Indevorável
10 Capítulo 10
Quando nós finalmente chegamos à casa de Elijah, ele nos levou até uma sala que parecia ser seu escritório, pois havia uma mesa e várias prateleiras de livros. Mas o que mais me chamou a atenção foi um espelho no maior estilo Espelho-da-madrasta-da-Branca-de-Neve que estava na parede ao nosso lado. Quando eu o vi, um arrepio passou pelo meu corpo. Elijah sentou em uma cadeira e fez um gesto para que nos também sentássemos. Quando fomos em direção as cadeiras, Elijah olhou para Jack e balançou a cabeça para ele.
– Eu preciso falar com a mocinha primeiro. A sós. — disse Elijah com um sorriso nos lábios.
Eu lancei um olhar de pânico para Jack, mas ele sequer virou em minha direção. Ele estava olhando fixamente para Elijah. Um dos homens, Antoni eu acho, colocou a mão no ombro de Jack e o deu um leve puxão. Jack continuou encarando Elijah por mais alguns segundos até que, me lançando um olhar de alerta, se dirigiu para fora da sala, os outros atrás dele. Eu? Eu permaneci onde estava, dura como uma estátua, meus olhos presos aos de Elijah. Ele fez uma menção para que eu me sentasse e quando consegui recobrar o controle de minhas pernas, eu fui em direção a cadeira e sentei.
– Bom, primeiro, eu não irei jogar o jogo de vocês. Eu sei quem você é, Tiffany. Não só por causa dos boatos do ataque da noite passada, mas também por que no momento em que você pisou aqui eu pude ver sua aura, e posso vê-la agora, se expandindo dentro de você.
Eu mexi desconfortavelmente na cadeira. Eu não gostava do jeito que ele estava me olhando, como se tivesse olhando dentro de mim, ou através de mim.
– Então esse é o seu poder? — eu o perguntei. — Ver áureas?
– Mais do que isso. — Ele se levantou e foi em direção ao espelho.
Eu o observei passar sua mão sobre o espelho e de repente ele não estava mais refletindo a sala. Havia uma névoa nele que logo se transformou em uma imagem. Eram meus pais, minha casa, meu cachorro. Eu me aproximei do espelho e vi que Papai estava no telefone, gritando com alguém e jogando suas mãos para o ar. Mamãe estava chorando no sofá da sala, com ET encolhido ao seu lado, a cabecinha encostada em seu colo. Eu me surpreendi, eu nunca o vi parado assim por tanto tempo. Aquela imagem fez meu coração se apertar e levou lágrimas aos meu olhos. Eu queria, mais que tudo, poder dizer que eu estava bem, poder abraçar-los. E então, minha tristeza foi rapidamente substituída por ódio. A raiva brilhou dentro de mim e em minha mente surgiram pensamentos negros. Eu odiava tudo isso, odiava essa mudança. Não importava que eu fosse ter todo o tempo do mundo com Jack Hoswood ao meu lado, já que eu o odiava também. Eu queria bater e quebrar algumas coisas ao meu redor, queria gritar. A imagem dos meus pais em minha frente sumiu e eu senti Elijah colocar sua mão em meu ombro, mas eu me afastei rudemente dela e me virei para olhar em seus olhos. Ele tinha aquele olhar de novo, como se estivesse vendo através de mim, o que fez minha raiva aumentar mais ainda. Sendo que dessa vez havia algo a mais em seus olhos, algo que eu julguei ser preocupação.
– Tiffany! — ele disse, se afastamento de mim como as suas mãos em sua frente, como se eu fosse um animal raivoso que no menor movimento pudesse atacar. Havia preocupação em sua voz também. — Tiffany, você precisa se acalmar, precisa controlar a sua raiva, sua áurea...
– Como você pode mandar eu me acalmar depois do que você viu? Eles estão sofrendo! Estão sofrendo por minha causa! E eu não posso fazer nada! Nada! Por que eu estou presa nesse lugar estúpido! — eu estava gritando com ele, mas eu não me importava. Era culpa dele, de todos eles. Lágrimas escorriam copiosamente pelo meu rosto e eu sequer me dava ao trabalho de limpá-las.
Jack entrou na sala pouco tempo depois. Vendo o meu estado, ele veio de pronto em minha direção, estendendo suas mãos em direção ao meu rosto. Eu me desviei delas.
– Não toque em mim! — eu gritei, me afastando dele. Jack arregalou seus olhos e virou para Elijah.
– A áurea dela ficou negra de repente. Muito negra. — disse Elijah. Ele lançou mais um olhar de alerta para Jack e depois voltou sua atenção para mim. — Tiffany, você precisa controlar essa escuridão antes que ela roube toda a sua luz. — Eu apenas o olhei como se ele fosse louco. Ele se aproximou de mim de novo, com cuidado como se eu pudesse o atacar. — Controle sua fúria. Controle todo o seu ódio. Você precisa aceitar as coisas como elas são agora. Essa é a sua vida. — Ele tentou colocar a mão em meu ombro e dessa vez eu deixei. — Seus pais vão ficar bem, Tiffany. E há muito o que você pode fazer por eles. Você pode deixar-los ir. Eles vão ficar seguros se não souberem de nada. Nada de ruim vai acontecer com eles.
– Eu... Eu não... — eu tentei falar, mas eu não conseguia, pois eu estava soluçando. Minha cabeça começou a doer muito e eu coloquei minhas mãos ao seu redor.
– Vamos, Tiffany. Controle a escuridão. — disse Elijah, afagando meu ombro. Sua voz era doce, o que fez com que eu me sentisse mal em gritar com ele. Eu estava errada, não era culpa dele. — Isso, Tiffany! Controle!
– Eu... Eu não s-sei como! — eu gritei novamente.
Uma das mulheres, Linda, veio em nossa direção.
– Eu acho que posso ajudá-la. — disse ela. — Eu não sei se vai funcionar, mas eu acho que posso ajudar a afastar a escuridão.
Ela e Elijah trocaram um longo olhar e depois ele se afastou de mim. Linda tirou minha mão de meu rosto e me fez sentar em uma das cadeiras, puxando a outra e sentando-se em minha frente. Ela puxou minha outra mão de meu rosto e o levantou, para que eu pudesse olhar em seus olhos.
– Tiffany, eu vou entrar em sua mente. — eu me afastei um pouco, surpresa com aquilo. — Você não precisa ter medo, nada de ruim vai acontecer, mas você precisa se concentrar em mim.
Eu olhei em seus olhos por mais alguns segundos e de repente eu não estava mais na sala com os outros, eu estava em uma sala escura. Eu não conseguia ver onde ela começava ou terminava, não conseguia ver quem estava nela. Eu joguei meus braços para a frente, tentando encontrar uma parede, alguma pessoa, qualquer coisa. Eu de repente me senti claustrofobica e o ódio dentro de mim foi substituído por medo.
– Calma, Tiffany. Você não está sozinha. — disse com doçura uma voz feminina que eu não consegui reconhecer.
– Linda?
– Não, querida. Agora me escute, eu não vou poder ficar aqui por muito tempo. Você precisa achar sua luz. Você precisa ligá-la de novo.
– Mas eu não sei como!
– É claro que você sabe, meu amor. Ela está dentro de você e você precisa ligá-la. Você sabe onde encontrá-la, você só precisa se lembrar. Eu tenho que ir, eu não tenho mais força para ficar aqui. Eu te amo, minha querida.
– Não! Por favor! Como eu posso achar minha luz?
Eu esperei por uma resposta, mas não veio nenhuma. Eu voltei a tatear, jogando minhas mãos ao meu redor, mas no fundo eu sabia que era inútil. Eu então me sentei no chão e permaneci assim por um bom tempo, tentando esvaziar a minha mente, tentando me concentrar. Eu fechei meus olhos e respirei fundo algumas vez. "A luz está dentro de você e você sabe onde encontrá-la" foi o que a voz disse. A boa notícia era era que eu tinha uma dica. A má notícia era que eu não fazia ideia do que essa dica queria dizer. Como eu posso saber onde encontrar essa bendita luz? Se eu soubesse eu não estaria aqui em primeiro lugar. Eu estaria lá naquela sala com Jack ao meu lado, tocando Sexy Back na minha cabeça toda vez que ele passasse por mim, toda vez que ele sorrisse para mim... Eu me lembrei de como eu havia gritado com ele a pouco tempo atrás, em como eu tinha o culpado por tudo e aquilo fez com que eu me sentisse muito mal. Não era culpa dele, nunca foi. Todo esse tempo ele estava apenas tentando me proteger, me manter segura. Ele nunca quis me causar nenhum mal ou me colocar nessa situação. Assim como Elijah e todos os outros, eu gritei com todos eles e eles também não tinham culpa. Pelo contrário, ele estava certo, meus pais estavam melhores sem saber de tudo. Eu respirei fundo mais algumas vezes e algo se acendeu dentro de mim. Era isso! Luz estava dentro de mim, dentro das coisas boas dentro de mim, de meus sentimentos bons e puros. E eu me segurei a isso, me segurei a Jack, a minha família, a cabecinha de ET em meu colo enquanto eu acariciava suas orelhas e tentei afastar o meu ódio e minha raiva.
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