Era noite de plenilúnio quase eterna. Aquela incansável miríade de estrelas dançavam conforme as brisas, inclinando-se suavemente e exibindo seu brilho, quase cegando os que ousavam olhar para cima. Em contraste com a luminescência falsa da Lua, o chão lodoso sob tal magnificência se orgulhava da lama. Entre esses dois mundos havia a figura amorfa de um leão que rugia incansavelmente para morros e docas, aves e peixes. Isto era motivo de enervantes sensações entre os outros animais, mas o felino não ligava. Saía à noite para derramar maus presságios e sangue.

Nesta noite de lua cheia, o leão pisou numa pedra alta e forte, anunciando através de sons horrendos que ele havia chegado. Era o pânico, o terror. Ingênuos os que ficavam em seu caminho, no outro dia eram encontrados mortos sobre as raízes das árvores ou leitos dos rios. Porém, o que ninguém sabia, era que os primeiros raios de Sol tornavam esta fera pavorosa em homem. Não havia um dia sequer que não acordasse ensanguentado, sem se lembrar de nada. Era robusto, forte, de cabelos loiros e olhar assassino como sua criatura interior.

A única coisa que se lembrava era de seu amor secreto por Enics. Uma jovem dona dos cabelos que ele acreditava ser o invólucro natural das rosas. Sua pele era tão branca quanto neve e suas curvas acentuavam qualquer pintura de qualquer deus. Seu olhar era lânguido, inocente e calmo como de qualquer criança.

Ela costumava banhar-se no lago por horas, o dia inteiro até, e ele a observava delicada e minuciosamente, como uma escultura entalhada por Afrodite. Não a olhava com nenhum tipo de volúpia maliciosa, apenas apreciava o belo. Mas se retirava sempre que o Sol se deitava e a pérola descomunal invadia seus céus.

E assim, após muitas noites de transformações tétricas, caça às presas e esquecimento, percebeu que sua amada jamais voltou para se banhar no lago. Contudo, próximo a uma das árvores que circundavam o lago, estava o corpo de um animal puro e esbelto, cujo pescoço fora arranhado profundamente, a cabeça amassada, as asas e barriga mordidas como se tivessem sido sacudidas com veemência absurda e o bico teve sua cor, outrora alaranjada, desbotada. Pobre cisne, tão indefeso.

E, ao se aproximar, o homem percebeu que a luz do Sol atravessava serelepe e acanhada as copas altas e densas das árvores e começara a tocar o corpo do animal morto e despenado que se transformava em uma bela jovem de cabelos e peles marcantes. O rapaz ficou incrédulo, desnorteado, cercado de perguntas sobre como aquilo era possível, aquela magia, aquela angústia de ter certeza que a moça, na noite passada cisne, era Enics. Levou as mãos à cabeça e as lágrimas rolaram como notas em um concerto. Gritou. A dor era grande demais.

Passado certo tempo, olhou as feridas com o olhar de um verdadeiro mestre conhecedor de feras e seu pensamento conclusivo foi certeiro. Não tinha dúvidas de que o que a matou era um bicho feroz, valente, selvagem e sedento, pois ainda nas feridas abertas encontravam-se os pelos de sua juba. Sem perder tempo, exclamou em ira:

–Te acharei, oh, maldito leão que vaga pela noite, solitário! Se arrependerá de ter matado Enics, que era um ser encantado pela noite. Não descansarei enquanto não levar comigo suas presas em uma mão e seu coração em outra!

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