Incômodo

1 Incômodo


Pinga pinga
Torneira mal fechada, que atrapalha meu sono de madrugada até que meus ouvidos se acostumem com a barulhenta pia vazada

Pinga pinga
De pouco em pouco meu sono corre solto, feito louco, por todo o porto

Pinga pinga
Cada vez mais alto. Lá de fora, do asfalto, ouço esse tilintar desesperado, enquanto aperto meu passo atrasado

Pinga pinga
Em minha nuca, em meus olhos, em minha cútis, em minha consciência. Escorre pelas mãos cerradas de inconsequência

Pinga
Escarlate filete viscoso, do vidro para o chão

Pinga
Se acumula no cimento, manchada vazão

Pinga
Faz rios de memórias vermelhas que banham meus pés

Pinga
Cristalina chuva se mistura no lago de vinho sem fé

Pinga pinga
Molha meus joelhos dobrados, em frente ao álbum sagrado que reúne momentos marcados de dias brilhantes

Pinga pinga
Nas folhas transparentes com lembranças reluzentes e inconsequetes; banha meus dedos e semblante

Pinga pinga
Leva-me

Pinga pinga
Espera-me

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