Inconveniente
1 I
Inconveniente = Não conveniente; inoportuno; impróprio. O que não convém ou é prejudicial. Estorvo. Obstáculo; desvantagem
I
Quando Izuna escolheu sentar no lugar mais discreto e isolado para beber seu chá, foi porque gostava de permanecer em silêncio pelas manhãs e não porque queria se ocultar para observar a vida alheia.
A lanchonete na qual estava ficava bem ao lado da empresa, então muitos funcionários iam lá fazer o desjejum e o Uchiha não queria ser considerado antipático simplesmente por não ser amigável às nove da madrugada. Geralmente, trabalhava de casa, mas sua presença tinha sido exigida naquele dia para a apresentação e recepção de um novo sócio.
Konoha era uma empresa de reciclagem idealizada e fundada por seu irmão mais velho, Madara, e pelo melhor amigo dele, Senju Hashirama, embora o próprio Izuna e Tobirama, o Senju número dois, tenham tido grande participação, o que fez com que fossem incluídos como donos e sócios. Como a empresa foi crescendo e gerando lucro, decidiu-se que uma parte das ações deveria ficar disponível para novos investidores. Os Uchiha não aceitaram muito bem a ideia inicialmente, no entanto Hashirama os convenceu de que não precisavam abrir mão de uma grande porcentagem das ações e que, além disso, um novo sócio traria novas ideias e capital.
Aparentemente, esse quinto membro tinha sido encontrado. Quando perguntou ao irmão maiores informações, Madara afirmou apenas que era um conterrâneo e que deveria ser inteligente, pois não vinha de uma família ilustre e estava começando a fortuna agora fazendo bons negócios. De qualquer forma, se conheceriam na quarta e, caso não gostassem dele, a parceria seria desfeita, garantiu acariciando o cabelo do caçula.
Para ser honesto, Izuna estava predisposto a não gostar do novo sócio. Ter ido presencialmente foi ideal para que a sua negativa fosse enfática. Sabia que qualquer decisão que tomasse, o irmão o apoiaria e, com isso, Konoha seria, por mais algum tempo, somente dos quatro.
Estava nisso quando viu Tobirama entrar na lanchonete usando um sofisticado terno azul. Tinha que dar o braço a torcer, esse Senju, por mais intragável que fosse, tinha estilo e, ainda que a relação entre eles fosse delicada, Izuna reconhecia seu valor para a empresa. Grande parte dos projetos e inovações tinham nascido dele.
Sem olhar para os lados, o de cabelos prata seguiu para a tela de auto atendimento. O Uchiha tornou a beber seu chá, observando-o, despreocupado. Mesmo que o sócio o enxergasse ali, o máximo que faria seria cumprimentá-lo com a cabeça e se sentar em outro lugar, respeitando o seu isolamento.
Menos de um minuto depois, a porta da lanchonete se abriu de novo e um homem loiro, de olhos azuis, usando uma blusa azul escuro e um blazer branco com os botões abertos entrou confiante, caminhou até Tobirama e, inesperadamente, abraçou-o pelas costas.
O moreno quase cuspiu o chá.
A tela de auto atendimento ficava de frente para a entrada, com isso não tinha como o Senju ter visto o loiro se aproximando e, provavelmente, esse era o único motivo para ele ainda estar vivo. Izuna conhecia o temperamento do sócio e não se surpreenderia nada se o desconhecido fosse expulso do estabelecimento a chutes.
Mas, jamais poderia prever o que aconteceu.
Acompanhou a sequência atento e ávido.
O queixo do desconhecido estava apoiado no ombro do Senju, que era mais alto, e quando ele virou para encarar os olhos azuis, seus rostos ficaram muito próximos, os lábios a centímetros de distância. O Uchiha engoliu em seco. Viu o sócio perguntar algo com suavidade e o loiro confirmar com a cabeça, se afastar e sentar em uma das mesas próxima a janela. Tobirama tocou duas vezes no painel, efetuou o pagamento e permaneceu de pé aguardando a preparação do pedido. Depois, segurando dois copos, sentou-se na mesma mesa que o loiro e colocou um copo em suas mãos.
Os joelhos dos dois se roçando não passou despercebido ao moreno que teria caído duro no chão tamanho o choque se não estivesse sentado.
Chegou à sala de reunião ainda fora de órbita. Tinha esperado o Senju e o loiro partirem antes de seguir na mesma direção, atônito. Quando entrou em Konoha, já os tinha perdido e na privacidade do elevador, permitiu-se refletir sobre quem diabos seria aquele homem e como ele era tão íntimo de Tobirama. Hashirama era o único privilegiado por quem o irmão caçula demonstrava um pouco de carinho e calor. Os Uchiha e os Senju se conheciam desde a infância e Izuna poderia jurar que nunca tinha visto o de cabelos prata ser amável daquela forma com ninguém.
Desceu do elevador e saiu em frente a uma dupla porta de madeira. Empurrou-a e encontrou o irmão e o melhor amigo conversando aos sussurros na mesa redonda que ficava no final da sala de reuniões. Madara, alegre, ergueu-se em um pulo e foi buscá-lo.
— Olha quem chegou na hora. — brincou, colocando o braço sobre seus ombros e puxando-o para perto. — Que bom que chegou. Estou ansioso para você conhecer esse novo sócio e saber sua opinião. Só escutei coisas boas. Boas até demais.
— Vocês vão ver. — Hashirama respondeu sorrindo. — Minato é um homem bom, sensato e inteligente.
Não demorou muito para que escutassem batidas na porta e Tobirama entrasse, seguido pelo homem da lanchonete.
Izuna enrugou a testa.
— Oh! Falando dele. — o Senju mais velho exclamou feliz, erguendo-se para apertar a mão do loiro.
Arregalou os olhos, surpreso. Agora entendia: aquele era o novo sócio. Lançou um olhar maldoso em sua direção. Não estava gostando nada daquilo. Indiferente, Tobirama deixou o irmão e o loiro de pé, cumprimentou os Uchiha com um aceno leve de cabeça e sentou-se cruzando os braços.
— Minato, quero que conheça os demais sócios de Konoha, Uchiha Madara e seu irmão caçula, Izuna. Madara, Izuna, esse é Namikaze Minato, novo sócio de Konoha.
Hashirama parecia muito empolgado fazendo com que os três apertassem as mãos. Namikaze tinha o aperto de mão forte, assim como Tobirama, Izuna notou.
— Isso ainda veremos. — Madara disse enquanto o amigo puxava uma cadeira para o novato antes de voltar para o próprio lugar. — Conte um pouco sobre você, Minato. Sobre seus projetos.
— Claro! — concordou de bom grado. — Sou formado em engenharia elétrica e química. Sempre me interessei e trabalhei com reciclagem…
Ouvia as qualificações do novo sócio e as perguntas do irmão em silêncio, esforçando-se para não desviar o olhar na direção de Tobirama e sem confiar em abrir a boca, pois a única pergunta que gostaria de fazer não teria relevância nenhuma para a empresa e nem deveria ter para a sua vida. E isso era confuso e extremamente inconveniente.
— Bom. — Madara concluiu. — Para mim, tudo parece de acordo. Seja bem-vindo.
Namikaze abaixou a cabeça com humildade.
— Muito obrigado.
O Uchiha mais novo não tinha dito nenhuma palavra, mas estava atento e não se surpreendeu quando todos viraram-se para ele. Não possuía motivos plausíveis para uma negativa, portanto disse simplesmente:
— Ok.
— Todos de acordo. — Hashirama declarou feliz e até Tobirama sorriu levemente. — Ficamos felizes de ter você aqui, Minato. Por favor, nos ajude a fortalecer Konoha.
— Contem comigo.
Preferiu voltar para casa logo após a reunião. Sua mente repetia a cena daquela manhã uma e outra vez e, implacável, se questionava porque sentia-se tão traído, confuso e irritado. Não deveria se importar com a vida pessoal de seus sócios, ainda mais quando esse sócio era Tobirama, mas ali estava.
Queria poder se enganar e afirmar que se importava porque Namikaze agora fazia parte de Konoha e sua relação com o Senju poderia fortalecê-lo nas tomadas de decisão, entretanto Izuna estava longe de ser covarde. Não era correto e nem justo supor algo assim. Primeiro porque sabia que Tobirama era honesto e sua prioridade sempre seria o melhor para a empresa e, segundo, porque estaria apontando o dedo para o próprio irmão, uma vez que não era segredo a relação íntima entre Madara e Hashirama.
Não era por isso que se incomodava.
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