, por isso me lembrei dela.

— Você está dizendo que Olivia Loren tinha um imóvel trouxa quando você era criança, então?

— Não, eu estou dizendo que ela tem um. Escrevi ao meu pai, e ele confirmou que esse imóvel continua sendo utilizado e nunca mudou de proprietário. Fica em Londres, nesse endereço. — lhe entregou o papel.

Ela observou a letra garranchada no pergaminho, embasbacada.

— Você acha que essa tal Loren está viva, morando nesse lugar por todos esses anos escondida da família?

O rapaz deu de ombros.

— É o que parece, não é? E quem melhor do que essa mulher para te falar sobre Black? Isso é, supondo que o próprio não esteja se escondendo lá com ela. Por isso te trouxe o endereço, talvez você queira passar no lugar durante as férias.

Bervely sentiu um arrepio de ansiedade e excitação percorrer seu corpo. Passara dezesseis anos da sua vida sem saber a identidade do seu pai, e agora tinha nas mãos, talvez, o endereço de onde ele morava. A perspectiva de ficar cara a cara com ele nunca fora tão real e aterradora como agora.

— Sim — murmurou, a garganta seca. — talvez eu passe.

Wood abriu um sorriso enorme e convencido para ela.

— Olha só pra você, Black. Devendo um favor para um grifinório… engraçado as voltas que esse mundo dá, não acha?

(Continua...)

entranogrupoentranogrupoentranogrupo!

Notas finais
Tem vezes que eu daria um galeão para ver a cara de vocês no final de um capítulo, esse é um deles ^^ Polêmicas, polêmicas, polêmicas. O que acharam da Johanne? E, como vocês preferem, Oliver ou Olívio? Eu prefiro o primeiro mas estou acostumada com o segundo, se a maioria gostar mais do original posso me habituar. Vão comentar, que post extra merece mimos para a autora. Beijosss!