Indelével
2 Indelével - Parte II
Notas iniciais
Por um momento, ela pensou que era ele, bom, não ele, não podia ser, mas... quem mais teria aquela vez tão suave e tão rouca ao mesmo tempo? Podia alguém mais provocar aquele tremor em seu corpo apenas ao falar?
Leonardo a soltou por medo de estar machucando-a.
Anahí tinha medo, mas ao sentir como ele a soltava, mesmo sendo ele um completo estranho, percebeu que preferia que ele tivesse continuado segurando-a.
Alfonso está morto, disse uma voz incômoda em sua cabeça. Ele vai matá-la. Vai roubá-la, estuprá-la e matá-la. É um estranho. Saia correndo daí. Agora. Fechou os olhos.
– Não me faça nada – pediu ela em tom suplicante.
– Não quero lhe machucar – ele respondeu e sua voz a fez tremer novamente.
– O que quer? – Perguntou ainda de olhos fechados – eu não tenho dinheiro aqui.
– Eu não quero dinheiro... é que...
Leonardo voltou a tomá-la pelos braços com cuidado. A proximidade dos seus corpos confundia os dois. Ele tinha que dar-lhe uma explicação, mas o que diria? Que sonhava com ela todas as noites? Que se perdia e se encontrava em seu olhar? Que não sabia quem era ela e que também não sabia quem era ele mesmo, mas que sentia que ela podia explicar-lhe? Era tão absurdo!
Anahí abriu os olhos, buscando ver a expressão no rosto do desconhecido. A recepção estava à meia-luz, mas os olhos dela se sobressaíam na escuridão, como uma luz no fim do túnel para Leonardo. A que ele sempre havia buscado. Só ela tinha aquela luz. Deteve seu olhar sobre o dela, perdendo-se nele e sentiu como ela voltava a estremecer-se entre suas mãos.
– Seus olhos – sussurrou ela com a voz trêmula.
Meus olhos? Perguntou-se Leonardo internamente. Seus olhos não tinham nada demais. Eram os olhos dela que o confundiam e o encantavam.
– Quem é você? – Perguntou ela em outro sussurro.
A cabeça de Anahí movia-se de um lado a outro, como se quisesse despertar de um pesadelo.
– Eu não vou lhe fazer nada – tratou ele de dizer novamente – é que... eu sinto que a conheço.
Confusão passou pelos olhos de Anahí, ele reconheceu. Outra vez seu corpo estremeceu-se. Ela não conseguia deixar de olhá-lo nos olhos. Ainda que aquilo parecesse loucura, ela escutara suas palavras e sentia que eram verdadeiras e desesperadas, ele buscava uma resposta para algum questionamento interno seu que ela não conhecia.
A sua voz... cada vez que ele abrira a boca, Anahí se lembrara daquela mesma voz, dizendo que a amava ao pé do ouvido. Ele abriu e fechou a boca um par de vezes. Era um gesto tão seu, sempre que estava nervoso, sempre que não sabia o que dizer, ele o fazia.
Mesmo com pouca luz, ela percorreu seu rosto com o olhar. Testa bronzeada, exatamente como ela lembrava. Sobrancelhas apenas um pouco grossas e escuras. Aqueles olhos verdes, os olhos de seu filho. O nariz fino. A sua boca... o corpo de Anahí estremeceu-se pela… milésima vez? Ela não sabia quantas vezes já havia sentido aquele tremor percorrê-la inteira. Quase pôde sentir os lábios dele sobre os seus. Alfonso está morto. A lembrança de sua língua percorrendo sua boca. Alfonso está morto. Seus ombros largos acolhendo-a, seus braços fortes abraçando-a. Alfonso está morto. Voltou a senti-lo abraçando-a, apertando-a, possuindo-a.
Não podia distinguir bem seu cabelo sob aquela baixa iluminação, mas estava maior e mais solto. E agora ele usava barba bem-feita, onde antes só havia um rosto bem liso. Alfonso está morto. Anahí fechou os olhos. É ele, lhe disse seu coração. Ele está morto, repetiu seu cérebro. Voltou a abrir os olhos. O olhar dele a estudava, a observava, buscando descobrir em que ela pensava, buscando decifrá-la. Uma lágrima escapou do olhar da mulher dos sonhos de Leonardo. Coração e razão lutavam dentro dela, uma batalha ferrenha. Não se iluda, ele está morto. Escute seu coração, ele o reconhece. E ela não sabia a quem dar atenção. Sentia-se tonta em meio a tanta confusão.
Leonardo, cuidadosamente, levou sua mão ao rosto dela e lhe secou a lágrima. O corpo de Anahí tremeu novamente dos pés à cabeça debaixo daquele toque tão simples e ao mesmo tempo tão íntimo. Ela respondeu estendendo sua mão para tocá-lo. Percorreu sua barba e passou os dedos sobre seus lábios.
– Alfonso – Sussurrou.
Ouvir aquele nome foi como levar um soco no estômago. Leonardo sentiu que o ar lhe faltava.
– Esse é meu verdadeiro nome... – retornou ele em um tom que não era assertivo nem interrogativo.
As pernas de Anahí ameaçaram falhar. Apoiou-se com as mãos em seu peito largo e ele abraçou-a pela cintura para não permitir que caísse. Suas respirações se cruzaram, igualmente agitadas, seus olhares se detiveram um sobre o outro e se perderam juntos não sabiam por quanto tempo. Uma das mãos dele subiu a seu rosto e colocou uma mecha do cabelo de Anahí atrás de sua orelha. Eu preciso fazer isso, explicou-se ele, antes de colar seus lábios aos dela.
Suas bocas encaixaram-se como se tivessem compartilhado beijos por toda sua vida. A mente de Leonardo voou entre dois extremos: o que conhecia e o que desconhecia. Tudo ficou escuro, pois fechara os olhos para sentir melhor o gosto da boca dela na sua, mas na sua mente, tudo estava iluminado.
Acendeu. Ele estava em um carro, com seu amigo Marcos, sofreram um acidente, capotaram. Apagou. No hospital, ele acordara do coma e dona Carmen o levara para sua casa. Acendeu. Vou sair de viagem, querida, ele lhe dissera. Vou sentir sua falta, ela respondera. Apagou. Um jantar de natal com seu Armando, dona Carmen e Melissa. Ele estava feliz, mas não era parte. Acendeu. O último natal que passara ao lado dela, ela saía do banho, de roupão, os olhos baixos, o presente deles não havia sido trazido pelo Papai Noel. Deu negativo, ela dissera. Ele sentiu-se triste. Mas sentia-se parte. Apagou.
Escuro. Mas claro.
Suas línguas mesclavam-se no encontro das bocas. As memórias ainda apareciam entre um flash e outro, na velocidade do beijo. As mãos de Anahí subiram à nuca de Alfonso e ela lhe acariciou os cabelos, enquanto ele lhe acariciava a língua, sugando devagar. Um gemido inconfundível escapou dos lábios dela, colados aos dele.
Lembrou-se de sua primeira dança, do primeiro beijo, da primeira vez. Do sim, na igreja, diante do padre, diante de todas as pessoas que amavam. Lembrou-se de todas e de cada vez que fizeram amor de forma tão apaixonada e entregue. Lembrou-se de tudo.
E, então, seus pensamentos o deixaram, porque não precisava mais buscá-los. Estavam todos lá, guardados em sua mente. Como se tivessem ficado presos num cofre por todos esses anos, num cofre cuja combinação apenas Anahí conhecia.
– Princesa – sussurrou ele quando se separaram lentamente, percebendo o quão natural soava chamá-la assim.
Alfonso está morto, princesa. As lágrimas rolaram velozmente pelo rosto de Anahí e um nó se formou em sua garganta. O desespero não permitia que ela respirasse. Ele está morto. Está morto. Morto.
– Não! – Anahí quase gritou ao sair correndo de perto do estranho familiar.
Alfonso saiu correndo atrás dela para vê-la dar partida no carro que a esperava lá fora e arrancar. Sua mente agora era um amplo salão iluminado e branco, com escritos, fotos, filmes, sua vida, espalhados pelas paredes, no teto e no chão. Tudo se via tão claramente que ele se perguntou como podia ter esquecido de sua vida por tanto tempo.
– Anahí, meu amor – sussurrou para si mesmo.
Pensou em perguntar ao manobrista onde Anahí morava, mas ele não deveria saber e, se soubesse, não lhe diria.
Alfonso, então, correu até seu carro. Apenas uma peça faltava para que o quebra-cabeças se completasse. A pasta que dona Carmem deixara. Durante todo o caminho ele lembrara-se da conversa que tivera com ela antes de que falecesse de pneumonia há mais de dois anos.
– Filho – ela chamara.
– Sim, — Leonardo, como o chamavam, atendera prontamente.
– Você sabe que foi um presente de Deus para mim, não sabe? – Falou com a voz fraca – abra aquela gaveta – Disse ela apontando a uma gaveta ao fundo da cômoda – tire esta pasta que você está vendo, mas não abra – Leonardo fez como ela havia dito.
– O que há aqui dentro? – Ele perguntara.
– O seu passado – ela respondeu, em um tom debilitado – seu nome, escolhi lhe chamar Leonardo porque você é forte, como um leão. Mas eu sou fraca, nunca poderia lhe dizer tudo. Aí dentro você encontrará a resposta para pelo menos parte de suas perguntas.
Ele apenas agradeceu. Nos dias que se passaram depois da morte de dona Carmen, Leonardo, ou melhor, Alfonso, não pôde pensar em outra coisa que não a bendita pasta que carregava toda sua vida dentro. O que será que havia lá? Será que havia algo importante? Não podia haver... ou dona Carmen teria lhe contado ou sua família haveria o buscado, certo?
– Você quer buscar sua família, Leo? Sua identidade? – O senhor Armando lhe perguntara naquele tempo.
– Não – ele finalmente decidira, jogando a pasta de volta na gaveta – sou outra pessoa agora.
Mas quando agarrou a pasta no fundo de sua mala nesta noite, Alfonso arrependeu-se. Arrependeu-se de não a ter aberto mais de dois anos antes. Arrependeu-se de não ter buscado saber de seu passado. Mas não havia o que mudar no passado. Só havia um monte de anos para recuperar.
Era uma carta. Ele soube quando finalmente abriu o envelope.
...
Anahí atravessou o corredor de seu apartamento que levava a seu quarto como um furacão. Se jogou na cama, as lágrimas que vinha derramando o caminho inteiro se transformaram em grandes soluços. Você estava sonhando, disse sua mente. Era ele, Anahí, disse seu coração. Tinha que pensar com a razão, tinha que entender o que havia acontecido, mas as lágrimas não lhe permitiam enxergar nada claramente. A lembrança dos lábios dele colados aos seus não lhe permitia pensar.
Olhou para a mesa de cabeceira, a foto deles continuava lá, a foto de seu casamento, a mesma foto que Anahí levava na tela de seu celular, até hoje, os dois juntos e felizes. Alfonso a abraçava por trás, suas mãos entrelaçavam-se na frente e suas alianças brilhavam. Tocou os próprios lábios, lembrando do gosto daquela boca. Podia ter se enganado? Suspirou e abriu a gaveta onde seu álbum de fotos do casamento e da lua de mel estava e começou a olhá-lo, página por página.
Ela conhecia muito bem cada pedaço dele. Seus olhos, seus lábios, seus braços, seu peito. Ela havia compartilhado a vida com ele, não era possível que tivesse se enganado e beijado um completo desconhecido, era?
Voltou a tocar os próprios lábios lembrando-se de como Alfonso a beijara, desde a primeira vez. Comparando com o beijo do estranho familiar. Ela não podia ter se confundido, podia?
A campainha tocou e como Alex estava na casa de um amigo, pois hoje seria o aniversário do menino, Anahí secou o rosto e levantou-se para atender. Podia ser ele, talvez a mãe do amiguinho tivesse vindo deixá-lo em casa, talvez ele não tivesse querido dormir lá.
– Trouxe jantar para nós – Tony comentou ao entrar – vou apenas preparar um suco, ou podemos tomar vinho se você preferir – colocou as sacolas que trouxe sobre a mesa – você estava chorando?
– Sim – respondeu ela quase secamente – e não tenho fome. Por favor, vá jantar em outro lugar.
– Meu amor, não quero vê-la chorar.
– Tony, por favor. Eu só quero ficar só.
– Nesses momentos que você está triste e quer ficar só são os momentos que mais devo ficar a seu lado. Não se preocupe. Vamos comer e você vai esquecer o que está lhe incomodando.
– Eu não quero comer – falou pausadamente, afastando-se dele – eu não quero que você fique aqui e não quero comer. Vá embora!
Anahí deixou a porta aberta para que ele saísse e atirou-se ao sofá chorando. Mas Tony não saiu. Também não se aproximou dela. Apenas deu meia volta e dirigiu-se à cozinha.
...
Querido Leonardo, ou melhor, Alfonso, você não sabe o quanto o amo, filho... quero começar esta carta pedindo-lhe perdão por nunca ter tido a coragem para contar-lhe a verdade. Quando você souber de tudo, talvez me odeie, mas saiba que sempre fiz tudo por você.
Alfonso respirou algumas vezes antes de seguir lendo.
Você chegou ao hospital muito mal daquele acidente. No começo, os doutores nem pensavam que fosse durar mais que algumas horas. Mas seu corpo se fechou no coma, para proteger-se e ninguém podia saber o que esperar daquilo tudo. Apenas podíamos esperar.
O seu irmão esteve no hospital, naquela mesma noite. Tony, foi o nome como se apresentou e esteve aí buscando informações sobre você todo o tempo, eu pensei que ele estava preocupado com você, mas depois me dei conta que não. Quando soube do seu coma, ele começou a conversar com o médico, dizendo que não podia voltar para sua família com a notícia de que você não estava morto, mas também não estava vivo e que eles não iriam querer mantê-lo se ninguém podia saber quando você iria acordar ou se você iria acordar. Fiquei paralisada ao escutá-lo: como sua família não ia agarrar-se firmemente à chance de que você acordasse?
Acompanhei de perto os procedimentos que foram feitos nos dias seguintes. Eu e o médico que estava de plantão naquela noite tivemos de assinar diversas cláusulas de confidencialidade. Eu não entendi o que significava aquilo e só lembro bem do que o doutor me dissera no dia seguinte: nunca fale sobre isso, nunca fale sobre esse rapaz. E eu, finalmente, entendi. Tínhamos que fazer de conta que você havia morrido.
Eu sabia que aquilo estava errado, mas não sabia se havia algo que pudesse fazer para mudar aquela situação. Acho que naquele momento não havia nada que eu pudesse fazer. Mas me sentia muito mal. Todas as noites isso me preocupava. Por isso, quando você acordou, aquele jovem tão doce que eu já cuidava há quase um mês... eu não podia deixar que você fosse mandado para qualquer lugar, principalmente quando descobriram que você havia perdido completamente a memória. Eu me sentia tão responsável pelo que você estava passando! Se você lembrasse, poderia ir atrás de sua família, mas como não lembrava... eu precisava fazer isso por você.
Não podia contar a você tudo que havia acontecido, eu tinha medo e lhe tinha amor, tinha lhe acolhido como filho, meu menino. Mas eu sabia que você merecia a verdade. Então, fui buscá-la.
Todos pensam que você está morto, meu Leonardo, e tenho certeza que seu irmão foi quem fez que sua família inteira pensasse que você está morto. Vocês foram enganados. Você tem uma esposa. Ela se chama Anahí e é a única coisa que sei sobre ela. Quando soube dela, há um tempo, tentei lhe convencer que buscasse seu passado, que nós o ajudaríamos, mas você não queria. Então, decidi escrever a carta, pois um dia você buscaria a verdade, você sentiria falta dessa verdade. Sentiria falta do amor de sua esposa, porque nem a amnésia mais forte pode apagar o amor.
Foi o seu irmão, Alfonso, foi o seu irmão, meu Leonardo, que enganou a todos. Eu descobri algumas coisas sobre você, não são coisas que vão lhe contar toda sua história, mas podem ajudá-lo a lembrar-se. Você trabalhava no Instituto Nacional de Pesquisas Biológicas. Tinha mais ou menos 30 anos quando o acidente aconteceu. Não consegui descobrir nada sobre seus pais, mas seu sobrenome é Herrera Rodríguez, espero que um dia possa encontrá-los.
Eu tive medo, meu filho. Medo de continuar mentindo, medo de lhe dizer a verdade, medo de que você me odiasse, medo de que fosse embora sem rumo, de nunca mais voltar a ver você. Há umas semanas, descobri que mais essa pneumonia... irá matar-me. Estou com tuberculose avançada e já não há o que fazer e meu corpo não aguantará mais esta crise.
Neste ponto da carta, Alfonso chorava como uma criança. Não conseguia sentir raiva. A maior parte de seu coração só sentia saudade daquela senhora tão bondosa que nunca havia desistido dele.
Eu espero que me perdoe, Alfonso. Quando você estiver lendo isso, provavelmente estarei morta, mas sei que estarei em paz se você sinceramente me perdoar do fundo de seu coração. Por isto, quero terminar esta carta da mesma forma que a comecei: pedindo-lhe perdão.
Te amo, meu filho da alma.
Carmen.
Quando terminou de ler a carta, Alfonso não tinha mais dúvidas, ele não tinha mais medo. Ainda sentia saudade da senhora que o acolhera e amara como seu filho e que se arriscara para buscar seu passado e dar a ele a oportunidade de recomeçar. Sentia também raiva de seu irmão, um ódio que poderia tomar conta dele se ele permitisse, mas a verdade é que não havia espaço para o ódio em seu coração quando tudo que queria era encontrar Anahí, buscá-la, encontrá-la, abraçá-la, dizer que havia sentido falta dela todos os dias que havia passado longe e recuperar todos esses anos sem ela.
Pegou as chaves do carro, o envelope com a carta de seu anjo-salvador e disparou para o primeiro endereço que lhe vinha na cabeça quando pensava em Anahí. O endereço do prédio em que eles moraram juntos. Com sorte, ela ainda estaria vivendo lá. E, se não, ele começaria por lá a buscar seu novo endereço.
– Senhor... Alfonso? – Perguntou José, o porteiro do condomínio que hoje já devia ter mais de 50 anos.
– Olá, Sr. José – Alfonso respondeu cordialmente, sorrindo – sou eu, por estranho que pareça. Me diga, por favor, que Anahí continua morando aqui.
– Sim, senhor. O mesmo apartamento. Nunca se mudou.
Sem nem mesmo pedir permissão, Alfonso disparou para a porta dos elevadores. Não teve paciência para esperar que um deles chegasse. Começou a subir as escadas. Foi até o quarto andar. Viu que não tinha condições de continuar. Esperou o elevador naquele andar para levá-lo até o décimo, onde eles moravam.
...
Tony pôs o jantar na mesa, com direito a velas, inclusive. Anahí olhou, mas não sentiu nada. Nem mesmo vontade de comer.
– Eu não quero comer – repetiu ela.
– Quando você vir o que trouxe, vai querer – comentou ele, antes de voltar para cozinha e pegar a travessa fumegante de lasanha.
A campainha tocou e Anahí levantou-se, sem forças, e andou devagar até a porta. Mas uma vez pensava que podia ser Alex, que talvez tivesse desistido de dormir na casa do coleguinha de escola. Colocou a mão na maçaneta, girou-a e... seu coração começou a bater tão rápido que ela não conseguia acompanhar, subiu até sua garganta e voltou ao lugar certo em menos de meio milésimo de segundo, lhe faltou o ar.
O olhar do estranho familiar a admirava, um brilho diferente sobre aqueles olhos verdes que ela conhecia e reconhecia.
– Amor, quem é? – Perguntou Tony, lá da cozinha.
O olhar ainda fixo de Anahí sobre Alfonso fez com que ela percebesse o exato instante em que o brilho daqueles olhos que amava se apagou, de seus lábios saiu um suspiro cansado. Amor? Perguntou ele. Anahí sentiu-se gelar. Tony apareceu por trás dela logo em seguida, para ver por que ela não lhe havia respondido.
– Alfonso? – Indagou Tony.
Eles se olharam por vários segundos. Segundos que mais pareceram eras.
– Ele é o seu amor? – Alfonso perguntou em um tom de raiva contida – o traidor do meu irmão é o seu amor?
O coração de Anahí martelava em seu peito e ela não sabia o que dizer. As lágrimas começaram a correr pelo rosto de Alfonso que ainda estava vermelho pelas lágrimas que chorara mais cedo. Foi vê-lo chorar para que Anahí percebesse que era seu homem, o amor de sua vida e que o havia machucado de uma forma que não saberia como se justificar.
– Como você pôde? – Perguntou ele entre soluços.
– Alfonso – falou ela, finalmente sentindo aquele nome sair de seus lábios com toda a certeza que não tivera até aquele instante. Com toda a certeza de que era Alfonso. Seu Alfonso.
– Você sabia que foi por culpa dele que ficamos separados? Sabia que ele é o responsável por todos esses anos de sofrimento? Ou será que você não sofreu? – Continuou Alfonso, sem permitir que ela falasse.
– Do que você está falando? – Perguntou ela, entre soluços, sem entender o que se passava.
– Ele me matou – falou em tom mais alto, apontando para Tony – ele me matou para ficar com você! Parabéns por dar a ele o prêmio que tanto buscava.
Anahí olhava de um a outro irmão sem saber o que dizer. Seu coração batia tão forte que chegava a doer. Suas pernas tremiam tanto que ela mal sabia dizer como ainda estava de pé.
– Alfonso, por favor, me escute – pediu ela, finalmente.
Ela não estava entendendo nada. Não sabia nada do que havia acontecido. Afinal, o que havia acontecido? Se perguntava. Ela nem sabia o que diria a Alfonso se ele estivesse disposto a escutá-la, mas não podia perdê-lo. Não podia perdê-lo de novo.
– Não tenho nada para escutar. E nunca mais quero sequer ouvir falar de você – falou Alfonso em tom tão baixo que qualquer que o conhecesse saberia que ele estava com tanta raiva que até falar se tornava difícil.
Anahí soluçou, gemeu, tentou agarrá-lo pelas mãos, pela gola da camisa de botões, mas sem sucesso.
– Quando acabar sua noite romântica com ele – continuou Alfonso, em voz baixa – leia isso – e atirou o envelope que dona Carmen deixara sobre Anahí.
Ela fez menção de correr atrás de Alfonso que saiu em direção aos elevadores, mas Tony a segurou.
– Vem, vamos jantar, esqueça isso – disse em tom natural.
– Esqueça isso? – Perguntou ela sem acreditar no que ele lhe estava dizendo.
– Ele não sabe o que diz.
– Pois parecia completamente ciente do que estava dizendo. Do que ele estava falando, Tony?
– De nada – respondeu ele calmamente, mas ela viu o relampejo de ódio e inveja que cruzou seu olhar.
Sem dizer uma palavra mais, Anahí pegou as chaves de seu carro e saiu correndo de casa, com o envelope que Alfonso lhe entregara nas mãos. Ela precisava pedir perdão a ele, precisava justificar-se, precisava escutá-lo, entender o que havia acontecido.
Saiu da garagem do condomínio justo na hora que Alfonso entrava em seu carro e dava partida. Ele acelerou. Ela fez o mesmo. Perdeu-o no primeiro sinal, mas voltou a encontrá-lo no terceiro. Não demorou muito para que chegassem num bairro mediano, próximo ao centro, onde Alfonso estacionou em frente a um pequeno prédio, desligou o carro e saiu, pisando forte, com lágrimas ainda rolando por seu rosto. Anahí estacionou de qualquer jeito do outro lado da rua, sem medir a distância da calçada ou dos carros que estavam na frente e atrás do seu, desligou o carro, saiu e correu até Alfonso, que entrava no prédio.
– Meu amor – suplicou ela, chorando – por favor, me escute.
– Meu amor? – Indagou ele – o que você pode me dizer que vá consertar as coisas?
Alfonso correu para os elevadores e Anahí disparou atrás dele.
– Alfonso – chamou entre lágrimas.
– O que você quer me dizer? – Perguntou ele, voltando-se para ela – que se apaixonou pelo meu irmão?
Alfonso pensou em entrar no elevador, mas Anahí vinha em seu encalço, então, optou pelas escadas. Correu pelos degraus e Anahí o seguiu, correndo da mesma forma.
– Alfonso – soluçou ela – eu não entendo nada, não sei nada do que aconteceu, estou confusa.
– Você leu a carta?
– Não. Eu vim atrás de você. Já te perdi uma vez – as lágrimas que caíam, rolavam por suas bochechas que nem cachoeira – eu não posso te perder de novo.
– Pois não parece – ele falou, também chorando, antes entrar em seu apartamento – leia a carta.
Anahí o seguiu.
– Eu não quero ler essa bendita carta!
Anahí aproximou-se dele, perigosamente, encurralando-o na parede. Colocou suas mãos pequenas e delicadas sobre o peito largo e firme de Alfonso.
– Eu não quero ler, quero que você me conte o que aconteceu – pediu.
Alfonso ficou calado.
– Esse apartamento é seu? – Perguntou ela, já que ele não falava, ela falaria – como você chegou aqui? Por que nunca me procurou?
– O apartamento é da Melissa – pensou em dizer que era sua irmã, mas não era, certo? – Uma amiga. Vim de carro com ela. Eu não sabia da sua existência.
– Como não sabia da minha existência? – Perguntou Anahí, esquecendo momentaneamente a onda de ciúmes que lhe invadira ao ouvir Alfonso falar de sua “amiga”.
– Leia a carta.
Anahí tinha um monte de perguntas sem respostas, tinha também um monte de satisfações para tomar, apesar de não ter certeza se tinha o direito de fazê-lo, sabendo que havia estado com Tony. Preferiu sentar-se no sofá da sala e abrir o envelope.
Enquanto lia a carta, pelo canto do olho, Anahí percebia que Alfonso a estava observando, observando cada uma de suas expressões. E ela chorava. Chorava desesperada e silenciosamente, sentindo cada pedacinho daquela história, sentido tudo que dona Carmen deve ter sentido ao ser parte daquilo, ao escrever aquela carta, sentindo tudo que Alfonso deve ter sentido quando a leu pela primeira vez.
Quando concluiu a leitura, Anahí olhou nos olhos de Alfonso que havia sentado na poltrona, quase de frente para ela. Não sabia o que dizer.
– Como você se sente? – Perguntou ele – sabendo que estava em um relacionamento com o homem que me matou, que nos separou? – Chorava.
– Querido, me perdoe, eu não sabia o que Tony havia feito... mas também me entenda, eu pensei que você estava morto.
– Você poderia ter me procurado.
– Como eu procuraria alguém que para mim estava morto, Alfonso? Vi sua certidão de óbito, eu mesma sepultei você, joguei terra sobre seu caixão, levei flores brancas ao cemitério, todos esses anos – Anahí voltara a chorar copiosamente – você também tem de tentar entender-me. Esses anos foram tão difíceis...
– Com a ajuda de Tony foi mais fácil, certo? – Perguntou ele com certa ironia em seu tom de voz.
– Claro que não. Com Tony é tão recente... Você foi o único homem que amei na vida e sabe que foi, você sabe da minha dificuldade em entregar-me, em me permitir sentir e amar...
Enquanto Anahí soluçava e massageava o próprio peito tentando expulsar aquela dor enorme, Alfonso respirou três vezes profundamente. Estava com muita raiva de Tony, mais do que o normal, mais do que o saudável, mas não era para menos, o que ele fizera não tinha perdão. Respirou mais algumas vezes, ainda mais profundamente, tentando abstrair todo aquele ódio, aquele ciúme. Anahí estava em pedaços e a dor dela doía mais nele do que sua própria dor.
Deixando todos os sentimentos ruins de lado, aproximou-se dela, devagar, tomou as mãos nas quais Anahí escondia o rosto e chorava, beijou-lhe os dedos e puxou para ainda mais perto de si, colocando-a dentro de seu abraço. Anahí deixou-se abraçar, sentindo-se completa mesmo em meio àquela tristeza enorme. Se pedissem que explicasse a sensação de estar de volta nos braços de Alfonso, ela não saberia explicar nem minimamente a grandiosidade daquele sentimento.
Ele a apertou em seu abraço, acariciou seus cabelos enquanto ela ainda soluçava em seu peito, chorou junto a ela, agradeceu a Deus por dar a ele a oportunidade de estar de volta ali, do lado da mulher que mais amara, da única que nunca se apagaria de sua mente, não importa quanto tempo passasse.
Quando os soluços acalmaram e as lágrimas cessaram, seus lábios voltaram a encontrar-se. Naturalmente. Sentindo cada milésimo de segundo daquele encontro. Calmamente. Lembranças ainda surgiam em flashes na mente de Alfonso, lembranças também tomavam conta da cabeça de Anahí. E eram só lembranças boas. Beijos, abraços, carícias, calor, paixão, amor.
– Eu sabia que você estava com alguém quando não me atendeu mais cedo – comentou Melissa rindo, ao entrar em casa e dar de cara com aquele beijo.
Anahí e Alfonso separaram-se, timidamente. Anahí com mais ciúmes do que timidez. Fuzilou a moça com o olhar. Mas Melissa nem pareceu perceber.
– Tudo bem? Eu sou Melissa – estendeu a mão – irmã de Leonardo.
– Leonardo – Anahí sussurrou. Sacudiu a cabeça. Relaxou. Apertou a mão da moça – eu sou Anahí.
– Mel – Alfonso falou cuidadosamente – eu lembrei.
Confusão cruzou o olhar de Melissa, mas ela rapidamente entendeu quando viu os dois abraçados, tão encaixados que pareciam ter sido um do outro a vida inteira.
– Não posso acreditar – lágrimas também chegaram a seus olhos – meu irmão – atirou-se sobre ele, abraçando-o – não sabe quanto me alegro... é ela mesmo? A moça dos sonhos? – Alfonso apenas concordou com a cabeça. Melissa sorriu.
– Sonhos? – Perguntou Anahí.
– Nós ainda temos tanto para conversar – explicou ele.
Melissa falou de sair de lá e deixá-los a sós. Mas Alfonso queria mesmo era voltar para o apartamento de Anahí. O apartamento deles, que haviam comprado logo que se casaram.
O caminho para lá foi feito em um piscar de olhos. Anahí manteve sua mão esquerda na qual ainda usava a aliança sobre a coxa de Alfonso enquanto ele dirigia. Não falaram. Só sorriram e choraram em silêncio. Disfrutando da sensação de seu melhor sonho ter se tornado realidade.
Quando Anahí abriu a porta de seu apartamento, Tony a esperava, sentado no sofá.
– Anahí, precisamos conversar – seu rosto se fechou, porque Alfonso vinha atrás dela.
– O que você precisa fazer – Alfonso falou pausadamente – é dar o fora daqui e nunca mais se aproximar da minha família, porque se eu cruzar com você mais uma vez, juro que o mato. Ou pior, presto queixa contra você.
Anahí, na frente de Alfonso, colocou os braços para trás, segurando as mãos dele, de forma a impedir que se descontrolasse e começasse uma briga ali mesmo.
– Vá embora, Tony – falou ela com lágrimas nos olhos – nunca me decepcionei tão profundamente em toda minha vida.
Quando a péssima vibração que Tony carregava havia deixado o espaço, Anahí e Alfonso caminharam de mãos dadas pelo apartamento. Ele observava cada detalhe. Alguns móveis haviam sido trocados, provavelmente porque estavam envelhecidos, mas, no geral, parecia ser o mesmo lar que ele deixara, oito anos antes. Os móveis não haviam sido mudados de posição. Os vasos que ele escolhera a dedo para colocar plantas ornamentais sempre que encontrava algumas exóticas e intrigantes e dignas de Anahí continuavam aí, sobre a mesa de centro, na lateral do painel da televisão, sobre a mesa de jantar. Também os quadros que decoravam a parede do corredor não haviam sido trocados. Ele e Anahí os haviam escolhido juntos quando decoraram a casa pela primeira vez.
Entraram finalmente em seu quarto. Alfonso olhou ao redor. Exatamente igual. Até cheirava igual. O cheiro de Anahí. Sobre uma das mesas de cabeceira, a foto de seu casamento também era a mesma. Sorriu. Lembrava-se agora de cada segundo dos momentos todos que tivera com ela e seu casamento fora mais que especial. Apenas uma coisa parecia diferente, nova. Outro porta-retratos jazia sobre o criado-mudo do lado oposto da cama. Anahí abraçava um menino pelas costas, debruçados sobre uma mesa com um enorme bolo do chocolate e confeitos com uma vela que apontava: 5 anos.
– Quem é? – Perguntou ele, pensando que podia ser algum de seus sobrinhos que ainda não conhecera.
Anahí sorriu. Quem era? Tinha certeza que se Alfonso olhasse novamente com mais atenção, se daria conta, pois eles eram exatamente iguais.
– Alex – respondeu ela, com os olhos marejados – nosso filho – sorriu.
Alfonso tremia de emoção. Chorava e chorava. Ao mesmo tempo que não entendia nada, era incrível a sensação de saber que tinham um filho, o filho com o qual tanto sonharam.
– Eu soube logo que você viajou. Ia lhe contar quando voltasse. Mas aconteceu...
Alfonso não permitiu que ela continuasse. Nada mais de coisa triste na vida de sua família. Nunca mais. Colocou um dedo sobre os lábios dela.
– Ainda nem o conheço e já o amo com minha alma inteira – falou alternando entre olhar a foto e Anahí – passamos o que passamos todos esses anos e tudo que eu consigo sentir aqui e agora é felicidade. Escute-me bem: nada, nunca mais, irá tocar um fio de cabelo seu ou do nosso filho, nunca permitirei que nada nem ninguém nem situação nenhuma nos separe novamente.
Beijaram-se suavemente.
– Gostaria de vê-lo – pediu ele.
Dentro de cinco minutos, Anahí havia ligado para a mãe do colega de escola de Alex que havia lhe dito que as crianças já estavam dormindo. Conversaram e Anahí decidiu ir buscá-lo mesmo assim. Afinal de contas, agora ela até tinha quem o carregasse sem problemas para não correr risco de acordá-lo.
Alfonso olhou o menino por longos minutos, com lágrimas presas aos olhos, ao entrar no quarto que seu filho dividia com mais três outros garotos de sua mesma idade na casa de Mario, seu coleguinha que estava fazendo aniversário.
– Pegue-o – sugeriu Anahí em um sussurro e Alfonso tomou o menino nos braços cuidadosamente.
– Como é maravilhoso senti-lo em meus braços – comentou ele, também sussurrando.
Anahí agradeceu à Paulina, a mãe de Mario, por cuidar das crianças e por recebê-los mesmo quando já passava das nove da noite. Paulina não conhecia a história de Anahí e Alfonso, mas sabia que Alex não tinha seu pai por perto antes. E agora teria. Então, aquele momento era muito especial e, mesmo tendo de abrir a porta de sua casa e recebê-los já vestida de pijama àquela hora, havia valido a pena.
Alex dormiu o caminho inteiro no colo do pai, Anahí viera dirigindo devagar. Em casa, Alfonso carregou-o até sua cama, com cuidado para não o acordar. O menino remexeu-se ao ser colocado sobre o colchão, mas não acordou. Anahí o cobriu com o edredom estampado com o brasão do Futebol Clube Barcelona. Abraçaram-se.
– Então, ele torce para o Barcelona – constatou ele.
– Sim, o melhor time do mundo – ela riu baixinho.
– Na sua concepção. Eu sempre serei Real Madrid.
Riram baixo. Barcelona e Real Madrid sempre haviam sido o único motivo para briga entre Anahí e Alfonso.
– Não tente convertê-lo – falou ela, virando-se e abraçando-o ao pé da porta do quarto de Alex – já o doutrinei muito bem. Ele é barça.
Alfonso sorriu. Sim, ele tentaria doutrinar o menino e torná-lo torcedor fiel do Real. Mas, a verdade é que não importava. Ele podia nem gostar de futebol e ainda seria o mais lindo presente que já recebera na vida.
Anahí subiu na ponta de seus pés, com suas mãos apoiadas sobre os ombros de Alfonso, e beijou-lhe os lábios que ainda estavam abertos em um sorriso.
O pequeno beijo foi aprofundado naturalmente. A língua de Anahí dançava com perfeição dentro da boca de Alfonso, devagar, suavemente, sentindo cada pedacinho, cada sensação, cada sabor, cada textura. Ele a abraçou pela cintura, aproximando mais seus corpos e as mãos dela, que antes estavam em seu peito, lhe envolveram o pescoço.
Afastaram-se por apenas um segundo daquele beijo, Anahí lhe mordeu o lábio inferior com desejo, com vontade, com saudade, mas foi Alfonso quem primeiro expressou em voz alta aquela sensação que tomava conta dos dois.
– Quero você – falou ele com os lábios sobre os dela.
– Eu também quero você – retornou ela, entre beijos – quero que me beije, quero que me abrace... quero que me faça sua.
– Eu preciso – completou ele, definindo o sentimento que os dois compartilhavam.
Alfonso a aproximou da parede do corredor, colando-a à superfície, próximo ao portal que dava para o quarto dos dois. Voltaram a juntar seus lábios, agora em um beijo mais acelerado, profundo e cheio de paixão, pois já não conseguiam aguentar-se. Se acariciavam o rosto, a nuca, os braços, as pontas dos dedos, as costas, não podiam deixar de tocar-se. Era tanta vontade em um só beijo...
Entre apertos, Alfonso levantou uma das pernas de sua amada, puxando-a em direção à sua cintura, de forma a colar ainda mais seus corpos. Mas Anahí queria mais. O envolveu pelo pescoço com os braços e com um pequeno pulo, rodeou sua cintura com as pernas, cruzando-as atrás dele. Cortou o beijo molhado que compartilhavam e Alfonso gemeu em protesto. Vamos para o quarto, pediu ela, Alex pode acordar se fazemos barulho aqui.
Com um braço, Alfonso abraçou-a pela cintura, com o outro, segurou-lhe por uma das coxas e agarrado a ela, levou-a ao quarto, fechando a porta atrás de si com um chute leve. Deitou-a sobre a cama e manteve-se de pé a admirá-la, enquanto Anahí sentava-se e tirava sua própria roupa, sedenta de ser inteiramente dele, de mostrar-se e entregar-se a ele, totalmente.
De joelhos sobre a beira da cama, Anahí agarrou-o perigosamente, segurando-o pelo cós da calça jeans que vestia. Alfonso desabotoou a própria camisa enquanto se beijavam. Com as mãos ainda na calça dele, Anahí desabotoou o único botão que segurava a peça de roupa e deslizou o zíper devagar. Alfonso gemeu enquanto deslizava as mãos pelas costas e pela lateral dos seios de sua linda mulher.
Anahí movimentava suas mãos pequenas devagar sobre a notável excitação de Alfonso. Excitado e ansioso por tê-la, o corpo dele tremia, tremiam suas mãos que não paravam de deslizar por aquela pele bronzeada e lisa. Desceu com seus beijos ao pescoço dela, sentindo o cheiro maravilhoso de baunilha que sua pele exalava. Com a língua, percorreu desde seu ombro até sua orelha, sugando devagar ao alcançar-lhe a ponta. Ela correspondeu arranhando suas costas com as unhas e, logo, tomou uma das mãos dele e guiou-a até sua intimidade nua, lisa e úmida.
Alfonso teve de respirar diversas vezes profundamente e lhe morder o ombro para não gritar ao sentir aquilo. Aquele calor molhado e palpitante. Só você me deixa assim, sussurrou ela, só você. Desesperado para senti-la, a fez sentar-se na ponta da cama e ajoelhou-se diante dela. Passeou com seu rosto por suas coxas e virilha, sentindo, beijando, tocando, até finalmente alcançar o que pretendia.
Um gemido irreconhecível escapou de seus lábios ao sentir a boca de seu amado, tão ou mais quente que seu próprio íntimo, a senti-la, a reconhecê-la, a desbravá-la inteira. Anahí se sentia na máxima glória. Agarrou-o pelos cabelos, aprofundando as carícias que ele lhe fazia com a língua e gemeu seu nome, pedindo mais. E em meio à tanta excitação, ela já não aguentava, precisava senti-lo dentro de si.
Alfonso nem sequer precisara acariciar a si mesmo para sentir seu desejo aumentando enquanto sua boca sentia cada pedaço da intimidade molhada e quente de Anahí. Mais do que o gosto dela, a reação de seu corpo às carícias que ele lhe fazia com a língua o estava deixando louco. Ele também queria mais.
Anahí entendia o movimento de seus corpos, de seus toques. Entendia a sintonia dos gemidos, dos tremores. Entendia o que pediam. Que o fogo precisava ser abrandado. Que o calor precisava ser amenizado. Que a vontade precisava ser satisfeita. Que a saudade de estar juntos precisava ser apagada. Puxou-o pelos cabelos e ombros e Alfonso quis colocar-se sobre ela, mas não permitiu. Empurrou-o para a cama, encostou-o à montanha de travesseiros e subiu sobre seu corpo, de joelhos, uma perna a cada lado dos quadris de Alfonso.
Com as mãos pequenas, delicadas e macias, Anahí tocou-lhe o membro, circulando-o e apertando-o. Por favor, pediu ele a ponto de descontrolar-se, venha para mim. Ela não hesitou um segundo em atender seu pedido, era o que mais queria.
Levantando um pouco o corpo, posicionou-se e deixou que deslizara dentro dela até preenchê-la completamente. Estar encaixados e tão dentro um do outro daquela forma era uma das melhores sensações que um casal apaixonado poderia compartilhar. Entrega e prazer resumiam facilmente todas as delícias que dividiam naquele momento. O movimento os aproximava mais, os esquentava mais e dava a eles cada vez maior prazer. Para frente e para trás. Para cima e para baixo. Em círculos. Nada era suficiente. Tudo era profundo e quente, úmido e delicioso, e pedia mais, pedia sempre mais.
Agarrada aos ombros de seu amor, Anahí movia-se sensual e rapidamente, olhando-o nos olhos, gemendo seu nome, entre suspiros de uma respiração ofegante e entrecortada. Alfonso a ajudava, segurando-a pela cintura, meneando seu próprio quadril em sintonia ao dela, também lhe gemia o nome, em um tom tão rouco e baixo que indicava que mal podia aguentar-se. O gemido dela indicava o mesmo: mal podiam aguentar-se.
Estavam tão perto.
O calor crescia e crescia e parecia a ponto de estalar em fogos de artifícios. Os corações batiam tão rápido que nem mesmo o ritmo super acelerado de suas respirações conseguia acompanhá-los.
Oito anos de saudade naquele encontro entre duas bocas. Oito anos de vontade naquele encontro entre as intimidades. Oito anos de sofrimento, de dor, de distância, de perguntas sem respostas... e, hoje, naquele exato momento, dividindo tanto amor e aquele contato tão profundo, nem parecia que em algum momento houvera dor alguma. Porque se sentiam exatamente como da primeira, da segunda, da terceira... de todas as vezes, como sempre se sentiriam. Sempre novo, mas sempre o mesmo. Novas sensações, num mesmo amor. Diferentes tipos de prazeres, e um mesmo amor. A cada segundo, o encontro gerava uma deliciosa e nova explosão, e ainda aquele mesmo amor. O mesmo de quando se descobriram apaixonados. O mesmo de quando disseram “sim” diante de Deus e dos homens. O mesmo que sentiam hoje. E sempre mais forte.
Tão perto. Tanto calor. Tão perto de ser abrandado.
E estabeleceu-se a quietude, a completude do amor feito, a calmaria do entregar-se a quem se ama e a quem também lhe ama.
Caídos sobre a cama, os corpos quentes e úmidos de Anahí e Alfonso não queriam desgrudar-se do abraço. Sobre seu peito, Alfonso sentia o coração de sua esposa a bater cada vez mais compassadamente e suas respirações a acalmarem-se juntas, em sintonia. Abraçada a ele, a sensação de ser amada e protegida era tão forte que, por mais que buscasse em sua memória, as lembranças ruins pareciam ter simplesmente desaparecido e dado lugar à paz de sentir novamente seu amor ali junto, porque não havia outro lugar no mundo em que Anahí ou Alfonso quisessem mais estar ou outro lugar em que estariam mais felizes.
Na manhã seguinte, despertaram ao som do despertador de Anahí. Era hora de levantar-se, preparar Alex para a escola e dirigir-se ao seu trabalho, como lhe indicava a mensagem na tela do celular. Mas Anahí não levantou.
Espreguiçou-se debaixo das cobertas e se aninhou sobre o peito de Alfonso, abraçando-o. Ele a apertou contra si e cheirou seus cabelos, sorrindo consigo mesmo e perguntando-se qual seria agora o melhor dia da sua vida: o dia em que a conheceu? O dia em que casou com ela? Ou o dia em que voltara a ser seu depois de tantas provas que o destino havia posto em seu caminho? Achava que todos eles. Sim, todos esses dias e todos os dias ao lado dela sempre seriam os melhores da sua vida.
Ela sorriu ao vê-lo sorrir e propor que tirassem o dia de folga, que precisava apenas estar com ela e com seu filho e que depois resolveriam tudo que tinham para resolver. Eles estavam apreensivos. Não sabiam como Alex reagiria a Alfonso. Não sabiam também como a família tomaria aquela reviravolta, principalmente quando soubessem que tudo fora culpa de Tony. Sabiam menos como fariam para ajeitar tudo, pois a vida de Alfonso precisava voltar aos eixos, precisava de seus documentos, de seu emprego, precisava estar vivo, oficialmente. Mas, naquela troca de olhares e de sorrisos, abraçados sobre a cama, depois de uma noite de intenso amor e de um sono tão tranquilo, a única coisa em que Anahí e Alfonso conseguiam pensar era em estar juntos e aproveitar cada instante daquela segunda oportunidade que a vida estava dando a eles. Havia muito por resolver, mas só no dia seguinte. Hoje, seriam apenas eles e Alex. Hoje, eles apenas aproveitariam a família com a qual tanto sonharam e que tanto pediram a Deus.
Banharam-se juntos e, enquanto Anahí passava por seu rito matinal de hidratação da pele, Alfonso fez a barba e arrumou o café da manhã. Ligou para a padaria mais próxima e encomendou panquecas, pães de queijo e bolo de chocolate. Também preparou café e suco de laranja. Pôs a mesa, na cozinha mesmo, pois a mesa da sala de jantar era retangular e comprida e ele queria estar bem perto de seus amores, então preferiu utilizar-se da mesa pequena e redonda.
Anahí saiu do banho, perfumada, e vestiu shorts jeans e camiseta, como costumava fazer sempre quando Alfonso e ela iam passar o dia juntos em casa. Dirigiu-se à cozinha, onde a mesa já estava posta e Alfonso ajeitava os últimos detalhes, colocando o pote de cream cheese próximo à cestinha de panquecas, pois sabia que sua esposa amava panqueca com creme de queijo.
Anahí o abraçou pelas costas e ele se voltou para ela, apertando-a contra si e sentindo o cheiro de hidratante de baunilha que ela usava.
– Você ainda usa o mesmo hidratante – comentou ele, mostrando que recordava bem aquele cheiro.
– E você ainda lembra que eu adoro panqueca com creme de queijo – comentou ela, aspirando o cheiro gostoso que vinha da mesa do café da manhã – eu amo você – falou, devagar.
– Não mais do que eu amo você – retornou ele, acariciando as costas dela, enquanto se olhavam de forma apaixonada.
Anahí quebrou o contato visual entre os dois para aproximar-se mais a ele e encostar-se em seu peito. Por ser mais baixa que ele, o encaixe era perfeito, como se os corpos dos dois tivessem sido desenhados para encaixarem-se naquele abraço. Ficaram paradinhos, abraçados, sentindo em silêncio o amor que compartilhavam. Algumas lágrimas rolaram pelos rostos sorridentes dos dois, lágrimas de pura felicidade.
– Você é tão minha – Alfonso sussurrou.
– Sempre serei.
– Mamãe? – Anahí e Alfonso separaram-se de supetão ao ouvir a voz do menino – o cheiro das panquecas tá chegando lá no meu quarto! E tem bolo de chocolate! – Falou o menino, espiando a mesa, parado na porta da cozinha.
– Príncipe – saudou a mãe, aproximando-se do menino e tomando-o pela mão – além das panquecas e do bolo, tenho outra coisa para você – falou, puxando-o para perto de Alfonso.
Alfonso baixou o próprio corpo, colocando-se de cócoras, para ficar da altura do menino. Sorriu para ele com lágrimas nos olhos, disse um tímido “oi” e aguardou a reação do garoto.
O menino o olhou nos olhos e analisou seu rosto. Alfonso e Anahí perceberam que ele o estava observando, observando cada detalhe. Então, o menino saiu correndo em direção a seu quarto e Alfonso levantou-se secando as lágrimas que já rolavam por seu rosto.
– Ele não me aceitará – lamentou com a voz embargada pelas lágrimas.
– Shhh... vai ficar tudo bem – Anahí o acalmou.
Quando pensava em ir ao quarto atrás de Alex, Anahí viu o menino que já voltava para a cozinha com um enorme sorriso estampado no rosto e uma foto nas mãos. Alex aproximou-se de novo de Alfonso e colocou a foto ao lado de seu pai, comparando os dois homens.
– É meu pai – concluiu Alex, sorrindo.
Alfonso o tomou nos braços sem conseguir aguentar tanta felicidade e, logo em seguida, Anahí se havia metido ao abraço também. Era o melhor momento da vida deles.
O café foi divertido. Alex contou que sua avó lhe havia dado aquela foto de seu pai, quando ele lhe perguntara por que não podia ver seu pai se todos os seus amigos podiam ver seus pais e passear com eles. Disse também que a foto fora o melhor presente que já havia ganhado. Anahí e Alfonso conversaram com ele, entre sorrisos, ambos abobalhados com a felicidade de estar vivendo aquele momento.
– E o segundo melhor presente que ganhei foi meu estojo de lápis para desenho – comentou Alex.
– Quer dizer, então, que meu filho é um artista? – Constatou Alfonso, sorrindo.
– Sim! Já voltou – falou ele, largando a panqueca sobre o prato a sua frente.
Quando Alex voltou, trazia nas mãos uma pasta e de lá retirou um desenho.
– Quem são? – Perguntou Alfonso admirando os bonecos de palito que o menino havia cuidadosamente desenhado.
– A mamãe, eu e o papai – falou ele, apontando.
– E esta? – Perguntou Anahí, apontando para uma menina-palito bem pequena de vestido lilás, que segurava em uma de suas mãos.
– Minha irmã, Glenda.
– Mas você não tem uma irmã, Alex – comentou a mãe rindo.
– Agora que meu pai está aqui, eu vou ter, certo? – Anahí e Alfonso sorriram.
– Certíssimo – Alfonso respondeu.
...
Os dias e as semanas que se seguiram para Anahí e Alfonso foram os mais felizes e ao mesmo tempo os mais complicados de suas vidas. Levantar alguém quase literalmente dos mortos era uma tarefa bastante difícil.
Primeiro, o choque dos familiares e amigos em saber da volta de Alfonso. Sentiam uma felicidade inexplicável, a sensação de que seu maior desejo e seu melhor sonho havia se tornado realidade, pois estavam todos aí, estavam bem, estavam juntos, mas ainda assim era um choque. E choque maior foi quando as perguntas começaram a surgir, as dúvidas foram sendo aclaradas e explicações tiveram de ser dadas. Ao mesmo tempo que se recompunha a família de Alfonso ao tê-lo de volta com eles, se quebrava de outro lado ao descobrirem que Tony havia sido responsável por todos os anos de sofrimento que havia causado a Anahí, a Alfonso, a sua irmã e a seus pais e a todos os demais.
Alfonso e Anahí só queriam que tudo se acalmasse, queriam estar em paz, queriam estar com Alex, queriam aproveitar todos os momentos que ainda não haviam podido aproveitar como família. Mas muito precisava ser feito antes que tudo voltasse aos eixos. Toda a documentação referente à morte de Alfonso teve de ser anulada, seus documentos de identificação tiveram de ser refeitos, e, ainda que não fosse essa a vontade inicial do casal, Tony teve de ser denunciado. Não só ele como também o médico que tinha sido seu cúmplice no crime e até o próprio hospital tivera de responder pelo ocorrido. Foram muitas semanas de muito estresse, de longos depoimentos, de lágrimas ao lembrar-se de todos os momentos ruins que passaram e de todos os momentos bons dos quais foram privados por tantos anos. Mas, mesmo em meio às lágrimas, eles ainda sorriam. Porque quanto maior a batalha, maior a vitória, pois quanto mais obstáculos no meio do caminho, mais prazeroso é chegar ao alvo. E quanto mais dificuldades apareceram e apareciam para eles, mais se sentiam sortudos e abençoados por saber que seu amor era maior que tudo aquilo. E toda a tristeza pouco a pouco ia sendo compensada.
Alfonso, que havia passado tanto tempo longe de sua família, agora até tinha duas famílias, pois além de seus pais biológicos e de sua irmã, ele ainda mantinha contato e era próximo de ser Armando e Melissa, eles também eram parte dele, do seu “eu” Leonardo e eles lhes tinha enorme carinho e gratidão. Anahí se sentia completa novamente, era mágico ter Alfonso de novo ali, com ela, com Alex, era mágico acordar todos os dias a seu lado e beijá-lo todas as noites antes de adormecer; era maravilhoso vê-lo acordar e correr para preparar o café, ajudá-la com Alex e levá-lo a escola e levar Anahí ao escritório antes de dirigir-se ao Instituto de Pesquisas, onde voltara a trabalhar.
A vida era bem cotidiana e corriqueira, tinha dias que era mais apressada, em outros ia mais devagar e lhes permitia aproveitar um pouco mais. Mas cada dia era único, era válido e era feliz, pois, experimentar a tristeza da forma como eles experimentaram deixa uma marca profunda e boa na alma de quem o vive, uma marca que os faz enxergar em cada pequena coisa, o que há de melhor nisso, que os faz enxergar a luz, mesmo em momentos escuros e que os faz enxergar a beleza e a felicidade, mesmo nas coisas mais simples. Hoje, eles viviam mais e melhor, aproveitavam muito mais.
Anahí e Alfonso sorriam a todo o tempo, jogavam conversa fora entre si e com Alex, brincavam com o menino, levavam-no para passear por aí aos sábados, faziam longos almoços nos domingos com toda a família, riam de qualquer bobagem e choravam com qualquer história de amor. Sorriam e beijavam-se pela manhã, mesmo antes de escovar os dentes; conversavam sobre seu dia, mesmo quando seus olhos insistiam em quase fechar-se pelo cansaço; faziam amor apaixonadamente sempre que podiam e quando não podiam, eles davam um jeito. Nunca mais deixaram conversas para depois, nunca mais interromperam seus beijos pela correria do dia, nunca mais iniciaram o dia sem dizer “te amo” e nunca mais encerraram o dia sem dizer “obrigado”.
Entre tantos sorrisos, longos beijos e abraços e a consciência de que cada dia é uma dádiva e temos que aproveitá-la o máximo possível, Anahí e Alfonso até esqueceram depois de um tempo de toda a tristeza que já haviam vivido. A marca que os fazia valorizar cada segundo hoje não desaparecia, mas tristeza mesmo não aparecia mais. Porque a felicidade era constante e sempre maior. E quando achavam que não podia melhorar...
Anahí não havia recebido a visita vermelha naquele mês, mas também ainda não tinha decidido ir ao médico. Alfonso e ela não estavam usando nenhum tipo de contraceptivo, pois queriam dar a Alex a irmã que ele tanto queria. Mas para engravidar de Alex havia sido tão difícil que Anahí tinha medo, tinha medo de que não fosse nada, tinha medo de estar doente, tinha medo de ser alarme falso e entristecer a si própria, a Alex e a Alfonso. Mas Dulce a fez entrar em razão, numa tarde de sexta-feira, quando ela sempre tomava café com a amiga na casa de Maite.
– Como assim mais de duas semanas de atraso? E você ainda não foi ao médico? É óbvio que eu vou ser tia novamente! Maite, urgente, tem algum teste aí?
– Se não tiver, peço na farmácia – falou Maite em concordância.
– Gente, pode não ser nada! Não seria a primeira vez que tenho um alarme falso, meu ciclo é irregular...
– Shhh – falou Maite, reprovando o comentário de Anahí – não seja pessimista! Acredite! Se Deus lhe devolveu Alfonso, por que não lhe daria um filho?
Depois de fazer o teste de farmácia, Anahí deixou que Dulce fosse ao banheiro olhar o resultado. Não queria ver. Estava nervosa. Seu corpo tremia. Sentada na cama, agarrada a mão de Maite, ela esperou que Dulce voltasse.
A amiga a olhou com um olhar apreensivo. Anahí suspirou, deixando escapar algumas lágrimas que vinha tentando segurar. Dulce aproximou-se e passou um braço pelos ombros da amiga, mostrando-lhe o teste. Anahí piscou diversas vezes para expulsar as lágrimas que ainda nublavam sua visão e para ver o teste direito. Não podia ser verdade.
– Eu vou ser mãe de novo! Oh, meu Deus!
Sorria ao mesmo tempo que chorava. Abraçou as amigas e saiu logo da casa de Maite em direção ao trabalho de Alfonso, se havia uma coisa que ela havia aprendido com a vida era: não deixar nada para depois! Invadiu o laboratório onde Alfonso fazia umas análises ao microscópio. Tomou-o pelo braço e retirou os óculos de trabalho que ele usava. Com um sorriso enorme no rosto, o sorriso que havia feito Alfonso apaixonar-se por ela, Anahí abraçou-o pelo pescoço e, ficando na ponta dos pés para alcançá-lo, beijou-lhe os lábios suavemente, mas por um bom tempo. Quando cortaram os beijos, Anahí tratou de manter suas testas coladas.
– Eu amo você – ela falou sorrindo e chorando.
– Eu também amo você, meu amor – falou ele meio rindo e meio sorrindo, enquanto a abraçava – o que aconteceu?
– Você vai ser pai novamente! – Ela quase gritou.
Alfonso arregalou os olhos e abriu ainda mais o próprio sorriso. Ainda abraçado a ela, tirou-a do chão e girou junto com ela, quase dançando de felicidade e derrubando alguns tubos de ensaio devido à comemoração.
Depois de uns minutos, Alfonso percebeu que não se concentraria para continuar trabalhando, tirou o resto do dia de folga e foi com sua esposa contar à família a novidade que todos receberam com enorme alegria. Mais tarde, jantaram com Alex entre risadas sobre alguma travessura que um colega do menino havia feito na escola até que criaram coragem para contar-lhe a novidade.
– Filho, eu e sua mãe temos um presente para você!
– Mas não é meu aniversário – constatou o menino, surpreso – o que é? – Perguntou com os olhos brilhando.
– Bom, você ainda não pode ver, porque está sendo preparado – explicou Anahí.
– Onde está sendo preparado? A senhora e o papai o encomendaram? – Perguntou, curioso.
– Sim, filho – respondeu Alfonso, tomando Anahí pela mãe e levantando-a de sua cadeira – ele ou ela está sendo preparado bem aqui – falou apontando para a barriga lisa de Anahí.
– Meu presente foi encomendado à cegonha? – Perguntou com os olhos arregalados e uma risada gostosa.
– Sim, meu amor – respondeu Anahí, sorrindo também – você vai ter um irmão ou irmã.
Foi difícil colocar Alex para dormir naquela noite. Ele estava inquieto. A todo tempo perguntava a Anahí se seu irmão estava bem, quando ele nasceria, se poderia escolher o nome, se tinham como saber se seria um irmão ou irmã. Anahí e Alfonso responderam todas as perguntas, digo, pelo menos aquelas para as quais tinham respostas, porque crianças inventam cada questionamento! Quando o menino finalmente dormiu, o casal só conseguia sorrir para o nada, olhavam seu menino a dormir e pensavam no que estava para chegar e não imaginariam uma situação em que se sentiriam mais felizes.
Já em seu quarto, banharam-se juntos tranquilamente, entre carícias e uma conversa apaixonada e cheia de sonhos e planos. Logo depois, deitaram-se confortavelmente em sua cama e Alfonso beijou o rosto de Anahí, beijou sua testa, seus olhos, seu nariz e finalmente seus lábios. Beijou-lhe também as mãos e a barriga que ainda não exibia sinais da gravidez, mas carregava a promessa de mais um motivo de enorme felicidade para eles. Anahí também o beijou, com suavidade, amor, paixão e entrega. Beijaram-se em agradecimento por tudo que estavam compartilhando, por tudo que estavam construindo e pela felicidade que proporcionavam um ao outro dia a dia. Beijaram-se e fizeram amor como sempre, de forma apaixonada e entregue, apenas mais uma demonstração de que pertenciam um ao outro e que se haviam entregado àquele amor. Porque amar é entregar-se.
Amar é ser quem é e saber que o outro lhe aceita assim como é, mas, mesmo assim, insistir em ser melhor dia a dia, para sempre entregar a seu amor o melhor de si. Amor é o mesmo e é diferente, é olhar o mesmo rosto todos os dias, sentir o mesmo toque, o mesmo cheiro, e mesmo assim descobrir algo novo a cada dia, sempre um mistério a desvendar, sempre outro rio profundo para mergulhar. E amor é ainda mais. Amor é quando não olhar, não sentir, não ter, dói, dói tanto que nos faz querer desistir algumas vezes, mas logo nos levanta, nos faz olhar adiante e nos faz perceber que não importa. Porque o amor... ah, o amor, como dizem os enviados, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta, o amor jamais acaba.
Era esse amor que Anahí e Alfonso compartilhavam, o amor que havia resistido a tudo. Frustrações. Medos. Erros. Distância. Saudade. Dor. Lágrimas. Morte. Nada disso importou. Nada disso nunca importa, não quando se trata de amor. Porque o amor... ah, o amor... o amor é dessas coisas que nada nem ninguém apaga. O verdadeiro amor é indelével.
Fale com o autor