Indigna Rosa Negra

22 A Rosa e a Festa Proibida


Notas iniciais
Feriado merece atualização em dobro! Se você não estava prestando atenção, note que eu publiquei um cap ontem (01.05) como extra, viu? Boa leitura!

Minha fada,

Infelizmente não posso aparecer na sua escola para ir na festa de Halloween com você. Isso seria arriscado, sinto muito.

Hector.

Já não tinha mais posse da carta – a queimara, como as outras – mas gravara os seus dizeres e se via constantemente irritada toda vez que se recordava deles. Tonks tentara lhe tranquilizar, prometendo que arranjaria um par “supimpa” pra ela (de onde ela tirava aquelas gírias horrendas?), mas a ideia não a animava, e quando o Halloween bateu à porta, se arrumou de má vontade, ignorando a empolgação de Sia e Pacey com seus próprios pares.

Haviam combinado de aparecer primeiro no Salão Principal para a festa da escola, dar uma disfarçada e, mais ou menos às nove horas da noite, irem saindo de fininho, um por um, supostamente de volta aos seus dormitórios. Havia um complexo sistema de escape organizado pelos setimanistas da Corvinal, garantindo rotas de escape livres dos professores, de Filch e de sua gata abelhuda.

Os que tinham confirmado presença foram divididos em blocos, os quais se encontrariam em diferentes partes do castelo e fariam caminhos diversos até o ponto de encontro comum. O esquema bem elaborado provava que Corvinais não costumavam quebrar as regras mas, quando o faziam, era em muito grande estilo. O local da festa permaneceria secreto até o último minuto. Seguindo o plano, Bervely se encontrou com Tonks atrás da tapeçaria de Magda, a Capenga, e só a reconheceu por causa do cabelo azul com mechas mais claras nas pontas, pois já usava a sua máscara. Os dois garotos que lhe faziam companhia também estavam disfarçados.

Bervely também usava a máscara preta que lhe fora entregue pelos organizadores da festa furtivamente mais cedo. Elas eram o passe de entrada, e padronizadas, num corte preto elegante que destacava os olhos, mas escondia metade do rosto.

– Esse é o meu par, Hugo. Esse é o seu, Victor. Estamos usando nomes falsos hoje também, não é legal? Eu sou Dorotéia, e você pode ser…

– Rose. – se adiantou, antes que a garota viesse com algum nome estranho. O “seu par” se aproximou, e ela tentou mas não podia reconhecê-lo, estava todo de preto e não havia uma indicação sequer da sua casa. Só esperava arduamente que ele não fosse ninguém da Grifinória, mas achava que nem Tonks iria tão baixo.

– Olá – ele cumprimentou, pegando a mão dela e beijando de um jeito antiquado, fazendo um sotaque escocês que talvez fosse parte da fantasia, mas talvez não – Preparada para a melhor noite da sua vida, senhorita?

O que ela podia fazer, senão dar risada?

Dorotéia, você foi em 1840 buscar meu par? – debochou, olhando “Victor” de cima a baixo mais uma vez e tentando uma abstração. – O que você é, algum lufa-lufa que foi criado no porão por seus pais viciados na Era Vitoriana?

– Na verdade não – ele disse altivamente – eu sou…

Mas tudo que saiu da sua boca foi um zumbido inteligível e muito estranho. O par de Tonks, “Hugo”, se apressou em explicar.

– Não adianta tentar falar a sua própria casa, as máscaras foram enfeitiçadas com feitiços de censura. Ela também vai te impedir de falar o seu próprio nome… como a festa é secreta, acharam melhor garantir que a identidade dos participantes não pudesse ser compartilhada.

E foi assim que ela soube que “Hugo” era corvinal, sem a menor sombra de dúvidas.

– Vamos logo com isso – pediu, suspirando – mais uma lição de esclarecimento nerd do nosso colega aqui, e eu vou precisar tirar os meus saltos e ir para a biblioteca ler um livro.

Hugo fez uma cara ofendida, mas os outros se mostraram de acordo. Antes de seguir caminho, Victor lhe ofereceu o braço e ela, após resistir um pouco, aceitou, resignando-se ao seu destino. Ia passar a noite acompanhada de um cara cuja noção de educação era do tempo das anáguas e ceroulas.


Eles precisavam atravessar a passagem secreta do corredor leste e descer uma longa trilha de escadas que ficavam atrás dessa ala do castelo, contornando então muro de pedras até o cais onde os pequenos barcos usados pelos primeiranistas para chegar em Hogwarts ficavam atracados durante o ano. Encontraram outros alunos mascarados pelo caminho, mas nenhum falou com eles. A sensação geral era de estarem indo para uma reunião de uma sociedade secreta, não para uma festa com bebida ilícita e música barulhenta.


– Senhorita – “Victor” indicou o barquinho mais próximo, lhe ajudando a subir. Ela rolou os olhos e tomou seu lugar perto da proa, tendo cuidado para se equilibrar nos saltos altos das botas que Sia lhe arranjara de última hora, para combinar com o vestido. Tonks e “Hugo” pegaram o próximo barco depois deles e engataram uma conversa sussurrada, porque obviamente eles já se conheciam, então não havia um clima constrangedor entre dos dois.

Outros barcos com mais alunos mascarados e completamente vestidos de preto foram deixando o ancoradouro em fila, e logo quando ela se perguntava se aquilo não seria muito óbvio para qualquer um que olhasse do castelo naquela direção, atravessaram uma cortina de feitiço invisível bem no caminho, que ela reconheceu como um passivo feitiço espelho.

– Esses … são mesmo fantásticos com os feitiços, não dá pra negar… ops. – “Victor” se interrompeu ao perceber o que deixara escapar, e deu um sorriso constrangido – acho que acabei de lhe dar uma pista de que casa eu não sou.

Ela sorriu, astuciosa.

– Sou muito boa com dedução, daqui pro final da noite vou poder dizer até os seus segredos mais obscuros, se continuar a tagarelar desse jeito.

Obviamente estava sendo irônica, pois era a primeira vez que ele falava desde que tinham entrado no barco, mas o garoto só sorriu mais amplamente.

– Não tenho segredos obscuros. Se quiser saber alguma coisa, basta perguntar.

Ela não quis lhe dizer, mas achou que aquilo tirava toda a graça. Além do mais, estava começando a achar que o sotaque dele era genuíno.


Eles se aproximavam de um local totalmente desconhecido para Bevy, do outro lado do lago, onde não havia nada senão montanhas… ou pelo menos era o que pensava. Pouco a pouco uma espécie de planície cavada entre um paredão e outro foi se revelando, encravado no nível da água. Era com se alguém tivesse cortado uma fatia da rocha. A parede plana que ficava ao fundo desse espaço tinha dezenas de metros, e fora espetacularmente decorada com cordas luminosas que caiam de cima até embaixo, feito chuva brilhante refletida pela superfície do lago.

Era… mágico, na falta de uma palavra melhor. Tendas haviam sido montadas na área plana à beira do lago, bem como algumas fogueiras e muitos futtons largos onde as figuras de preto iam se distribuindo. Havia música soando, e era animada, mas não ruim – tocada por banjo, violão e tambores mágicos, era até bem envolvente.


A mente mestra por trás do espetáculo, sabia bem, era o setimanista corvinal Brunn Greyson, a Lenda. Greyson era um famoso em sua casa, além da habilidade fora do normal para feitiços era rico, popular e um colecionador de namoradas. Sua família era dona da Caravage-Greyson Construction, a famosa construtora de mansões bruxas da Grã-Bretanha. Ele gostava de se gabar de todas as casas famosas que sua família havia construído — a Mansão Malfoy entre elas.


– Uau. – Bervely murmurou, encantada, quando o barco parou suavemente na areia da costa, e Victor prontamente se levantou para ajudá-la.


– Sua primeira festa de veteranos, Rose?


Ela deu um sorriso despreocupado. – Eu diria a minha primeira festa que não de família, Victor.


– A minha também. – confessou num tom velado e meio cômico. – É melhor fingir que somos descolados, então.

Ele lhe deu a mão cavalheirescamente para descer do barco e o atracou cuidadosamente ao píer improvisado, onde muitos outros barcos já estavam magicamente presos. Os outros colegas incógnitos tomavam o mesmo caminho para o centro da festa, e algumas meninas em vestidos de tule preto com muita perna de fora distribuíam garrafas de uma bebida azul para quem ia chegando.


– Delírio Fumegante? – Bervely aceitou uma daquelas, aguardando Tonks e Hugo se aproximarem, a primeira ainda com a boca aberta e girando em torno de si bobamente enquanto absorvia todo o capricho da decoração.


– Eu ouvi dizer que eles conseguiram uísque de fogo. – disse Hugo, cobiçosamente olhando para uma caixa apoiada em uma pedra alta, que devia ser a de bebidas. – O que acha, Victor?

– Hum, – ele deu uma olhada de esguelha para Bervely, e ela achou que ele estava pensando na coisa de ser “descolado” – Acho que é bom. Vocês querem?

– Não, eu vou beber o que ela está bebendo. – Tonks apontou para a bebida azul de Bervely – afinal alguém tem que ser o responsável por aqui.

Quando os meninos se afastaram, Bervely puxou a garota para um canto, onde não podiam ser ouvidas.

– Ele não é sangue-ruim, é?

– O quê? – Tonks perguntou, sem conseguir entender direito por causa da música alta.

– Você não me arranjou um sangue-ruim, arranjou?

– Ahh, eu não sei B… Rose! Não pedi a árvore genealógica dele antes de convidar!

– Bem, você deveria ter pedido!

– Que importa isso hoje? Você não sabe quem ele é, e vice-versa! Até onde ele sabe, você poderia ser a sangue-ruim! Vê ele se apoquentando com isso?

Ela bufou com impaciência e ia protestar, mas os meninos estavam voltando.


– Dança comigo? – Hugo ofereceu um braço a Tonks, que aceitou se pestanejar. Victor abriu a boca para tentar, mas Bervely se apressou em cortá-lo.

– Nem pense. – e porque ele franziu o rosto sem entender, ela o advertiu – Eu não danço.

– Ufa – seus ombros relaxaram. – Podemos só sentar e encher a cara como bons adolescentes inconsequentes, nesse caso?

– Soa como uma ótima ideia – eles sentaram em um dos futtons perto de uma fogueira, esquentando as mãos nas chamas bruxuleantes que, Bervely acabara de notar, eram branco-azuladas. Era uma noite fria, outono definitivamente, mas talvez Greyson e sua equipe tivesse pensado nisso e lançado algum feitiço para espantar o grosso da friagem, pois tudo que fazia era um frescor suportável.

Muitos colegas dançavam na pista de dança improvisada — um círculo de pedras brancas bem polidas, e as meninas mascaradas de tule continuavam passando e oferecendo bebida. Se eles prosseguissem bebendo daquele jeito, não via como poderiam se lembrar da estratégia de retorno ao castelo sem chamar a atenção dos professores… mas isso não era problema dela, era?

Só por aquela noite, não ia se preocupar. Com nada. Nem mesmo com o fato de Hector ter se recusado a estar ali consigo, que tanto a chateava. Não, ela ia beber Delírio Fumegante e relaxar, curtir a música estranhamente agradável e quem sabe superar o encontro excêntrico que Tonks lhe arrumara.

– Então, o que mais você não faz?

Ela riu. O som da sua própria risada a espantou, não podia se lembrar de ter rido assim facilmente antes… será que a bebida já estava fazendo efeito, tão rápido?

– A lista do que eu não faço encheria muitos livros.

– Infância reprimida, huh?

– Você não faz ideia.

– Não faço mesmo. – ele deu de ombros tranquilamente. Ela reparou que ele tinha ombros largos e atléticos, será que jogava quadribol em algum dos times? Não, que besteira… nem todo mundo que tinha um físico legal naquela escola precisava estar num time. Victor continuou falando sem reparar que era observado – Minha infância foi bem tranquila, irmãos, um quintal e um cachorro, você sabe.

– Não… não sei. – suspirou. – Você tinha um cachorro?

– Eu tenho ainda, ele se chama Sartre.

– Nome estranho para um cachorro.

– Inspirado em um filósofo francês… coisas da minha mãe, ela é meio viciada em filosofia.

– Ela é trouxa, a sua mãe? – ela se aprumou imediatamente, e ele percebeu, pois lhe olhou com estranhamento.

– Não… a minha mãe é bruxa, só gosta de filosofia. O meu pai também é bruxo… é isso o que quer saber? Se eu sou mestiço?

– Eu… – ela se sentiu envergonhada, mas não sabia o porque. Fizera uma indagação perfeitamente justa, ou não? – Só curiosidade.

Victor não falou nada, apenas deu um gole longo na sua bebida, e ela achou que ele tinha ficado ofendido.

– Não vai me perguntar o que eu sou? – lhe questionou depois de um tempo, quando o silencio estava ficando desconfortável, apesar de toda a música alta e animação do resto dos estudantes.

– Eu sei o que você é. Mais uma dessas meninas fúteis que acham que pureza de sangue diz alguma coisa importante sobre alguém.

Ela ficou olhando atônita para ele. Onde estava toda aquela etiqueta vitoriana agora?

– É, talvez seja isso mesmo. – disse azedamente, virando o rosto. Acabou avistando uma garota de pernas longas, vestido curto e cachos vastos cor de sangue escalando uma pedra, e começando a dançar em cima dela, uma garrafa azul quase vazia em sua mão. Ao seu redor, um bando de garotos batia palmas e assobiava. – Droga, o que é que essa idiota está fazendo agora?

– Você a conhece? – ele perguntou, achando a direção que ela olhava.

– Lógico, você não? – para Bervely, a identidade da ruiva fora de controle era bem evidente.

– Não. Os únicos ruivos que conheço são Weasleys e tenho bastante certeza de que nenhum deles está aqui.

– Talvez um em especial deveria estar, quem sabe assim ela se dava ao respeito. – murmurou irritada, mas Victor, obviamente não entendeu o seu comentário.

– BD –

Acabou que Delírio Fumegante não era assim tão mais fraco do que uísque de fogo como Tonks postulara inicialmente. Pouco passava de meia noite agora, e para resumir, os sextanistas e setimanistas da Festa Proibida estavam loucos.

Bervely nunca vira um bando de adolescentes agirem daquele jeito. Holmes rebolando em cima de uma pedra? Aquilo não era nada em comparação como resto deles.

Para começar, a maioria das garotas tinham perdido a compostura e desistido dos sapatos. Apesar da água gelada, metade deles entrara no lago e estava brincando de saltar dos barquinhos em piruetas feitas sob o efeito de vingardium leviosa, fazendo brigas de galo em formações de três ou quatro usando equilibratte ou qualquer outra brincadeira bêbada sem sentido que pudessem inventar.

A outra metade saltava fogueiras, gritava coisas sem sentido, dançava de modo histérico, cantava fora do ritmo… sumia de vista e ela sabia que estavam indo para os lugares escuros em volta da pedreira, a fim de darem uns amassos. Desconfiava que o paradeiro do casal “Hugo e Dorotéia” fosse exatamente esse.

Quanto a ela, tudo que podia dizer era que sua cabeça flutuava, o controle da sua língua começava a falhar, e estava dando risada com uma incrível facilidade, mesmo quando não entendia alguma coisa. Aliás, não entender já era um motivo de riso por si só, estranhamente.

Bebida maldita…. pensou, entornando mais um gole.

– …ai Sartre pulou em cima da pilha de folhas e latiu para o carteiro, que saiu correndo apavorado achando que havia mais um corpo enterrado em nosso quintal!

Ela gargalhou, não pôde evitar. Victor estava contando peripécias do seu cachorro há horas e cada uma era mais divertida que a outra, tanto que ela já decidira que a primeira coisa que faria nas próximas férias era ir até a casa dele e seqüestrar o animal. O fato de que desconhecia a identidade do seu dono era, logicamente, só um detalhe sem relevância.

– Você fica incrível rindo. – disse ele, bobamente. Ele estava pior que ela, porque tinha bebido vários copos de uísque de fogo. – Eu meio que quero beijar você agora.

Ela parou de rir, assustando-se.

– Não tente. Eu vou ter que azarar você, e eu realmente não quero ter que fazer isso.

Ele franziu suas sobrancelhas por trás da máscara, tendo sérias dificuldades em compreender aquela negativa tão enfática.

– Por quê? Nunca vamos nos ver novamente. Bom, vamos nos ver mas não vamos saber que somos nós, então não vai fazer diferença… isso é sobre a sua infância reprimida, ou algo assim?

– Não. Isso é sobre ter alguém.

– Um namorado? Você tem um namorado?

– É só alguém. Eu não sei de verdade o que ele é. – confessou, a bebida lhe deixando imperdoavelmente sincera.

– Eu sei o que ele é. – disse Victor, pousando o copo no chão com certa revolta – Ele é um babaca. É a única explicação para não estar aqui com você hoje.

Alguém que ela nem conhecia estava ofendendo Hector, mas não ligou, ela meio que… concordou com ele. Se Hector tinha mesmo voltado para ela, ele devia estar ali, certo? Mas ele não estava, era mesmo um babaca.

– Se não fosse por esse cara, hoje… você me beijaria?

Bervely olhou para ele, através da máscara para seus olhos castanhos cor de café em expectativa. Aquela lua cheia lá em cima, e o seu nível alcóolico, ambos pediam sinceridade, nada mais que isso. Engoliu em seco, porque ele estava tão perto, e cheirava tão bem, e se ele roubasse o que pedia, iria realmente azará-lo?

– Eu… Espera, quem é ali?


Acabara de desviar o seu olhar por um segundo, o suficiente para ver uma sombra escalando a estreita escada na lateral do paredão. Ele olhou confuso na direção que ela apontava.


– Quê? O que raios...? Alguém louco, com certeza.


“Alguém louco” estava escalando a antiga escadaria que levava ao topo do paredão, de gatinhas, levando consigo uma garrafa. Uma coisa insana para se fazer sóbrio, e ela tinha certeza que não era o caso.


– Ele vai cair, mas que idiota. – Victor se alarmou, ficando ereto e esquecendo-se do que estava a ponto de fazer por um momento.


– Ela. É uma garota. Eu posso ver o cabelo daqui.


Na verdade, Bevy podia ver mais que isso – o longo cabelo cheio de cachos em torno da garota estava rosado na retro-iluminação branca que se derramava pelo paredão. Até onde sabia, só havia uma ruiva naquela festa.


Eram os únicos no angulo certo para verem a garota escalando, e ela por um momento balançou precariamente e seu pé deslizou. Um monte de pedra caiu cascateando os vários metros até o chão.


– Acha que devíamos avisar à alguém? – Victor vacilou, procurando o dono da festa na multidão.


Mas a essa altura Greyson devia ser um dos garotos fazendo algazarra na água, ou então algum dos caídos nos futtons, ou mais provavelmente num canto escuro indo para a segunda base com alguma garota de tule. Ele não se importaria com qualquer um idiota o suficiente para escalar a pedreira, menos ainda se essa pessoa fosse desviar a atenção da sua festa de propósito.


Chamar atenção. Isso era, de alguma forma, a cara dela.

O que lhe lembrou a sua última e tempestiva conversa com Tara há algumas semanas, onde a ruiva prometera a qualquer custo não deixar que fosse roubada a sua popularidade… é claro que faria alguma coisa estúpida, na falsa crença de que estava sendo corajosa.


– Eu vou lá. – anunciou, tirando-o de sua frente.


– Você o quê? – ele a olhou confuso por um momento – você nem sabe quem é! Ficou louca?


– Sai da frente, Victor.


– Eu vou com você!


– Me espere aqui, você mal consegue se equilibrar no chão firme – ela ordenou, evocando o tom de voz que usara para controlar a turma de primeiranistas – eu volto rápido.


O garoto ficou olhando incrédulo para Bervely, que se afastava em direção à base da escadaria. Não combinava com ela salvar um estudante em apuros, e sabia disso, mas também sabia que era meio que a sua obrigação fazer aquilo. Não que ela tivesse tanto senso de moral assim – mas era Tara. Fomentara aquela ação, a levara a pensar que precisava fazer alguma coisa extrema para manter o foco em si mesma.


Escalou as escadas no encalço da outra garota, sem chamar sua atenção. Estava com a varinha em punho para qualquer acidente, e prestava atenção nos movimentos de Holmes, prevendo qualquer deslize. O caminho era realmente ruim, e demorou bons minutos e braços doendo para chegar lá em cima. Suas botas de salto também não estavam ajudando. Perdeu-a de vista por um momento quando Holmes alcançou o topo, então escalou-o ela mesma, para encontrar a ruiva andando em direção à beirada. Seu coração estava bem perto da garganta, já que Bervely não deixara de odiar alturas nem um pouco naqueles últimos anos.


Ela confirmou o seu palpite. Havia muito cabelo ruivo sacudindo no vento violento ali em cima, e a dona destes balançava precariamente na borda. A própria Bevy estava tendo um tempo ruim em ficar de pé no chão irregular, por causa das pedras soltas e muita escuridão; além do mais, a luz que vinha da borda ofuscava seus olhos. Cinco metros adiante, sem perceber sua presença, a garota ergueu os braços e gritou para a multidão de alunos lá embaixo.


– Hey, pessoal! Quem ai está a fim de me ver voar?


Alguns colegas responderam gritando, mas eram apenas sons vagos dali de cima. A sugestão de Tara confirmou seu temor, e o estômago de Bervely se contorceu com a ideia de voar dali.


– Isso ai, vamos animar essa festa! Quem acha que eu consigo chegar até o lago?


Mais gritos, provavelmente de encorajamento, mas era difícil dizer. Alguns murmúrios de admiração. Deviam estar impressionados com a ousadia dela, e ainda crendo que ela estava usando magia para se manter segura ali. E que tinha juízo o bastante para estar fazendo apenas uma brincadeira de mau gosto. Mas Bervely sabia que a resposta para as duas coisas era não.


– Elliot, você me segura quando eu chegar ai embaixo? Isso mesmo, bom garoto!


Bervely rolou os olhos, e foi se aproximando com cuidado, silenciosamente. A varinha estava em punho apesar de ela não conseguir pensar em um bom feitiço para usar. Poderia petrificá-la, mas isso só a faria cair mais rápido se tombasse para o lado errado.


– Seis segundos para atingir o chão! – anunciou a ruiva orgulhosamente – quem dá menos? Cinco? Eu ouvi cinco? Uau, eu acho que vou precisar voar bem rápido!

Bervely estava a apenas dois metros agora. Conseguira uma visão nauseante da distância que as separava do chão firme – cerca de trinta metros de queda livre até uma festa estúpida de estudantes de magia. Suas mãos suavam frio e ela apertou a varinha com mais força.


– Eu estou ouvindo uma contagem regressiva? Quatro! Três! — os gritos dos alunos lá embaixo, ajudando-a a contar os segundos até sua queda mortal, eram meramente audíveis lá de cima, a favor do vento – Dois! Um! E.. zerooo!


Bervely estendeu a mão e a segurou pelo fundo do vestido. Isso fez a garota tropeçar e escorregar quase em câmera lenta, torcendo seu tornozelo e inclinando-se em direção à queda. Bevy caiu duramente de joelhos sobre as pedras e usou peso de seu corpo para impedir a outra de escorregar rumo ao precipício. As pernas de Holmes balançaram perigosamente no nada, e lá embaixo alguns alunos gritavam. Não dava para saber se estavam apavorados ou excitados.


– Não se mova! – gritou. Ela puxou a ruiva com algum esforço para uma distancia segura da borda. Quando estavam ambas em chão firme, prontamente foi alvo de um empurrão agressivo que quase a derrubou.


– Você está tentando me matar?!


Bervely ergueu muito as suas sobrancelhas finas.


– Me pareceu que você ia conseguir fazer isso sozinha.


Holmes reconheceu a voz de Bervely Black imediatamente. Seu rosto se desanuviou da raiva e ganhou algo de divertimento jocoso.


– Você subiu aqui para me salvar?


– E subi para te impedir de fazer algo estúpido. – se defendeu, fazendo cara feia. – E de arruinar a festa para todo mundo. Além do mais, se você não morresse com a queda, Greyson ia matar você por estragar a festa dele.


– Por que se importa? Vocês estão transando?


– O quê? Não!


– Então me deixa animar a festa em paz.


Holmes espanou sua roupa e foi mancando seguramente para a borda. Ela não parecia nem um pouco congelada pelo fato de que quase tinha caído lá embaixo, enquanto Bervely mal podia se mover contra a sensação gelada que se espalhava pela sua espinha.


– Segunda tentativa, rapazes! – Tara anunciou agudamente para baixo, acenando para o abismo – Derick, abra os braços! Eu vou mirar bem em cima de você.


– Holmes! – Bervely praguejou com irritação extrema – larga de ser idiota!

Tara olhou para trás e sorriu.

– Parece que tenho uma segunda candidata a voar comigo, garotos! Venha até aqui, monitora, vamos pular juntas! Ouch!

Uma grande pedra deslizou sob o salto esquerdo de Tara, seu corpo se inclinou e ela perdeu o equilibro. Bervely voou e alcançou seu pulso exatamente no momento em que a garota escorregava pela borda pela segunda vez, mais perigosamente agora, porque todo o seu peso estava sendo sustentado por ela. A ruiva lhe lançou um olhar de medo muito genuíno.

– Eu te peguei. – Bevy prometeu sob a respiração acelerada – vou te puxar, ok? Vou te puxar.

– Eu sei que vai. – disse ela, sorrindo sobre o medo. Se ela achava graça em alguma coisa ali na sua situação de risco de vida, estava além da capacidade de Bervely compreender. Seu braço começava a doer.

– Você precisa me ajudar, no entanto, Holmes. – falou tentando soar casual, mas estava meio que grunhindo com um esforço, e as mãos suadas começavam a deslizar. Pensou que poderia usar um feitiço, mas se movesse a outra mão, corria o risco de perder o suporte e deslizar para baixo junto com ela.

– Só se você se desculpar.

– Como é? – Bervely achou que estava alucinando. Talvez o vento tivesse distorcido as palavras dela.

– Você ouviu. Quero que me peça desculpas. Agora.

Procurou olhar nos olhos dela para saber se estava falando sério. Encontrou atrás da máscara de cetim preto um olhar obstinado e ferido.

– Pelo que, por tentar salvar a sua vida? Nós não temos tempo para isso! – disse, irritada. Tara estava jogando com ela mais uma vez, e aquilo já estava lhe dando nos nervos.

– Se você vai me rejeitar de novo, Black, eu juro que dispenso a sua ajuda nesse momento.

– Eu não estou te rejeitando, sua idiota. Você vai morrer se dispensar a minha ajuda.

– Você não sabe disso. E eu prefiro testar minhas chances.

Por que seu braço estava queimando mais do que tudo, e sua mão estava perigosamente escorregando do pulso dela por mais que cravasse seus dedos, Bervely abaixou seu rosto ao mesmo nível que o dela.

– Você vai desistir de pular se eu fizer? – falou à conta gosto. Odiava ser chantageada. Ia se vingar de Tara por isso, assim que ela estivesse fora de perigo.

– Veremos.

– Eu vou matar você por isso, Holmes. – praguejou. E respirou fundo. – Me desculpe.

Tara deu impulso para frente, permitindo que Bervely a puxasse para o lugar seguro longe da queda. Elas meio que rolaram para longe da borda, se sujando de terra no processo, arfando e tremendo pela situação de vida ou morte, mas definitivamente inteiras.

– Não doeu tanto assim, doeu?

– Eu estou indo. Quer saber? Se jogue se quiser, não dou a mínima. – rebateu, se levantando e sacudindo a roupa cheia de poeira. Ela gostaria de poder arrancar aquela expressão serena e divertida da cara de Holmes com suas unhas.

– Você não faz nenhuma ideia, não é mesmo?

O tom era diferente. Ao invés de provocativo, conclusivo – e um pouco surpreso. Fez Bervely se virar, tonta e frustrada, pois acabara de chegar à conclusão que não tinha a menor capacidade de descer aquelas escadas íngremes com as pernas tremendo como estavam.

– Do que, Holmes? Do que eu não faço a menor ideia? – perguntou, impaciente. Percebeu que podia usar aquele nome, não era barrada pelo encantamento da máscara, já que não era o seu sobrenome real.

– Do que faz com as pessoas. Comigo. Eu pensei que era tudo porque você é uma garota mesquinha sem coração, mas é pior que isso… você é um monstro. E nem mesmo percebe.

– Nossa, seja mais clara. Estou ficando tonta com tantos elogios.

Holmes, que estava sentada sobre as suas pernas no chão, esfregou o rosto nervosamente, com os dedos compridos e as unhas pintadas de vermelho.

– Eu odeio você, eu odeio, odeio, odeio você. – grunhiu, fazendo Bervely se questionar o quanto ela teria bebido de Delírio Fumegante. O efeito da sua própria bebida passara completamente porque acabara de ver a morte, mas aparentemente a outra sonserina era imune à descarga de adrenalina que acabara de ter.

– Eu meio que sei disso. – disse sem se abalar – faz um ano que você deixa os seus novos sentimentos bem claros pra mim. Agora, vamos descer, Holmes. Talvez você precise ir para a ala hospitalar, torceu feio esse tornozelo.

Ela deu um suspiro incrédulo e permeado de comicidade, como se Bervely tivesse acabado de dizer algo tão absurdo que fosse digno de riso.

– Ela está preocupada comigo agora, olha que incrível. Não acha que é um pouco tarde demais?

Bervely coçou nervosamente o braço, por baixo da coleira, querendo fugir dali. Odiava as conversas truncadas, os enigmas giratórios, odiava gente bêbada que não fazia o menor sentido.

– Tarde demais para que? – exigiu. Talvez fazendo perguntas diretas conseguisse respostas e não uma frase roubada da Esfinge de Gizé.

– Para se importar! – gritou a ruiva, estridente. Para o seu espanto, Tara começou a chorar. Soluçando. Escondendo seu rosto com as mãos e deixando a cabeça pender, o longo e volumosos cabelo ruivo a encobrindo, mas não abafando o som.

– Pela varinha torta de Merlin. – Bervely praguejou baixinho, sentando-se numa pedra. Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, mas ficava cada vez mais claro que não iam descer dali tão cedo. – Holmes…

– Me deixa em paz. Eu estou bem. Eu vou ficar aqui esperando o sol nascer. Você pode ir. – ela soluçou, despejando as palavras de um jeito quase ininteligível.

– Holmes, você sabe que eu não posso te deixar aqui em cima sozinha com o pé torcido. Por que eu tenho responsabilidade, não porque eu me importo. – acrescentou, irritadiça.

– Você nem é monitora de verdade, só de poções! E só quer ficar aqui para provar a Snape que pode se importar com os alunos, e fazer ele te dar o cargo de monitora-chefe!

Esfregou suas têmporas por três ou quatro segundos, os olhos fechados, imaginando se quando os abrisse estaria de novo em terra firme, sem Tara sendo irritante para cima de si, mas é claro que não aconteceu. Focou novamente a garota e sua profusão de cachos, seu corpo magro e esguio dobrado sobre a rocha, a mascara cintilando em seu rosto fino. Ela não parecia qualquer coisa perto de sua arrogância normal. Mesmo o modo como debochava da indiferença de Bervely era frágil e quebrável. A despeito de si mesma, Bervely deixou a rocha onde estava e foi sentar no chão de frente para a outra.

Por que antes de tudo – antes de se tornar a Princesa Serpente, a monitora implacável, a namorada de Gui Weasley, ela fora Tara Romansek, a garota que o destino tinha escolhido para ser a sua parceira mágica. E elas podiam fingir que não, mas tinham passado por um monte de coisa juntas. E quando havia algo terrivelmente errado, Bervely podia ver.


– Holmes, o que está havendo?

A ruiva levantou seu rosto mascarado, piscando para ela.

– Eu tinha esquecido como você tem uma boca bonita. – ela murmurou, de forma aérea e distraída olhando seu rosto de perto.


– Não mude de assunto. Desembucha de uma vez, qual o problema? Qual é a do nome falso, do personagem arrogante que está encenando, da ideia de me odiar, de repente? Eu fui a única idiota o bastante pra subir aqui e impedir você de se jogar, então acho que o mínimo que mereço é uma explicação.

– Eu não ia me jogar de verdade – Tara rolou os olhos úmidos – só queria fazer algo excitante, para sentir o sangue correr. E eu não sabia que você ia subir aqui. Isso não foi sobre você. Hoje não foi sobre você.

Bervely não tinha deixado passar o fato de que Tara estava sendo evasiva sobre o que realmente importava.

– E sobre o que foi hoje, Tara?

Ela sorriu.

– Eu queria ver se alguém subiria por mim.

– Eu acho que você está mentindo. – lhe informou, muito séria. – Sobre isso tudo não ser sobre mim.

– É claro, porque se o mundo não girar em torno do seu umbigo Black

– Sobre o que eu estava me desculpando, Holmes? – a interrompeu, achando que se ouvisse mais zombaria sobre a supremacia do seu sobrenome, iria ela mesma jogá-la lá de cima.

– Não importa. – disse a ruiva com azedume, virando o rosto em outra direção.

Bervely suspirou, abraçou as próprias pernas e ficou olhando para o horizonte, imóvel em seu lugar, tentando achar o ponto exato onde terminava o lago e começava o outro lado da costa. Estava mais calma sobre a altura agora, vez que não estava balançando perigosamente perto da borda.

– O que você está fazendo? – Tara quebrou o silencio que era o sopro do vento frio.

– Esperando o sol nascer. Não é esse o plano? – disse, sem virar o rosto. Mesmo assim sabia que Tara tinha sorrido, à contragosto.

– Tem certeza que não sabe? – a ruiva falou, depois de um tempo em que foi apenas a respiração das duas e o vento.


– Eu tenho muitas opções em mente, mas quero saber exatamente do que está falando, pra não me desculpar à toa por algo que você talvez nem saiba que eu fiz.

Recebeu um olhar de desconfiança dela, e enfim um suspiro de redenção.

– Você é uma idiota. Você apenas… sumiu da escola no quarto ano. Nunca mais voltou, depois das férias de Natal. Ignorou todas as minhas cartas. Primeiro pensei que tinha fugido com Hector, mas depois eu fiquei sabendo que ele… bem, você sabe. E ai eu morri de preocupação e ninguém sabia me dizer onde infernos você estava. Tem ideia de como eu me senti? Mas você só pensa em si mesma! E então simplesmente apareceu aqui em Hogwarts, saudável e lampeira e completamente sem justificativa, e eu pensei que ia me procurar imediatamente quando soubesse que eu estava aqui e na mesma casa de você, e você teria uma desculpa ótima para tudo e, e ficáramos bem, mas não. Você me ignorou completamente. Deixou bem claro que a razão pela qual tinha se omitido às minhas cartas é porque pretendia ignorar a minha existência, para começo de conversa. Qual é o problema, Black? Você é muito boa para a garota romena filha de ciganos? Eu envergonho você? Sou uma mácula para a sua reputação Black, aqui no seu habitat natural?

Bervely perdeu o ar com os vários níveis de interpretação equivocada de Holmes, era quase demais para processar de uma vez só.

– Então foi sobre isso o ano passado? Você assumiu que eu não queria mais contato nenhum com você, e decidiu se adiantar e cortar qualquer relação comigo antes?

– O que eu poderia fazer? Qualquer outra opção era muito humilhante… é muito humilhante! A única razão pela qual estou te dizendo tudo isso agora é porque estou bêbada e acabou de salvar minha vida, mas pode ter certeza que amanhã quando eu estiver sóbria vou fingir que nada aconteceu, e você que ouse não fingir também.

Bervely precisou rir daquilo.

– Desculpe, Holmes, mas é você a idiota aqui. Não que seja totalmente a sua culpa, apenas há muita coisa que você ignora. – mordeu o lábio. Com excessão de Hector, não contara aquilo para mais ninguém. Mas aquela era Tara. Dividira o seu quarto – a sua vida, cada parcela dela – com aquela ruiva por três anos. Ela merecia saber. – Eu estive internada. Inconsciente por seis meses no Hospital St. Mungus Para Doenças e Acidentes Mágicos. Não tinha como receber ou responder as suas cartas.

Os olhos dela se arregalaram alarmados por detrás da máscara.

– Por que, o que houve?

– É complicado. Mas quando eu acordei, eu não sabia direito quem eu era, e para completar, eu estava com um rosto diferente do meu e ninguém sabia explicar o porquê. E lá se foi mais um mês para eu recuperar a minha aparência.

– Isso é bizarro. – ela pontuou, de repente parecendo a antiga Tara. Até mesmo o pesado sotaque romeno retornara com maior intensidade.

– Bizarro nem começa a descrever. Quando eu voltei pra casa, todo mundo começou a agir estranho como se eu tivesse alguma culpa… e para resumir, todos eles acreditam que Hector está morto.

– Mas ele não está? – espantou-se – Quero dizer, isso foi o que meu pai ouviu, ele me contou…

– Essa é a versão oficial. – revelou ela, mordendo a língua em seguida. O pai de Tara podia ser recentemente o novo dono de Gringotes, mas no passado, no leste europeu, ele era conhecido como o Olho de Hórus. Era uma espécie poderosa de articulador político que sabia de tudo que acontecia no continente, e podia levantar informações sobre qualquer pessoa num piscar de olhos. Seus contatos eram tão misteriosos e poderosos que alguns diziam que ele vendera a sua alma ao diabo para ter acesso aos segredos de qualquer pessoa… – Você não pode contar ao seu pai!

Tara rolou os olhos.

– Não sou um dos informantes de meu pai, Bervely, corta essa.

– Ok. – ela abaixou a voz, mesmo que fosse quase impossível alguém lhes ouvir dali de cima – Hector está vivo. Eu me encontrei com ele há alguns dias… mas ele não quer que ninguém saiba, ainda. Acho que se meteu em problemas na Suíça, e pode ter alguém atrás dele.

A ruiva ergueu uma sobrancelha e pareceu pensativa, mas não fez nenhum comentário sobre o assunto

– Eu já contei um monte de coisas, mas ainda não ouvi nada sobre o seu nome falso e o porque veio para Hogwarts – cobrou, aproveitando-se da pausa. Preferia não relatar qualquer coisa sobre a parte desonrosa da família com a qual fora obrigada a se refugiar, após ser expulsa de casa.

– Ah, isso é… coisa do meu pai, sabe. Não quis associar o nosso sobrenome com os negócios que veio fazer aqui, então nos arranjou um novo.

– Super normal – ela debochou – todo mundo faz isso quando começa um novo negócio, né? E ele não te deixou ficar em Durmstrang pra terminar os estudos?

Ela deu de ombros.

– Eu não quis. Pareceu um bom momento pra começar uma vida nova, também. Ou pelo menos essa era a intenção – lhe olhou sugestivamente, inclinando a sua cabeça e suspirando quase desolada.

– Desculpe por estragar seus planos, Holmes.

O silencio se instalou entre elas novamente, menos estranho dessa vez. Havia essa coloração manchada no borda do céu, e com espanto, Bervely percebeu que o dia começava a amanhecer. Há quantas horas estavam ali em cima?

Jeez, você ainda usa isso? Essa coisa terrivelmente velha para esconder uma tatuagem completamente fantástica? Lamentável, Black.

Ignorando limites de espaço pessoal como só ela sabia, Tara abriu a fivela da coleira de couro em torno do seu braço e a arrancou dali, revelando a rosa. Há tanto tempo Bervely não olhava para a marca que se surpreendeu ao vê-la fechada em botão, o caule meio enrolado sobre si mesmo e os espinhos fechados, como se estivesse adormecida. O dedo da ruiva, gelado, traçou a sua pele sobre os contornos negros, enquanto através da máscara, ela observa o desenho.

– Senti falta dela. Sabe, é meio que a sua marca registrada. Combina com você.

Bervely não lhe disse nada. Nunca contara à Tara a história completa daquela marca, então ela não fazia ideia do que estava falando. E talvez, da forma inocente com que afirmava aquilo, desconhecendo a verdadeira e terrível origem da rosa, apenas julgando o desenho… até que tinha um pouco de razão.

– Eu fiz uma também, há algum tempo atrás, num dia meio revoltado. Não é tão mágica como a sua, sabe… é apenas tinta sobre a pele, mas é bem legal.

– Onde? – olhou sobre os pulsos e outras partes expostas dela, mas não havia nada.

– Não posso te mostrar, fica num lugar indecente. – disse, mordendo o lábio em seguida, maldosa.

Bervely deu uma risada sonora àquilo.

– Você continua uma desfrutável, Romansek.

– Agora vamos ter que trocar elogios? Acho que ainda não estou pronta pra isso. Mas de qualquer forma, obrigada.

Ela meneou a cabeça, inconformada em como podiam voltar à antigos padrões como se o tempo nunca tivesse passado, e tanta coisa tivesse acontecido, e não tivessem trocado uma infinidade de palavras de ódio no último ano.

O sol agora despontava no horizonte, e a luz quente fazia um halo de fogo no cabelo da Princesa da Sonserina. Bervely percebeu, com surpresa, que o feitiço de censura da máscara caíra já há um bom tempo sem que se dessem conta, e podiam falar os nomes uma da outra sem problemas.

– Não tem de quê. – rolou os olhos para ela – Tara.

– BD –

Quando as duas desceram a pedreira dali a alguns minutos, Bervely ficou surpresa ao descobrir que Victor obedecera ao seu pedido e a esperara. Tudo bem que ele tinha caído no sono em cima de um futton, mas fora de cansaço e não embriaguez; quando ela o cutucou, ele pulou e exclamou “finalmente!”.

Os poucos remanescentes da festa estavam caídos pelos cantos, alguns tremendo de frio com suas roupas encharcadas, mas embriagados demais para se importar. Victor as guiou, entre bocejos, até um dos poucos barcos ainda ancorados ali no cais, cujo feitiço de transfiguração já se desfazia, retornando-os a sua aparência original, de pedra.

– Antes que eu me esqueça – Bervely avisou pra ele – o feitiço de censura caiu, então é melhor ter cuidado para não falar sem querer o seu nome.

– Desde que você não fale o seu também – ele disse, levemente divertido – odiaria descobrir que você é alguma sonserina esnobe de nariz empinado, isso ia estragar uma noite perfeita, não ia?

Bervely não disse nada, mas Tara, que analisava o estrago no tornozelo torcido, fez um barulho entre riso e engasgo e mereceu uma discreta cotovelada. Victor não mencionou a demora delas – no geral foi uma viagem de retorno silenciosa e meio sonolenta – até pararem de volta ao cais do colégio e subirem a escadaria o mais silenciosamente possível.

– É melhor nos separarmos aqui para não levantar suspeitas, Filch já deve estar sabendo que houve uma festa ilícita a essa altura. – ele disse, no meio de um bocejo. – obrigada pela honra da sua companhia, Rose. E à sua, outra garota que também não quero saber o nome. Espero que a gente se encontre de novo na próxima festa. E antes que eu me arrependa… – numa rápida aproximação, ele roubou um beijo completamente inesperado de Bervely, que nem esboçou reação. Seu coração só foi disparar quando ele já tinha se afastado, um sorriso matreiro por trás da máscara. – Só porque eu sei que a sua resposta era sim. Boa noite, meninas.

Ele sumiu pela bifurcação da esquerda e quando Bervely se virou, completamente em choque com a audácia do garoto, encontrou o olhar maldoso de Romansek, e o sorriso insinuante.

– Bervely Black, sua danadinha.

– Calada sobre isso. – ela rosnou. – Eu ainda não decidi se eu deixei de te odiar por ter decidido me odiar, então é melhor não me provocar.

– Eu também ainda não decidi se não te odeio por ter achado que você me odiava e começar a te odiar. Ow. Isso foi complexo, acho que ainda estou um pouco bêbada.

Elas tinham chegado à entrada do dormitório da Sonserina, que não ficava muito longe do cais.

– O que isso significa? Que ainda somos inimigas? – perguntou, de forma prática.

– Eu acho que sim. Pelo menos publicamente. – Tara raciocinou – Ficar sua amiga realmente faria mal para a minha imagem agora.

– E à minha campanha rumo à monitoria-chefe – Bervely lembrou, fazendo a ruiva estreitar seus olhos perigosamente.

– Nem por cima do meu cadáver vai tirar essa monitoria de mim, Black.

– E estamos de volta… Holmes. Vou entrar primeiro, você não quer ser vista na minha companhia, certo? Seria bem estranho nós duas chegando sorrateiramente ao raiar do dia toda sujas de poeira e amarrotadas.

Sem esperar resposta, ela atravessou a entrada do salão comunal e foi direto para as escadas. Estranhou, mas não se ligou muito, nas camas vazias de Olga e Sia, provavelmente elas eram duas das criaturas acabadas ainda na pedreira. Sia tinha ido com um acompanhante da corvinal, e Bevy não fazia a mínima ideia de com quem Olga fora, nem se importava.

Tudo o que importava era a sua cama, naquele momento. Ela abriu o seu dossel lidando com o fato de que não haveria banho e se conformando com essa verdade, quando percebeu que havia alguém deitado ali, e quase deu um grito.

– Shiiii – pediu o ocupante, fazendo um gesto de silencio com as mãos – você demorou, está tudo bem?

– Hector! – esganiçou-se, fora de si – Como entrou aqui? Aqui na escola, aqui no meu dormitório! Como sabia onde eu-?

Ele deu uma risada silenciosa. Numa rápida e embriagada leitura, ela percebeu que ele estava sem camisa e com o cabelo um pouco amarrotado.

Hector. Em sua cama. Sem camisa. Era muita provação para o seu coração.

– Estamos um pouco agitados hoje, não estamos? – ele lhe analisou de cima a baixo com desconfiança – você andou bebendo? E rolou na terra? Com um vestido curto desses?

Ela falou de novo quando conseguiu articular palavras. O peito dele era um céu branco cheio de gomos de músculos e penugem loira suave num caminho vertical que ia tentadoramente rumo ao sul.

– É uma longa história. Loooonga história. Envolve Tara… Holmes, um precipício, mal entendidos ridículos… você não vai querer ouvir isso agora. Meu Merlin, eu não acredito que entrou aqui. O que houve com o “era muito perigoso”? Por que não me avisou? Eu teria voltado pra te encontrar.

– Achei que poderia fazer uma surpresa – ele disse, se divertindo com o estado alterado e logorreico dela – Não sabia que ia demorar tanto, acabei caindo no sono.


– Desculpe.

– Tudo bem – ele sorriu preguiçosamente – o importante é que está aqui agora. – Como da primeira vez que tinha aparecido do nada em Hogsmeade, ele abriu os braços para ela, lhe convidando a se encaixar em seu corpo. – Por que não vem deitar? Você deve estar cansada.

– E imunda.

– Não me importo.

Ela meneou a cabeça, resolvendo tirar pelo menos as botas.

– Você é um sonho. – murmurou, quando pulou no colchão de encontro ao corpo quente e descamisado dele, preocupando-se em fechar as cortinas de dossel atrás de si. Era uma pena que estivesse tão cansada e fosse apagar como uma lâmpada no momento que se encontrasse confortável, sem nem mesmo precisar de poção do sono.

Sentiu que ele beijava a sua têmpora, e seus lábios eram macios, a barba levemente áspera contra a pele sensível. Esfregou o rosto contra a sensação veludosa, mas firme do seu peito, aspirando o cheiro maravilhoso impregnado nele, e sentindo ondas de calor formigarem seu corpo tentadoramente. Queria muito manter os seus olhos abertos e aproveitar daquela oportunidade única, mas as pálpebras pesavam e não conseguiria mover os braços pesados muito além do que foi necessário para se enroscar nele. – Desculpe, não consigo ficar acordada…

– Não se preocupe com isso. – ele lhe apaziguou, afagando seu cabelo – Não vou a lugar algum… quando você acordar, ainda estarei aqui.

(Continua…)

Link do grupo no face.

Notas finais
Eaaa!! Primeiro: NÃO briguem comigo porque a Bevy estava com muito sono, ninguém mandou ela virar a noite de papinho com Romansek. Segundo: E aaaai, o papinho com Romansek? Hein? Hein? Terceiro: QUEM é Victor?? Façam suas apostas, tchum bas-tchans!