Indômitos
2 O poder na mão de sapos
Notas iniciais
– Como isso é possível!? Procure novamente Senhor Deep. É um engano. Ele existe! – falei exasperada.
O xerife Deep olhou para mim pesaroso, ninguém naquela cidade de conformados e submissos tinha coragem de subir-lhe o tom de voz. Pessoas idiotas! Como se queixavam de tantos crimes e malfeitores das redondezas se nem ao menos por seu orgulho lutavam?
– Abaixe o tom comigo, senhorita. Caso lembre-me bem, não sou apenas o xerife, mas o homem que compra todas as dívidas da cidade, inclusive de seu pai. – falou tentando ser superior. Não, estava mesmo é tentando me intimidar, mas ele já devia saber que eu, a forte dos Kudrow’s, não me deixaria abalar.
– Olhe bem como o senhor fala comigo, caro Senhor Deep, pois caso não me engane, as dívidas de meu pai foram pagas antes dele levar um tiro entre os olhos e, se recordo-me bem, o senhor ainda pegou os sete melhores cavalos da região, os quais foram vendidos para os malfeitores que se escondem em Tyler*. – Falei com toda ousadia que uma pessoa certa poderia ter.
O xerife arregalou os olhos e rapidamente tentou recompor sua alta posição ajeitando sua estrela amassada no casaco podre que usava. A cena seria cômica, por sua cara de surpresa, se não fosse minha fatídica situação.
– Preste atenção mocinha – baixou seu tom de voz até chegar a um sussurro – esta sua impertinência a levará a morte, assim como a estupidez de seu pai o levou ao merecido destino. Destino ao qual você merece também. Então não meta-se em negócios para homens – tentou soar ameaçador.
Engolindo minha raiva e retruquei:
– Senhor xerife – também abaixei meu tom, cuspindo as palavras em sua cara – sugiro que não tente me ameaçar, pois, nesta arte, a “estupidez” de meu pai o tornou não só ousado ao ameaçar alguém, mas deu-lhe atitude para cumprir suas promessas e não voltar atrás como um cãozinho subordinado da cidade grande. Então sugiro que deva medir suas palavras ao pronunciá-las contra mim, pois se meu pai deixou algo útil, foram suas atitudes através de terceiros e, claro, provas contra prováveis futuros inimigos. E, lamento informar senhor, mas seu nome está na lista.
– Ora sua... – começou a falar com raiva e incredulidade transbordando de sua feição de sapo esquecido no deserto.
– Shiii... – ditei como se falasse a uma criança pequena – deixemos este assunto de quem dá mais medo em quem para depois. Agora voltaremos às informações e, mais tarde, falaremos de negócios. Agora diga-me, meu caro, quem é, exatamente, Sir Tom Trosllew?
O xerife calou-se por alguns segundos, como se para me fazer desistir de minha paciência e dá-lo um motivo para matar-me por justa causa, mas não daria este gostinho aquele corrupto cidadão, ele era apenas mais um hipócrita como todos os viventes daquela região, minha vida seria gasta com alguém de mais importância.
Ajeitou-se atrás da mesa e continuou:
– Já lhe disse senhorita – voltou a falar como se aquilo usasse como combustível seu orgulho – Sir Tom Trosllew não existe em nenhum documento, não possui registros neste nome, nenhuma posse ou conta em bancos, nenhum crime, e, nem mesmo, o título “Sir” ele deveria ter – deu um sorriso ignorante – parece que a jovem tão esperta e cheia de informantes foi enganada. Que irônico, parece ter sim herdado a estupidez de seu pai.
Olhei ameaçadoramente em seus olhos e respondi com falsa calma.
– Ninguém pode julgar corretamente sempre, xerife. Todos, em algum momento, errarão no ato ou subestimarão alguém a quem julgaram ingênuo. Digo aqui que meu pai não será o último – falei como quem não quer nada – Agora, voltando ao assunto principal, o que o senhor poderia fazer com as informações dadas sobre Trosllew?
Ele bufou entediado e impaciente.
– Já disse que nada posso fazer. Primeiro que não me lembro de ver seu pai a caminhar com o homem jovem de características marcadas, do qual a senhorita falou-me.
– Ele permaneceu em nossa fazenda por seis meses. Quatro destes sugeriu estar doente, mas recusava médicos com desculpas estúpidas de criança assustada que tem medo de agulha. Mas enfim... – abanei a mão ultrajada com meu próprio deslize de confiar tanto no julgamento de meu velho – ele passou dois meses a serviço de meu pai na fazenda, cuidando dos cavalos, criação de alguns animais e venda da plantação dos demais alimentos.
– Poucas informações – falou já cansado do assunto – ou o homem os enganou perfeitamente ou ele simplesmente não existe.
– Ele existe! – bati na mesa – Não ouse chamar minha família de louca. Os próprios trabalhadores das terras de meu pai confirmam.
– Manipulados – um sorriso de vitória começava a surgir em seus lábios, só então percebi que o velho miserável estava conseguindo seu contenta.
Logo me recompus.
– Assim como o senhor, meu caro.
Na verdade, assim como todos daquela miserável cidade. Todos manipulados por uma única pessoa, a pessoa dona da alma dos carrascos e dos descerebrados de seus seguidores com mania de grandeza. A pessoa? Bem, ninguém conhecia. O covarde sabe que se desse as caras alguém que pensasse um mínimo, não hesitaria em acerta-lhe quantos tiros pudesse naquela carcaça vazia de compaixão. Pois se há um motivo para o Condado de Smith, assim como todo o Texas e parte do Kansas, serem tão manipulados e com tanta incidência de crimes mal punidos, o culpado não passa deste oculto ditador. E, ao contrário do que dizem os xerifes de tantas cidades, seria falso otimismo acreditar que o matando apenas, tudo acabaria. Claro que não, toda grande mente maléfica teria um sucessor com o mesmo teor de maldade.
Por isso e outros tantos motivos, começarei pelos menores, terei a vingança pelo orgulho dos Kudrows, e chegarei ao meu prêmio, o Titânio, como já ouvi alguns justiceiros o chamarem.
O xerife apenas olhou-me, como se assim pudesse fazer a pólvora sair de seus olhos e atacar-me de forma cruel. Como eu sempre falo, mulher burra é só aquela que nasceu homem.
– Aos negócios, então, senhorita Kudrow – disse por fim, fugindo do assunto que lhe era verdade.
– Aos negócios – repeti com indiferença – Irei sair para resolver todos os assuntos pendentes de meu pai. Talvez demore meses, ainda não sei a dimensão de problemas a serem resolvidos, mas para sair da cidade, precisarei do dinheiro dos cavalos imediatamente.
– Primeiro senhorita – falou com os tolos termos que eu já vinha esperando – quem deve tratar dos negócios de família, é sua mãe...
– Não me venha com este papo patético – interrompi – pois o senhor bem sabe que minha mãe não conseguiria soletrar a palavra c-a-v-a-l-o. Sandice comprovada através dos melhores médicos, a vida de minha mãe girou através de seus filhos, tendo um morto quando ainda jovem e agora o marido de forma que foi feito parecer apenas parte do cotidiano, então não venha jogar tantas injúrias para cima de mim senhor, pois fui aconselhada desde muito nova para substituir o falecido irmão mais velho – quando vi que o velho iria protestar, continuei – E, se o senhor insistir nesta tola discussão, mostrar-lhe-ei os documentos assinados por meu pai, em concordância com tudo que digo.
Antes que o velho questionasse, tirei os papeis envelhecidos de minha bolsa de lona e joguei-os na mesa.
Dei alguns minutos enquanto o xerife analisava os documentos falsificados, balançando a cabeça como se não acreditasse. Pois também não era de me surpreender sua reação, não era comum uma mulher tratar de negócios pendentes, mas, apesar dos documentos falsos, eu realmente sempre fui instruída e, o que sei de resto, aprendi seguindo meu pai, escondendo-me em seu carro, até mesmo chegava à anotar suas barganhas, além de seguir sempre de perto os conflitos que uma pequena cidade é capaz de gerar. Ainda me é estranho como meu pai foi enganado com tanta facilidade.
– Muito bem – falou devolvendo os papeis a mim – lhe pagarei como é do desejo de seu falecido pai. Os cavalos estão comigo, portanto o preço é meu, 500 dólares, lhe pag...
– Pare agora mesmo com isso – tão comum ficou sendo, eu interrompi – Lhe darei o meu preço xerife. 500 dólares não pagam nem o trabalho gasto para com eles, o preço por cavalos de raça é bem mais cheio. Os setes cavalos por 4.500 dólares e com a informação que continua sendo um preço baixo, relacionando a qualidade dos meus cavalos com os existentes pela região.
– Você enlouqueceu? – perguntou incrédulo, mas o próprio não sabia como negociar – Os cavalos estão comigo, você deverá aceitar o meu preço se quiser fazer negócio. – finalizou convicto de suas palavras.
– Ora xerife, se queria mesmo seu preço deveria ter tirado os Valiosos da cidade e, não, os deixado presas tão fáceis para uma negociante nada ingênua – falei no meu usual tom neutro.
– Sua miserável... – falou e eu apenas esperei, ele iria ceder e eu, oras, precisava do dinheiro — Pagar-te-ei, então, 4.000 mais o pônei que queria antes.
– Não, senhor. Vender-lhe-ei o pônei por 100 dólares, em nome de nossa camaradagem – sorri irônica para o velho sapo que parecia que iria explodir tamanha raiva – e quanto aos cavalos, faço por 4.450. O que acha xerife? O melhor negócio para um homem que vai ganhar muito mais vendendo para a cidade sede, Tyler.
Ele me olhou, até finalmente confirmar que eu tinha, sim, informantes. O velho mal sabia, mas era mais fácil enganá-lo do que uma criança na seca.
– Farei o negócio – cuspiu as palavras – Quero os cavalos de volta até o entardecer – falou enquanto de sua gaveta recolhia o dinheiro – Não se esqueça do pônei.
– Jamais xerife. Acho que mereço um voto de confiança não acha? – disse enquanto, de sua mão, pegava o dinheiro.
– Não. Você é pior que seu pai garota.
– Sim. Tento esconder minha estupidez – ironizei.
– Agora se me permite senhorita, tenho que acompanhar o enforcamento dos malfeitores entregues ontem pela manhã, na praça principal – se pronunciou ao levantar-se, sugestivamente, de sua cadeira – E, só para deixá-la informada, os crimes deles são de verdade e, na lista de criminosos, um homem desconhecido por todos e, por ter matado apenas um homem, não entra nos requisitos de grandes procurados. Acredite senhorita, nem recompensa alguém irá oferecer. – provocou-me antes que eu saísse.
– Não precisarei xerife. Não precisarei – sussurrei apenas para mim enquanto saía da xexelenta delegacia.
[...]
– Klaus! – chamei um dos empregados da fazenda que estava indo para a praça.
– Sim senhorita? – o homem alto, forte, de pele queimada do sol e careca perguntou.
– Lembra-se dos cavalos? – ele assentiu – Quero que leve os mais desqualificados para o estábulo do xerife, juntamente com o pônei. Ele já pagou. Os outros sete, quero que você entregue aos compradores de Tyler.
– Sim senhorita. Algo mais?
– Pegue o envelope com eles e entregue diretamente a mim, entendeu? – Klaus assentiu novamente. Nele eu sabia que podia depositar minha confiança neste momento – Passarei o resto do dia, e também a noite, na funerária. Pode levar ao entardecer para lá.
– Tudo bem – e se retirou.
Eu sabia muito bem quem eram os clientes do xerife. Proprietários corruptos e exploradores de trabalho familiar das redondezas. Não era de meu feitio vender os melhores cavalos para as piores pessoas, por isso, roubei os cavalos – com a ajuda de Klaus – e separei os mais velhos e descuidados que pude encontrar. Quanto aos bem tratados de minha fazenda, vendi ao valor de um quilo de grãos para trabalhadores miseráveis sem meios de transporte.
Quanto ao xerife, eu sabia que ele me caçaria, mas, até lá, também tinha conhecimento que, o próprio, não realizava suas vendas pessoalmente. Os compradores receberiam suas encomendas durante a noite e não notariam imediatamente. Em minha cabeça, eu ainda tinha cinco dias na cidade, tempo suficiente para resolver tudo que precisava de minha assinatura.
Cuidaria para que o trabalho na fazenda continuasse a ser exercido sem meu pai, visitaria pela última vez uma pessoa e encerraria o funeral no dia seguinte.
Mas nisso um problema havia surgido: eu não havia conseguido informações sobre Tom Trosllew.
Entretanto, não seria isso a me parar. Procuraria por qualquer detalhe que o cretino tenha deixado para trás, pois uma hora algo eu acharia. Ninguém tem a capacidade de sumir do nada. Além do mais, sei que ele não sairia do estado, não com tantos maiores conflitos ocorrendo externamente. A hora do desgraçado chegaria e seria eu a apertar o gatilho tão friamente quanto ele pode ser ao matar meu pai. Até lá, eu tinha um caminho ainda a trilhar. O que não me faltava eram planos, mas de uma coisa eu tinha certeza: O prêmio por mim — Moran Kudrow — cobiçado, seria adquirido.
[...]
O relógio marcava onze horas da noite quando Klaus bateu na porta do pequeno cômodo onde me encontrava.
– Entregou os cavalos? – foi minha primeira pergunta assim que abri a porta e me dirigi para o caixão de meu pai, fechando-o.
– Sim senhorita. Todos foram entregues. – disse referindo-se aos do xerife – E também o testamento de seu pai foi lido no cartório da cidade.
Klaus me olhou, ainda parado na porta, e me estendeu um envelope grosso e amarelo com os dizeres “Moran” escrito em letras negras.
– Isso estava no primeiro testamento. Senhor Charles deixou especificamente para você.
– Então a troca foi bem sucedida? – perguntei retirando o pacote de sua mão e jogando-o em minha cama improvisada no chão.
– Sim senhorita. E sua estadia já está programada para amanhã, na estalagem de Miles.
Olhei novamente para o caixão fechado e, mais uma vez, em tanto tempo, deixei-me vagar por meio de minha miscigenação mental. A única herança que não desejava, e que fora deixada por meu velho.
Sentimentos se permutavam dentro de minha cabeça, e era tudo o que eu odiava... permutar. Por que ele foi tão tolo? Por que sempre que me dava liberdade, tirava-a de imediato? Tudo parecia tão controverso, que me questionava até mesmo pela organização de minhas perguntas.
– Obrigada por tudo Klaus – falei grata por sua fidelidade.
Ele apenas reproduziu um discreto aceno de cabeça. E pude ver que sua sinceridade era tão honrosa quanto sua cumplicidade.
– Como está minha mãe? – perguntei impedindo que ele saísse do recinto.
– Como sempre, senhorita. – sussurrou tristemente – Sem vida, se me permite o termo.
– Sim, sim. Nem o poderia negar – sorri melancólica – Mais uma vez, obrigada por seus serviços.
E saiu sem se despedir.
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