Inatingível

1 Capítulo 1: Sem chances


Durante um regime político rígido, no Canadá, muitos esportes foram banidos e tornaram-se ilegais. O programa contra a violência esportiva teve início em 2016 e visava ampliar os resultados da nova lei contra crimes, desencorajando práticas violentas em competições. Apesar disso, muitos homens se arriscam em lutas clandestinas, mais especificamente nos subúrbios. Entretanto, o que chamou a atenção da pequena cidade de Boucherville, localizada no estado do Quebec, foi a determinação de um garoto que sonhava em se tornar um profissional do boxe. Sonho que, obviamente, seria esmagado pelo governo.

Pelos becos, nos fins de tarde, normalmente encontrava-se Andrew Garcia, 17 anos; garoto durão mas com problemas de auto-estima e depressão. Enfrentava todos os garotos metidos a valentões da cidade — e nem sempre saía inteiro das brigas. Costumava voltar para casa com as mãos esfoladas, o rosto inchado e as roupas sujas de sangue; sua pele clara denunciava os hematomas e arranhões que sofria. Seus olhos azulados, muito claros, estavam sempre ofuscados pelo inchaço ao redor, devido aos golpes que levava na região. Seus atos desapontavam o irmão mais velho, Alexander. Órfãos de pai e mãe — a mãe faleceu devido a um câncer no pulmão, já o pai, vítima de um assalto que acabou em tragédia -, tentam se manter vivendo humilde e honestamente com o salário de Alexander, que trabalha como carpinteiro. O irmão mais velho é sempre visto com um sorriso em seu rosto pálido, cercado por uma barba rala e tem os olhos no mesmo tom azulado do irmão. Aos 25 anos mede cerca de 1,79m — pouco mais que o irmão mais novo, que chega aos 1,74m de altura. A genética dos irmãos era formada por uma mistura de sangue alemão com brasileiro. O pai nasceu e cresceu no Brasil. A mãe viveu na Alemanha quase sua vida inteira, até ir estudar no Canadá, onde encontrou seu futuro marido no campeonato mundial de boxe.

Cresciam os boatos de que os espetáculos profissionais de boxe seriam legalizados, devido a muita discussão nas assembléias do governo. Sem precisar pedir duas vezes, Andrew começou a treinar com Alexander. O irmão mais velho aprendeu a lutar com um respeitado pugilista: seu pai, que o ensinou não só a ser um lutador, mas um homem de caráter, munido com a ética e os valores morais de um bom cidadão. Apesar de ainda ser contra a lei, Alexander incentivou e ajudou Andrew. Começou a organizar e arranjar algumas lutas amadoras para o irmão caçula, até o garoto pegar o jeito da coisa.

Conforme Andrew melhorava seu desempenho, Alexander buscava exigir nada menos do que o máximo em seus treinamentos, visando o potencial que o irmão tinha. O garoto era ágil e veloz, golpeava com paixão, só podia ser o DNA do pai fervendo em suas veias. Costumava sempre motivar o irmão a seguir lutando, apesar das derrotas duras que sofria. Andrew costumava fraquejar muito depois de uma derrota, por seus problemas psicológicos, ficava tão deprimido que poderia dormir durante dias. Nesses momentos Alexander era essencial, alimentando sua mente com seu apoio, até que Andrew se sentisse confiante de novo. Colocava a mão nos cabelos loiros e rebeldes de Andrew, esfregando carinhosamente, dizendo que tudo iria ficar bem; Andrew sempre acreditava no irmão. Porém, no fim de novembro de 2019 Alexander sofreu um grave acidente de trabalho que o deixou em coma por dias, hospitalizado por semanas e em recuperação por mais algum tempo.

Na falta do irmão, Andrew começou a sentir o peso de seu próprio subconsciente e sua motivação começou a fazer falta. Seu rendimento decaiu, perdeu as lutas que tinha marcado e se aprofundou em sua depressão. Sentindo que não tinha mais nada a perder, decidiu participar de lutas de rua com caras mais velhos para arrumar algum dinheiro e ajudar no tratamento do irmão. Em um dos dias que chegou em casa depois de lutar, encontrou Alexander no sofá, após ter recebido alta do hospital. Andrew estava caindo aos pedaços. Conseguia estar pior que Alexander.

– Andy, o que houve?– tentava dialogar, mas o irmão ignorava.

– Andy! Você se meteu com os garotos de novo? Sabe que isso não é conduta de um profissional. Quer arruinar suas chances de se tornar um campeão? Me responde! O que pensa que está fazendo?

– Para! Eu participei de umas lutas de rua pra arranjar dinheiro pro seu tratamento. Só isso!– nervoso, Andrew respondeu com o tom de voz elevado. Durante alguns segundos, houve silêncio, exceto por alguns murmuros dos vizinhos que comentavam sobre o que estavam ouvindo e os cães latindo pela vizinhança. Alexander tentou se acalmar, enquanto Andrew largou algumas notas de cinquenta dólares em cima da mesa da sala.

– Mas que droga, Andy, você não precisava fazer nada disso! Tá aí se matando por pouca coisa, seu imbecil.– Alexander ainda parecia irritado.

– Tá me culpando por tentar ajudar? Que droga, cara, eu não sou criança! E olha só, o garotão do papai. Grande orgulho que ele deve ter de você com esses ossos quebrados, em um emprego ridículo!

– Olha a boca, pirralho! Não seja imaturo.– Alexander se levantou com um pouco de dificuldade.

– Mas é verdade, você se tornou um babaca. Não serve nem de exemplo pro seu irmão mais novo. Não seguiu seus sonhos, desistiu de tudo. Eu sou um ninguém, não tenho nada a perder. Você também é um, todo inválido agora, provavelmente quase falido. A única diferença entre nós é que eu não fui criado na sombra do pai. Não tive sempre o conforto das asas do papai coruja. Essa é a realidade, mano!– Andrew desabafou de maneira hostil, claramente seu estado psicológico estava um caos.

Poucos segundos após terminar de falar, estava no chão com seu maxilar dolorido. Alexander lhe deu um soco tão forte que o derrubou, mas caiu junto, pela falta de força nas pernas. Depois de sua explosão de raiva e frustração, não conteve as lágrimas. Com a mão sobre as costelas fraturadas, sentado no chão e escorado no sofá, disse:

– Você não é um ninguém! Cara... Tudo que fiz nessa porcaria de vida foi sofrer. Eu vi nossa mãe morrer quando você era um bebê. Foi difícil de seguir em frente. Depois, nosso pai foi morto quando voltava da farmácia. Adivinha o que ele tinha ido fazer? Comprar remédios pra você. Morreu como um mero operário de obras, como se fosse insignificante. Uma semana antes ele me disse que um dia eu tomaria conta de você e esse seria o maior orgulho dele. Ninguém tem o direito de dizer que você é um ninguém, cara. Nem você mesmo! Eu não vou deixar você se auto-destruir. Eu desisti de tudo sim, mas por um bom motivo: meu irmão. Cuidar da família é a coisa mais importante que o pai me ensinou. E agora, você não vai arruinar meu sonho de novo. Eu quero te ver nos ringues, descendo a porrada em cada um daqueles que tentarem te mandar pro chão. E eu vou estar lá pra te apoiar. Eu depositei meus sonhos em você...– Andrew calou-se e engoliu um choro preso após a resposta do irmão, levantou-se sem olhar em seus olhos e saiu de casa.

Andrew não apareceu em casa durante alguns dias, deixando seu irmão preocupado. Não havia notícia alguma do paradeiro de Andrew, então Alexander ainda se recuperando, buscou procurar o irmão no meio de cada bar da cidade. Conseguiu informações sobre as lutas de rua, e chegou a questionar até alguns participantes dos desafios e um apostador. O apostador, em troca de certa quantia, disse:

– Olha, talvez você esteja atrás do Ligeirinho. O moleque magro e branquelo? Loiro e com olhos claros? Sim, sim. Ele é o xodó dos cachorros grandes no ramo da luta clandestina. Embora eu tenha apostado contra ele, devo admitir, o rapazinho tem talento. Ele andou se envolvendo com o Big Billy e a turma dele; cê pode encontrar eles no antigo depósito da transportadora LifeQuick. Soube que rola tráfico naquela área. Abre o olho.– o sujeito com um dente de prata, que contava o dinheiro, usava anéis baratos nos dedos e tinha uma mancha de óleo na camisa branca que era coberta por uma jaqueta de couro. Parecia um péssimo investidor, provavelmente um mecânico viciado em apostas.

Alexander foi atrás do tal Big Billy em busca de informações sobre o irmão e acabou descobrindo que o caçula estava em outra cidade, lutando por um bando de mexicanos trapaceiros que o contrataram contra sua vontade. Havia sido enganado, levado por um caminho perigoso. Alexander se viu obrigado a pedir ajuda de um tio, o único parente que morava na cidade, chamado Steve. O velho com seus 65 anos era durão, serviu no exército, mas tinha problemas com alcoolismo e por conta disso vivia desempregado.

Na caminhonete, enquanto Alexander dirigia até a cidade vizinha, Steve conversava com seu sobrinho:

– Andrew está com problemas há quanto tempo? Por que não me procurou antes, Alex?

– Ah, o senhor sabe, tio. Ele sempre teve aqueles problemas de auto-estima. Dessa vez, sem eu pra apoiar ele, ele desabou. Não tinha estruturas pra aguentar tanta pressão, sabe, com todo esse negócio do boxe ser ilegal. A morte do pai ainda pesa nele também.– respondeu Alexander enquanto mexia no rádio.

– Seu pai foi o maior homem que conheci, mas antes de morrer ele deixou dois sucessores. Vocês foram e sempre serão o orgulho dele. Ele deve estar se revirando no túmulo, com toda essa situação do Andrew estar em perigo...

– Olha só, tio. Eu já não tô muito confiante de que o moleque ainda tá inteiro e o senhor não tá ajudando.– desistiu de procurar sinal no rádio velho, ajeitando-se no banco, apesar do desconforto estar nos pensamentos.

– Meu filho, fique tranquilo. Andrew está bem, tenho certeza. Vamos chegar lá e chutar o traseiro daqueles marginais mexicanos. Se precisar, vão levar chumbo.– disse o velho empolgado, enquanto puxava um rifle de caça do banco de trás e o engatilhava, com o cano próximo ao rosto de Alexander.

– Vira isso pra lá, velho maluco!– Alexander fez o veículo andar em zig-zag, assustado, enquanto empurrava a arma pro lado.

– Filho, esse rifle está mais empoeirado do que eu. A ferrugem já corroeu todas as partes possíveis. Se ela disparar um dia, pode ter certeza que se desmonta em seguida...– o velho soltou suas gargalhadas roucas com intervalos para tossir. Alexander riu junto, pela situação do susto.

Ao chegar na cidade vizinha, rodou mais um pouco, até encontrar o galpão onde supostamente aconteciam as brigas. Deu as instruções ao tio, para que esperasse ali fora, caso algo desse errado e precisassem fugir. Entrou no meio daqueles homens bêbados e procurou Andrew. O galpão era sujo e bagunçado; no fundo, estavam sentados os manda-chuvas com alguns companheiros de cara feia. Conseguiu empurrar os espectadores, abrindo caminho até chegar à frente do círculo, onde estava acontecendo a luta. Andrew, seu irmão mais novo, enfrentava um homem que tinha duas vezes o seu tamanho — em cada braço.

Andrew estava assustado, já tinha seu rosto todo machucado de lutas anteriores, suas mãos esfoladas e hematomas pelo corpo. Enxergou o irmão, se distraindo, o que lhe deu mais um olho roxo. O grandão lhe atingiu como se fosse um trem atropelando um coiote. Porém, o chamado "Hércules", sentiu um impacto tão forte nas costelas que abalou sua estrutura avantajada. Alexander invadiu o combate, lhe atingindo um poderoso cruzado na lateral do tórax. Os espectadores vaiavam e jogavam todo tipo de lixo nele.

– Saia daí, seu estraga prazeres!– gritou um.

– Outro que quer virar patê! Não dura um minuto!– esse aparentemente era um torcedor de Hércules.

– Quem quer apostar no invasor? Eu ouvi cinquenta pratas? Opa, o circo tá pegando fogo!– empolgado, um apostador tentava se dar bem.

O homem que parecia um touro furioso, descontou sua raiva em golpes pesados e esmagadores contra Alexander; todos em vão. Alexander permanecia ileso graças às esquivas que faziam jus ao seu apelido de escola: "Relâmpago". Era tão rápido que contra-atacava com potentes cruzados e diretos, os quais Hércules sequer podia prever. Andrew admirava o irmão, chocado e ao mesmo tempo feliz; caído no chão com os olhos fixados na luta, não sabia o que fazer.

Não demorou muito para Alexander mandar Hércules para o chão, desnorteado. Apesar de não ter se recuperado ainda, continuou fazendo de tudo para proteger o irmão. Os homens irritados, querendo linchar os irmãos, cercavam-nos. O chefe da "festa" gritou:

– Ao que derrubá-lo, darei setenta dólares!

Os homens iam caindo como peças de dominó. Mais parecia um show estrelado por Alexander Garcia, um humilde carpinteiro com um punho de aço. Alexander exausto, ainda permanecia de pé após muitas pancadas. Nenhum dos vinte e tantos homens pôde derrubá-lo. O mexicano irado, ordenou-lhes que acabassem com ele.

– Andrew, sai daqui. Corre!– Alexander puxou seu irmão pelo braço e empurrou-o para longe da confusão. Os homens que sobravam, estavam armados com pés-de-cabra e ferramentas do galpão. Alexander cercado, resistia, mas os golpes eram cruéis. Já não tinha mais por onde sangrar.

Alexander já não aguentava mais quando ouviu um disparo e uma voz rouca "colocando ordem no galinheiro". Os homens pararam, soltaram suas armas e afastaram-se de Alexander que estava caído de joelhos, cobrindo a cabeça com os braços.

– O próximo que encostar nos meus meninos, leva chumbo grosso. Se alguém se mexer, vai conhecer Jesus mais cedo, pessoalmente.– Steve, com seu velho rifle apontado para os desconhecidos, terminou com a confusão. Pegou Alexander, com a ajuda de Andrew e o colocaram no veículo. Os três deixaram o local em sua caminhonete velha, com um ronco de motor sujo e cheio de peças soltas ao redor.

– Você disse que a arma não disparava.– indignado, Alexander resmungava no banco de trás.

– Alex, veja pelo lado bom: ela disparou na hora certa. Preferia que tivesse sido na sua cabeça?– soltou uma risada quase muda.

De volta à sua cidade, Andrew, que não falou uma palavra durante a viagem, foi com Alexander ao pronto-socorro. Os dois foram aconselhados ao repouso. Alexander principalmente, pois sofreu graves danos internos.