Indômitos

4 Invasão e desordem


– Rápido Jane! – sussurrei exasperada – Cuidado com minha cabeça!

Quase gritei quando ela enfiou aquele projeto de salto na minha boca.

– Diga-me uma coisa... Para que precisa de salto se você é uma freira!?

– Ah, é uma longa história, mas vou lhe contar. Quando entrei para o convento precisava de... – começou a contar como se estivéssemos em uma tarde agradável e em uma conversa agradável sobre grifes. O que, obviamente, não era o caso, já que eu estava por baixo enquanto ela, literalmente, me esmagava a cara, pisando na única pessoa disposta a suportá-la naquela situação insana.

– Cala a boca! Foi retórica a pergunta, não quero saber isso agora! – falando isso empurrei seu pé, que estava em minha mão, fazendo-a atravessar de supetão a grade de dois metros e meio que circundava a igreja e o convento.

– Aii! – guinchou cuspindo a grama seca de sua boca – Não dava para ser mais cuidadosa, não é? Sou delicada, não uma semi-brutamontes feito você. E ainda estou de vestido! Sabe como é difícil parecer elegante e charmosa em cada passo que dou usando vestido? Não é para qualquer uma não...

– Chega de falar! – mandei – Parei de ouvir depois do “ai”. Depois você me explica isso também. – falei de forma indiferente.

– Se comporte Dona Mor, já que eu quem estou aqui e você vai precisar da minha ajuda...

Enquanto ela falava segurei firmemente em uma barra, peguei impulso e arremessei meu corpo contra a grade, usando os braços e me girando rapidamente, pousei ao lado de Jane, que ainda falava.

– Primeiro Half – contei nos dedos – Você quem precisa da minha ajuda. Segundo – levantei outro dedo – Estou cometendo um crime contra a Igreja. Terceiro – mais um dedo – Essas pessoinhas, que habitam estes lugares, adoram acusar outras pessoinha, como nós, de heresia, ou seja, estou me arriscando muito por você, já que não quero ser procurada pela polícia enquanto ainda não resolvo meus problemas aqui na cidade. E quarto – mais um – A não ser que você queira se passar por meretriz para estes monges, padres e freiras lésbicas, vossa Rainha da terra halfing, vai precisar da “Dona Mor” aqui! – terminei batendo com os quatro dedos em sua nuca.

– Ai Mor – reclamou acariciando a nuca – Você não seria nada sem meu otimismo. Não enfoca essa sua cabecinha linda não. Veja como um pouco de diversão e, sem mim, isso aqui estaria mais para um filme de terror.

A palhaça ainda tinha coragem de fazer chacota com minha pessoa.

Suspirei e olhei rendida para ela.

– Tudo bem. Se estamos roubando uma igreja, que nos queimemos logo. – Jane abriu um sorriso digno de alguém sendo possuído e me puxou pelo braço, levando-nos em direção, ao que eu julgava serem os dormitórios.

– Não enfada Mor! Não estamos roubando. Só passei para pegar minhas coisas. – nos escondemos atrás de uma parede lateral enquanto saíam três freiras do dormitório. Havia uma missa marcada para aquele horário, então isso facilitaria nossa entrada.

O céu já estava escurecendo. Eram por volta das sete horas, portanto, todo cuidado era necessário, já que era estritamente proibida a invasão de lugares sagrados – mesmo que eu não visse nada de sagrado naqueles banheiros – e algumas igrejas eram severas ao ponto de julgar as vestimentas trajadas por uma moça e, no meu caso, não seria muito agradável uma entrada forçada a catequização.

– Então porque você não entrou pela porta da frente?

– Pelo fato da minha não-vontade de permanecer aqui, já que devem ter me dado como desaparecida, sendo assim, eu seria praticamente presa neste inferno – falava enquanto esperávamos as freiras pararem de conversar e seguir para a igreja.

– Inferno? – perguntei receosa.

Jane riu sem humor e continuou:

– Você não sabe como é viver aqui Mor... Algumas freiras são obrigadas a fazer coisas grotescas – fiquei atenta em suas palavras amarguradas.

– Mas é uma igreja! O único lugar que pensei ser neutro em relação à justiça! – falei indignada e quase não crendo nas imagens que a palavra “grotesco” fez surgir em minha mente.

– O homem faz muitas crueldades em nome de Deus – falou olhando em meus olhos – Algumas aqui são tratadas como meretrizes que recebem um lar em troca. Muitas preferem esta vida por desconhecer outra.

– Jane?... Já tentaram fazer alguma coisa com você? – fechei meu punho e aguardei a temida resposta.

Seus olhos encheram-se de lágrimas e pensei em pedi-la para esquecer tudo isso, mas eu precisava saber.

– Jane... Eu preciso saber disso – coloquei uma mão em seu rosto.

– Bem, — desviou seu olhar – o padre tentou uma vez quando fui questioná-lo sobre o assunto – uma lágrima correu por seu rosto – Foi quando fugi. Ele disse que deveríamos pagar o amor de Deus de alguma maneira.

Abracei-a com toda comoção e ira que sentia naquele momento.

– Eu tenho esperanças, Mor, de que outros lugares sejam melhores – falava em meio ao seu choro silencioso – Sabe o pior? – soluçou – Meu pai tinha consciência de tudo quando me largou aqui. Tudo por eu ser uma bastarda...

Ficamos daquele jeito por mais cinco minutos. Eu estava com raiva e isso aumentou minha motivação junto à necessidade de adentrar aquele lugar. E com este tempo observei que mais duas freiras saíram do dormitório.

– Temos que ir agora – falei segura.

Jane olhou ao redor e concordou comigo.

– Arrume seu vestido – ordenei.

Jane usava um vestido que ia até os calcanhares da cor verde musgo, justo no busto e solto na parte da saia, seus sapatos tinham um salto considerável. Eu vestia minha casaca preta de sempre, calça boca de sino cinza e minhas costumeiras botas pretas.

Sai de trás da parede e me dirigi à primeira das janelas que estava aberta. Jane já havia indicado que era arriscado entrar pela porta, já que levava a uma ampla sala que, normalmente, continha alguns religiosos ditando suas preces, mesmo em horário de missa.

Pulei a janela e adentrei em um quarto pequeno com duas camas e um armário, próximo a porta, de quatro divisórias.

– O que tem no segundo e terceiro andar? — Perguntei a Jane que entrou logo depois de mim.

– Segundo andar consiste em mais quartos, dezesseis se não me engano. Já o terceiro andar é uma ala masculina, para os mais importantes, ou “Ala da diversão” como já ouvi alguns chamarem.

Saímos silenciosamente no corredor escuro e seguimos para um quarto com o número 08 incrustado na porta.

Enquanto Jane entrava dei uma última olhada no corredor e senti um olhar curioso demais em minha direção.

Empurrei Jane e sussurrei um “não saia deste quarto” para ela antes de fechar a porta.

Corri em direção a terceira porta de onde eu me localizava colocando meu pé no batente, evitando que se fechasse. Sentido a crescente dose de euforia em meu sangue, empurrei a porta e entrei no quarto tapando rapidamente a boca da freira que ameaçava gritar.

Joguei-a ao chão e prendi seu corpo com minhas pernas e, tirando a adaga presa em minha cintura, posicionei-a perigosamente em seu pescoço.

– Shiii – fiz olhando para a freira – Fique quietinha e prometo que tudo ficará bem para você. Qualquer movimento brusco ou grito histérico de sua parte, prometo arrancar cada unha da sua mão com minha adaga aqui. Você me entendeu? – sorri amigavelmente.

De olhos arregalados, ela concordou.

Ainda prendendo seu corpo, liberei sua boca e com a mão livre peguei um lençol da cama ao meu lado e comecei a amarrar-lhe os pés e braços.

– Olhe para mim – ela o fez, o temor estampado em seu rosto – Nada lhe farei, mas preciso de uma informação.

– Qu... qual in..formação? – gaguejou.

– Aqui tem um padre que cuida das freiras mais jovens e com menos tempo de participação no convento. Você só tem que me dizer o nome dele e o número de seu quarto.

– O que você fará!? – perguntou receosa.

– Ajuste de contas. Não se preocupe, você não será prejudicada – observei mais calmamente a freira amarrada no chão. Era jovem e bonita, dezenove anos no máximo, mas o que me chamou atenção foi a marca roxa abaixo de sua orelha, como se alguém tivesse dado uma violenta mordida ali – Farei este ajuste de contas em seu nome também.

– O...o que? – arregalou os olhos.

– Você foi violentada garota, não tente negar. Por isso não foi na missa? Por não poder esconder esta marca com o cabelo? Não seriam ordens do próprio crápula que fez isso? O único que poderia conceder sua ausência? – joguei-lhe perguntas retóricas enquanto ela ficava cada vez mais temerosa em relação a minha presença.

Assim, começou a chorar.

– Eu não que... queria...

– Isso na me importa, mas importa a você. Agora diga-me o nome e o quarto. – exigi chegando meu rosto próximo ao seu.

Após um momento de hesitação, ela prosseguiu:

– Padre Toledo... Quarto 36, terceiro andar...

[...]

Bati três vezes na porta e rapidamente Jane a abriu e me puxou para dentro.

– Queria me matar de tanta agonia? – exasperou-se – pensei que tinham lhe pegado, já estava desistindo de esperar e indo a caminho de sua procura.

– Não seja tola – falei de maneira calma enquanto observava o quarto – Apenas nos salvei de uma possível delatora.

– Ah, meu coração. Tão jovem e quase tendo uma taquicardia! – olhou para o teto e pousou uma mão no peito.

– Não começa com o drama maninha. Se quiser treinar suas lágrimas deixe eu te bater para que, pelo menos, sejam verdadeiras.

Foi neste momento que ela pulou no meu pescoço e me abraçou sorrindo e com os olhos fechados.

– Hey Half, sou dez centímetros mais alta que você, alivia um pouco o aperto.

– Sabia! Você me ama! Chamou-me de “maninha”! – cantarolou feliz.

Sorri com aquilo, ela estava feliz por deleito a uma palavra. Mesmo prestes a seguir um caminho incerto, isso chegava a ser-lhe importante. Portanto, eu deveria me sentir feliz também.

Abri um singelo sorriso.

– Não quer dizer que te amo. Agora me solta e termina de arrumar suas tralhas logo. – falei desgrudando dela e rindo de sua expressão.

– Devemos amar nossos irmãos mocinha. – fingiu ralhar comigo – Que fique claro: é sua obrigação. E tralhas é aquilo que sua avó tem entre as pernas, de tanto que já foi usado.

– Tem razão... – refleti e vi um sorriso, maior que sua face, sendo formado – Foi muito usada mesmo. Meu avô praticava necrofilia.

– Sua nojenta – jogou um travesseiro em mim – Isso não existe!

– Ah, não? — ri de sua indignação – Quando eu for lhe apresentar meu avô se finge de morta e você verá o que aconteceria se um cachorro pudesse entrar no cio.

– Você vai morrer sozinha se contar isso para algum de seus pretendentes.

– Não se preocupe. Prometo ficar sempre ao seu lado. Assim você também não morre sozinha, já que eu tenho certeza que ninguém vai conseguir aturar tanto drama para apenas um metro e meio. Agora não discuta e pegue logo suas coisas.

Ainda resmungando, Jane colocou todas suas coisas em uma mala mediana feita de pano.

Dirigi-me até a janela e a abri. Olhei para o lado de fora e pude observar a grade pela qual pulamos. Naquele lugar não havia movimentação e tinha um pequeno entulho que Jane poderia usar para pular sozinha. Era uma boa rota de fuga a meu ver.

– Jane – chamei – Demoramos demais aqui. Você tem que ir logo. Pelas minhas contas, a missa acabará em trinta minutos no máximo.

Peguei sua bolsa e joguei pela janela, não era muito alta.

– Como assim “Você tem que ir logo”? – indagou seguindo para a janela.

– Eu prendi uma freira no quarto. Tenho que ir até lá e desamarrá-la. Farei com que ela durma e arrumarei o quarto. É melhor não deixar suspeitas.

– Bom, se você quer fazer isso, então ficarei com você.

– Não precisa – assegurei – Quero que você siga em frente e pule a grade. Não hesite e não faça nada para ser notada. Em no máximo uma hora, estarei ao seu lado. Agora ande logo. Não tenho muito tempo.

– Tudo bem, não quero te atrapalhar. Mas depois quero saber seu real motivo Moran. Eu irei, mas apenas porque está me passando segurança. Não faça besteiras, sim? – sentou no parapeito da janela e me encarou.

– Nunca – respondi e empurrei-a.

Fez um baque surdo e lhe ouvi praguejando.

– Idiota. Ainda não estava pronta – pegou sua mala – Não posso dar um pouco de drama e seriedade que ela atrapalha... Usei palavras tão tocantes.

Ri de suas reclamações enquanto a via correr e, rapidamente, pular a grade. Deu uma última olhada para minha janela escura e seguiu para nosso ponto de encontro.

Agora era hora de cumprir minha promessa. Eu não faria nenhuma besteira. Eu faria justiça.