Indigna Rosa Negra

35 A Rosa e a Mandrágora em Flor


Notas iniciais
Esse é um capítulo muito especial. Será longo, cheio de surpresinhas, e emocionantes ao seu próprio jeito. Pensem nele como um encerramento de mais uma "etapa" de Indigna. Cláudia Lestrange Tressoldi, sua linda, obrigada pela recomendação, adorei demais! Boa leitura!!

Alguns dias mais tarde, ainda Maio de 1993.


“…entre uma coisa e outra há cerca de 250 histórias de deuses mitológicos, heróis e humanos mágicos ordinários passando por transformações da sua estrutura física, desde pequenos detalhes até mudanças chocantes e passíveis de grande carga de energia mágica. Aracne, uma feiticeira emblemática do século X, foi amaldiçoada por uma acromântula ao desdenhar da sua teia, sendo transformada, ela própria, em uma aranha. Já a meio-ninfa Dafne foi transfigurada por seu parceiro em um loureiro, enquanto fugia após ser flagrada em adultério. Segundo as palavras de Olvídio, retiradas de
Metamorfoses, “…uma grande fraqueza tomou seus membros, seus seios macios foram cercados por uma grossa casca de árvore, seus cabelos viraram folhas, seus braços, galhos, e seus pés, antes tão velozes, foram presos fortemente por preguiçosas raízes, enquanto seu rosto se transformou na copa da árvore. Nada restou dela, exceto sua extraordinária graça.” As transfigurações descritas por Olvídio quase sempre são desencadeadas pela fúria de outrem, e deve-se ter em mente um aspecto importante do que chamamos de Transfiguração Infligida por Terceiros: salvo excessões, só podem ser revertidas por quem a lançou, e isso antes que ocorra o processo de conformação ao novo formato, quando mesmo esta reversão se torna impossível.”


– Hum, bom saber. – murmurou, se inclinando para fazer a anotação num pergaminho totalmente caótico, que precisaria ser passado a limpo antes de fazer qualquer sentido.

– Eu tinha me esquecido que você fala sozinha estudando – Tara resmungou, sem tirar os olhos do livro grosso de Defesa Contra as Artes das Trevas no qual estava debruçada – E o quanto isso é irritante.

– Outra coisa irritante é você ficar chamando as minhas manias de irritantes, quando você pode perfeitamente ir se sentar longe de mim e me deixar ser irritante em paz.

A ruiva não retrucou, apenas deu um sorrisinho e continuou estudando. Era o que elas – e a maioria do resto dos estudantes de Hogwarts – faziam desde que maio avançara, e com ele a proximidade urgente e inevitável das provas finais.

Era engraçado notar o pânico pungente que assolava os estudantes naquela época do ano, e o quanto todos ficavam com mais apreensão em relação aos seus próprios professores na última semana de maio do que com, por exemplo, um monstro petrificando alunos aqui e ali.

Prova disso é que aquela era uma manhã de sábado luminosa e quente, mas a biblioteca estava cheia. Bervely lera até então exatos quatro capítulos de livros diferentes sobre teoria em transfiguração humana, mas ainda não se sentia segura o suficiente para as provas de McGonnagal. É claro que ela nunca se sentiria, mesmo que lesse a biblioteca inteira; o problema era crônico e irreparável.

– Oi. Posso me sentar aqui? – alguém sussurrou e Bervely ergueu rosto para ver, para a sua grande surpresa, Johanne Loren lhe olhando de volta em expectativa. Ela sentiu uma pontada de culpa; entre as últimas confusões da sua vida e a proximidade dos exames, quase se esquecera da existência da menina. – É que todas as outras cadeiras estão vagas, ou então tem pessoas que me encaram de um jeito estranho por que eu estou na sessão de transfiguração avançada.

– Vá em frente – Bervely fez um aceno de permissão. Ao seu lado, Tara ergueu o rosto curiosa, e depois suspeitando, ao ver que se tratava de uma primeiranista. – Você há de convir que é estranho.

Loren deu de ombros.

– Gosto de fazer pesquisa extra, isso sempre deixa McGonnagal feliz.

Astuciosa, pensou. Talvez não fosse uma decepção completa para o sobrenome dos Black, afinal.

Vendo que Bervely não ia comentar nada, a menina abriu seu livro, sacou sua pena e pergaminho, e se pôs a fazer anotações compenetradas. Isso deu a chance de Tara trocar um olhar de questionamento para Bervely, que a ignorou. A ruiva voltou à leitura de cenho franzido.

O silêncio de Loren não durou muito. Como Bervely previra, ela tinha um motivo para estar ali, sim, e não era falta de lugar na biblioteca.

– O que você disse à ele?

– Desculpe? – Bervely, pega de surpresa com a pergunta, borrou a sua anotação.

– Oliver, o que você disse para ele?

Bevy olhou de relance para Tara, que estava interessada na conversa sussurrada novamente. Felizmente estavam em um canto da biblioteca que ninguém ia muito, ou já haveria gente reclamando do barulho.

– Não sei do que está falando. Não falo com Wood há séculos.

– Sim, e da última vez que falou, disse alguma coisa que o chateou bastante. – ela acusou, sem meias palavras. Bervely desejou um pouco menos de audácia naquele serzinho – ele anda inconsolável ultimamente.

– Você fala palavras bem grandes para uma menina tão pequena – censurou, querendo que ela se calasse. Tara já tinha deixado o livro de lado, e um sorriso especulativo surgira em seu rosto.

– Primeiro o fim do quadribol, e depois você. Ele está bastante chato. Você devia ir se desculpar.

– Me desculp– honestamente! – exclamou (sussurrando), a paciência perdida – Eu não fiz nada à Wood, e Loren, se quer um conselho, você devia arranjar uns amigos do seu tamanho e parar de se meter na vida alheia!

Ela estreitou seus olhos. Se parecia muito com Bervely quando fazia aquilo; não que nenhuma das duas soubesse.

– Você está sendo bem obtusa, monitora Black.

– Obrigada por avisar, Srta. Loren – zombou, quem ela pensava que era? – Agora se tiver terminado o seu sermão…

– Não terminei não! Não estou me metendo “na vida alheia”, aliás. Wood é meu amigo, e você é… – ela hesitou por um momento. Bervely sentiu um batimento perdido, de um jeito bem estranho, quando a menina atrapalhou-se. – Você é amiga dele. Devia mostrar um pouco de empatia, principalmente se a culpa de ele ter ficado triste foi sua!

– Sim, porque vivemos nessa grande bolha cor de rosa onde todo mundo é amigo e dá as mãos cantando, Loren! Cai na real!

Ela bufou como um gatinho raivoso, catou os seus livros e saiu da mesa resmungando. Quando Bervely olhou para o lado, Tara estava vermelha, segurando um acesso de riso.

– Quem essa pet!²? – ela perguntou, carregada de sarcasmo.

– Só uma primeiranista que acha que é adulta e mete o nariz onde não é chamada. – suspirou ultrajada, ainda, com a audácia da menina. E um pouco perturbada com o que acabara de ouvir.


Tocando no x da questão, Tara fez a próxima pergunta.

– O que você disse à Wood, Black?

Bervely lhe lançou um olhar que exprimia o quanto aquilo não era da conta da outra, mas Tara apenas ergueu as sobrancelhas, sem se abalar. A Black cedeu, sem ver motivos para não contar. Que diferença fazia, afinal?

– Eu disse à ele que tinha beijado outra pessoa.

Tara demorou um segundo para entender. E então:

– Você é uma idiota.

– Não enche.

– O que eu te disse? – ela se exasperou. – Agora perdeu o capitão gostoso. E às custas de que? O que você pensou que ganharia dizendo isso pra ele?

Bervely puxou o livro de volta, procurando com afinco a linha onde tinha parado. Fingiu que a perguntar da ruiva era retórica, e não lhe dignou resposta.


Mas algo ainda estava lhe intrigando.

– Eu pensei que você odiava Wood. Você pareceu tão irritada quando nos pegou sozinhos no trem, na páscoa… – comentou casualmente. Pelo canto de olho, viu Tara rolar os olhos.

– Naquele dia você estava me ignorando, Bervely. Não gosto de ser ignorada, mas não tenho problema nenhum em compartilhar meus brinquedos.

– BD –


No antepenúltimo dia de maio, Bervely teve de acordar bem cedo para o pré-exame de Aparatação. Era o último encontro da turma, e o instrutor anotaria os nomes daqueles que conseguissem aparatar corretamente; caso já fossem maiores de idade, seus nomes seriam encaminhados diretamente ao Ministério para receberem a autorização. Caso não fossem, como era o caso dela, precisaria esperar até o aniversário de dezessete anos para prestar o exame decisivo.

Diga-se apenas que não havia ninguém mais surpresa do que ela quando a totalidade do seu corpo, todos os órgãos vitais inclusos, pararam com sucesso dentro do aro em que era suposta a aparecer. Ao seu lado Sia deu um gritinho feliz, ela mesma parada com sucesso em seu aro. Bervely virou para o outro lado e viu Pacey se exibindo, aparatando e desaparatando no aro que lhe fora designado, em intervalo de segundos.

Quando o examinador se aproximou para pegar o nome de Bervely, Sia arregalou os olhos atrás dele, tocando uma mão em sua sobrancelha à guisa de indicação. Bervely recebeu o recado e deixou sua franja cair discretamente no lado direito do rosto.

– Bervely Black – disse o instrutor, anotando a informação em um pergaminho flutuante – dezessete anos em agosto. Lembre-se que aparatar sem permissão durante esse período pode ocasionar uma advertência ministerial.

– Sim, claro – confirmou, a cabeça levemente inclinada para o chão.

– Muito bem, próximo… Pius Abercombie… melhor fazer o curso de novo no próximo verão, você é suposto a aparatar levando as suas roupas consigo, senhor…

Bervely escapou rapidinho do aro, seguindo as amigas. Sia tinha a mão no peito, como se tivesse acabado de sobreviver à uma tragédia.

– Você falta metade da sua sobrancelha! – acusou aos sussurros de horror.

Bervely tateou seu rosto.

– Merda.

– Não é nada demais – Pacey a consolou, olhando de soslaio e segurando o riso – deve crescer em umas três semanas. Eu não iria à Mme. Pomfrey para consertar, ela vai sacar com certeza o que aconteceu.

– Acho que a gente devia ir comemorar! Bevy, você sabe umas passagens secretas para a escola, não é? Acha que conseguimos escapar para uma cerveja amanteigada? – Sia sugeriu.

– Não sei do que está falando.

– Oh, ela dá uma escapada com a digníssima Tara Holmes – Pacey caçoou – mas nós não somos dignas, Sia, deixe estar.

– Honestamente, vocês acreditam em toda merda de boato que ouvem por ai? – irritou-se. Felizmente nunca foi confirmado que ela estivera fora da escola com Tara no fatídico fim de semana, e desde lá Bervely tentava seguir o conselho do professor Snape e manter fora de problemas.

– Não precisa ficar toda irritadiça só porque estamos falando da sua nova melhor amiga, Bervely.

– Eu não estou–


Mas por ironia do destino, a própria ruiva vinha pelo corredor na direção oposta, apressada e aparentemente procurando por ela. Carregava uma flor roxa com pintas verdes nas mãos, a flor mais horrorosa que Bervely já vira.

– Black!

As meninas de cada lado seu trocaram olhares significativos. A coisa toda só piorou quando Tara lhe estendeu a flor.

– Agora, isso é muito romântico. – Sia ironizou baixinho. – Eu não sabia que vocês já estavam nesse estágio do relacionamento.

Bervely ignorou a colega, recebendo a flor, percebendo de repente o que significava. Seus olhos se arregalaram.

– Mas já? – perguntou à ruiva, que assentiu.

– Prof. Sprout pediu pra te entregar. Você deve ir para as estufas o quanto antes para colher o resto e levar ao professor Snape.

– Obrigada! – exclamou, empurrando sua mochila à Pacey e correndo dali, em direção às estufas tão rápido quanto as suas pernas permitiam. Uns dois professores lhe viram correndo para fora do castelo desacompanhada e lhe advertiram, mas ela não deu atenção.

Há uma semana os botões tinham começado a brotar das mandrágoras, mas eles insistiam em demorar a abrir. As flores significavam que finalmente as plantas estavam adultas, e eram justamente o ingrediente principal para a poção de despetrificação. Se finalmente estavam abertas, isso significava que naquele mesmo dia os alunos poderiam ser trazidos de volta.

Quando chegou à estufa 3, a Prof. Sprout já tinha colhido metade das flores, e incentivou Bervely a terminar o trabalho.

– Preciso correr para a próxima aula. – avisou, derramando uma braçada de flores na cesta com um aceno da sua varinha – Srta. Black, posso lhe confiar o trabalho de levá-las ao Prof. Snape?

Apesar de ambas usarem os abafadores de ouvido bem apertados, Bervely entendeu o que ela falou. Tinha ficado expert em leitura labial naqueles meses de trabalho com as mandrágoras.

– Claro – falou afobada, lutando para imobilizar uma raiz que tentava se enrolar em torno do seu pescoço. As mandrágoras não estavam amando terem suas flores arrancadas.

– Isso é muito importante, Black, se acha que pode não dar conta…

– Eu posso dar conta! – exclamou. É claro que não havia propósito em gritar, já que não podia ser ouvida.

– Muito bem. Eu vou, então.

Dali a mais meia hora, Bervely tinha a cesta repleta das flores roxas e fedorentas das mandrágoras, e a faz levitar e seguí-la pelo castelo até a sala do professor Snape. Alguns alunos lhe olharam com curiosidade, mas o professores entenderam do que se tratava e não lhe perturbaram.

Bervely entrou na sala de poções, que como sempre não estava trancada, e bateu à porta do laboratório de Snape.

– Entre!

Snape não estava fazendo nenhuma poção. Sexta pela manhã ele não tinha aulas, e como ela sabia, deixava o dia livre para fazer as suas anotações no seu livro de registros. O livro era um tesouro; continha todas as informações referentes à técnica do mestre, suas descobertas em poções e suas ideias. Na época em que fora sua monitora, Snape jamais a deixara se aproximar daquilo.

– Srta. Black, em que posso ajudá-la?

Bervely acenou com a varinha, e a cesta entrou pairando no laboratório, pousando sobre a bancada. O professor olhou com interesse para as flores frescas e assentiu uma vez.

– Ficaram prontas, então. Devo começar imediatamente…

– Porque uma hora após colhidas elas começam à murchar. – completou, encarando-o.

Snape lhe observou enigmático por um momento.

– Sim.

– Vai precisar usar um caldeirão número doze para fazer poção suficiente para os 4 alunos petrificados.

– Eu sei exatamente que caldeirão preciso usar, Srta. Black.

Ela assentiu, inspirando fundo. O cheiro de estanho queimado e solução asséptica de caldeirão invadiu seus pulmões como um bálsamo, causando um arrepio de prazer na superfície da sua pele.


Snape esperava que ela saísse para começar o trabalho.

– Levaria a metade do tempo se o senhor tivesse algum auxílio.


– Eu suponho. – cogitou, seus olhos se estreitando. – Se fosse um auxílio instruído o suficiente a respeito do processo.

Ela se balançou sobre seus calcanhares. Mordeu a parte interior das suas bochechas.

– Eu andei lendo.

– É mesmo? – seu tom era quase desinteressado.

– Cerdas de passifore fervidas por meia hora, enquanto se faz a despetelação. Feitiços sucessivos de congelamento e descongelamento de vinte em vinte minutos no segundo estágio. Areação quando as pétalas se tornarem quebradiças. Uma gota de sumagre antes de retirar da pira.

Ele assentiu lentamente.

– Isso deve ser instrução o bastante.

Ela olhou para o teto de porcelana lisa, que possuía círculos da fumaça de muitas e muitas poções ao longo dos anos. O aperto de aflição em seu peito dificultava a respiração, e estava quase desistindo e dando meia volta quando ele falou novamente:

– Você poderia começar pegando o caldeirão número 12 apropriado, então?

O nó se desfez. Bervely abaixou a cabeça, e seus olhos se encontraram. Não havia nada, nada, na expressão séria com que ele lhe olhava no momento, a não ser nos olhos fundos e pretos. E ela soube por intuição, mais do que qualquer outra coisa, que dentro dele algum nó também tinha se desapertado, e o ar entrara mais livremente agora.

Lembrou-se de anuir.

– É claro.

– BD –

Já estavam às voltas com a segunda etapa da poção – congelando e descongelando a substância cinzenta no caldeirão – quando Snape bateu os olhos nela e seu cenho se franziu.

– Você está ciente de que falta metade da sua sobrancelha direita?

Bervely abriu a boca para responder, mas no mesmo momento a voz de McGonnagal soou, amplificada.


"Todos os alunos voltem imediatamente aos dormitórios de suas casas”.

“Todos os professores voltem à sala de professores. Imediatamente, por favor”.

Snape se alarmou, e Bervely congelou com a varinha erguida à meio caminho do feitiço de descongelar.

– Outro ataque?


– Aguarde aqui. – ele recomendou – Não saia em hipótese alguma. Dê prosseguimento à poção, e não abra a porta sob qualquer circunstância.

Ele saiu rodopiando a capa negra, e Bervely executou o feitiço com a mão tremendo levemente, depois puxou um dos bancos e se sentou. Pela voz de McGonnagal, parecia algo mais grave que um ataque. O que poderia ter acontecido? Lembrou-se de um dos colegas comentando que da última vez que a Câmara fora aberta, uma aluna morreu.

Que não seja a Loren, um pensamento lhe pegou em completa surpresa, seguido por outros ainda mais alarmantes: Ou a Tonks. Ou a Tara.Ou o maldito Wood.

De repente havia todas aquelas pessoas que ela não queria saber que tinham sido levadas para a câmara secreta de Slytherin, como aquilo tinha acontecido?

Não era suposto a se importar. Pessoas morriam. Pessoas morriam na neve e lhe deixavam sozinha, gritando seu nome, sentindo que se tivesse feito tudo de um jeito diferente, elas ainda estariam vivas. Mesmo que não houvesse nada que pudesse pensar em ter feito diferente…

Quando Snape voltou, encontrou Bervely muito pálida e hiperventilando. Ela quase saltou em cima dele na ânsia por notícias.

– Quem foi?

– Gina Weasley – disse sem rodeios. Sua expressão era pesada, furiosa, mas hermética – A poção, como vai?

Bervely sentiu alívio, mas ele durou pouco. Era a caçula dos Weasley. Aquela família inteira ficaria devastada, Guilheme ficaria devastado se…

– Ela está morta?

– Não se sabe. Ela foi levada para a câmara, os professores estão tentando tomar providências, mas eu fui designado à retornar e garantir que os alunos que ainda não morreram possam retornar. A poção, Srta. Black?

– Está indo para o estágio três em dez minutos – murmurou. Snape veio se inclinar sobre o caldeirão, e pela sua falta de comentários, pareceu aprovar o trabalho.

– Eu devo lhe informar que os alunos serão levados de volta para casa amanhã pela manhã, pelo Expresso de Hogwarts.

Ela se sentiu gelar por dentro. O que diabos era casa? O que ia acontecer agora? E logo agora que finalmente conseguira retornar ao laboratório, que se sentira plena novamente por um momento, isso seria arrancado dela?

– Está se sentindo bem, Srta. Black? – Snape sondou. Bervely percebeu que estivera encarando o frasco de essência de vália por minutos inteiros, e engoliu em seco.

– Estou.

– Nesse caso, vamos focar no que ainda se pode fazer. Se importa em alcançar para mim a caixa de sumagre na terceira prateleira? É preciso misturá-lo com uma solução alcalina antes de acrescentar à poção, se queremos evitar a coagulação.

Ela fez o que foi pedido, sentindo-se em ligeiramente menos pânico. A voz que era sinônimo de terror e agonia para a quase unanimidade dos alunos de Hogwarts, ironicamente, a acalmava. Fazer poções era o ganho de normalidade naquela tempestade súbita de incerteza que tudo se tornara.

Apesar de tudo, era um alívio estar de volta.

– BD –


O suco de mandrágoras – assim se chamava a poção de despetrificação em seu quarto estágio – estava pronta. Sua aparência era cinzenta e pastosa, lembrava uma massa fina de cimento, com alguns pontos em roxo escuro que enraizavam feito nanquim.

O prof. Snape separou cuidadosamente as quatro doses, de acordo com o peso de cada aluno petrificado, e Bervely as etiquetou e acomodou numa bandeja.

– Meia hora antes que esfriem e percam o efeito. – o professor anunciou, quebrando o silencio eficiente que os tinha absorvido já há algumas horas – Pode me acompanhar até a enfermaria e ajudar na administração?

Bervely assentiu. Estava surpresa em ver que ele não parecia guardar mágoas dela, embora sabia que merecia. Se fosse para manter o estado de animo do professor, certamente o acompanharia até o inferno para administrar suco de mandrágoras em diabretes petrificados, quando mais à enfermaria.

Também estava curiosa para ver a despetrificação acontecer, vale dizer.

A porta da enfermaria estava cheia de amigos dos alunos petrificados, e a Mme. Pomfrey penava para dispersá-los, sem sucesso. Quando viram Snape se aproximando, com Bervely logo atrás carregando a bandeja, eles abriram espaço num passe de mágica (e talvez tivesse sido mesmo, mágica gerada pelo temor ao professor, ela cogitou).

– Fique com a Srta. Granger e o Sr. Creevey, Srta. Black – Snape pediu, lhe indicando as camas dos grifinórios. – Basta gotejar a poção sobre os lábios e ela será absorvida naturalmente. Quando última gota cair do frasco, o processo será revertido.

Ela obedeceu, começando com Colin. Como Snape dissera, quando a última gota caiu em seus lábios ele voltou à cor original, estremeceu e abriu os olhos, assustado.

– Monitora Black? O que aconteceu… eu estou na enfermaria? Ah, não, eu perdi o jogo de quadribol?

Bervely abriu a boca para responder, mas Snape lhe deu um olhar de advertência. Não havia tempo para explicações; a poção de Granger estava esfriando.

– Descanse. – disse à ele, seguindo para a segunda cama e administrando a poção na amiga de Harry Potter. No momento em que ela estremeceu e piscou, seus olhos se arregalaram. Sentou-se na cama, alucinada, o cabelo inchado como uma tenda ao seu redor.

– Harry! Eu preciso falar com Harry! Não, eu preciso falar com a Profa. McGonnagal, ou… – então ela olhou ao redor e percebeu rapidamente o que estava acontecendo, cum um estremecimento, – Ah, não! Eu fui petrificada, não fui? Quanto tempo eu fiquei aqui?

– Algumas semanas. – Bervely resumiu. Não podia deixar de admitir que a garota era rápida; Colin ainda piscava um tanto aturdido mais ao lado.

– Isso é terrível! – ela tentou saltar da cama, mas Bervely a impediu – Professor Snape! Por favor! Eu sei qual é o animal na câmara, e como ele está atacando os alunos!

O mestre se virou, interessado e desconfiando em partes iguais.

– Como possivelmente poderia saber isso estando presa à essa cama pelas últimas semanas, Granger? É impossível que se lembre do ataque, nenhum outro aluno se lembra.

– Mas eu lembro do que estava fazendo antes! – ela arfou – Fui á biblioteca pesquisar, é um basilisco! Está se movendo pela escola pelos canos! – ela olhou para a sua mão, como que procurando alguma coisa. – Peguei a página do livro da biblioteca em que explicava tudo, onde está?

– Você avariou um livro da biblioteca? – Snape alarmou-se.

– É um basilisco, o senhor me ouviu?

Bervely se admirou com a intrepidez da garota. Snape torceu sua boca.

– Um Basilisco em Hogwarts? Honestamente, Srta. Granger… mesmo se estiver certa, já não faz diferença. A escola será evacuada amanhã.

Granger arregalou seus olhos no mais completo horror.

– Por que?

Mas Snape já tinha se desinteressado dela, dando as costas e verificando a despetrificação de Penelope Clearwater junto à Madame Pomfrey. Isso fez com que ela voltasse à Bervely a sua insistência.

– Me deixe avisar à Prof. McGonnagal ou ao Prof. Dumbledore! Não podem fechar a escola! Isso é um absurdo.

– Caso seja um basilisco – a própria ideia de um animal daqueles na escola era aterradora – Que chance tem qualquer um de exterminá-lo antes que mate outro aluno?

Granger estava branca feito os lençóis da sua cama.

– Quem morreu?

– Gina Weasley, da sua casa. Ela foi levada pelo monstro essa manhã.

– Ah, não. – a segundanista murmurou, horrorizada.

O engraçado foi que, uma meia hora depois, a própria Gina Weasley entrou andando na enfermaria, amparada pela mãe e seguida pelo pai. Sua presença, como era de esperar, causou um grande alvoroço em meio ao qual foi difícil compreender o que – como – aquilo tinha acontecido. Bervely se manteve fora do caminho, mas ouviu as palavras “Harry Potter” e “basilisco” serem proferidas.

A menina de fato parecia ter sido engolida e então vomitada por uma cobra de dez metros, tal era o seu estado. Granger correu para a sua cama a fim de consolá-la, e não ficou claro quem era, afinal, culpado.

Mas o basilisco estava morto. E até onde Bervely entendeu, Harry Potter era o responsável. Um garoto de doze anos dera fim num monstro milenar de presas venenosas e olhar mortal. Não fazia qualquer sentido.

Tudo ficou ainda mais estranho quando, dali a alguns minutos, Rony Weasley e o Prof. Lockhart entraram. O primeiro mancando, o segundo completamente desorientado.

– Ele perdeu o último parafuso – Rony deu de ombros sob o olhar questionador da curandeira, e foi se juntar ao resto da sua família. Bervely procurou o olhar de Snape através da enfermaria e achou em seu rosto uma expressão tão perturbada que era quase cômica. Como ela, ele claramente não acreditava nos rumos que aquele dia estava tomando.

– Srta. Black. – suspirou o mestre por fim – Se importa em buscar com o Prof. Dumbledore alguns tônicos energizantes para o Sr. e a Srta. Weasley aqui? Me parece que eles poderiam se beneficiar, e o estoque da enfermaria está esgotado.

– Sim, senhor. – de certa forma, estava ansiosa para sair dali.

Quando já se encontrava no andar da sala do diretor ouviu uma voz que alertou todo o seu sistema de fuga ou luta, vindo na direção da gárgula.

– Vamos embora, Dobby!

Optando pela primeira opção, pega de surpresa, ela se enfiou atrás da estatua de um centauro. Dali tinha uma boa visão do corredor, mas dificilmente era vista. Viu perfeitamente quando o tão conhecido elfo da mansão Malfoy foi chutado porta afora.

Lucius vinha andando logo atrás, visivelmente enfurecido. Provavelmente, ela pensou, com o retorno de Dumbledore à escola, apesar da manipulação que devia ter feito no Conselho para afastá-lo. Mesmo assim era estranha a sua presença ali, para contestar o fato pessoalmente.


Quando Bervely pensava num bom feitiço com o qual poderia atingi-lo a fim de aliviar um pouco da raiva que sentia borbulhar no peito, uma figura veio correndo do mesmo lugar que Lucius saíra. Um ensanguentado, imundo e vivaz Harry Potter se aproximava. Ela reparou que ele só usava um pé de sapato e segurava um livro nas mãos.

Alcançou Lucius no alto da escada.

— Sr. Malfoy — disse sem fôlego, derrapando até parar — Tenho uma coisa para o senhor...


E forçou o livro nojento nas mãos do bruxo adulto.

— Que di...?

O Sr. Malfoy arrancou a meia do diário, atirou-a para o lado, depois olhou, furioso, do livro estragado para o garoto.

— Você vai ter o mesmo fim sangrento dos seus pais um dia desses, Harry Potter — disse baixinho. — Eles também eram tolos e metidos.

E virou-se para ir embora.

— Venha, Dobby. Eu disse, venha.

Mas Dobby não se mexeu. Segurava no alto a meia pegajosa e nojenta, admirando-a como se fosse um tesouro inestimável. Bervely se viu tomada pela incredulidade, quando percebeu o que Potter acabara de fazer.

— O meu dono me deu uma meia — disse o elfo cheio de assombro. — O meu dono deu a Dobby.

— Que foi? — cuspiu Lucius. — Que foi que você disse?

— Ganhei uma meia — disse Dobby, incrédulo. — Meu dono atirou a meia e Dobby a apanhou, e Dobby... Dobby está livre.

O patriarca Malfoy achou-se imóvel, encarando o elfo. Então, atirou-se contra Harry.

— Você me fez perder o criado, seu moleque!

Mas Dobby gritou:

— O senhor não fará mal a Harry Potter!

Ouviu-se um forte estampido, e o Malfoy foi lançado para trás. Rolou pelas escadas, três degraus de cada vez, e aterrissou como se fosse um monte disforme no patamar de baixo. Bervely tapou a boca com as mãos, prevenindo-se de emitir um grito de júbilo.


Lucius se levantou, o rosto lívido, e puxou a varinha, mas Dobby ergueu um dedo longo e ameaçador.

— O senhor irá embora agora — disse com ferocidade, apontando para o antigo dono — O senhor não tocará em Harry Potter. O senhor irá embora agora.

Lúcio Malfoy não teve escolha. Com um último olhar rancoroso aos dois, puxou a capa para junto do corpo num rodopio e desapareceu depressa de vista.

— Harry Potter libertou Dobby! — disse o elfo com voz aguda, erguendo a cabeça para Potter, seus olhos redondos refletindo o luar. — Harry Potter deu liberdade a Dobby!

— Foi o mínimo que pude fazer, Dobby — disse o garoto sorridente. — Só me prometa que nunca mais vai tentar salvar minha vida.— Eu só tenho uma pergunta, Dobby — continuou ele, enquanto o elfo puxava a meia com as mãos trêmulas. — Você me disse que toda essa história não estava ligada a Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, lembra-se? Bem...

O coração de Bervely gelou. O que o Lord Negro teria a ver com tudo aquilo? O Lord Negro estava morto, todo mundo sabia


— Foi uma pista, meu senhor — disse Dobby arregalando os olhos. — Estava lhe dando uma pista. O Lord das Trevas, antes de mudar de nome, podia ser nomeado livremente, entende?

— Certo — disse o grifinório, sem muita convicção em sua voz. — Bom, é melhor irmos andando. Vai haver uma festa e minha amiga Mione já deve estar acordada a essas horas...


Dobby atirou os braços em torno da cintura de Harry e apertou-o.


— Harry Potter é muito maior do que Dobby pensou! — soluçou. — Adeus, Harry Potter!


E com um estampido final, desapareceu.

Potter deu a volta, pretendendo pegar um atalho para a sua sala comunal, mas a essa altura Bervely já saíra do seu esconderijo e estava no meio do caminho. Viu que o menino tomou um susto com a sua presença inesperada.

– Eu estava de passagem, Potter, e não pude deixar de notar o que acabou de fazer ao elfo daquele bruxo.

O garoto franziu, à caminho de ficar envergonhado, mas logo mudou de ideia e lhe olhou desafiadoramente.

– Malfoy mereceu. – disse com ferocidade – Se você o conhecesse…

– Só queria dar os meus cumprimentos. – ela o interrompeu. – Foi uma atitude notável.


Ele piscou, confuso, mas depois sorriu.

– Obrigado.

– Teria sido por acaso você a impedir a escola de ser fechada, se os boatos são verdadeiros?

Dessa vez ele pareceu mesmo ligeiramente constrangido.

– Bem… sim. Mas não foi sem ajuda…

– Não importa, você tem a minha admiração. Enfrentar um basilisco e Lucius Malfoy no mesmo dia não é para qualquer um.

Potter sorriu sem graça.

– Eu meio que preciso ir… – ele coçou sua nuca – Sabe… sangue de basilisco. – apontou para si mesmo. – Está começando a secar, é realmente nojento.

– Claro, vá em frente. – anuiu com formalidade.

Não teve coragem de perguntar sobre Lord Voldemort, como fora a sua intenção original. Não podia ser nada relevante.

Potter lhe deu uma última olhada intrigada, e foi embora. Ele já tinha virado o corredor quando Bervely percebeu que não chegara a se apresentar.

– BD –


Houve uma festa em Hogwarts nesse dia, onde as pessoas acharam por bem comparecer em seus pijamas. Bervely – para a qual havia um certo nível de dignidade que não podia ser ultrapassado nem quando a escola era salva da ruína na última hora por um segundanista – compareceu em seus trajes habituais.

Dumbledore deu quatrocentos pontos à Grifinória, o que significava que a casa muito certamente ia ganhar o campeonato àquele ano. Os leões não podiam conter a sua excitação – literalmente. Sua mesa era a mais barulhenta e caótica de todas. Ela observou discretamente a felicidade dos Weasley em ter sua irmãzinha de volta são e salva, e como Potter era ovacionado pelos colegas como um herói. Ele se dividia entre feliz e constrangido com a atenção, mas feliz definitivamente estava ganhando.

E Potter salva o dia novamente, ela pensou zombeteira, procurando Draco em sua própria mesa. A expressão de azedume na cara do primo era extrema, e Bervely se pegou desejando que ele pudesse ter visto o pai rolando as escadas mais cedo, por causa de um elfo.

Bervely se sentia vingada. Poucas coisas foram tão satisfatórias na vida como ver Lucius Malfoy rolando escada abaixo, seus cabelo loiro, sua capa e sua bengala se enrolando numa confusão completa.

Naquela noite, a vida era boa.

Voltara ao laboratório de poções. Não sabia se Snape ia aceitá-la de volta a monitoria, mas talvez, se ela fizesse bons exames, ele não a odiasse a ponto de reprová-la. Ia ter de começar a recuperar os tempo perdido já no dia seguinte, bem cedo…

Foi quando McGonnagal anunciou que todos os exames tinham sido cancelados como um presente da escola (“Que absurdo!”, exclamou Pacey inconformada), e em eco ao suspiro coletivo de alivio do salão inteiro, ela achou que não dava para melhorar aquele dia estranho.


Ai o Prof. Dumbledore anunciou que Lockhart não voltaria a lecionar Defesa Contra as Artes das Trevas no ano que vem, porque precisava se afastar para recuperar a memória (foi a vez de Sia exclamar sua revolta), e Bervely, que se sentia irritada pela presença do professor mesmo sem pegar suas aulas, quase se beliscou para confirmar que não era um sonho.

A festa se estendeu noite à dentro; ninguém queria ir embora. Quase tinham perdido Hogwarts por entre seus dedos, e custava deixá-la agora em troca de uma noite de sono. Bervely também se sentia assim: pela primeira vez, quis ver o sol nascer através do teto encantado do salão principal. Muito facilmente os estudantes se misturaram entre as mesas, e Tonks ousou se aproximar de onde ela estava sentada, aproveitando que Sia e Pacey tinham ido se juntar aos meninos do time de quadribol para uma partida de “verdade ou azaração”.

– Oi! – ela disse simplesmente, escorregando para o banco de mogno como se sua presença ali não fosse um contra-senso.


Seu cabelo estava rosa choque, os olhos de um castanho brilhante. Ela empurrou um envelope para Bervely. – É o convite para a minha formatura. Você pode trazer um acompanhante se quiser.

A insinuação estava clara em sua voz. Bervely pegou o envelope e enfiou no bolso.

– Vou levar minha aranha. Hoje quando voltei para o dormitório, ela tinha reaparecido!

Tonks torceu a cara num nojo pungente.

Não leve a sua aranha. Leve um grifinório charmoso com sotaque escocês e lindos olhos castanhos.

– Só se for amarrado e inconsciente, ou sob o efeito de um Imperius.

– Que coisa horrível de se dizer! – elas tinham estudando a fundo as maldições imperdoáveis, caso os examinadores resolvessem perguntar à Tonks no teste prático. – Vocês ainda estão sem se falar?

– Não é provisório, Tonks. Acostume-se.

Tara, que estava ali por perto, deu um grande muxoxo impaciente e bateu seu copo na mesa. Bervely sabia que ela andara bebendo suco de abóbora adulterado com uísque de fogo que Marcus Flint contrabandeara para festa, e isso já fazia algumas horas. Quando ela saiu da mesa num rompante, Bevy franziu o cenho, ligeiramente preocupada, até Tonks lhe distrair novamente.

– Acredita que só faltam quatro dias para o meu exame? Acho que vou morrer de tanta ansiedade. E sem falar nos N.I.E.M.s! Você tem sorte dos exames terem sido cancelados, mas ninguém vai me dar N.I.E.M.s de graça!

– Pára de resmungar, você vai chutar as bundas de todos os examinadores no domingo.

Tonks fez uma pausa dramática para lhe olhar horrorizada.

– Você acabou de falar “chutar as bundas”? – pousou a mão no peito, o cabelo ficando branco – Meu deus, eu criei um monstro.

Bervely rolou os olhos. Foi quando viu a silhueta ruiva se aproximar da mesa da grifinória, bem onde Wood estava (mesmo sem olhar, Bervely sempre tinha a exata noção de onde o capitão estava sentado na mesa. Não era sua culpa ele ser tão previsível).

– Que merda Tara está falando com Wood? – lhe escapou pelos lábios, quando a sonserina se curvou sobre ele, os cachos vermelhos deslizando do ombro e fazendo uma cortina que lhe impedia de ver as expressões do rapaz. Tonks torceu o pescoço para conseguir um angulo de visão.

– Eles são amigos?

– Não nesse planeta – estreitou os olhos – Mas que–

– Acho que ela está querendo mais que amizade, se quer saber da minha opinião. – a metamorfomaga pontuou, assistindo Holmes se curvar ainda mais para sussurrar no ouvido de Wood.

“Sonserinos e grifinórios flertam há séculos.”

– Holmes acabou de assinar a droga do atestado de morte dela. – declarou.

Tonks lhe deu um olhar estranho, meio divertido, meio preocupado, depois suspeitosamente cheirou a sua bebida. Sua sobrancelha cor de rosa se ergueu em arco.

– Isso não é suco de abóbora.

– Claro que não, odeio suco de abóbora.

– Mas seja lá o que era, colocaram tanto uísque aqui que já pode abastecer uma motocicleta. Você bebeu isso?

– Talvez eu tenha dado alguns goles – retrucou, pegando o copo de volta, sem tirar os olhos da outra mesa. Seja lá o que Tara estava contando ao capitão, ele estava gostando de escutar. – O que não vem ao caso.

O sorriso de Tonks agora era resplandecente.

– Pensei que você não se importasse mais com um certo grifinório.

– Não é essa a questão. Eu me importo com vadias traidoras que dão em cima do que é…ra meu.

Seu, você diz? – disse Tonks quase às gargalhadas, enquanto que Bervely levantou da mesa com estardalhaço. No mesmo momento os olhares de Holmes e Wood se voltaram na direção dela.

– Ela nunca devia ter voltado ao nosso dormitório. – rosnou, se desvencilhando do banco e derrubando o copo no processo – Quando ela voltar para a cama, vou estar esperando essa traidora com um gancho de estripar carcaças.

– Bervely, espera!

Mas a sonserina se foi, deixando o salão comunal com muita ira homicida acumulada sobre a sua missão por “alguns goles” (três copos) de uísque de fogo.

Quando chegou ao dormitório, no entanto, desabou na própria cama e pegou no sono sem poder fazer nada sobre isso, a vingança completamente esquecida num sono exausto e embriagado.

– BD –


O trimestre chegou ao fim com algumas diferenças notáveis – a mais satisfatória delas, sendo Lucius ter sido destituído do cargo de Conselheiro (isso foi quase tão bom quanto vê-lo caindo das escadas, lembrança que Bervely guardaria com carinho para sempre e usaria da próxima vez que tentasse conjurar um patrono).

Bervely não matou Tara com o gancho de estripar entranhas. Ela mal se lembrou, no dia seguinte, porque voltara ao dormitório tão irritada na madrugada de vinte e nove de maio. Quando Tonks lhe perguntou o que tinha acontecido naquele dia, ela deu de ombros, um olhar perdido em seu rosto, e a prima em troca sorriu misteriosamente e nada esclareceu.


A lufa-lufa tinha feito, por sua vez, o seu exame prático na Academia de Aurores na semana seguinte, e voltou absolutamente radiante. Ela fez questão de mostrar à Bervely o patrono corpóreo que fora capaz de conjurar (um macaquinho agitado, mas bastante simpático) e disse que era proibida por um feitiço de revelar os detalhes, mas que fora exímia no teste de “bzihagsagah”. Também se recusou à revelar que memória feliz usara, encerrando o assunto com outro sorriso misterioso.

Bervely retornou à prática de poções e, apesar de algum resquício de hesitação, deu seu melhor nas preparações. Ainda assim, Snape não mencionou qualquer coisa à respeito da monitoria para esse ano ou o seguinte, e foi quando ela finalmente percebeu que ele não a queria de volta. Ela estragara a sua chance, e ia precisar lidar com isso; pelo menos, ele não a olhava mais como se preferisse que ela fosse um rato morto e dissecado em um de seus frascos de ingrediente.

– O prof. Dumbledore elogiou a preparação do Suco de Mandrágoras, e eu lhe informei que o sucesso da poção não teria sido possível sem o cuidado com que as mandrágoras foram cultivadas. Ele me pediu para lhe repassar a sua gratidão pelos serviços prestados à escola, e avisar que ano que vem não precisa se preocupar com o custo dos seus estudos, tudo será coberto. – lhe disse o mestre, na última aula do trimestre.

Ela assentiu sem maiores comentários, apesar de se sentir aliviada por dentro. Um problema à menos com que se preocupar.

– Já decidiu onde vai passar as férias de verão? – o mestre voltou a falar, casualmente, quando ela arrumava o material para ir embora. Bervely estranhou a pergunta; os assuntos pessoais entre ambos tinham se reduzido ao mínimo desde que ela retornara a ser ativa nas aulas.

– Não, realmente.

Ficou esperando que Snape dissesse qualquer coisa sobre não ser ingrata e procurar os Tonks, mas não aconteceu. Ele tirou um papel dobrado do seu bolso e colocou sobre a pilha de livros dela.

– Caso necessite de algo. – explicou, e saiu em seguida, esvoaçando a capa. Ela abriu: era um endereço.


Rua da Fiação, nº 18. Cokeworth.

Dali a dois dias, todos os alunos se reuniram para o banquete de encerramento, que como esperado, trazia a decoração vermelho e dourada. Ao invés do uniforme padrão da escola, por baixo das vestes longas Bervely trazia um vestido verde que ia até os seus joelhos, tinha a cintura marcada e um decote reto. Atrás, o decote era mais baixo, e adornado com um par de serpentes prateadas que se uniam no centro, bem no fim da sua coluna.

Fora um presente de Tonks, que ela esteve prestes à recusar, até ver as cobras. Mesmo sabendo que devia ter um dedo de Andrômeda na escolha do modelo, se sentiu incapaz de dizer não ao vestido.

Quando o último aluno se retirou do jantar a fim de arrumar a bagagem para a partida no dia seguinte, Minerva McGonnagal e Flitwick transformaram o salão principal num Salão de Cerimonias. As mesas foram afastadas para as laterais, abrindo um espaçoso vão no centro, e o palanque dos professores ganhou destaque com uma decoração sóbria e cerimonial, que incluía um ostentoso brasão de Hogwarts acimando a mesa comprida.

As cores da Grifinória também deixaram de prevalecer, substituídas pelas cores de todas as casas. Com um movimento final da varinha de Flitwick, uma suave melodia élfica começou a tocar, vinda de todas as partes e parte alguma.


Aquela era a cerimônia de formatura dos setimanistas, destinada só para convidados. McGonnagal foi buscar os familiares dos alunos que estavam deixando a escola aquele ano, e Bervely foi enfim autorizada a entrar no salão novamente e se juntar ao grupo que ia crescendo, disposto em frente à mesa. Os formandos estavam lá em cima, já organizados em três filas, usando seus uniformes completos, chapéus pontudos e sorrisos orgulhosos.


Tonks, que ela reconheceu no meio deles, escolhera um cabelo amarelo–gema para a ocasião.

Dumbledore fez as honras e deu as boas vindas. O hino da escola foi tocado, e palavras proferidas. Cada um dos formandos foi chamado à frente e teve a ponta do seu chapéu dobrada pelo próprio diretor, além de tapinhas nas costas e uma foto mágica tirada por uma máquina fotográfica encantada.

Quando Tonks foi chamada, aplausos entusiasmados permitiram à Bervely reconhecer Andromeda e Ted na pequena multidão. Eles acenaram e depois foram até ela.

– O vestido ficou fantástico. – foi tudo que Andrômeda disse, admiração brilhando em seus olhos.

E Bervely soube que ela não estava mais magoada com ela. E a recíproca era verdadeira; afinal, tinha sido um longo ano.

Quando a parte cerimonial terminou, os setimanistas foram liberados para abraçar a família e tirar mais fotos. Os sucessivos flashes quase deixaram Bervely cega, mas só aquela noite, ela não resmungou. Tonks estava radiante.

– Cadê o seu acompanhante? – ela rosnou entre os dentes para Bervely, quando a puxou para uma milésima foto “só nós duas, agora de lado, aqui perto dessa bandeira da lufa-lufa”.

– Eu perdi a segunda credencial, não deu pra trazer a Sra. Calliway. Ela ficou desapontadíssima.

Tonks rolou os olhos, achando a desculpa esfarrapada.

A música se tornou animada, e cenas um pouco constrangedoras de pais e filhas, e mães e filhos dançando aconteceram. Andromeda teve um ataque de riso quando Ted e Tonks fizeram uma coreografia na pista de dança, e precisou de uma bebida que Bervely se predispôs á buscar, só para ela própria não sucumbir às risadas.

Havia uma mesa longa com quitutes e ponche, além de bebidas alcóolicas de verdade para os maiores de idade. Procurou água, mas na verdade seus olhos acabaram parando em alguém que não tinha percebido ali até o momento, e que não devia estar na festa de formatura do sétimo ano.

Era Wood. Parado perto da quina da mesa, lhe olhando de volta, como se tivesse estado ali o tempo todo aguardando o momento que ela se aproximaria. Ele usava vestes elegantes pretas, que lhe caiam muito melhor do que a lei devia permitir, e uma gravata verde com pequenos losangos cinzas. Seu cabelo fora propositadamente bagunçado com gel, outra coisa que devia ser errada, mas lhe calhava bem demais.

O estômago dela deu uma volta completa. Eles não ficavam frente à frente desde a última conversa na clareira atrás das estufas; Bervely tinha plena consciência de que ele a estava evitando, e não esperava nada diferente. Era fácil quando não tinha de vê-lo, especialmente não de perto, mas ali, há poucos metros, tinha o efeito de duzentos alfinetes pontudos em sua consciência.

– Hey. – disse ele, quebrando o silencio constrangedor que se instalara.

– Wood. – Sua língua pesava uma tonelada – Veio… hum, acompanhando alguém?

Era a única explicação. Alguma das setimanistas que estavam se formando devia ter lhe convidado como seu par para aquela noite.

– Sim. – ele confirmou.

Bervely olhou ao redor mas não viu ninguém que pudesse estar com ele.

O momento se arrastou. Ela pensou se dar meia volta e fingir que aquilo não estava acontecendo seria mais ou menos digno do que ficar parada ali parecendo uma idiota.

– Quer danç…

– Quem voc…

Eles falaram ao mesmo tempo e se interromperam no meio da frase. Ele fez um gesto de concessão na direção dela.

– Vá em frente.

– Não era relevante. – desistiu – Fale você.

– Nah. Era uma pergunta estúpida.

– Ah. Nesse caso, se me dá licença… minha tia está me esperando com essa água.

Ela agarrara na verdade uma garrafa de água de giles, mas só percebeu quando já estava de volta à mesa em que os Tonks conversavam animadamente. Ficou quieta, os braços cruzados, tensionada, tentando adivinhar com quem diabos Wood viera. Observou com o canto de olho pelo tanto que a festa durou; ele conversou com alguns colegas, andou para lá e para cá, deu umas risadas breves de algumas piadas prontas, bebeu exatamente quatro copos e meio de ponche; e não se aproximou de ninguém que pudesse ser seu par.

– Estamos indo, querida, McGonnagal nos ofereceu sua lareira para voltar para casa e não queremos abusar da hora. – Andromêda avisou, dando um beijo no topo da cabeça da filha. – Estamos tão orgulhosas da nossa Nymphadora!

Mãe.

Agora você é adulta, Dora – Ted admoestou – não pode ficar de implicância com o próprio nome. Vai bater o pé quando seu chefe te chamar pelo primeiro nome?

– Vou bater o pé até o fim dos meus dias. – ela retrucou, brava.

Andrômeda se virou para Bervely, gentil.

– Nos vemos amanhã na estação, querida?

Ela virou o rosto, distraidamente.

– Sim, claro.

Só percebeu o que tinha acabado de dizer quando os olhos da bruxa se acenderam. Bem, era tarde demais para desmentir. Os Tonks se despediram, e Nimphadora soltou um grande suspiro após a partida dos pais.

– Estou tão exausta que quando eu me deitar naquele colchão, vamos virar uma coisa só. Assim pelo menos não preciso deixar Hogwarts… a última noite, isso é tão triste… – cantou, sonhadora. – Você não vai também? Já arrumou suas coisas?

– Vou ficar mais um pouco. Quero ver o dia amanhecer pelo céu encantado, no dia da festa eu lembro que pensei em fazer isso, mas acabei indo embora antes.

Tonks lhe olhou um tanto surpresa, aquela era uma coisa muito inesperada a se ouvir saindo dos lábios da Black. Ver o sol nascer? Ela devia ter bebido uísque de fogo contrabandeado de novo.

– Tudo bem. – deu de ombros – Só não faça nada que eu não faria. Pensando bem, faça tudo que eu não faria, e amanhã você me conta se valeu a pena.

Ela foi embora, não sem antes torcer o pé no salto e quase desabar no chão, sendo aparada por um colega corvinal. Bervely, vendo-se sozinha, levantou-se e foi andando para o exterior do castelo. Naquela noite, não havia toque de recolher… desde que o problema da câmara fora resolvido, a segurança no castelo tinha sido relaxada um tanto, para compensar a falta de liberdade do último trimestre.

Outras pessoas tiveram a mesma ideia, e aqui e ali grupinhos de estudantes, casais ou alunos e suas famílias aproveitavam as últimas horas da última noite em Hogwarts. Bervely se pegou andando até as estufas, caminho ao qual, depois do seu caso com mandrágoras, se tornara automático.

Mas então, seus pés lhe guiaram para aquela segunda clareira detrás das estufas. De repente, estava sentindo uma urgência de ver as estrelas, naquela noite de inicio de verão tão limpa. A visão do lago imperturbável como um espelho, refletindo a cúpula de estrelas, foi de tirar o fôlego. Poderia reconhecer uma porção delas fazendo análise das suas posições, mas só uma lhe importava. A mais brilhante.


Sirius
.


Sonhara com o cão de novo há algumas noites. O belo espécime negro, muito maior do que um cão normal, voltara a latir no seu inconsciente, querendo lhe mostrar qualquer coisa de importante que não podia esperar. O que, seu eu do sonho perguntava.

Ele, seu eu desperto respondia. O homem por trás da lenda, a pessoa por trás do rosto. Precisava decidir se iria odiá-lo, ou se ele era suposto a ser – continuar sendo – um refúgio, mesmo que numa lembrança.

A rosa continuava cerrada em botão, no seu pulso. Os pesadelos tinham ido embora.

Lá no alto, a estrela cintilava, do mesmo jeito que o cão latia. Chamando.

– Hey. – disse uma voz às suas costas, mas Bervely não se sobressaltou. Então ele tinha lhe seguido. Devia estar querendo despejar umas verdades encalhadas em sua garganta desde sua última conversa. Ela se virou, se sentindo corajosa.

– Wood. – reconheceu, pela segunda vez aquela noite.

– Eu não sabia que você ainda vinha aqui.

– Eu não vinha. – explicou, sem se virar completamente na direção dele.

– Você ia me perguntar quem eu estava acompanhando, na festa? – ele perguntou curioso.

– E se eu fosse? – ela respondeu, na defensiva.

– Eu lhe responderia que eu estou tecnicamente acompanhando você.

– Como é? – Bervely franziu, sem entender nada. Ele encolheu os ombros ligeiramente.

– Sua amiga, Holmes. Ela roubou a sua segunda credencial e meu deu, para que eu pudesse entrar na festa.

– Ah. Engenhoso. Para que tanto esforço para penetrar numa formatura? Nem é assim tão legal. – ela ainda não entendia.

– Eu não vim por causa da festa. Achei que seria uma boa chance de falar com você, sem todo mundo ao redor o tempo todo.

Ah.

Então ela estava certa, Wood viera despejar seus impropérios sobre ela e a emboscara ali, onde não havia como fugir se não fosse passando por ele. Quando o grifinório se aproximou, ela sentiu os alarmes dispararem, mas então ele parou a pouca distancia, lhe olhando nos olhos.

– Seu vestido é incrivelmente apropriado. – ele observou, com uma expressão indefinida.

– Vá direto ao ponto. – exigiu. Não ia ficar ali ouvindo desaforo à noite toda.

– Holmes me disse qual cor você usaria, então coloquei uma gravata combinando.

– Pare de debochar, não combina com você. E pare de falar de Holmes, está começando a me dar nos nervos essa amizade toda de vocês dois de repente.

O olhar dele se profundou, ainda era inteligível.

Holmes. Que por acaso foi a pessoa que você beijou.

Bervely sentiu o sangue ir embora, enquanto que aquilo era a última coisa que esperava ouvir. Virou-se bruscamente, perigo em seus olhos cerrados.

– Ela te contou isso?

– Sim – ele disse tranquilamente. – Já faz um tempo. Precisei parar para processar a informação.

– O que há para ser processado? – retrucou, na defensiva. Ia fazer Holmes beber veneno de araramboia quando saísse dali. – Eu a beijei. Foi só isso.

– Foi o que ela disse, também. Que vocês não estão juntas nem nada.

Bervely se achou no direito de rolar os olhos.

– É claro que não. Não que seja da sua conta. – acrescentou, arrogante.

– Sabe o que eu percebi? – ele continuou, como se ela tivesse acabado de lhe dar aquela cortada – Que o que estava me incomodando era o fato de você não ter me dito tudo. O beijo por si só, eu não me importo com ele.

Ela deixou as sobrancelhas subirem. Cada vez ele fazia menos sentido.

– Você o usou como artifício pra me afastar de você. De novo. – acrescentou, dando um passo à frente. Agora estava perto o bastante para que ela sentisse seu cheiro de loção masculina – E eu idiotamente pensei que era porque você estava gostando de outra pessoa. Por que você deu a entender isso. De propósito.

– Você está dando voltas – retrucou impaciente.

– Mas eu não acho que era o que você queria. – prosseguiu. Não precisava falar muito alto agora, já que estava consideravelmente perto – Mas é o que acaba fazendo. Você não pode evitar.

– Olha para você – ela desdenhou – Todo especialista em Bervely Black de repente. De onde tirou tamanho conhecimento de causa?

Ele deu de ombros daquele jeito meio moleque, descompromissado.

– Estou trabalhando com tentativa e erro aqui. Basicamente vim dizer que posso lidar com o fato de você ter beijado outra pessoa. Sua vez.

– Minha vez? – ela repetiu, incrédula – O que é isso, uma partida de xadrez?

– Apenas faça o seu movimento. – ele insistiu.

Bervely mordeu seu lábio inferior. O nó em seu estômago estava lá, bem apertado, querendo liberdade desesperadamente. Ela abaixou os olhos, incapaz de ficar encarando por muito tempo o olhar determinado dele, e acabou encontrando a gravata.

– Você realmente combinou a gravata com meu vestido de propósito?

– Qual é, Rose. Eu estou usando verde e prata. Me dê algum crédito.

– Tecnicamente é verde e cinza. – retrucou, mesmo que o nó tenha aliviado um pouco à menção do seu nome do meio no sotaque escocês. Ele fez uma careta em resposta, uma que ela identificou pela visão periférica. – Então você não se importa com o beijo, só com eu não ter contado a história inteira?

– É, basicamente. O beijo me incomoda um pouco, mas me consola saber que foi rápido.

O que era mentira. Mas Bervely não se viu desmentindo a informação.

– Eu nem sempre vou lhe contar a história toda. – o advertiu, forçando seus olhos a subir para encará-lo. – Na verdade, eu raramente vou.

– Desde que não faça isso com a finalidade de me afastar.

– Também não posso garantir isso.

Ele exalou ar, frustrado.

– Me dê alguma coisa com que trabalhar, Black.

Ela se pegou sorrindo.

– Eu gosto muito da gravata. Em homenagem à ela, posso pensar duas vezes da próxima vez que eu me sentir tentada a te dar um pé na bunda.

Wood sorriu como se tivessem lhe dado uma vassoura de quadribol nova em folha.

– Acho que isso já é um começo.

– BD –

Quando, no dia seguinte, Bervely cruzava tranquilamente o vagão do Expresso de Hogwarts a caminho do banheiro quando foi puxada para dentro de uma cabine de manutenção. A cabeleira ruiva e os olhos verdes brilhante delataram a sua seqüestradora através da pouca luz que entrava no cômodo apertado.

– Sério, Holmes? Você vai fazer disso um hábito?

– Te trazer para lugares apertados tem se tornado o propósito da minha vida ultimamente, Black. – ela brincou, um brilho de divertimento dançando nos olhos verdes.

Parecia o saudável e natural o tratamento pelos sobrenomes, um jogo com o qual tinham se acostumado e estava difícil abrir mão agora. Bervely quase a perdoara pelas intromissões em sua vida e o trabalho de cupido com Wood, mas claramente não era o que a ruiva tinha em mente lhe puxando ali dentro. Ela sacou um envelope pardo lacrado e com o selo com o símbolo egípcio de um olho.

– Meu pai conseguiu te colocar dentro. Aqui tem tudo que precisa saber, mas as informações só vão se revelar quando assinar o contrato.

– Ótimo! – recebeu o pacote, o coração dando um salto no peito. Quase perdera as esperanças sobre aquilo, e agora que tinha sua entrada de Azkaban nas mãos, a possibilidade de voltar na prisão se tornou real.

– Bervely – Tara lhe chamou a atenção, séria dessa vez, quebrando o jogo – Leia com atenção o contrato. Você não conhece meu pai… se você não cumprir os termos, a coisa pode ficar feia para o seu lado. Ele não liga se é menor de idade. Você vai assinar com sangue, entendeu? É um contrato perpétuo.

– Pare de soar tão sombria. Eu vou ler o bendito contrato.

– Prometa.

– Sangue de Slytherin. Eu prometo, Romansek. Pra que esse tamanho de drama?

– Não é drama. – ela lhe encarou longamente, hesitante. – Na verdade, acho que não deve assinar nada.

– Está brincando?

– Você quem sabe. – exalou. – Não vou estar aqui pra interceder por você nas férias, se algo der errado.

– E para onde é que você vai? – exigiu, como se já não soubesse pelo brilho de empolgação que surgiu nos olhos dela.

– Vou fugir para o Egito. Assim que e descer do trem vou pegar um carro até o aeroporto dos trouxas… quando meu pai perceber que eu não o esperei na estação, já vou estar no ar. Gui vai me esperar no outro aeroporto, no Cairo.

– Você é maluca.

Mas a ruiva apenas sorria o mais amplamente que seu rosto era capaz. Bervely achou-se preocupada.

– Mas você volta, certo? Para o sétimo ano?

Tara hesitou, mordendo seus lábios nervosamente.

– Não sei. Gui conseguiu um jeito de transferir todo o dinheiro de mesada que eu juntei nos últimos anos para uma conta do Egito. E quando meu pai descobrir, ele vai ficar alucinado. Não acho que voltar seja uma ideia sábia.

Tara. Seu pai vai esmagar Weasley como um inseto quando descobrir que ele tem parte nisso.

– Não quando ele entender o quanto Gui é importante pra mim. Eu dou noticias! – ela exclamou, voltando ao estado de empolgação anterior. – Te mando corujas!

– Eu quero te matar por essa ideia nesse exato momento. – retrucou, aborrecida.

– Mas você não vai, porque no fundo você não consegue viver num mundo sem Tara Romansek.

Antes que pudesse tecer reação, a ruiva segurou seu queixo e lhe apertou um selinho demorado contra os lábios. Ela se afastou rindo para uma Bervely corada e ultrajada.

– Você tem que parar com isso!

– Foi o último. Agora está livre de mim. Viu só? Todo mundo fica feliz comigo indo pro Egito!

Bervely saiu da cabine de manutenção com a cabeça fervendo, e o envelope em suas mãos pesando uma tonelada. Encontrou a própria cabine que dividia com Pacey e Sia vazia, e supôs que as meninas tinham ido se juntar ao resto dos sonserinos no vagão seguinte. Tinha acabado de esconder o envelope dentro da mochila quando ouviu batidinhas na porta, e o rosto de Wood apareceu pelo vidro.

– Você não consegue se segurar, não é, Wood? – zombou, ao deixá-lo entrar. Só então percebeu que não vinha desacompanhado; Loren acabara de entrar atrás dele, trazendo uma caixa de cookies rodopiantes nas mãos.

– Você é uma ingrata, Black. Só viemos compartilhar com você um pouco da doçura da vida.

– Hey, monitora Black. – Loren cumprimentou, se acomodando sem cerimonias no banco. Bervely ergueu uma sobrancelha pra ela.

– Você sabe que eu não são monitora já faz um tempo, né?

A menina deu de ombros.

– É só questão de tempo até o professor Snape nomear você de novo.

A afirmação proferida com tamanha certeza foi um choque. Bervely olhou questionadora para Wood, que deu de ombros, tão perdido quanto.

– Eu estou satisfeita que vocês voltaram a se falar, sabe. – comentou Loren, mordendo um biscoito.

– Bem, desde que você esteja satisfeita

– Eu trouxe Snape Explosivo – Olivio a interrompeu, tirando uma pilha de cartas do bolso.

– Você quis dizer Snap Explosivo. – Bervely corrigiu.

– Não, Snape Explosivo mesmo. Foi um jogo genial que os corvinais inventaram. Veja, as cartas tem todas a cara do Snape, e se você erra, o que voa em você não é gosma, mas sebo de cabelo.

– Isso é ultrajante. – revoltou-se.

– Não é não, é bem divertido. – Loren contestou muito segura.

Eles jogaram algumas partidas – Bervely um tanto relutante – mas até ela precisou admitir que o jogo dos corvinais tinha seu mérito. Quando as cartas explodiam, a figurinha do Snape gritava coisas como “Seu incompetente, faça tudo de novo” ou então “Lamentável. Menos dez pontos para a sua casa.” ou ainda “Eu vou fazer você limpar esse caldeirão com a língua!”, numa voz que era bastante parecida com a do mestre, e causava gargalhadas toda vez que era ouvida.

Merlin a livrasse do destino terrível que seria ser pega por Snape enquanto jogava aquilo.

As horas se sucederam desapercebidas, e quando cansaram do Snape Explosivo, a mulher do carrinho de doces passou, e eles compraram quase um de cada, menos as torteletas de abórbora, que os três concordaram serem intragáveis. Um jogo de “adivinhe o feijãozinho” estava acontecendo na altura que a amiga avoada de Loren, Luna Lovegood, se juntou à eles. A partir dai, houve uma conversa profunda, mas completamente sem sentido, sobre a utilidade dos zonzóbulos para a manutenção da camada de ozônio.

O fim da tarde chegou, e com ela a proximidade do fim da viagem. Bervely, que jamais se imaginara naquelas três companhias improváveis ao final do seu ano letivo, se pegou quase triste em perceber que o tempo no vagão do Expresso de Hogwarts ia terminando. A mera existência do envelope pardo estufando a sua mochila lhe lembrava que, a partir do momento que pisasse na estação King’s Cross, precisaria encarar a vida real.


E não seriam férias fáceis.

Quando o trem parou na estação, Wood ignorou os protestos de Bervely e insistiu em lhe ajudar com a bagagem. Luna se despediu deles vagamente, afirmando que precisava dar uma volta e achar um pedaço perdido de sua aura, e Loren os acompanhou até a plataforma.

Bervely procurou com o olhar e achou, um pouco mais à frente, a família Tonks já reunida. Andromeda acenou para ela discretamente quando a avistou, e Bervely lhe fez um meneio com a cabeça em reconhecimento.

Oliver pousou as malas no chão, ele mesmo tendo avistado sua mãe e irmã mais à frente, um pouco à parte dos bruxos, duas caras sorridentes.

– Vá me fazer uma visita nas férias – ele pediu perto do seu ouvido, gerando um arrepio involuntário.

– Vocês podem dar um beijo de despedida – Johanne lhes avisou, virando-se de costas – Eu dou privacidade.

Mas o olhar de Bervely foi o suficiente para dar a entender a Wood o destino cruel que ele teria caso tentasse, no meio de toda aquela gente.

– Está tudo bem, Anne, você já pode se virar sem riscos para a sua inocência. Risco nenhum, nunca, se depender da monitora Black aqui.

A menina se virou com um grande sorriso.

– Nesse caso, obrigada pela companhia na viagem, monitora Black. E eu penso que nós duas poderíamos nos ver também, nesse verão.

– E por que raios nós faríamos isso? – rebateu, ao perceber que ela falava sério.

– Eu só pensei que seria apropriado fazermos um programa de irmãs durante as férias.

– Um- quê- o quê? – engasgou-se. Não era possível o que acabar de ouvir, ou… a expressão de Wood denunciara que ela não tinha experienciado, afinal, uma alucinação auditiva. Prontamente lhe estreitou seu esgar mais perigoso.

– Wood, você…?

– Eu juro que não contei nada! – ele ergueu suas mãos em rendição. Johanne rolou os olhos.

– Ah, por favor, eu não sou tão lerda assim. Não foi difícil deduzir, Black. Depois do seu óbvio interesse em mim, quero dizer… por que mais seria?

– Meu interesse…? – mas o ar continuava lhe faltando.

Wood lhe deu palmadinhas no ombro.

– Você tem de admitir que ela esperta. Deve ser de família.

–Ali está minha avó – Loren reconheceu, em imediato desanimo. E tornou-se para Bervely esperançosa, falando baixo dessa vez – Por favor me dê uma desculpa para sair daquele lugar horrível durante as férias. Você é a única a quem eu posso pedir, na verdade.

Ela foi embora, deixando uma Bervely embasbacada para trás. Os Tonks finalmente resolveram se aproximar, estranhando a demora.

– Hey, B. Vamos indo? Papai alugou um carro só por sua causa.

– Não foi nada demais, eu gosto de dirigir quando tenho a chance. – Ted disse todo sorridente, depois seus olhos correram para Oliver, e ele analisou o grifinório de cima a baixo – Vai nos apresentar seu amigo, Bervely?

– Ele não é ning…

– Olivio Wood, senhor. – o rapaz estendeu a mão, em aviltante simpatia.

– Hum, um Wood. Seu pai é Octavio Wood, da Corretora de Imóveis Wood?

– Sim, ele mesmo.

– Isso é fantástico! Nós viramos bons amigos depois que ele me arranjou aquele terreno em Ottery, isso já faz uns anos! Quem sabe não marcamos um jantar, todos nós juntos, ia ser interessante. O que acha, Bervely?

Ela sentiu o sangue ir parar no pé com a sugestão. Agora era oficial, esse era o ano letivo mais insano de todos, e precisava ser dado por encerrado.

(Continua…)

Grupo no face

Notas finais
Ufa! Sinto como se os pontinhos estivessem todos em cima dos 'i's, e vocês? Nada como colocar tudo no lugar pra depois passar aquela ventania e bagunçar tudo de novo :P Pode ser que fiquemos mais de uma semana sem capítulo dessa vez, mas eu aviso. Entra no grupo do face!! :*