Inalcanzable

4 Capítulo 3


Notas iniciais
Está aí mais um capítulo, boa leitura!

POV. Angie

Hoje eu acordei nostálgica. Dia 12 de Fevereiro, meu aniversário. Fiquei lembrando-me dos meus aniversários anteriores, os quais meus pais sempre cantavam um parabéns para mim, com direito até a um bolinho de aniversário. Era simples mas era feliz. Agora não os tenho mais e sinto falta do Diego e do Marco. No entanto, agora eu tenho as meninas. Tem uma semana que as aulas começaram e elas me ajudaram a organizar os estudos e estão tentando ajudar a me acostumar com tudo isso mas admito que não está sendo fácil.

No terceiro dia de aula, quando a simpática professora de Inglês me perguntou algo, eu a deixei falando sozinha de tão absorta em meus pensamentos que eu estava. No fim da aula ela chamou a minha atenção e disse que não queria ter de comunicar algo do tipo ao diretor. Me parece que ela simpatizou comigo, ficava puxando assunto, querendo saber sobre mim. Eu gostei disso, um pouco de atenção às vezes faz bem. Seu nome é Jackie e ela trata a todos muito bem. Em um colégio onde todos parecem estar de cara fechada para você, é sempre bom saber que pode confiar em algumas pessoas. Eu já sabia em quem podia confiar. As meninas estavam sendo maravilhosas comigo. Mas, às vezes, precisava de um momento só para mim.

Eu descobri um lugar nessa escola onde eu pudesse ficar em paz, o terraço do prédio principal. Todos os dias eu venho aqui para pensar, escondido, é claro. É um lugar onde eu posso me sentir livre, em paz, onde os alunos e alguns professores escrotos dessa escola não possam me incomodar e onde nem o Sr. Castillo possa me encontrar... a não ser que ele decida vir até o terraço, mas o que ele faria aqui? Nada, então, eu posso ficar tranquila. O que eu não sabia é que este também é o refúgio de outra pessoa, uma pessoinha. Eu estava completamente perdida em meus pensamentos quando sinto alguém se aproximando e ao olhar para trás, deparo-me com uma garotinha linda. Ela veio caminhando devagar até chegar ao meu lado e sentar-se.

– Oi – Ela disse acanhada.

– Oi – Eu sorri.

– Você é a garota que entrou no auditório daquela maneira e deixou papai bem bravo, não é? – Eu a olhei confusa, pensando em como um homem como aquele poderia ter uma filha tão fofa. Talvez ela não fosse fofa, eu havia acabado de conhecê-la. Ela reparou no meu olhar confuso e continuou: – Desculpa, meu nome é Violetta, eu sou filha do diretor – Ela sorriu – É que estão todos comentando sobre esse ano você estar ferrada por conta do ocorrido... mas não se preocupe, papai não é tão mal assim... e nem foi tão grave. – Ela fez uma cara de quem tentava convencer a si mesma.

– É, eu confesso que eu estou com bastante medo do que vem pela frente, escutei alguns comentários de que ele costuma aporrinhar os alunos que ele não gosta até o fim do ano. Espero que isso não aconteça comigo – Eu sorri e olhei para frente – Não preciso de mais isso para o meu feliz ano — Murmurei sem perceber. Violetta olhou-me.

– Por que? O que aconteceu?

– Ah, é... – Fiquei alguns instantes pensando se deveria falar ou não. – Meus pais morreram há pouco mais de um mês, eu descobri que meu pai, aliás, quem eu pensava ser meu pai, não o é e então passei a ficar com meu pai biológico, que é um perfeito idiota, até vir para cá. E quando chego aqui encontro seu pai – Eu a olhei séria e recebi um olhar pensativo. Eu estava conversando com uma garotinha que eu nem sabia a idade e que, ainda por cima, era a filha do diretor. – Desculpe – Sorri – Quantos anos você tem?

– Eu tenho 11 e você? E qual o seu nome? – Era um pouco pequena para a idade dela.

– Estou fazendo 17 hoje e meu nome é Angeles mas, por você ser muito fofa, pode me chamar de Angie. – Ela sorriu e estendeu a mão para um cumprimento. Sorri, estendi minha mão e a cumprimentei.

– Feliz aniversário e... Não se preocupe com papai, ele tem um bom coração, é sério.

– Tentarei não me preocupar. Mas e você? O que faz aqui?

– Eu venho aqui às vezes para pensar. Algumas garotas ficam me provocando e dizendo coisas sobre o papai que me irritam. Eu sei que ele é daquele jeito mas há um motivo para isso, ele sofreu bastante quando mamãe morreu. Insistem em dizer coisas sobre ele mas ninguém o conhece direito para saber como ele realmente é. – Ao terminar, ela abaixou a cabeça. Em um impulso, eu a abracei. Violetta era, pela maneira como ela falava sobre o pai, tão adulta. Mesmo assim, notava-se de longe que o que ela precisava era carinho e nada mais.

– Por que você não conta para o seu pai? Elas não tem o direito de te tratar mal apenas por você ser filha dele.

– Eu não quero dizer para o papai, elas vão me provocar mais ainda e ele é cheio de coisas da escola para se preocupar.

– De que ano elas são?

– Algumas da minha sala, outras da 7ª série e tem algumas da 8ª também e um garoto do 1º ano – Ela disse ainda abraçada comigo.

– Então da próxima vez que qualquer uma delas te provocar, você me chama, essas pirralhas costumam ter medo de mexer com o pessoal mais velho – Ela afastou-se e sorriu para mim, sorri de volta. Não ia custar-me nada proteger Violetta e eu senti uma vontade grande de fazer isso. – Mas me prometa um coisa – Eu a olhei séria – Não diga ao seu pai que eu venho aqui, tudo bem?

– Tudo bem. Mas o papai sabe sobre esse lugar.

– Sério? – Fiz uma cara desgostosa.

– Sim... Ramalho, o coordenador, é amigo íntimo do papai, é como se fosse um tio para mim, ele que me apresentou esse lugar. Quando me trouxe pela primeira vez, disse que papai e mamãe sempre vinham aqui nos fins de semana, quando não tinha aula. Minha mãe era professora de canto e depois que ela morreu, papai nunca mais subiu aqui. – Eu a olhei séria e a abracei novamente.

– Quanto tempo tem que ela morreu? Deve ser difícil para uma criança ficar sem a mãe!

– Faz 5 anos. Sim, é bem difícil, mas é difícil para todos, não só para mim, olha o meu pai como é. E agora você também sabe como é isso.

– Sim, eu sei – Disse olhando o horizonte. A vista dali era maravilhosa. – Bom, mas agora temos que ir para o refeitório, Violetta – Eu disse afastando-me. Já estava anoitecendo e eu estava com fome.

– Pode me chamar de Vilu – Ela sorriu.

– Tudo bem... Vilu. – Eu sorri de volta.

POV. German

– Oi papai – Disse Vilu enquanto entrava em casa. A casa em que ficamos durante a semana. Quando eu me tornei diretor, a proposta era de que ficássemos aqui até nos fins de semana e eu aceitei, mas quando Maria morreu, eu não podia mais passar todos os dias da semana aqui então, por mais que fosse uma boa casa, eu comprei uma outra para passar os fins de semana.

– Onde a mocinha estava? – Perguntei no momento em que ela veio me abraçar. Já estava escuro lá fora e eu estava pensando onde ela tinha se enfiado.

– Ah, eu estava conversando com uma amiga, papai, hoje é aniversário dela.

– Desde quando você tem amigos? – Violetta era uma garota meiga, poderia ter diversos amiguinhos, mas eu sempre a via caminhando sozinha pelos cantos da escola. Isso cortava o meu coração, se eu pudesse passaria o dia inteiro com ela. Ela suspirou pelo que eu havia dito. – Quem é?

– Ah papai, é a garota nova que entrou no auditório aquele dia! – Ela disse sorrindo e eu a olhei, sério.

– Ela não é bem mais velha do que você para ser sua amiga?

– Não... e, por um acaso, para ser amigo de alguém tem idade certa? – Não, mas para ter um relacionamento sim. Mas quem é que falou a respeito de relacionamento, German? Por que eu pensei isso?

– Hm... Não.

– E para falar a verdade, eu a conheci hoje. Mas ela é gente boa, papai, não se preocupe. Ela jamais seria má comigo.

– E como você tem tanta certeza?

– Eu acho que ela está tão concentrada superando os problemas dela que não teria tempo para me fazer algum mal. – Violetta disse sorrindo e sentando-se ao meu lado no sofá.

– Que problemas? – Eu não contive a minha curiosidade e Vilu surpreendeu-se com minha pergunta. – Eu preciso saber ué, sou o diretor e os problemas dela podem influenciar o comportamento nas aulas. – Esse não era o real motivo, apesar de ser verdade. O real motivo era que, desde que nos conhecemos, eu fiquei curioso a respeito daquela garota, ela me intriga e eu preciso saber o porquê.

– Ah sim... Bom, recentemente ela perdeu os pais, descobriu que o pai dela não era o pai dela mesmo e passou a morar com o pai dela mesmo até antes de vir para cá.

– Hm...

Então era isso, ela tinha sofrido muito, ainda estava sofrendo, e quando eu encarei seus olhos, de alguma forma, eles me disseram que eu não podia ser o German de sempre. Eu sei como é sofrer pela perda de alguém e não desejo isso a ninguém. Era compaixão o que eu sentia, compaixão e nada mais.

Notas finais
No próximo terá Germangie, pessoal!