Indecisões

4 Capítulo 3


Jacob parou o carro na entrada de casa e percebi que havia muita movimentação dentro dela do que se podia imaginar àquele horário. Vi alguns vultos e logo depois todos sumiram da sala de visitas. Deixamos o carro estacionado ali mesmo e entramos. O cheiro dos meus pais era forte, eles deviam estar aqui. Joguei minha mochila no sofá, Jacob fez o mesmo e seguiu para a sala de jantar.

-Não deviam estar trabalhando? –ele perguntou.

-Oi mãe. Oi pai. –fui cumprimentá-los. Todos estavam reunidos ao redor da mesa. –Hey. –apontei para Alec e Jane. –Onde estavam durante o horário de almoço? –eu havia esquecido de perguntar.

-Resolvendo problemas. –tia Alice respondeu entrando na cozinha com tio Jasper. Apertei meus olhos. Eles estavam procurando informações sobre Brian. Por isso todos estavam lá. Apenas me esperando.

-Não acredito! Eu disse para não contar nada a eles! –bati a mão na cadeira.

-Hey! –Jacob reclamou.

-Eles fizeram o certo. Deviam nos contar. –vovó disse.

-Não agora. –respondi.

-Renesmee, sente-se. Vamos esperar Carlisle chegar. Ele já está vindo. –papai pediu.

-Já que estavam investigando a vida do garoto, porque esperaram que eu chegasse?

-Ele não é um garoto, é um vampiro. –tio Emmett se intrometeu.

-Grande vantagem estarem vasculhando a vida dele. Como se tudo que estivesse lá fosse verdade.

-Nessie, sente. –papai sibilou.

-Não vou sentar. –continuei em pé com os braços cruzados, encarando-o.

-Como pôde conversar com ele? O que deu em você? –mamãe falou pela primeira vez. –Ele pode ser perigoso.

-Ele que veio conversar comigo. E ele não é perigoso.

-Pare de falar isso, você não o conhece. –ela mandou.

-Muito menos vocês. Que mal viram o rosto do garoto. –rebati.

-Qual é o problema? Por que está defendendo ele? –Alec perguntou.

-Porque não é justo ficarem julgando ele. Não pode aparecer um vampiro novo que vocês o acham uma ameaça, um perigo. Eu que perguntou qual é o problema de ele está aqui.

-É o nosso território. Temos que saber o que acontece por aqui. –vovô falou aparecendo de repente.

-Oi vô. –ele beijou minha testa e sentou-se ao lado de vovó.

-Por que não paramos discutir e vamos conversar normalmente?- ele sugeriu. –Querida, sente-se, por favor. –Jacob puxou a cadeira e sentei ao seu lado.

-Pode começar. O que conversaram? –papai perguntou.

-Eu e Jake o vimos no corredor. Foi rápido, mas ele percebeu nossa diferença em relação aos outros. Nos reencontramos na última aula antes do almoço. O professor pediu que ele junta-se a mim. No final da aula, enquanto arrumávamos o material, ele perguntou se podia ir comigo ao refeitório e eu disse que não. Depois perguntou quanto de nós haviam aqui, mas eu não respondi e sugeri que conversasse com vocês. Ele aceitou e pronto.

-Não está deixando passar nada? –vovó perguntou.

-Não. Minha memória está ótima. –respondi fria. Ela ignorou minha falta de educação.

-Você o viu depois disso? –vovô perguntou.

-Não.

-E porque não queria nos contar sobre ele? –mamãe falou.

-Eu sabia que papai faria uma confusão com isso. Não a nada o que temer por enquanto.

-Não estou fazendo confusão. –ele disse e eu arqueei a sobrancelha.

-Nessie, achou melhor conhecermos ele. Achar seu ponto fraco. Com certeza, a maior parte do que há na ficha cadastral dele na escola é falso. –Jake falou.

-Por isso eu disse que vocês estavam interessados em conversar com ele. Tio Jasper tem experiência em lidar com vampiros da sua idade. Primeiro, uma conversa amigável. Depois, colocá-lo contra parede. Não será difícil. –completei.

-Essa garota é maligna igual a mãe. –tio Emmett sussurrou. Sorri para ele. O único que consegue ver diversão em momentos como esse.

-Acha que ele é novo? –foi a vez de tio Jasper perguntar.

-É difícil dizer. –franzi a testa. -Parece que ele tem apenas algumas décadas, mas vem a dúvida: como ele pode um autocontrole tão grande ao ponto de interagir com humanos? E ele tem olhos da cor dos nossos. É praticamente impossível que ele possa ter iniciado essa dieta sozinho. Para tia Alice foi mais fácil, porque ela soube desse modo de vida pouco tempo depois de acordar e pôde se adequar a ele. E Brian? Ele não parece ter o dom de prever o futuro, por isso, acredito que ele não está sozinho nessa. –falei mais para mim mesma do que para eles. Tentei raciocinar sobre a situação em questão.

-Podemos chamá-lo para uma visita. –papai pensou alto. Dei de ombros.

-Decidam o que quiserem, vou pro meu quarto. –levantei e sai dali. Não foi tão ruim quanto imaginei que seria.

Tomei um banho e pus uma roupa leve. Liguei o som e coloquei o cd que papai gravara. Deitei na cama, de costas para porta, com o objetivo de dormir. Poucos minutos depois, ela se abriu e braços quentes me abraçaram.

-Está melhor, senhorita estressadinha? –Jacob riu baixo.

-Sim. Acha que fui muito grossa? –perguntei sem me dar ao trabalho de olhá-lo.

-Um pouco. Não deveria ter agido daquela forma. Uma hora ou outra eles iriam saber.

-Eu sei. Só que, não era para ser agora. Deviam ter esperado. Agora todos vão ficar preocupados sem necessidade, sempre alertas caso algo aconteça.

-Não vão precisar se preocupar por muito tempo.

-O que quer dizer com isso? –virei para encará-lo, me apoiando nos cotovelos. -Você vai matá-lo? –perguntei com a voz um oitavo mais alta.

-É o que lobisomens fazem. É pra isso que existo.

-Não, não! –sentei –Você não vai nem ousar fazer isso! Tire essa idéia da cabeça!

-Do que está falando? É minha obrigação.

-Matar quem o ameaça,essa é sua obrigação. E ele não é uma ameaça.

-Minha obrigação é matar os vampiros.

-Você não vai fazer isso. Não vou deixar. Está louco?

-Louco? –ele arqueou a sobrancelha e sentou-se. –Ao contrário. Além de ser minha função, estou protegendo você.

-Nem sabemos quantos deles há aqui. Ele pode te matar!

-Está brincando, não é? –ele me encarou sério. –Não vai me impedir. Assim que puder, acabarei com Brian e tudo voltará ao normal.

-Já disse. Tire. Essa. Idéia. Da. Cabeça. –inspirei profundamente, tentando me controlar.

-Renesmee Carlie. Se pensa que vai me proibir de fazer algo certo, você que está ficando louca.

-Então, Jacob Black, me deixe com minha loucura e trate de morrer bem longe de mim! – o empurrei para fora do meu quarto e bati a porta, trancando-a.

-Nessie! Abra a porta. Vamos conversar. –ele pediu.

-Me deixa em paz. Você tem coisas muito melhores para fazer, como matar um vampiro inocente!

-Você não o conhece! Não pode chamá-lo de inocente! –ele socou a parede. – Você é muito cabeça dura, sabia?

-E você é um louco que não tem amor à vida! –Aumentei o volume do som e deitei novamente.

Demorei para conseguir dormir. Jacob me preocupou ao querer matar Brian. Eu sabia que ele era capaz de matá-lo e poderia contar com a ajuda de meus tios, mas e se algo desse errado? Bastaria uma mordida e eu poderia perdê-lo para sempre. Já senti a dor de não tê-lo por perto durante alguns dias, imagine toda a eternidade. Seria insuportável. Comecei a pensar em como convencê-lo a acabar com essa loucura, mas nenhuma idéia boa o suficiente me veio à cabeça. Com o tempo, acabei adormecendo.

Quando acordei já estava anoitecendo, passei em frente ao quarto de Alec e resolvi dá uma espiada para saber o que ele estava fazendo.

-Entra aí. –ele disse antes mesmo de eu bater na porta.

-Estudando? –perguntei ao ver vários livros espalhados na sua cama.

-Digamos que sim. –ele sorriu

-Está gostando disso, não é? Dessa oportunidade que a vida te deu. –sentei ao seu lado na cama. Ele colocou seus braços ao meu redor

-A oportunidade que você me deu. Estou maravilhado, como uma criançinha que começa a conhecer o mundo em que vive. –sussurrou em meu ouvido. –Obrigado. Vou passar toda a eternidade te agradecendo.

-De nada. –sorri. –Perguntaram por vocês. Deviam ter me avisado que procurariam informações de Brian.

-Alice teve a idéia na hora e se te contássemos, você não concordaria e faria algo para nos impedir.

-Tem razão. O que é isso? –vi álbuns e DVDs em sua mesa. Levantei para olhá-los. Todos envolvendo a mim ou à mamãe. Sorri.

-É isso que eu faço quando você está dormindo. Quase todas as noites, assistimos a um vídeo seu. –ele se aproximou.

-Há tempos eu não os via. –abri um álbum. Eu estava por volta de meus dois anos de nascida.

-Jacob aparece bastante em fotos espontâneas. Não sabia que ele morava com vocês há tanto tempo.

-Não faz muito tempo. Desde que eu nasci, para ser exato. –concentrei minha atenção naquele pequeno álbum cheio de recordações maravilhosas.

-O que ele sente por você é muito forte, não é?

-Ele me ama e eu o amo. Simples assim. –suspirei feliz.

-Você ficou muito brava quando ele disse que mataria Brian.

-Obrigada por me lembrar. –disse com ironia. –Espero que ele tenha mudado de idéia.

-Mantenha a cabeça fria. Ele só quer te proteger.

-Ele faz isso o tempo todo, não só ele, todos. A única preocupação que vocês têm sou eu. Eu corro perigo mesmo que não tenha ninguém por perto. Definitivamente puxei para mamãe. –encarei o teto.

-Um imã para problemas. –ele sorriu. –Que tal caçarmos mais tarde? Para você esquecer um pouco essa loucura.

-Se prometer que não vai deixar nada me acontecer, como, cair um raio na minha cabeça ou eu me perder. –fiz graça da situação.

-Humor sombrio, é? –dei de ombros. –Tudo bem. A gente dá uma volta mais tarde.

-Vou deixar você com seus livros. –dei um beijo em sua bochecha e desci para o térreo.

Passei direto pela sala. Jacob e meus tios assistiam a um jogo, tão concentrados, que pareceram não perceber minha presença. Fui para cozinha preparar um lanche. Abri a geladeira procurando os ingredientes para um sanduíche natural. Ao me virar, Jake me observava sentado no banquinho; seus braços, apoiados no balcão.

-Quer também? –perguntei sem fechar a geladeira. Ele apenas negou com a cabeça. Voltei minha atenção para o fogão e comecei a assar minha carne.

-Parece uma verdadeira humana. Agora come carne, verduras, frutas, legumes, cereais. –ele comentou. –Bela evolução.

-Não é tão ruim como no começo. Mamãe praticamente me obrigava a comer.

-Nessie... –ele começou.

-Jacob, se não for me pedir desculpas pela burrice que falou no quarto, esquece. Eu não quero mais tocar nesse assunto. Está decidido. Você não vai tentar nada contra Brian, até que todos estejam de acordo. E tenha certeza, ninguém aqui está pensando em matá-lo.

-Você não lê a mente deles.

-Muito menos você. Eu os conheço.

-Não mais do que eu. –ele rebateu.

-Está vendo? Por que não aceita o fato de que ele não é um perigo?

-Por que ele é um perigo! Não importa se você acredita ou não nisso. Tudo bem, eu não o conheço, você também não. Mas pela minha experiência e pela de toda sua família, ele é considerado uma ameaça até que se prove o contrário.

-Um réu, sempre é considerado inocente até que se prove o contrário. –enfatizei a palavra. Ele encarou o chão soltando um silvo baixo. Ficamos em silêncio. Após terminar o preparo da carne, montei meu sanduíche, peguei um refrigerante e sentei à mesa. Jacob continuou em seu lugar, imóvel. Segundos depois minhas tias e Jane entram em casa pela porta dos fundos.

-Oi minha linda. –tia Rose me deu um beijinho.

-Como consegue comer isso? –Jane fez uma careta. Sorri.

-Quer um pouco? –ofereci.

-Não obrigada. –ela bagunçou o cabelo de Jake e saiu com tia Rose.

-Não queria causar essa discussão entre vocês. –tia Alice olhou para Jacob e sentou-se a minha frente.

-Sem problemas. Ele já devia está planejando isso desde o momento que o vimos.

-Foi sério dessa vez? –referiu-se à nossa briga.

-Não foi nada. Temos opiniões diferentes em relação ao Brian. Quer dizer, eu sou a única a ter uma opinião diferente. –respondi em pensamento. Nossa discussão por causa desse assunto tão idiota estava me deixando com os nervos à flor da pele.

-Se quiser posso ajudar com isso. –ela sugeriu e Jake nos espiou pelo canto do olho.

-Não será necessário. Me viro sozinha. –levantei e pus meu prato na pia. Resolvi dá uma volta pela cidade. Coloquei uma calça azul escura, bata rosa bebê e sapatilha. Peguei minha bolsa. No corredor, onde ficavam as chaves de todos os carros da casa, peguei a chave da mamãe. Fui até o outro andar, no quarto dos meus avós e bati na porta.

-Pode entrar querida. –vovó estava sentada na poltrona lendo um de seus muitos romances.

-Vou dá um passeio. Não demoro. Qualquer coisa, estou com o celular.

-Tome cuidado.

-Sempre tomo.

-Pode deixar as chaves de Bells. –Jacob apareceu na minha frente.

-Seja menos discreto da próxima vez. Me assustou. –ele concordou e tomou as chaves da minha mão. –Devolva.

-Vamos juntos. Não há necessidade de dois carros.

-Você não vai comigo. Devolva!

-Claro que vou. Por que não? –ele descia a escada, brincando com as chaves.

-Jacob! Está insuportável hoje.

-Digo o mesmo de você. –ele me agarrou pela cintura.

-Me solte!

-Por que não? –ele apertou seu abraço.

-Porque eu não quero que vá comigo. –ele me olhou pasmo e me beijou. Foi intenso. O pedido de desculpas parecia explicito. Olhei em seus olhos.

-Fui idiota. Brigamos por causa de um vampiro que mal conhecemos. Não vai acontecer novamente, ta legal? –fiz bico e concordei levemente. –Ótimo. Vamos passear.

Depois de um tempo, o céu escureceu totalmente. A lua, acompanhada de suas infinitas estrelas, apareceram para deixar a noite ainda mais bonita. À velocidade com que Jacob dirigia, as luzes passavam tão rápidas como um flash. Aos poucos o centro da cidade foi ficando para trás, assim como todo o trânsito turbulento. Seguíamos para o leste. Não sabia para onde estávamos indo, já que ele se recusava a me contar. Passamos com facilidade por um posto policial e a poucos metros dali Jacob parou.

-Vamos ter que seguir a pé a partir daqui. –informou. Desci do carro e fui ao seu encontro. Rapidamente ele me pôs no colo.

-Pensei que iríamos andando.

-Mudei de idéia. É bom correr um pouco. –ele sorriu. Sem está na forma de lobo, Jacob pôs-se a correr. O terreno era íngreme, mas ele não pareceu ter dificuldade em subir. Cerca de meia hora depois, Jake me colocou no chão. Estávamos no topo de uma montanha. A lua, vista de perto, era ainda mais linda. Parecia um grande balão, luminoso e de tirar o fôlego.

-É lindo. –sussurrei ainda maravilhada com sua beleza.

-Vista de perto ela é ainda mais perfeita. –ele envolveu seus braços ao redor da minha cintura. –Perfeita como você. Eu te amo tanto. –ele suspirou. Fiquei de frente para ele e tentei ler sua expressão. Passei levemente meus dedos na sua bochecha, acariciando-a. Subi para testa, que estava enrugada. Algo o incomodava. Ele puxou minha mão de seu rosto e beijou a palma, então começou a distribuir beijos em meu pescoço chegando até minha boca, beijando-me intensamente. Me abraçou apertado, como se quisesse me prender. Voltou ao pescoço, inalando profundamente meu cheiro.

-O que está te incomodando? – me afastei um pouco para que pudesse olhar em seus olhos, querendo saber o que se passava em sua mente, tentando descobrir se deixei algo passar despercebido.

-Estava tudo ótimo, mas veio esse Brian. Para nos atormentar. Não bastava minha preocupação constante com você, agora ela dobrou. Tenho medo de que ele tente algo contra nós.

-Jake, está tudo bem. Não fique com medo. Estamos juntos, se ele tentar algo, vamos vencê-lo. Somos maioria. –sorri tentando reconfortá-lo. –Não vamos deixar que ele nos atrapalhe. –sussurrei, encostando minha testa na sua. Fechei meus olhos. – Feche os olhos. –pedi. -Imagine nós tendo uma vida normal, sem Brian. É assim que sempre foi e sempre será. Eu, você e minha família. –beijei-o calmamente.

Notas finais
Comentários?
Beijos
#LizCullen