Incompreendidos
1 Fadado a fracassar
Um rapaz de cabelos esverdeados fora chamado à sala dos professores. Já sabendo do que se tratava, levantou-se de sua carteira sem questionar. Os colegas ficaram curiosos com o que podia ser, mas a expressão de Zoro era de total indiferença. Ele sabia que só teria que ver aquele professor estúpido dizer na sua cara que estava fadado a fracassar.
E foi o que aconteceu, o professor responsável por sua turma dava-lhe uma bronca imbuída num falso moralismo, com citações até mesmo de versículos da Bíblia. Ele disse a Zoro que suas notas estavam muito baixas para ingressar numa universidade e perguntou se tinha interesse em algo.
Mas Zoro disse que não.
O professor achou a resposta imprudente, quando respondera tão rápido sua pergunta. Contudo, Zoro já havia pensado muito no assunto e respondeu brevemente por já ter decidido que não teria uma profissão.
— Olha, sinto lhe dizer que ninguém se torna alguém sem estudar e trabalhar, ao menos que esteja escondendo algo. O que pretende fazer, então? Ser gari?
— Comer sua mãe.
Depois da afronta, Zoro foi mandado a limpar a sala do clube de audiovisual, que estava desativado e com o tempo acumulou pó e traças. O clube voltaria a funcionar e as mulheres responsáveis pela limpeza ainda não haviam limpado.
Ao entrar na sala, espirrou forte e cada vez mais que adentrava, tossia por conta da poeira. Olhou em volta, estantes eram tomadas por fitas de filmes, super 8 ou não, cartuchos, poliésteres... se alguém derrubasse um cigarro nessa sala, causaria um grande incêndio na escola e quem sabe assim voltaria mais cedo pra casa. No entanto, enquanto abria as cortinas para entrar um pouco de luz, ouviu a porta da sala sendo aberta e fechada. Não demorou para uma voz maçante ser revelada, uma que xingava muito... o mofo. Xingava até demais. Zoro resolveu passar pelo labirinto das estantes para se encontrar com o boca-suja.
Era um estudante magro, loiro e uma franja deslizava para o lado esquerdo do rosto. Mas, definitivamente, fora a sobrancelha enrolada que chamou a atenção de Zoro. O rapaz misterioso tirou o terno da escola e afrouxou o nó da gravata vermelha. Depois acendeu um cigarro.
— Não se importa, né? — Se referia ao cigarro.
— Não, mas quem é você?
— Sanji. — Respondeu depois de assoprar para o alto a fumaça do tabaco. Além do cheiro de mofo, havia também o de cigarro naquela minúscula sala. — E você?
— Zoro.
Não entendia por que, mas o sobrancelhudo atraía seus olhos castanhos. Fazia tempo que não conhecia alguém que o deixasse curioso daquela forma, e não tinha como não se encantar por ele. Sanji não era belo, na verdade, aparentava ter mais idade do que realmente tinha. Talvez fosse o cigarro que lhe dava essa sensação... e por falar no cigarro, o loiro ficava estiloso com um em mãos, enquanto apoiava o peso do corpo na borda da mesa.
— Marimo, por que está aqui?
“Marimo.” — Ouvira certo? A decepção por ter pensado que ele seria legal, veio pesada.
— Estou de castigo, tenho que limpar esse quarto e seu cigarro está fazendo o ar ficar mais fedido que antes, sobrancelha enrolada. — Respondeu com ênfase no apelido que criara para aquele estudante metidinho.
Sanji arqueou sua tal sobrancelha enrolada e por um instante pensou em se jogar no marimo idiota, mas apenas respirou fundo e apagou o cigarro. Não queria mais arrumar confusão, Zoro achou sua atitude nobre, quando presenciou de perto o seu esforço para controlar os impulsos vindo quente em suas veias. — Por que está de castigo?
— Falei que comeria a mãe do meu tutor.
— Na cara dele?
— Sim... — Não se orgulhava muito disso, Zoro realmente passou dos limites e se exaltou um “pouco”. — É porque ele falava do meu futuro... e não consegui me segurar...
— Tudo bem, não precisa justificar. Quem sou eu pra te julgar? Estava há pouco tempo fumando.
Zoro voltava a achar Sanji legal. — E você? Está de castigo também?
— Sim, mandei meu tutor chupar meu pau.
Após essa fala, a carranca de Zoro se desfez e ele se permitiu a rir. Ria tanto e fazia um tempo que não se sentia assim. Sanji resolveu rir também, não queria ficar sobrando e o sorriso do marimo era muito bonito, embora risse por um motivo idiota. Uma senhora interrompeu as risadas e lhes entregou os materiais, como a vassoura e o pano, para limpar a sala.
Terminaram e retornaram para suas respectivas turmas. No horário da saída, Zoro passava os olhos em volta, em cada aluno que transitava na área do portão, só pra ver se via algum loiro esguio e sobrancelhudo. Seu amigo Usopp, que estava ao seu lado, estranhava suas ações.
— Zoro, por quem está procurando?
— Ah... por ninguém! — Coçava a nuca constrangido, estava tão focado em encontrar Sanji que deixou transparecer. E por que Usopp tinha que ser tão observador? O idiota até mesmo desenhava coisas que só viu por três minutos!
Usopp era um amigo de infância de Zoro, era negro e tinha um longo nariz, estudava na mesma classe que a dele e costumava buscá-lo e levá-lo pra casa, pois o esverdeado se perdia constantemente no caminho de casa para escola.
— Ok. — Provavelmente perguntaria por isso novamente mais tarde.
Havia um beco que os dois atravessavam — embora vissem coisas suspeitas que aterrorizavam Usopp e fazer uma promessa por nunca mais passar por ele — para cortar caminho. E cortava um bom caminho, preguiçoso como Zoro era, fazia questão de lembrar ao amigo para guiá-lo até aquela rota. E foi durante a passagem por esse beco, que Usopp viu a coisa mais assustadora do mundo ou pelo menos do beco: um zumbi saía da caçamba de lixo.
O pobre rapaz deu um grito estridente, pegando no braço forte de Zoro, que também se assustou até reconhecer finalmente o zumbi.
— Sobrancelha enrolada?
— Marimo?
Os dois observavam um ao outro perplexos, enquanto a casca de banana no topo da cabeça de Sanji caía para o lado. Usopp não gritava mais, e corria os olhos entre os dois mais duros que rapadura. Notou que o suposto zumbi usava o uniforme da escola, mas era confuso pensar que Zoro conhecia outro aluno, além dele.
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