Inconstância
1 Capítulo Único
Ser um detetive pode ser um trabalho interessante e, às vezes, monótono. Bom, na maior parte do tempo, na verdade. Entretanto, de vez em quando, alguns “acasos” ocorrem, tornando o trabalho mais... divertido.
Era uma manhã ensolarada, e eu estava sentado à minha mesa, lendo o jornal, usando a luz natural que vinha da janela atrás de mim para poder ler. Apesar de o sol estar brilhando fortemente, uma brisa fresca de primavera entrava pela janela, fazendo as folhas do jornal farfalhar preguiçosamente. Na manchete dizia: “Mais uma vítima desaparecida”, seguida pela imagem de uma mulher jovem — na casa dos 20 anos. Esta é mais uma das mulheres que desapareceram sem dar notícia aqui na cidade. Ninguém sabe nada sobre a localização delas, e não tem nenhuma pista para que se possa seguir e encontrar as vítimas e o sequestrador. Nem sequer há um suspeito.
Uma batida na porta desviou minha atenção. Pedi para que entrasse, e uma jovem, aparentemente com a mesma idade da mulher no jornal, abriu a porta.
— Bom dia, senhor — ela falou timidamente. Eu respondi com um “bom dia”, também, e a convidei para se sentar.
— Em que posso ajudá-la, senhorita? — perguntei quando ela se sentou.
— Bem... Você deve ter visto no jornal que mais uma pessoa está desaparecida, certo? — percebi que ela não iria continuar enquanto eu não desse uma resposta, então, apenas assenti. — Pois é... essa pessoa é uma amiga muito querida minha. E eu preciso descobrir onde ela está. A família dela está consternada com isso, e eu gostaria de tentar ajudar. E como a polícia já está “fazendo o possível” — ela marcou as últimas palavras com os dedos em forma de aspas. — a única coisa que estava ao meu alcance era contratar um detetive.
— Entendo... Aliás, eu a conhecia — a jovem pareceu surpresa. — Ela trabalhava neste prédio, também. Não me recordo qual andar, mas tenho certeza que era ela. — Vendo que ela não iria responder, resolvi aproveitar a brecha. — Eu posso lhe fazer algumas perguntas?
Ela pareceu sair de um transe. — Claro.
— Você sabe onde ela estava no dia em que desapareceu?
— Não... Eu só sei que ela foi para o trabalho na manhã daquele dia, e, desde então, eu nunca mais a vi.
— Certo. Você sabe se alguma coisa estranha aconteceu ou estava acontecendo com ela nos dias que antecederam seu desaparecimento? Algo que ela possa ter falado que lhe pareceu peculiar?
— Sim — ela respondeu, depois de alguns segundos pensando. A jovem estava bastante desolada. — Ela comentou que parecia estar sendo observada, ou até mesmo seguida, mas, quando ela olhava em volta, ela não via ninguém suspeito. Essa é a única coisa diferente que ela comentou comigo.
— Entendo. Ela não falou se ia se encontrar com alguém ou ia para algum lugar naquele dia?
— Não. Ela disse que iria voltar direto para casa — ela soluçou. — Por favor, você tem que achá-la.
— Acalme-se, senhorita. Prometo que farei o possível, e ligarei se tiver qualquer notícia. Por favor, anote seus contatos aqui. — Passei uma folha em branco e uma caneta para ela, enquanto ela se acalmava e escrevia o que foi pedido. Depois, então, despedi-me dela e iniciei a minha busca.
Comecei pela parte mais superficial: a internet. Pesquisei sobre ela e chequei tudo o que dizia sobre ela. Seus perfis online não diziam nada sobre estar se sentindo ameaçada, o que mostrava que ela era uma pessoa bem reservada, não falando sobre sua vida pessoal para que todos possam ver. Nenhum outro site falava sobre ela, com exceção dos comentários sobre seu desaparecimento. Ninguém fazia ideia de onde ela poderia estar nem com quem. Nada.
Então, comecei a falar com as pessoas que poderiam ter visto no dia em que desapareceu. Alguns disseram que não a viram saindo aquele dia, outros disseram o contrário. Esses que disseram o contrário falaram que ela havia saído normalmente, e que nada de estranho parecia estar acontecendo com ela. Também não a viram se encontrar com ninguém, nem entrar em um carro suspeito: ela apenas seguiu seu caminho para casa, como todos os dias.
Contudo, uma testemunha disse algo a mais: havia um homem com casaco e chapéu escuros. Ele era alto — usou a minha altura como referência —, e não era possível ver o seu rosto por causa do chapéu e do colarinho levantado de seu casaco. Foi a pessoa mais suspeita que vi naquele dia, disse a testemunha.
Depois de uma semana de investigação sem encontrar nada — além de o relato sobre o homem de casaco e chapéu —, liguei para a amiga da vítima, relatando tudo o que tinha descoberto — ou deixado de ter descoberto, ao que parece.
Então, fui para a casa, sabendo que tinha feito um ótimo trabalho. Tudo estava muito bem. Coloquei meu casaco no cabide, junto com os outros casacos e chapéus, e fui até o porão.
Acendi a luz antes de começar a descer as escadas.
— Parece que não há nenhuma notícia e ninguém sabe de nada — eu disse para a mulher que estava amarrada e amordaçada, ajoelhada no chão do porão, com uma poça de sangue ao seu redor. — Apenas um idiota que me viu, “o homem de casaco e chapéu escuros”, mas ele não viu meu rosto. Fora isso, ninguém saberá onde você está; assim como ninguém sabe onde estão as outras.
De fato, ninguém jamais descobriu onde as vítimas estavam, bem como não sabem quem é o culpado, nem o que ela fazia com elas. Apenas imagina-se que seja algo terrível, cruel; algo que apenas um ser humano realmente pode fazer.
Fale com o autor