Indômitos

3 Uma Half em um funeral


Notas iniciais
Ah céus, e eu estou aqui novamente, enchendo o saco das atualizações. "Quem é Jane?" É a pergunta que ainda me faço quando releio os capítulos. Bem, ela é o otimismo personificado.

Via as pessoas se movimentando ao meu redor. Pessoas. Todas tão falsas. Era realmente necessária a presença delas? O velho já jazia morto, com o caixão fechado, a terra por cima lhe era jogada... Agora, enquanto a angústia tenta crescer em meu peito, pergunto-me: O que importa depois que se está tão morto e desolado que nem amigos com um nível teatral maior conseguem chorar por um fim — pelo o que alguns chegavam a dizer — merecido?

Bom, pode não fazer sentido minha linha de raciocínio, nem a pergunta pode estar politicamente correta, mas é mais esta característica que faz com que este sentimento estonteante, vingativo e, ao mesmo tempo, justiceiro cresça em meu peito.

Não quero ser julgada, então meus sentidos e motivos coloco à mesa... Meu pai era o único que possuía certa sanidade em minha casa, mas também o mais crítico e severo de toda a pequena cidade. Não posso discordar de suas atitudes, o tempo e o lugar onde vivemos não o permitiu ser de outra maneira. Certo, todos temos escolhas, mas entendo que alguém com tanta confiança em sua sanidade não pode fazer as melhores escolhas do mundo, nem ser a pessoa mais esperta. O fato é: meu pai foi um tolo por ter certezas absurdas, certezas corretas demais e, depois de tudo que fui capaz de ver e compreender, para fugir desta época padronizada e severa, agradeço algo a minha mãe, pois é seu resquício de insanidade que jaz em mim, que me mantém livre em minha própria mente e, em breve, em meu próprio mundo.

E em meio aos meus longos pensamentos, percebo o fim de todo este tumulto — creio que de apenas curiosos. Enfim a pior parte de mortes de parentes (no meu caso, que sou a única familiar no local)... os pêsames.

– Sinto muito pelo seu pai, senhorita – diz o barbeiro rechonchudo, Peter – Meus pêsames.

– Não, não sente, é apenas um cliente a menos para o senhor – disse neutra enquanto fechava a casaca que antes pertencia ao meu pai – E devo ressaltar que não estou me casando para querer receber os pêsames de alguém.

Ouvi uma risada marota, mas pensei ser minha imaginação.

– Seu pai deveria ter um filho, pois ele saberia o que fazer, saberia tratar e respeitar os demais, como eu, de suma importância em vidas alheias – disse penteando seu bigode amarelado pelas bebidas consumidas desenfreadamente em todas as manhãs.

Capturei uma grande lufada de ar e observei superficialmente o gramado morto do cemitério. Estranho, não? Corpos deveriam ser bom adubo, portanto, o gramado deveria ser vivo.

– Ser o filho não quer, necessariamente, dizer que este deve ser do sexo masculino – soltei um sorriso de escárnio típico de um chefe de família Kudrow – E devo dizer que sei tratar qualquer um que venha enfrentar-me, meu caro, mas no caso de respeito, devo dizer que quando eu for tão ou mais ébria que o senhor, talvez uma essência da minha facilidade em fingi-lo seja, “respeitosamente”, dirigida ao nobre e cortês Peter Mancowski.

O deboche e descaso ganharam tom em minha resposta, como algo inevitável e automático... Bom, certas indelicadezas – ou, melhor dizendo, verdades — não precisam ser pensadas.

– Ora, sua menina insolente... – ele começou a gritar, mas fui mais rápida procurando devanear em paz naquele lugar.

– Queridos e desconhecidos amigos de meu falecido pai – bradei em voz alta para que as outras vinte e cinco pessoas carrancudas pudessem ter certeza que agora minha fala era direcionada para elas – Peço-lhes, encarecidamente, que dêem-me um tempo de sincera despedida ao meu velho, pois a terra já está colocada e a certeza de vocês confirmada. Agora vão procurar outra morte na cidade vizinha – terminei com um sorriso terno no rosto.

Os miseráveis bem vestidos ficaram surpresos — sem motivos, claro — mas foram se distanciando em meio a resmungos indiscretos e críticas desfavoráveis a uma moça filha de um homem, até então, importante e bajulado por toda cidade.

Finalmente só, observei, como a muito quis, apenas sozinha, apenas respirando novamente/tranquilamente.

Este era aquele momento em que muitos preferiam não ter, pois são nestes lapsos que toda a realidade desaba, as perguntas inaceitáveis para uma vida comum nos invadem, a reflexão se torna quase dolorosa quando nada podes se fazer, mas, o que poucos compreendem, é que são nestes que pode-se conhecer a si próprio, pode-se rumar à outra vida, assim, encontrar sua meta acompanhada de sua motivação e, é agora, que sinto-me imensamente feliz, pois sozinha sou igual, sou normal, sou equivalente, não tenho defeitos e minha opinião existe sem preconceitos. E isto, isto sim, é o que me dá toda a satisfação que uma pessoa procura por sua vida.

Olhei ao redor e pude descrever aquela imagem, da paz, para meu interior.

O dia estava nublado, criando uma intervenção entre o sol e contato não-existente com o solo, deixando a temperatura agradável e aquela emoção que antecede na expectativa que as nuvens deságuem e o cheiro tão natural prevaleça. Ah, a emoção.

Girei mais um pouco e o território do cemitério invadiu minha visão. A grama cansada sob meus pés estendia-se por trezentos metros ao sul e duzentos metros ao norte. Um cemitério demasiado grande para a cidade, mas necessário se for parar e olhar a idade desta população. Com suas lápides gastas, abandonadas, antigas e esquecidas, e quantos outros sinônimos existirem para classificar o descaso que aquela cidade tem com os mortos, vidas passadas as quais cada cidadão continua a repetir no seu cotidiano. No final, aqui estaremos, todos esquecidos. Até meu velho eu esquecerei.

Continuei a girar sobre minhas botas no mesmo local. Passei meus olhos por algumas poucas árvores dispersas pelo local, até parar no túmulo de meu pai, posto ao lado de uma árvore de folhas secas e com uma freira jogada sobre seu local de repouso...

Freira!? Uma freira — um tanto... sexy demais para ser uma — estava deitada e chorando sobre o túmulo de meu pai!? Ora! Paz, onde estás?

E quando a importuna me viu, forçou mais ainda o choro e começou a se arrastar sobre o túmulo.

– Será que a senhorita poderia se humilhar menos, ou, melhor, esperar eu sair, ou, pelo menos, deixar-me terminar meus pensamentos ideológicos que não são nem um pouco ideológicos, mas que teriam um final perfeito se eu não tivesse sido interrompida? – pela primeira vez no dia, demonstrei, me expressei, extravasei, mas o que saiu de mim foi raiva não intencionada, contudo, delirante.

Sorri com isso, contradizendo, ao ver da freira, minhas emoções.

Primeiro ela me olhou confusa, depois ela... Voltou a chorar! E a ditar! Oh, seriedade, onde estás? Ela não deveria sempre estar presente no decorrer de minhas metas? Normalidade não deveria ser padrão? Não quero acrescentar cenas ridículas no meu testemunho pós-morte.

– Ando angustiada demais! – bradou em meio ao choro, dramatizando sua cena –Meu amigo! Palavrinha antiga essa... Angústia! – ela agora erguia uma das mãos aos céus, enquanto a outra batia aberta na terra sobre o túmulo — Duas décadas! DUAS décadas de convívio cotidiano, mas ando... ando! Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um pesooo! – minha boca estava aberta, ao mesmo tempo em que ela chorava copiosamente, sem lágrimas, deixando de lado o resto de sua citação.

– “Não me venha com essa história de que atraiçoamos todos os nossos ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.” E eu estava sendo, até outros sentimentos pedirem passagem! – terminei e surpreendi a mim mesma.

Bem... Deveria ser um pensamento, mas acabou saindo e, no momento, percebi que a freira cometeu um erro. Com falsa expressão de raiva e homicida, continuei:

– Pelo visto a freira energúmeno fez uma péssima escolha de dramatização esquecendo-se do final altamente revolucionário e desleixado do conteúdo citado. Além de ser fora do drama de Abreu.

A freira — a qual parecia sensivelmente jovem, com cabelos lisos e corte reto acima do pescoço, além de serem tão loiros que quase chegavam ao branco — levantou-se e se recompôs instantaneamente.

– Oras, nunca ouviu falar de dramaturgia exagerada? Abreu era um, dos muitos, que apoiavam. É uma forma muito eficiente de expressar-se – falou enquanto ajeitava sua bata de uma forma mais... decente, pois de alguma maneira ela deixava suas pernas, com meia-calça arrastão branca, expostas quando deitada.

– Mas claro que já. Mas quem me diria que freiras poderiam usufruir de tal ato, tão pecaminoso, para declarar para a filha da mulher viúva do homem, cujo qual, a digníssima seria amante – deduzi e divertia-me ver a cara da freira desvirtuada, a minha frente, tentando entender ou relacionar o que eu disse.

Aproximei-me um pouco ficando a um metro dela, enquanto sua expressão mudava para indignada.

– Tudo bem, eu exagerei. Normalmente convenço homens, e achei melhor inovar com mulheres – falou a madre, mas percebendo o que falou continuou – Não é bem assim! Eu convenço homens a me darem seu dinheiro ou algo que eu queira, mas não deste jeito que você pensa. Homens são muito enganáveis. Só é preciso um toque de inocência – apontou para sua roupa – carisma e persuasão... Ah, mas você entendeu, certo? E eu não sou amante de ninguém!

Ela gesticulava enquanto falava e, por hora, achei a carisma que ela falou, mas seu carisma natural, nada forçado. E, foi assim, que a pequena chamou minha atenção. Bom, eu não podia fazer tudo sozinha, pois tinha a teoria, ainda não havia exercido meu conhecimento na prática, mas antes precisava ouvi-la. Depois de tudo, seria absurdo se não tivesse um propósito.

– Sim, entendi. Mas pularemos esta fase em que você se complica ao acrescentar histórias e mais histórias tentando me enganar, e você irá direto ao ponto. O que pretendia com o teatro? Deixando claro que meu pai não importa – disse sentando-me escorada na árvore enquanto ela acompanhava meu movimento, sentando-se à minha frente.

– Perfeito. Se você quer ouvir, melhor para mim. Era tudo que precisava – respirou fundo em contentamento, seu rosto pequeno se abriu em um sorriso e perguntei-me se seria apenas por ter conseguido uma chance de falar abertamente – Não vou mentir, pensei em várias histórias para lhe convencer, mas desta vez, pela primeira vez, a dificuldade atingiu-me de uma maneira preocupante, pois minha vida cresceu graças às mentiras e fantasias criadas por minha imaginação avançada demais para esta época.

Neste momento, vi ressentimento em seu olhar que, por míseros segundos, perdeu o foco e seu sorriso falhou em um dos cantos dos lábios e imaginei a mente de que falou, com ideias além do estado, além desta vida.

– Enfim – seu sorriso voltou e ela ajeitou-se melhor, colocando as pernas de lado e apoiando o peso no corpo com o braço oposto, ao mesmo tempo em que gesticulava a mão desocupada incansavelmente – é boa a sensação de conversar com alguém. E vou parar de enrolar antes que você desista. Depois, quando você se apaixonar por mim e aceitar, terei tempo de planejar muitos assuntos – com esta até eu ri, desde quando a Kudrow durona ria durante negócios, pois era assim que eu sempre via: negócios. Mesmo a pequena me encantando – Resumindo...

– Um pouco tarde para isto... – resmunguei divertida.

– Se você ouvir quieta vai saber rapidinho! – bronqueou e rimos juntas, mas logo parei. Eram negócios – Sei que você quer sair da cidade e, ficando à par da situação do seu pai, tentei montar algo sobre a circunstância para pedir uma carona, apoio e ajuda para fugir. Antes de sua resposta, quero dizer que posso lhe retribuir, posso procurar lhe ajudar também, talvez trabalhar de verdade, qualquer coisa para sair deste restrito mundo, pois, cada dia, sou presa com mais força, e não tenho recursos e não confio em homens para ajudar-me.

A freira agora parecia ansiosa, era possível sentir seu temor e isso não deveria me influenciar, mas aconteceu. O dever que me faltou quando minha família precisou, veio à superfície em socorro da Half (por ela ser pequena, em um exagero, uma metade de alguém em altura normal) a minha frente.

– Não quero nada em troca – no momento em que falei, outro sorriso sincero veio-lhe ao rosto juvenil – Realmente precisaria de alguém comigo. Tenho síndrome futuresca também, este não é meu tempo. Acredito precisar de ajuda, e pode ser a sua, mas ressalto que minha vida não seguirá o padrão feminino desta época que, talvez, você espere. Mas pode seguir, se assim quiser, até onde for necessário para conseguir o que quer.

Ultrapassando tudo o que eu esperava, Half me abraçou e, para maior surpresa, movi meus braços de acordo com o que seu entusiasmo mandava. E, assim, abri um sorriso que eu guardava apenas para uma pessoa, mas, desta vez, seria dividido. Afinal, eu nunca acreditei que poderia viver sempre camuflada e agora perguntava-me se eu não estaria fugindo de meu objetivo, mas desta vez eu não evitaria, eu precisava de alguém para cuidar.

– A propósito – me lascou um beijo no rosto e soltou-me – meu nome é Jane.

– Algo contra Half?

– Não... – falou desconfiada, raciocinou e pensei que fosse me bater naquela hora – Eu não sou metade de nada. Sou até muito alta. Tenho um e cinquenta e nove. – falou estapeando o gramado de modo orgulhoso e eu ri – Os próximos tapas são seus mocinha. Onde foi parar o respeito para com as freiras, meus santos!

Ela ajoelhou olhando para o céu em uma prece escandalizada de filmes mudos. E eu ainda perguntava-me sobre aquela seriedade de meu testemunho. Talvez fosse uma péssima ideia fazer um, a freira me daria muito trabalho para conseguir esconder todos estes furos.

– Perguntei a mesma coisa sobre minha paz assim que você apareceu Half. – ela olhou para mim interrogativa e inocente – Ah, mais uma coisa. Você é realmente freira?

Ela riu sem graça e respondeu:

– Sim, tenho até meu certificado, mas digamos que foi mais um acidente. Já disse que homens não são confiáveis? Então, os pais são piores. Mas, sim. Sou freira formada, fumante, amante de gim, efêmera, persuasiva, delatora e mentirosa com quem não amo. Viu, por ser freira, amo a Deus, então meus créditos com Ele estão ótimos. E amo você, então meus créditos com você estão intactos – comemorou – Ou seja, é muita sorte sua ter me encontrado.

– Ei, você que, praticamente, me seguiu e acabou de mentir, você não pode amar quem não conhece e, a propósito, meu nome é Moran.

– Sei disso, de ambas as informações, mas sei que vou te amar, só estou adiantando. Então larga este drama, porque nunca disse que te amo diretamente. Você é muito convencida.

Fiz minha melhor cara de indignação, mas comecei a rir. Ela disse que eu era a dramática dali?

– Nossa! – exclamou – Você devia rir mais. Cheguei a ficar com medo de aproximar-me de você. Mas agora, você lembra-me irmãs mais velhas. Que torne-se verdade com o passar do tempo.

A última parte foi sussurrada e isso me fez pensar. Com o passar do tempo? Ela ficaria comigo? Ou melhor, era uma boa ideia?

Eu precisava de ajuda, não de responsabilidades, afinal, eu deveria abandonar os supostos acompanhantes em algum ponto de nossa viagem.

Depois disso. Eu nada mais disse.

Deitei parcialmente no gramado e apoiei minha cabeça debaixo de meus braços, ficando, assim, de barriga para cima.

Half deitou sua cabeça em minha barriga e ali ficamos, observando o sereno que, agora, caía das nuvens, sob a proteção de minha casaca e da velha árvore. Naquele local, tudo estava bem. O cheiro tão característico e inebriante reinava, a temperatura permitia-me uma movimentação agradável, o vento que vinha do oeste era ameno e seus gemidos formavam o som da calmaria... da paz. Naquele momento, a presença de Jane completava a paisagem e, por um breve deslize, permiti-me ficar contente pela possibilidade dela sempre permanecer comigo, sempre ter alguém com quem me preocupar, evitando que o individualismo me consuma. Pode estar fantasiando, é claro, ninguém merece confiança, não em sua plenitude pelo menos, mas Jane me parecia familiar, de algum modo do qual não conseguia recordar-me. E, assim, admito: Eu fiquei feliz, pois eu precisava de outro alguém para me preocupar, não apenas de...

– O que você pretende – Jane interrompeu.

Olhei para cima e concentrei-me nas folhas secas.

– Nada que deveria ser permitido para alguém como eu – por um momento, hesitei – Já deve ter ouvido falar de justiceiros. Principalmente dos encontrados torturados e mortos. Enfim, acho que uma mulher poderia fazer um trabalho melhor do que estes jocosos e orgulhosos que existem aos montes.

– Mas tem um motivo específico, certo?

– Na verdade, não – admiti – Talvez eu realmente tenha uma ideologia. A ideologia de fazer o que quero, a ideologia da justiça e da vontade própria. – suspirei cansada de meus pensamentos – Às vezes, vou contra meus próprios ideais e isso me faz pensar mais ainda. Dizemos sempre que pensar nos faz ter certezas, mas quanto tempo isto levaria? Minha sanidade já está curta. Mas não posso desistir nem me render a este mundo, a esta sociedade do politicamente correto. Estamos nos anos setenta e através desta continuidade, que estou lhe propondo, que pretendo descobrir, pois, se penso agora, tenho medo de querer desistir. Mesmo não o sentindo, talvez, em algum momento, ele venha importunar-me... O fracasso da não tentativa...

Jane calou-se. E eu estranhei. Esperava uma crítica ou algo parecido. Mas ela pegou minha mão e levou aos seus cabelos curtos e loiros, lá comecei um leve carinho, e, a cena, realmente era de duas irmãs em um momento calmo em tardes de verão. Tirando o detalhe do cemitério, claro.

– Posso ajudar-lhe a não pensar quando você quiser Mor. – dessa eu ri, mas fiquei satisfeita. Preferia Moran, mas tinha minhas exceções, na verdade, apenas uma.

E ali ficamos, conversando sobre nossas vidas e, em uma tarde, me apaixonei por aquela Half e a queria comigo, esta responsabilidade eu gostaria de carregar.

Sem falar à Jane, declarei-a minha irmã. E, disso, eu sentira falta. Quando eu voltasse, se um dia voltasse, eu teria um motivo. Agora tenho outra vida.

Como a muito não fazia, fiquei com um sorriso em meu rosto, enquanto Half falava de seu percurso, de suas vontades e, em algum momento, eu também comecei a falar, sem arrepender-me. Falei sobre Tom, falei sobre meu pai e omiti sobre minha mãe. Assim como Jane omitiu algumas coisas, mas eu saberia e ela também.

[...]

Ao anoitecer levei Jane para minha estalagem e lhe emprestei uma roupa. É, tínhamos um problema:

– Vai ter que me ajudar a fugir do convento – Jane falou normalmente. Arregalei os olhos.

– O que!? – minha voz saiu fina e Jane riu nervosa.

– Bem, não posso abdicar, sabe. Tenho que fugir. Mas olhe o lado bom – me abraçou – Se eu fugir, poderei ficar com o título de freira e isso é muito legal, todo mundo respeita freiras. Ah, e não se pode bater em freiras, nem gritar com elas. Mas temos que invadir e pegar minhas coisas...

– Sou uma exceção! – aumentei minha voz – Está maluca? Ser uma perseguida pela igreja? É mais perigoso do que voltar a Roma e pedir para entrar em um embate corpo-a-corpo com um leão e sem vestimentas!

– Nossa, você está histérica agora – fez pouco caso e quase bati na testa debochada dela – Sou um freira nova, não faz nem um ano direito que entrei nisso... Além daquele padre que fica tentado desvirtuar-me...

– Você não precisa de ajuda para isto, você já é desvirtuada – falei enquanto marchava para a cama, claro que ajudaria a pequena – Mas se tem qualquer homem se engraçando para cima de você, este merece sofrer, Half.

Ela pareceu ficar contente com o que eu disse e pulou em minha cama.

– Ótimo, sei alguns truques que fariam este idiota sofrer e, ainda, nos renderiam boas risadas.

Gargalhou e eu ria de sua empolgação. Seria sempre fácil convencer-me de alguma coisa? Para Jane, acho que sim.

– Perfeito, pois preciso praticar um pouco minha atuação e você, diminua este drama Half – continuei na brincadeira – Afinal, quantos anos têm?

Dramatizou novamente e colocou uma mão sobre sua testa, tentando evidenciar dor e angústia.

– DUAS décadas. DUAS DÉCADAS de convívio cotidiano.

– E ando... ANDO. E esta sede! E este peso! – continuei e acabamos o dia em meio à gargalhadas.

Bom, eu estava certa. Era disso que eu precisava.

Mas para quem achava que a normalidade iria reivindicar seu lugar de direito em minha vida — vulgo EU — estava enganado. Só pelo plano da Half, eu sabia que o padrão sairia correndo sem olhar para trás. E talvez eu gostasse disso. Afinal de contas, o que é um pouco de diferenciação de diversão em uma vida que segue tão certamente para a morte e o esquecimento?

E sim, ando e ando, em direção a meu drama e a minha vida e a alguns desvios convenientes por meu caminho.

Notas finais
Como sempre, capítulo para uma amiga cruel, Jane foi inspirada na sua insanidade, senhorita. Well, well, sei que a maioria prefere um romance - até eu em certos dias - e minha escrita foge muito disso, mas sou insistente (não por vontade própria). Obg Aryaah Niss, sua pessoa irritantemente pequena :3