Incêndio de Margot
1 Capítulo único.
Notas iniciais
Um dos poucos desejos que é partilhado por todos os humanos que habitaram, habitam e hão de habitar esta terra é o desejo da felicidade. Independente do caminho que traçamos, o objetivo é o mesmo, uma busca incessante pelo HappyEnding. Muitas ficções escritas se fazem a partir desse desejo que é inerente do ser humano. E talvez esperassem que esta ficção também tivesse um final feliz, porém, sinto informar que esta história não termina assim, pois trata-se de uma história real, com pessoas reais e, infelizmente, a realidade pode ser cruel.
Aqui, neste ponto, eu começaria a narrar a história de uma garota sem amigos, um tanto depressiva e com uma autoimagem totalmente distorcida, pois assim eu poderia conduzir esta história de maneira que esta garota superaria todas as adversidades e, no final, aprenderíamos uma belíssima lição. Porém, na realidade, esta garota tem muitos amigos, é adorada por todos que a rodeiam, tem pais amorosos e uma vida feliz. Hoje nada de ruim vai acontecer com ela, mas amanhã ela vai morrer. Todas as pessoas que a amam irão chorar em seu funeral e não serão capazes de compreender o porquê de aquilo ter acontecido com uma pessoa tão doce. Era tão jovem. Mas ninguém é jovem demais para morrer, pode ser um fato inaceitável para a maioria, mas a verdade nem sempre é tão reconfortante quanto desejamos.
E é assim que nosso dia começa, no meio de uma terrível tragédia em uma fresca tarde de primavera. Sinto dizer que o mundo não parou no momento em que tudo aconteceu, absolutamente nada sobreveio em câmera lenta e o dia transcorreu normalmente enquanto aquele prédio no centro da cidade pegava fogo. Um homem filmava com a câmera do seu celular o fogaréu que escapava pelas janelas, provavelmente aquelas imagens apareceriam no jornal das oito e todos na cidade iriam assistir sentados no sofá da sala, final de noite comum com uma tragédia corriqueira. Terça-feira.
Uma morte. Uma única morte que não teria ocorrido se o tempo não tivesse ficado repentinamente seco ou se aquele antialérgico não fosse tão forte. Margot não era o tipo de aluna que cabulava aula, mas estava tão sonolenta naquela manhã – depois de uma péssima noite de sono, cheia de espirros e garganta terrivelmente seca – que decidiu ficar na sala de aula para tirar um breve cochilo enquanto sua turma tinha aula de Educação Física. A sala silenciosa e o efeito do remédio que havia tomado antes de sair de casa deixaria aquele sono mais pesado do que de costume.
Os jornais poderiam culpá-la por sua morte, pois ela não estava junto com os outros alunos quando o professor organizou-os para que saíssem da escola o mais rápido possível. Chamá-la-iam de aluna displicente, aquela que falta às aulas que julga menos importantes. Alguns a defenderiam dizendo que adolescentes fazem isso mesmo, estão sempre em algum canto tentando fugir de alguma aula quando se sentem entediados demais. E seus pais não se lembrariam das tosses na noite anterior, tampouco dos espirros, jamais associariam a morte de sua filha a algo tão banal quanto uma simples alergia.
Morrer é tão natural quanto respirar ou deixar de, tão calculado e ritmado quanto uma suave coreografia e nunca por acaso. Pois, cá entre nós, essa coisa de acaso não existe. Tudo o que ocorre é tão friamente calculado que seria impossível encontrar uma brecha para que Margot sobrevivesse. Contudo, pensar que há algo orquestrando nossas vidas e que não temos controle dela é algo tão assustador que preferimos não enxergar esta versão realidade. Aceitar o acaso é menos doloroso, muito menos masoquista. Mas por que eu mentiria sobre isso e, além disso, por que eu proferiria tais palavras se não tivesse nenhum propósito: Pois bem, tão logo direi que meu monólogo nos leva para o interior daquela escola à sete e trinta e dois da manhã.
Margot atravessou o corredor quase arrastando os pés, sentia-se pesada e ligeiramente tonta, mas logo presumiu que fazia parte de uma das reações adversas do remédio. Cumprimentou educadamente a faxineira, com um sorriso nos lábios, a mulher gorda que varria distraidamente o corredor parou quando ouviu a voz da menina e sorriu de volta, sua feição era tão amigável que Margot sempre sentia vontade de abraça-la. Como uma boa cumplice, não questionou – tampouco entregou – a aluna que estava entrando na sala de aula completamente vazia. Talvez a senhora da faxina tivesse uma parcela de culpa pelo ocorrido e lhes garanto que ela vai se lembrar para sempre disto, deste dia em diante seus sonhos serão preenchidos com os possíveis gritos de terror – vívidos em sua imaginação – emitidos pela menina educada que sempre a cumprimentava nos corredores.
A garota loira dos olhos castanhos sentiu-se feliz ao descobrir, logo no primeiro dia de aula, que sua sala de aula era em frente à biblioteca. Será que ela ficaria assim tão feliz se soubesse que estar nesse lugar a mataria em setembro? Será que aquele sorriso estampado nos lábios tingidos de rosa continuaria tão grande se ela soubesse que num dia de clima tão agradável a péssima fiação daquela escola velha criaria uma pequena faísca em sua adorada biblioteca e isso a queimaria viva? Margot nunca gritou, pois quando se deu conta do que estava acontecendo a única coisa que conseguia fazer era tossir enquanto se arrastava pelo chão à procura da porta. O medo de Margot manifestou-se somente pelos olhos. Ela nunca mais gritou.
Eliza, mãe de Margot, nunca imaginaria que estava prestes a sentir a dor de perder um filho quando acordou mais cedo do que o normal nesta manhã. Ela sentou na cama e um sentimento estranho lhe ocorreu, era uma espécie de pesar no coração, algo que ela não conseguia descrever, e para tentar espantar este sentimento decidiu ir se banhar. Porém o que ela não sabia – e nem tinha como saber – é que este sentimento a acompanharia pelo resto de sua vida. Quando atravessou o corredor em direção ao banheiro, não pôde deixar de ouvir Margot tendo outra crise de tosse, havia escutado a filha tossir todas as vezes que havia acordado durante aquela noite atípica. Fez uma anotação mental de que deveria levar o umidificador de ar para o quarto de Margot para que ela pudesse descansar melhor. Este tempo seco acaba com qualquer um.
Quando seu celular tocou pela terceira vez, às nove e quatorze da manhã, desistiu de ignorá-lo – apesar de acreditar que se tratava apenas de um vendedor qualquer tentando enfiar-lhe algum plano para sua linha goela abaixo – e atendeu determinada a falar poucas e boas para quem estava ligando em pleno horário de trabalho. Porém seu sangue gelou no instante que a diretora da escola de seus filhos se anunciou do outro lado da linha, sem dar detalhes, apenas solicitou sua presença com urgência na escola “preferencialmente acompanhada de seu marido”. Pode sentir o coração falhar a batida nesta última frase e sua cabeça elaborava um milhão de teorias, pois mesmo insistindo a mulher havia se recusado a dar uma prévia do motivo desta ligação.
As estruturas de madeira queimaram tão rápido que o segundo andar já estava completamente tomado pelas chamas antes que alguém pudesse checar se havia mais alguém ali. Devo dizer que o extintor de incêndio teve sua parcela de culpa pelo ocorrido, pois havia um defeito e não funcionou quando foi acionado, o maldito gatilho estava quebrado. A bibliotecária ficou mais de cinco minutos tentando acioná-lo quando entrou na biblioteca, mas desistiu após ver o fogo se alastrar numa velocidade assustadora, não havia tempo, tinha que alertar todos daquele corredor – e dos outros – que deveriam abandonar o prédio. Só que Dona Aninha – a bibliotecária –, não se deu ao trabalho de bater na porta da sala da frente, pois sabia que os alunos não estavam tendo nela. Foi triste vê-la descobrindo que estava errada. Podia ela ter impedido a morte da aluna mais ávida por leitura do segundo ano do ensino médio?
Quais são as palavras mais adequadas que devem ser usadas para comunicar uma mãe que ela jamais verá sua filha novamente, como dizer a um pai que ele nunca irá levá-la ao altar e como dizer para esses pais que seu último adeus será dado à uma foto, pois com o corpo carbonizado o mais apropriado é manter o caixão fechado. Ela estacionou em cima da calçada, nunca foi uma boa motorista e já tinha aceitado este fato, quando olhou em volta se deu conta do tamanho do estrago. O pesar que havia sentido naquela manhã voltou com tanta intensidade que ela sentia o ar que entrava quando inspirava inflamarem seus pulmões. Buscou por Margot ou por Lucas – seu caçula – com o olhar em meio àquela multidão, porém viu somente Henrique, seu marido, tão apreensivo e cheio de dúvidas quanto ela.
As palavras só fazem sentido quando nós queremos que elas façam algum sentido e, naquele momento, nada do que aquele alto homem negro vestido de vermelho dizia fazia sentido. Aquele único corpo encontrado provavelmente era de sua filha. Era impossível acreditar nas palavras daquele senhor enquanto olhavam ao redor e viam alguns amigos de Margot sãos e salvos. Ela não podia estar morta, não podia tê-los deixado, não podia... filha.
Desejava não ter acordado, pelo menos teria morrido sem a menor consciência, mas claro que sua lucidez durou apenas alguns minutos. Deitou-se no chão e tentou se arrastar até a porta, pensou em gritar por socorro, mas não conseguia elevar a voz, tampouco respirar corretamente, apenas tossia enquanto inalava aquela fumaça toxica que a faria desmaiar em breve. Quando se deu conta de seu próprio fim chorou de medo, chamou por sua mãe na esperança de que ela fosse salvá-la como sempre fazia quando tinha um pesadelo terrível, mas dessa vez ela não ia aparecer. Antes de perder a consciência Margot pensou em seus pais e no pranto dos dois quando fossem enterrá-la. Sua vida não passou como um filme diante de seus olhos, apenas quem ela estava deixando para trás.
Margot morreu sozinha. Ela desmaiou antes do fogo tomar a sala de aula então, provavelmente, não sentiu dor alguma. Eliza e Henrique, por outro lado, todos os dias pelo resto de suas vidas carregariam dentro de seus corações a mais profunda, agoniante e desesperadora dor sempre que fechassem os olhos e, mesmo tentando afastar com todas as forças esse pensamento, imaginassem os últimos momentos de sua amada filha. Eles sempre pensariam em como prefeririam ter morrido no lugar dela. Lucas se sentiria culpado – a cada instante, do resto de sua vida, que passaria vendo sua família ir à ruína – por nunca ter ido procurar a irmã. Dona Aninha, a bibliotecária, sempre se arrependeria por não ter batido na porta da sala da frente. A faxineira sempre se martirizaria por não ter lembrado de ir chamar a garota educada que sempre a cumprimentava no corredor. A culpa atormentaria a todos, a morte de Margot se tornaria o fardo e a ruína de todos os que contribuíram com o acaso.
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