Incursões
3 Parte 3 - As ruínas de Mormos
Notas iniciais
No meio da colina, uma grande chuva os atingiu, a carruagem por certo instante cambaleou para o lado, mas o empenho do guia o pôs de volta as rédeas, dentro dela havia uma mulher amordaçada com as mãos presas em uma madeira grafitada runas que impossibilitavam de utilizar magia, um das sentinelas confuso por tanta prevenção se perguntou.
— Ela precisa de tudo isso mesmo para ser levada para o calabouço do norte?
— Você a subestima, ela antes fazia parte do time de Bruhen como a maga reversa, capaz de invocar criaturas apocalípticas e rogar feitiços destrutivos, se não tivéssemos todo cuidado ela destruiria essa carruagem em um instante.
— Eu pergunto por que ela simplesmente se entregou por vontade própria então não teria necessidades disso.
— há quanto tempo você foi transferido para esta função?
— Três meses, senhor.
— Isso explica sua falta de perspicácia.
Após passar por uma colina perigosa, a carruagem tomou o rumo em uma estrada cercada por árvores de todos os lados, a garota grunhiu como se pedisse permissão para falar, mas foi logo negado.
Chegando a um castelo abandonado a carruagem brecou e o guia desceu rapidamente para abrir a porta para as sentinelas, eles a escoltaram até a porta até que ela se desprendeu de suas algemas de madeira.
— Mas que inferno! — Gritou uma sentinela que puxou a espada para atacar, mas logo foi atingido por um raio negro que brotou das mãos dela.
— Por favor, não me machuque. — Disse a outra sentinela que largou a espada no chão e se ajoelhou.
A garota tirou a amordaça da boca e realizou um exercício na mandíbula antes de começar a falar.
— Você tinha razão garoto, não tinha necessidade de me amordaçar.
Ela o ignorou e entrou na masmorra mesmo assim, o local era praticamente arrepiante, feito de mármore e sem janelas que permitiam iluminar o lugar ela acendeu uma pequena fagulha de luz na ponta do dedo indicador e entrou na escuridão.
Ela tateou a parede da masmorra e onde ela passava os dedos, runas surgiam misteriosamente até formar um arco, uma fresta se abriu e no fundo da sala secreta um baú a esperava, sensata, ela emitiu uma materialização de uma maça avermelhada que rolou para perto do baú, um ser esguio de mascara maior que o próprio rosto e quatro braços apareceram na frente do tesouro e destruiu a maça com uma pisada.
A garota notando que um conflito era inevitável utilizou seus conhecimentos de feitiço antigo e emitiu uma chama incandescente que atingiu o guardião, ele logo se encolheu enquanto a chama avermelhada consumia seu corpo, ela seguiu em diante e com uma chave tirada do bolso ela abriu o baú.
Nesse baú continha um pergaminho sagrado no qual guardava uma magia ancestral, uma parte de sua meta havia sido concluída.
Ao sair da masmorra ela acabou se encontrando com Mayhem e Douglas que era acompanhado por um cão de duas cabeças.
— Há quanto tempo Maya.
Ela encarou Mayhem e se dirigiu para longe dali, Mayhem abismado pela ignorada decidiu ir até ela.
— Mas que droga Maya, eu só preciso de um segundo.
— Nem vem irmão, já estou farda de suas idiotices.
— Irmão? — Indagou Douglas confuso.
Algumas horas antes na vila Poccus.
— Eu tive uma ideia. — Disse Mayhem na mesa de jantar enquanto desfrutava de uma sopa de ervilhas.
— Que ideia?
— Eu conheço uma feiticeira que é capaz de invocar planos astrais, talvez ela consiga lhe enviar para sua casa.
— Isso é ótimo, assim eu não posso me arriscar indo para o inferno na terra.
— Exatamente.
— Mas então... — Douglas encarou o cão de duas cabeças, no qual uma o encarava suplicando por comida enquanto a outra brincava com um pequeno feno entre suas patas. — O que eu faço com isso?
— Ah! Provavelmente quando você voltar para casa o elo que você criou nesse cão vai se quebrar e ele volta a ser um animal selvagem normal.
— Entendi, faz sentido. — Douglas encarou o cão novamente. — Não daria certo levá-lo pro meu mundo, ele seria tratado como uma aberração.
— Sem o elo significa sopa de cão no jantar.
— Que? — Douglas abraçou o cachorro amigavelmente. — Ninguém vai jantar ele.
Retornando ao tempo atual.
— Você não disse que ela é sua irmã? — Indagou Douglas enquanto seguia Maya pela floresta.
— E isso importa? Bem, saiba que ela fazia parte do meu time junto com Bruhen, nós lutamos juntos em incontáveis aventuras.
Douglas pegou o smartphone do bolso e analisou os status, a Maya tinha um level 80.
— Caramba, o level dela é maior que o seu.
— Como é que é? Que historia é essa Maya?
— Eu não me cansei de me aventurar como você, logo é notório que eu tenho mais experiência, e, aliás...
Maya se virou, seus olhos brilhavam de empolgação.
— Que ferramenta peculiar, eu posso ver?
Douglas levantou o smartphone para que ela não alcançasse.
— Só se você me ajudar a voltar para meu mundo.
— Fechado.
— Como assim foi tão fácil! — Protestou Mayhem.
—x-
Maya olhou o smartphone de forma técnica, tateando a tela, navegando entre os menus, status e suspirando toda vez que ela compreendesse algo, após um bom tempo de muito estudo ela entregou-o para Douglas.
— E então? Você tem algum conhecimento de magia que pode mandá-lo de volta ao mundo dele.
— Lamento, eu conheço boa parte das magias existente deste mundo e nada comparada a fresta na qual você mencionou Mayhem, mas não acredito também que vocês são capazes de atravessar o reino sombrio.
— Foi o que imaginei também, é por isso que estou treinando ele. — Comentou Mayhem.
— Estou falando de você irmão. Quanto tempo mesmo você deixou de ser um aventureiro para cuidar de uma fazenda pacata no fim do mundo?
— Bem é que...
— Eu sei. Você não tinha motivos para continuar.
— As coisas ficaram difíceis quando Bruhen foi embora.
— Com licença! — Interrompeu Douglas. — Eu sei que não deveria interromper a reunião familiar, mas temos um problema maior que é me mandar para meu mundo antes que eu morra, lembra?
Os dois o encararam sem expressão deixando Douglas sem graça.
— Sim, você tem razão. — Disse Mayhem se levantando, ele jogou areia em cima da fogueira para apagá-lo.
Maya olhou para o céu e sorriu.
— Está na hora da masmorra secreta surgir do chão.
— Espera um pouco, nós iremos agora?
— Nós precisamos de recurso não é mesmo? Essas masmorras secretas contêm incontáveis tesouros e boa parte deles ainda não foi explorada.
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As ruínas de Mormos nascem no período de lua cheia, nela contem artefatos sagrados de um povo antigo que idolatrava os Deuses das terras, tinha um vasto conhecimento de magias ancestrais que o permitiam criarem um dispositivo que escondia tais tesouros.
Maya tinha um interesse intrínseco em tais conhecimentos, mas deste que Mayhem desistiu das aventuras ela nunca mais encontrou um grupo que iria ajudá-la a exploração destas ruínas.
No caminho até a fazenda de Poccus, eles acabaram encontrando uma ruína, uma grande massa de rocha com uma abertura nela, emitia luzes de chamas das tochas penduradas nas paredes que iluminava uma escada íngreme levando até a escuridão total.
Os três entraram sorrateiramente, descaram as escadas com cuidado para não cair e no instante que uma grande rocha fechou a única entrada que eles conheciam que Mayhem se lembrou.
— Eu me esqueci de pegar meus equipamentos! — a voz de Mayhem ecoava em toda a caverna.
— Serio mesmo que você se lembrou de apenas agora? — Indagou Douglas decepcionado.
— Eu sentia que tinha se esquecido de algo, mas não me lembrava.
— Agora não tem mais retorno irmão, vamos ter que abrir uma passagem, mas não sabemos que tipos de criaturas nos esperam lá em baixo.
Após descer as escadas íngremes eles encontraram uma enorme caverna iluminada tanto pelas tochas ao redor dela quanto pelo reflexo da luz emitida pelas montanhas de ouros que o cercavam, Maya criou uma plataforma transparente que os permitiram atravessar a escada destruída até próximo a o outro lado da caverna, um barulho de tilintar chamou atenção de Douglas que ao se virar logo levou um susto.
— Mas o que é isso?
A montanha de ouro se levantou formando uma silhueta de um gigante, ele levantou a forma de braço gigante para golpear os três quando Maya produziu um escudo de força em volta dos três.
A pancada espalhou ouro para toda a área limitando a visão dos três.
— Que porcaria é essa? — Gritou Douglas assustado.
— Droga, eu acabei calculando errada a periculosidade deste local.
Os três tombaram no chão, no entanto a esfera que os cercavam os protegeu de uma morte certa, a criatura se pôs em pé, mas a caverna limitava sua altura de aproximadamente três metros.
— Você precisa fazer alguma coisa antes de sermos soterrados por ouro.
— E você não acha que eu sei?
Maya rogou uma língua antiga e realizou gestos estranhos, no escudo de força abriu-se uma fresta no qual uma grande energia negra emanada pelas mãos dela escapou atingindo a montanha de ouro em cheio, mas o máximo que ela conseguiu realizar foi um buraco nela, o ser cambaleou e caiu em cima dos três formando novamente o ouro sem vida como antes.
Depois de alguns minutos soterrados os três conseguiram sair no meio de todo aquele ouro, Douglas cuspiu algumas moedas de ouro e os outros dois recobriam o fôlego.
Após se erguerem em cima da montanha Douglas começou a rir.
— E qual é a graça? Quase morremos soterrados. — Reclamou Maya que se apoiava nos joelhos cansada.
— É porque isso foi muito divertido.
— Morrer não é nada divertido.
— Parem de ser tão negativos, saímos com vida.
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Na segunda sala não existia chão e sim um mar de lava incandescente, logicamente nesse lugar não tinha necessidade de tochas por conta da luz da lava, para não morrerem de calor, Maya aprimorou o escudo de força dos três e ambos saíram flutuando até a próxima saída.
— Estou com um mau pressentimento, só falta surgir uma montanha de lava como a última sala.
Pior, um dragão emergiu da lava furiosa ao ver os invasores indo em direção à saída, ele então baforou contra os três, mas os escudos os defendiam, de repente Maya caiu de joelhos no chão e começou a tossir.
— Você está bem Maya?
— É o escudo, a magia está ligada diretamente a força vital dela, quanto mais dano o escudo levar mais rápido sua vida perecerá.
— Eu estou bem. — Disse Maya entre as tosses. — Só preciso aguentar até a última sala.
Douglas olhou para Maya que não estava na melhor das condições e depois para Mayhem que apresentava um olhar preocupado.
— Eu tive uma ideia.
Douglas sacou o smartphone e selecionou captura, correntes brotaram das costas do Smartphone e atingiram o pescoço do dragão que insistia em segui-lo, nesse instante começou um cabo de guerra.
— Você enlouqueceu? Esse dragão é muito mais forte que você.
— Mas não posso fazer nada enquanto vocês arriscam suas vidas para me ajudar, eu quero voltar para casa, mas me sentirei mal se um de vocês morrerem no processo.
— Droga Douglas. — Maya se reergueu exausta. — Você me faz me sentir mal.
Ela então começou a rogar uma nova magia, correntes negras surgiram junto com as correntes douradas do smartphone e logo atingiram o dragão, o elo dele começou a enfraquecer e essa era a chance de finalmente Douglas capturar ele.
Após uma luta incessante contra o dragão e com a ajuda de Maya ele finalmente conseguiu domar, os três subiram nas costas dele e Maya foi posta em repouso por tantos esforços seguidos naquelas ruínas.
— O mais rápido possível Slug! — Ordenou Douglas.
— Slug?
— Foi o melhor nome que pensei agora.
Assim Slug partiu em direção a saída, com a ausência de um guardião a sala deixou de existir, e então se iniciou um desmoronamento, o dragão partindo em alta velocidade enquanto rochas caiam do teto.
— Mais rápido Slug, nossas vidas depende disso!
Uma massa de lava se levantou e começou a perseguir o dragão onde os três estavam montados, quando o braço gigante de magma estava prestes a alcança-lo, Slug emitiu uma baforada na parede abrindo um novo caminho.
A mão de lava se chocou na fresta formada pelo Slug e começou a solidificar, Douglas sentiu-se aliviado ao ver que escapou.
O dragão foi-se perdendo a altura até tombar de vez, Mayhem segurou sua irmã com força para que ela não atingisse o chão enquanto Douglas era salvo pelo cão de duas cabeças que havia sido invocado por conta própria.
Douglas então selou o Dragão para que ele pudesse descansar.
— Bom trabalho Slug. — Disse Douglas encarando o smartphone.
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Maya aproveitou um tempo para recobrar as forças, ela então seguiu até um baú no fim da caverna ao lado da saída das ruínas.
— Tanto trabalho para um simples baú. — Comentou Douglas.
— Às vezes esse baú guarda artefatos raríssimos.
Maya abriu o baú com sua magia, dentro havia um pedaço de papel, ao ler sua face tomou uma coloração avermelhada de fúria.
— Maldito Hawk. — Gritou Maya jogando o papel no chão. — Esse desgraçado chegou antes de mim.
— Q-quer dizer que passamos por t-tudo isso em vão? — gaguejou Mayhem.
Douglas começou a gargalhar da situação, os dois acreditavam que ele tinha perdido a sanidade.
— Pelo menos conseguimos o Slug e também me ajudaram a aumentar minha experiência.
Douglas mostrou a tela do Smartphone para os dois apresentando o nível dezessete do seu status.
E os três partiram daquela caverna aguardando pelo dia deles poderem finalmente viajar para o reino sombrio.
Não muito longe dali uma raposa antropomórfica com três caudas equipada com uma aljava e flechas olhava em longa distancia simulando as mãos como se fosse um binóculo em cima da copa de árvore.
— Mayhem? Eu finalmente achei você. — Disse a raposa antropomórfica.
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