Incógnita

3 2. O Primeiro Dia


Quando entrei no restaurante japonês o barulho de pessoas conversando e de talheres invadiram os meus ouvidos. O restaurante estava cheio aquela noite e muitos brindes ecoavam pelos ares.

Não havia uma pessoa sequer que estivesse só em sua mesa. Todos estavam em grupos. Ver aquelas pessoas se divertindo fez com que eu sentisse falta de tempos que eu não conseguia lembrar.

Em vez de fazer como as pessoas que entravam e ocupar uma das mesas vazias, eu fui para o balcão, onde uma moça de cabelos lisos e castanhos, como uma asiática, calculava alguma coisa.

– Boa Noite. Você poderia me ajudar?

– Boa Noite. O que é? Vai querer usar o banheiro? – ela disse rudemente enquanto estudava as roupas que eu usava.

– Não! Quer dizer... sim. Mas não é isso que eu quero agora.

– Então, o que você quer? – dessa vez ela foi mais gentil.

– Meu nome é Ava, – dizer aquilo foi estranho, uma vez que eu não sabia quem era Ava – e eu estou querendo saber se vocês teriam algum trabalho disponível.

– Ah, isso?! Eu irei chamar o proprietário. Só um minuto.

Ela entrou na cozinha e saiu acompanhada pelo chefe, asiático assim como ela.

– Olá. Eu sou o chefe Chen. A Leila me disse que você estava procurando um emprego.

– Sim. Eu estou passando por algumas complicações e preciso muito desse serviço.

– Sendo assim, você pode começar amanhã. Dê as suas informações pessoais para a Leila e apareça amanhã às 4 horas.

– Mas eu preciso de uma diária, pelo menos, com urgência. Eu não poderia começar agora e receber um pagamento no fim do dia?

– Nossa, para quê tanta pressa?

– Isso é pessoal.

– Tudo bem. Já que o restaurante está tão cheio nós vamos precisar de um reforço na cozinha. Dê as suas informações pessoais a Leila e me procure na cozinha.

A Leila me fez as perguntas, mas como eu não sabia de muita coisa sobre mim eu usei a minha identidade para respondê-la. Depois, ela me guiou para a cozinha.

Lá dentro estava a maior correria. O tempo todo pessoas passando para pegar pratos, panelas e ingredientes.

O chefe chegou com um avental para mim.

– Tome – disse ele – Hoje você vai lavar os pratos, mas amanhã eu espero que você sirva as mesas, por isso eu espero que você tenha um bom equilíbrio.

Ele me mostrou onde ficava as mesas e me apresentou para alguns cozinheiros, depois voltou para os seus serviços enquanto eu lavava os pratos.

No começo, eu pensei que não iria saber o que fazer, mas as minhas mãos sabiam exatamente como seria.

Quando deram 10 horas o restaurante fechou. Eu terminei de lavar e enxugar os pratos e recebi o meu pagamento. Assim eu saí do restaurante sem ter para onde ir.

Comecei a caminhar sem rumo. Algumas pessoas ainda se divertiam na cidade, mas eram grupos suspeitos, por isso eu procurei manter a distância. Eu precisava de um lugar para dormir. E quando pensei isso vi um motel de aparência muito decadente, como tudo naquela região da cidade.

Uma mulher comia salgadinhos baratos, esperando para atender alguém. Mas ela parecia saber que ninguém iria aparecer, tanto que quando eu cheguei ela ficou surpresa.

– Tem um quarto vago?

– Sim.

– Bem, eu vou querer um.

– Ok. – ela pegou uma chave em algum lugar que eu não pude ver – Siga-me.

Ela me levou até uma porta velha destruída por cupins. Quando eu entrei o cheiro de mofo impregnou o meu nariz. O quarto tinha uma cama de madeira gasta, um abajur, um frigobar que rugia e uma outra porta que deveria levar a um banheiro.

– Sinta-se à vontade. – disse a mulher enquanto me entregava as chaves do quarto e depois ia embora.

Então eu fiquei sozinha no quarto.

Olhei as minhas roupas e resolvi lava-las. No banheiro havia uma pia. Tirei a jaqueta, a blusa que eu usava por baixo e os jeans sujos. Tirei o all-star e deixei em um canto. Lavei tudo e coloquei atrás do frigobar, para que secasse mais rápido.

Voltei para o banheiro para tomar uma ducha e relaxar. Lá havia um espelho, e antes de ir para o chuveiro eu olhei o meu reflexo semi-nu. Eu era como a garota da minha identidade, mas eu era mais velha do que ela.

A água fria corria pela minha cabeça e alcançava pontos do meu corpo que antes estavam muito doloridos. Me enxuguei com uma toalha, vesti novamente as minhas vestes intimas e me preparei para dormir.

Deitada na cama eu tentei lembrar quem eu realmente era, mas as lembranças pareciam estar muito próximas de mim, só que eu não conseguia alcança-las.

Fechei os olhos e me despedi do meu segundo primeiro dia de vida.