Inconsciente
5 Capítulo 5
Draco mergulhou com a vassoura em direção ao campo, o vento cortando o rosto com força, como se pudesse afastar pensamentos indesejados. Não adiantava.
Errou a manobra pela terceira vez seguida.
— Malfoy, você está voando ou sonhando? — alguém gritou lá de baixo.
Ele não respondeu.
Hermione Granger não saía de sua cabeça desde a manhã. Desde o corredor. Desde o instante em que a segurou pelo braço e disse seu nome — o primeiro nome — como se aquilo tivesse sido a coisa mais natural do mundo.
Hermione.
A maneira como ela o olhou, surpresa. A pausa breve antes de responder. O jeito como se afastou depois, rápido demais. Fugindo.
Draco não estava acostumado a ser evitado. Muito menos por alguém que, dias antes, conversava com ele como se o mundo ao redor simplesmente não importasse.
Desceu com a vassoura mais uma vez, pousando com força perto da borda do campo. Estava irritado — não com ela, mas consigo mesmo. Por ter ido atrás. Por ter tocado. Por ter esperado algo em troca que nem sabia nomear.
Mas sabia de uma coisa:
Não ia aceitar aquele silêncio.
Draco desceu a vassoura em direção à quadra para guardá-la, quando algo chamou sua atenção.
Ela.
Sentada sozinha em uma das arquibancadas mais baixas, com um livro no colo. Não parecia exatamente concentrada.
O coração bateu mais rápido — traidor.
Ele respirou fundo. Ele não podia segui-la de novo. Demonstraria fraqueza. Mas também não fingiria que nada havia acontecido.
Sem pensar demais — porque pensar demais era justamente o problema — ele impulsionou a vassoura novamente, ganhando altura por poucos metros antes de descer suavemente próximo às arquibancadas.
— Está me evitando, Granger? — perguntou, decidido.
Assim que as palavras deixaram sua boca, Draco soube que já não havia volta.
Ele a observou abrir os olhos devagar e se virar. Hermione Granger, sentada ali como se aquele fosse apenas mais um dia comum.
Mas não era.
Draco permanecia alguns metros abaixo, a vassoura ainda apoiada ao lado do corpo. O treino havia sido intenso, o uniforme estava desalinhado, e ele sabia que o cabelo claro bagunçado denunciava o pouco controle que ainda tinha sobre si. Mesmo assim, manteve a postura. Não queria parecer o que realmente estava naquele momento: atento demais.
— Não — respondeu ela rápido demais. — Eu só… precisava ficar sozinha.
Sozinha.
A palavra soou mais dura do que ele esperava. Ainda assim, Draco começou a subir os degraus, sem pressa. Cada passo era calculado. Não queria pressioná-la. Porém não queria recuar.
— Você disse que conversaríamos depois — ele continuou. — O depois veio. Eu esperei.
E esperara mesmo. O dia inteiro. Cada olhar trocado no almoço, cada vez que ela desviava, cada segundo a mais que ele fingiu não perceber.
Hermione fechou o livro com cuidado e o colocou ao lado. Draco percebeu o gesto — organizado, quase defensivo.
— Eu sei. Mas… — ela suspirou — eu precisava pensar.
Ele assentiu quase imperceptivelmente. Merlin sabia o quanto ele também tinha pensado desde a aula.
— E pensou? — perguntou ele, parando a poucos passos dela.
— Um pouco demais.
O silêncio que se seguiu não o incomodou. Pelo contrário. Era denso, carregado de algo que Draco ainda não sabia nomear, mas reconhecia como importante. Ele passou a mão pelos cabelos — precisava conter o impulso de dizer coisas cedo demais.
— Eu fiz alguma coisa errada? — perguntou, sério agora. — Passei de algum limite?
No instante seguinte, Hermione levantou-se. Draco sentiu o corpo enrijecer por reflexo, pronto para recuar se fosse preciso.
— Não. Não, de forma alguma. — A voz dela saiu firme, mas os olhos… os olhos entregavam tudo. — É justamente isso.
Ele franziu levemente a testa. Não por irritação, mas por confusão genuína.
— Isso o quê?
Ela hesitou. Draco percebeu.
— É fácil demais — confessou. — Estar com você. Conversar. Ficar perto. Eu… não estou acostumada com isso.
Fácil. A palavra ecoou nele de um jeito estranho. Draco Malfoy nunca foi associado a nada fácil. Ainda assim, ali estava ela, dizendo aquilo sem ironia, sem medo de parecer vulnerável.
— Fácil não significa errado.
Ele disse com convicção. Precisava que ela soubesse. Talvez precisasse lembrar a si mesmo também.
— Eu sei — respondeu ela, quase num sussurro. — Mas significa perigoso nesse caso, pois não deveria ser tão fácil.
Draco deu mais um passo, parando a sua frente. Como Draco era mais alto, e estava a dois degraus abaixo de Hermione, estavam nesse momento na mesma altura. Próximo o suficiente para que ela sentisse sua presença. Distante o bastante para não ultrapassar os limites que ela claramente estabelecia.
— Então vamos devagar — disse. — Mas não fuja de mim, Hermione.
Dizer o nome dela daquela forma ainda parecia um risco. Um hábito novo. Um que ele não queria perder.
Ela fechou os olhos por um instante, respirou fundo. Draco prendeu a própria respiração sem perceber.
— Tudo bem. Eu vou tentar.
E, naquele momento, Draco soube: não era uma promessa vazia.
Eles se despediram com um olhar cheio de carinho e cuidado. Hermione sorriu delicadamente a ele, enquanto Draco subia em sua vassoura e retornava para o salão comunal da Sonserina.
Naquela noite, Draco demorou mais do que o normal para adormecer.
O dormitório da Sonserina estava silencioso, exceto pela respiração ritmada dos outros garotos. Ele permanecia deitado de costas, encarando o teto escuro, como se ali pudesse encontrar respostas. Não encontrou.
“Eu vou tentar.”
A frase ecoava em sua mente com uma clareza irritante. Não havia sido uma promessa grandiosa, nem uma declaração. Ainda assim, Draco sentia que aquelas palavras pesavam mais do que qualquer jura impensada.
Ela não havia fugido. Também não havia se aproximado mais. E, de alguma forma, isso o afetava profundamente.
Draco virou de lado, apertando o travesseiro com mais força do que pretendia. Nunca foi do tipo que pensava em sentimentos — preferia agir, provocar. Mas Hermione Granger não jogava conforme regras simples. Ela pensava. Sentia. Media as consequências.
E ele… ele esperava. O que era novo. Incômodo. Quando finalmente pegou no sono, foi com a estranha certeza de que nada daquilo ficaria restrito àquela tarde na arquibancada.
E estava certo.
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Hogsmeade estava movimentada naquela manhã. Risadas ecoavam pelas ruas cobertas de neve fina, alunos entravam e saíam das lojas, despreocupados, aproveitando a rara sensação de normalidade.
Draco caminhava ao lado de alguns colegas da Sonserina, mas não prestava atenção na conversa. Seu olhar vagava por todos os lados, até parar.
Hermione Granger estava ali.
E ela caminhava ao lado de Weasley. Sozinhos.
Rony dizia algo animado, gesticulando demais, como sempre. Hermione ria, inclinando levemente a cabeça, o cachecol vermelho frouxo demais para o frio. Draco notou coisas que jamais teria notado antes: o jeito como ela diminuía o passo para acompanhar o amigo, a forma como escutava com atenção genuína.
Algo se revirou em seu estômago. Ciúmes foi a palavra que tentou evitar.
Ele parou por um instante, ignorando quando alguém o chamou. Seus olhos seguiram os dois até entrarem em uma das lojas da vila. Draco sentiu o maxilar tensionar, o corpo inteiro reagindo como se tivesse sido desafiado — e, talvez, tivesse.
Não havia lógica. Ele sabia disso. Rony era amigo dela. Nada ali estava errado.
Mesmo assim, a imagem dela rindo ao lado de outro garoto — daquele garoto — incomodava mais do que qualquer azaração jamais o incomodara.
Draco respirou fundo, desviando o olhar à força.
Perigoso, Hermione havia dito.
Naquele momento, ele finalmente entendeu o que ela queria dizer.
E soube, com uma clareza desconfortável, que não seria fácil fingir indiferença dali em diante.
No entanto, qualquer perigo, qualquer sentimento foi posto de lado quando a viu sair da loja com Weasley.
—Foda-se.
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Pov. Hermione
Hermione saía da loja ao lado de Rony quando sentiu algo estranho.
Não era barulho, nem frio. Era aquela sensação incômoda de estar sendo observada. Seus olhos percorreram a rua quase por instinto — e então o viu.
Draco Malfoy estava alguns metros à frente, parado, os ombros tensos demais para alguém que fingia desinteresse. O olhar cinza passou por ela por um segundo — rápido, intenso — antes de descer até Rony.
O ar mudou.
— Olha só — disse Draco, a voz carregada de desprezo — Weasleyzinho conseguiu companhia hoje.
Rony virou-se imediatamente.
— Vai procurar confusão em outro lugar, Malfoy.
Draco soltou um riso curto, sem humor. Não respondeu. Apenas cruzou por eles, passando perto demais de propósito.
Hermione sentiu.
Sentiu o vento do movimento brusco, o perfume conhecido, a tensão quase palpável no corpo dele. Draco não olhou para ela — mas o maxilar travado, o passo rígido, diziam tudo.
Ele estava irritado. Ele estava incomodado.
— Insuportável — murmurou Rony, balançando a cabeça. — Não sei como alguém aguenta.
Hermione não respondeu.
Ficou alguns segundos parada, observando Draco se afastar pela rua movimentada, o sobretudo escuro balançando conforme ele se afastava rápido demais para quem queria parecer indiferente.
Aquilo não foi normal. Não foi apenas uma provocação.
Ela já conhecia Draco o suficiente agora para saber: ele não teria reagido assim sem motivo.
— Hermione? — chamou Rony.
Ela piscou, voltando à realidade.
— Desculpa — respondeu, baixo. — Vamos.
Mas enquanto caminhava ao lado do amigo, Hermione sentia o coração inquieto.
Porque, pela primeira vez, a ideia lhe ocorreu com clareza perturbadora:
Draco Malfoy estaria com ciúmes?
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Naquele mesmo dia, mais tarde, durante o jantar, eles trocaram olhares carregados de mágoas e sentimentos não ditos.
Hermione desviou de alguns deles, não entendendo o que fez Draco parecer novamente com sua antiga personalidade, ele não a insultou diretamente, mas provocou Rony, com raiva e ironia.
Isso a deixou muito confusa.
Em um dos olhares lançados à mesa da Sonserina, ela viu Astoria Greengrass se aproximar e sentando ao lado de Draco, dando um beijo em sua bochecha e buscando, de forma insistente, a atenção do garoto, que por um momento desvia o olhar de Hermione para cumprimentá-la. Após, retorna conversar com Blaise.
Hermione foi tomada por um sentimento horrível — aquele que insistia em negar ser ciúmes.
Enquanto isso, Harry observava Hermione desde que haviam se sentado à mesa. Ela mal tocava a comida, e seus olhos pareciam sempre escapar para o mesmo lugar — a mesa da Sonserina.
— Hermione — chamou ele, baixo, inclinando-se na direção dela. — Tá tudo bem?
Ela piscou, como se despertasse de um pensamento distante.
— Tá, sim — respondeu, mas a voz saiu menos convincente do que pretendia.
Harry franziu levemente a testa.
— Você anda estranha. Distraída. — Ele hesitou por um instante. — E eu vi uns olhares. Você sabe que pode me contar o que quiser, não sabe?
Hermione respirou fundo. Por um momento, pareceu ponderar se deveria negar outra vez. Então, cedeu.
— Não é nada demais — começou, mantendo a voz baixa. — Só… aconteceu uma aproximação inesperada.
Harry arqueou uma sobrancelha.
— Inesperada como?
— Draco Malfoy. — O nome saiu rápido, quase como se quisesse se livrar dele.
Harry ficou em silêncio por um segundo.
— Malfoy? — repetiu, surpreso, mas não agressivo. — Desde quando?
— Desde o trabalho de Runas — respondeu. — Conversas, alguns encontros… nada demais. Eu estou tendo cuidado.
Harry passou a mão pelos cabelos, claramente processando.
— Isso explica muita coisa — murmurou. — Eu achei que fosse loucura minha quando vi um origami voando da classe dele para sua.
— Eu sei como soa — Hermione apressou-se em dizer. — Mas ele não é… como antes. E eu não estou fazendo nada sem pensar.
Harry a encarou com seriedade, o tom protetor surgindo naturalmente.
— Hermione, você é como uma irmã pra mim. Eu confio em você. — Ele fez uma pausa. — Mas eu não confio nele.
— Eu entendo — ela respondeu, sincera. — Por isso estou indo devagar. Se em algum momento eu achar que isso vai me machucar… eu paro.
Harry assentiu lentamente.
— Tá bom. Só promete que você não vai pensar duas vezes antes de me contar se acontecer alguma coisa.
— Prometo.
Pouco depois, Harry e Rony subiram primeiro para o salão comunal. Hermione caminhou ao lado de Gina, sentindo o peso da conversa ainda pulsar no peito. Antes de sair do salão, lançou um último olhar rápido — quase indiferente — para a mesa da Sonserina.
Draco percebeu.
Ela virou o rosto e seguiu sem olhar para trás. Não queria novamente ver os cabelos loiros e longos e o olhar enjoativo de Astoria. Nem mesmo os olhos cinzas que se encontravam perdidos ao lado dela.
Assim que se afastaram o suficiente, Hermione contou a Gina sobre o episódio de Hogsmeed que a deixou muito confusa, assim como sobre a recente conversa com Harry.
— Eu contei pra ele. — Hermione suspirou.
— E? — Gina perguntou, curiosa.
— Ele confia em mim. Mas está preocupado.
Gina sorriu de canto.
— Como qualquer bom amigo faria. — Então completou, com convicção: — E Malfoy? Estava com ciúmes. Absolutamente.
Hermione mordeu o lábio.
— Você acha?
— Tenho certeza — Gina afirmou. — Ninguém olha daquele jeito que você falou por acaso.
Hermione não respondeu, mas o aperto no peito dizia tudo.
Hermione não respondeu, mas o aperto em seu peito dizia tudo. Enquanto as duas caminhavam em direção ao salão comunal, foram interrompidas no meio da conversa por uma voz conhecida:
— Hermione, podemos conversar?
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