Inalcanzable
23 Capítulo 21
Notas iniciais
Sobre o capítulo: Não é o último. Estou com dificuldade de finalizar essa parte mas enfim, boa leitura.
10 de Dezembro – Segunda-feira, 01h30
Um homem, todo vestido de preto, enfia um grampo pelo buraco da chave na porta da casa de German e a destranca silenciosamente. Abre a porta com o máximo de cuidado, pega a garota que havia deixado no chão, inconsciente, e entra com ela erguida em seu ombro. A coloca no sofá e vai até um dos quartos da casa, o de Violetta, pressiona um pano com algum produto sobre a boca e o nariz de Violetta, ela abre os olhos e se remexe um pouco mas acaba por perder a consciência. O homem a amarra e a leva até a sala, colocando-a ao lado de Angie no sofá. Em seguida, vai ao quarto de German, faz a mesma coisa com ele e o traz para a sala com dificuldade por conta do peso. Coloca-o sentado ao lado de Violetta. Olha para os três desacordados e abre um sorriso maligno.
– Até parece uma família feliz. – Diz sorrindo com os olhos estreitos.
E então vai para o próximo passo. Acende a luz, retira o telefone do gancho e faz uma ligação.
Ligação On
– Alô. – Um Matias sonolento atende.
– Olá, bela adormecida. – Matias levantou-se rapidamente, reconheceu aquela voz.
– O que você quer?
– Eu quero que você venha até a casa do Castillo, na escola. – Matias estremece pensando o pior.
– Por que? Como você saiu da cadeia?
– Isso não lhe interessa, LaFontaine, se você aparecer aqui em 30 minutos eu libero a garotinha. – Carrara propôs.
– Você não tem compaixão, Carrara? Tem noção do quanto eles já sofreram? – Matias disse colocando uma calça com dificuldade.
– Você não pensou nisso há cinco anos, LaFontaine. – Matias suspira resignado. – Venha logo.
Ligação Off
02h20. Carrara se posiciona atrás da porta à espera de Matias. Angie acorda zonza e tenta se mexer mas percebe que seus pulsos e calcanhares estão amarrados por cordas. Ela olha em volta e vê Violetta e German desacordados e no mesmo estado que ela, depois olha para a porta e estreita os olhos ao ver quem está parado ali.
– O que você vai fazer, seu cretino? – Angie altera-se, Carrara a olha.
– Você já vai saber, garota, fique quieta.
– Solta a Violetta, ela é uma criança, não merece passar por isso. – Carrara ri desdenhosamente.
– Você já saberá o que eu vou fazer com ela, – Angie estremece. “Será que esse verme será capaz de fazer algum mal à Vilu?”, pensa.
De repente, Matias abre a porta e fica boquiaberto ao ver os três sentados no sofá. Dá um passo e acaba recebendo uma leve pancada na cabeça capaz de deixá-lo tonto apenas. O homem rapidamente amarra os pulsos e depois os calcanhares de Matias e o arrasta até uma poltrona ao lado do sofá.
– Solte a Violetta. – Matias murmura.
– Como eu vou soltá-la se ela está desacordada, seu idiota? – Carrara fala com um semblante desdenhoso. – Se bem que você me deu uma ótima ideia. – Angie e Matias entreolham-se e estremecem. Carrara levanta-se e pega Violetta no colo.
– O que você vai fazer com ela? – Angie fala com uma voz afetada pelo medo enquanto Carrara pega Violetta.
– Você está maluco, Carrara? – Matias altera-se e Carrara ri. Ele abre a porta e sai da casa com Violetta nos braços. Caminha até o prédio principal e a tranca na sala do pai.
xxx
– O que ele vai fazer com ela, Matias? – Angie pergunta começando a chorar.
– Calma, Angie, não creio que ele seja capaz de fazer algo com a Violetta, ela vai ficar bem.
Ficaram quietos durante os instantes que se passaram e, então, German acorda atordoado. Olha para o seu lado esquerdo e vê Angie chorando, depois olha para seu lado direito e vê Matias de cabeça baixa e respirando pesadamente.
– O que está acontecendo? – German tenta erguer um dos braços mas percebe que está preso. Angie o olha chorando. – Onde está Violetta?
– German, Carrara a levou, não sei para onde. – Angie diz com uma voz entrecortada. German começa a respirar pesado, se algo acontecesse com Violetta, ele não sabia o que faria.
– Ele não será capaz de fazer nada com a Vilu. – Matias diz olhando-o. German suspira e deixa uma lágrima escorrer. Passam alguns minutos e os três permanecem em silêncio. Angie chorando, Matias com a cabeça baixa e German olhando fixo para o chão. Ele olha para o lado e vê o estado de Angie.
– Calma, meu amor. – German move-se com dificuldade até encostar seu braço ao de Angie, ergue os dois braços formando um arco e aconchega Angie entre seus braços. – Vai ficar tudo bem. – Ele olha para Matias – O que ele quer, Matias?
– Vingança. – Matias murmura. German olha para a frente preocupado e dá um beijo na cabeça da Angie.
– Eu vou te proteger, calma. – Ele sussurra. Carrara entra na casa e vê a cena do casal, dá uma risada sarcástica e aproxima-se.
– Awn, que bonitinho! – Carrara desdenha e German o fulmina com os olhos.
– O que você fez com a Violetta? – German altera-se.
– Não se preocupe, Castillo, eu a tranquei em sua sala. – German suspira, de certa forma, aliviado.
– Agora solte a Angie. – Carrara estreita os olhos e abre um sorriso.
– Não, essa cadela fica. – German o fulmina, retira os braços antes envoltos em Angie e cerra os punhos.
– Não sei porque você a defende, é capaz que ela faça com você o mesmo que a vagabunda da mãe dela fez comigo. – Carrara sempre sentiu um ódio profundo da filha, ele a culpa pela fuga de Angélica.
– NÃO FALA ASSIM DELA, SEU CRETINO. – Angie grita, Carrara começa a rir e aproxima-se de Angie. Prestes a avançar nela, German ergue as duas pernas e dá um chute com força no abdómen de José. Este cai no chão e logo levanta-se, retira um canivete do bolso e o coloca sobre a jugular de German.
– Um corte e vai jorrar sangue por toda a sala... é isso que você quer, Castillo?
– NÃO... NÃO... – Angie grita.
– Cala a boca, vadia. – Carrara dá uma cotovelada fraca na maçã direita de Angie.
– CHEGA – Matias grita, todos o olham. – Chega, Carrara. – Abaixa um pouco o tom. – Eu sei porque estamos aqui. – Matias deixa uma lágrima escorrer. – Você não queria levar a culpa sozinho pelo assassinato da Maria, não é? E agora quer vingança porque nós dois o colocamos na cadeia! – German franze o cenho sem entender, Matias o olha e abaixa a cabeça. Carrara, até então curvado, fica com o corpo reto e cruza os braços olhando para Matias.
– Do que está falando, Matias? – German pergunta.
– Há cinco anos eu conheci Carrara em um bar. O meu ódio por você era crescente, German, e em uma das festas da escola, eu vi você e Maria juntos, aquilo foi o estopim para mim. – Matias o olha, German o olhava com a boca entreaberta e o cenho franzido. – Saí de lá transtornado e entrei no primeiro bar vagabundo que encontrei. – Matias deixa escorrer mais uma lágrima. – Conversamos a noite inteira e ali mesmo, naquele bar, combinamos o sequestro da Maria. – German passa a respirar pesado e um semblante indignado toma conta do seu rosto. – Eu quis voltar atrás, German, eu juro que eu quis. – Matias começa a chorar. – Mas aí eu percebi que era tarde demais, pois... Carrara adquiriu uma determinação maior do que qualquer outra coisa em terminar o serviço. – German passa a olhar fixamente para o chão e seus olhos se enchem de lágrimas. Não conseguia acreditar no que acabara de escutar, aquilo teve o mesmo efeito de uma faca entrando em seu peito.
– Por que? Você dizia amá-la... por que? – German fala com a voz embargada e deixa uma lágrima escorrer. Angie olhava tudo aquilo indignada. Matias abaixa a cabeça e suspira.
– Eu queria que você tivesse uma pequena noção do que foi, para mim, perdê-la. – Matias levanta a cabeça e German o olha, é notável o sofrimento em seu rosto. – O combinado era que ele apenas a sequestrasse, German, mas ele foi muito além. – Matias abaixa a cabeça novamente e continua chorando. – Eu também sofri com a perda dela, eu também quis vingança durante todos estes anos. – Matias balbuciou palavras que para German não tinham efeito algum, a traição era maior do que tudo o que Matias pudesse dizer. – Eu a amava tanto quanto você e a morte dela foi a maior dor que eu tive em toda a minha vida. Eu sofri tanto quanto você, meu amigo.
– Não me chame de amigo, Matias. – German murmura e Matias o olha, algumas lágrimas escorriam por seu rosto. – Eu tive uma grande noção do que foi perder a Maria. – German fala calmamente e abaixa a cabeça. – Você não pensou em mais ninguém além de você. Não pensou em mim e na amizade que um dia tivemos, não pensou em Maria e no que você dizia sentir por ela, não pensou em Violetta e no quão difícil seria para uma criança perder a mãe. – German o olha. – Você tem noção do quanto foi doloroso para mim toda vez que Violetta chorava por causa da mãe? – German faz um pausa. – E agora, por sua causa, quando eu encontro um amor tão ou mais forte quanto o que eu senti pela Maria, eu corro o risco de perdê-la também. – Ele abaixa a cabeça novamente e deixa algumas lágrimas escorrerem.
– Germ... – Matias tenta falar mas é interrompido por palmas. Os três olham para Carrara.
– Linda cena, realmente belíssima. – Carrara desdenha.
– Cala a boca, seu imbecil. – Angie altera-se.
– Olha aqui, garota, mais uma vez que você falar assim comigo, acabo com você. – Carrara diz olhando-a. German abaixa a cabeça novamente e Carrara o olha. – Deixa de ser frouxo, Castillo.
– DEIXA ELE EM PAZ, JOSÉ. – Angia grita e José a fulmina.
Carrara curva-se em frente a Angie e sorri malignamente, inesperadamente dá um tapa na cara dela. Involuntariamente German dá um soco, com os dois punhos fechados e juntos, no abdómen de José, que recua um pouco e sem perceber deixa cair o canivete. Ele puxa German com força e o joga no chão. Matias espera Angie olhá-lo para mostrá-la que o canivete está próximo aos pés dela. Ela pega o canivete e corta a corda que prendia seus calcanhares. Carrara começa a chutar toda a extensão lateral do corpo de German que, em uma tentativa frustrada, se protege. Aproveitando que Carrara está de costas, Angie levanta-se e vai até Matias, corta a corda que prendia os pulsos dele e ele, por sua vez, pega o canivete e faz o mesmo com a corda nos pulsos de Angie. Enquanto Matias desamarra a corda dos calcanhares, Angie pula nas costas de Carrara e tenta enforcá-lo. Ele consegue se soltar dela e a joga no chão, ao lado de German. Carrara ergue uma das pernas, preparando-se para pisar na barriga de Angie, e German gira o corpo, ficando por cima de Angie e recebendo uma pisada forte na região lombar. Ele geme de dor. Carrara ia pisar novamente mas Matias o impede e, enquanto ele trava uma luta com José, Angie aproveita para desamarrar German.
– Vem, vamos sair daqui. – Angie diz ajudando German a se levantar. German nota que Matias está levando uma surra do Carrara.
– Não, sai você e chama a polícia, eu vou ajudá-lo. – German fala baixo e Angie balança a cabeça negando. – Vai, meu amor. – Nesse momento Matias cai no chão quase inconsciente e sem forças para se levantar. – VAI. – German grita para Angie e ela corre para a porta.
– Nenhum de vocês vai sair daqui hoje. – Carrara diz retirando uma arma do cós da calça e atirando na parede para assustá-los. Angie fecha a porta que acabara de abrir. German caminha vagarosamente até ela e a protege com seu corpo.
– Deixe-a sair, Carrara. – German fala.
– Se ela colocar os pés para fora dessa casa, um dos dois vai tomar tiro. – Angie chorava atrás de German.
– O que você quer de nós?
– Eu quero que vocês sofram. – Carrara dá um tiro que acerta o braço direito de German.
– SEU CRETINO. – Angie grita e Carrara ri. Ela faz German retirar a camiseta que usava, a pega e a amarra sobre o buraco da bala.
– Sentem-se no sofá. – Eles caminham até o sofá e Carrara vai até a porta da cozinha. – Se algum de vocês dois tentar sair, o outro vai pagar com a vida. Se os dois tentarem sair, Matias paga. Entenderam né? – Ambos assentiram. Carrara voltou com uma garrafa cheia de álcool. Abriu-a e começou a espalhar pela casa.
– Sabe, Castillo? Você não acha que a minha filha é uma puta muito nova para você comer? – Carrara fala enquanto espalha o álcool pela casa. German levanta-se e cerra os punhos mas é impedido de avançar pois Carrara aponta o cano da arma para ele. – Acalme-se, Castillo, já já tudo isso acaba e eu só os verei novamente no inferno. – Carrara força um sorriso. Termina de jogar o álcool pela casa e os olha. – Acho que isso é o suficiente. – Ele se aproxima da porta, Angie e German se levantam. – Eu trancarei a porta, sabem como é né? Para o caso de tentarem fugir. – Ele abre a porta e acende um fósforo. – Ah, é claro, tomem cuidado com as janelas,... – Angie olha com medo para German. – elas podem emperrar um pouco quando vocês tentarem abri-las. – Carrara sorri e ataca o fósforo no chão, fecha a porta e as chamas rapidamente se espalham. Angie começa a chorar.
– Calma, meu amor, eu vou nos tirar daqui. – German olha em volta e vê as chamas aproximando-se de Matias. Ele vai até Matias e o arrasta até seu quarto, Angie vai atrás. A fumaça já começa a tomar conta da casa e ambos começam a tossir. German tenta abrir a janela de seu quarto e não consegue pois, antes de Matias chegar, Carrara havia colocado "travas" nas janelas. Então German vai ao banheiro, enrola uma toalha nas mãos e volta, dá um soco na janela e consegue quebrá-la. Quando olha para trás, Angie estava deitada na cama, inconsciente, e as chamas já avançavam na porta. Rapidamente, German pega Angie no colo, sai com ela e a deixa a uns 5 metros da casa. Ele volta para o quarto e só consegue ver fumaça. Entra e logo sente a fumaça invadir seus pulmões, deixando-o tonto. Com dificuldade, puxa Matias até a janela. Seus olhos ardiam e estava cada vez mais complicado para respirar. Ele consegue erguer um pouco o corpo de Matias até a altura da janela e praticamente o joga para fora. O joga e se joga. Com a pouca força que possuía arrasta Matias pelo gramado em frente à casa, deixando-o a uns 4 metros da casa. Nesse momento chegam bombeiros e policiais, os quais ele não consegue imaginar de onde vieram mas dá graças a Deus por estarem ali. Então deixa-se cair no gramado e, aos poucos, perde a consciência.
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12 de Dezembro – Quarta-feira
– O senhor teve sorte, Sr. Castillo. O senhor, a senhorita Saramego e o senhor LaFontaine. Pelo contato que tiveram com a fumaça, os três poderiam ter graves problemas nas vias respiratórias ou poderiam até ter morrido. – O médico falou e German assentiu. Estava em um quarto de hospital. – Também retiramos a bala do seu braço. Mais uns dias de descanso e o senhor ficará bem. – O médico caminhou até a porta e abriu-a, Matias estava parado esperando. – O senhor também precisa descansar, LaFontaine.
– Eu o farei mas antes posso dar uma palavrinha com o Castillo? – O médico olhou para German e este assentiu sério. O médico saiu e Matias foi entrando no quarto. Estava tão acabado quanto German. Tinha um dos braços engessado e haviam diversos hematomas em seu rosto.
– O que você quer? – German perguntou. Matias ficou parado, olhando-o.
– Prenderam o Carrara... dessa vez ele não vai escapar. – German assentiu.
– Só isso? – Matias suspirou e abaixou a cabeça.
– Obrigado... por ter me tirado de lá. – Matias o olhou. – Eu no seu lugar não faria a mesma coisa.
– Eu sei que não. – German falou secamente e Matias abaixou a cabeça.
– Eu... Assim que sair daqui, eu vou à polícia... Acho que também mereço pagar por isso. – German suspirou. Matias olhou para German, pressionou levemente os lábios, virou-se e caminhou até a porta.
– LaFontaine... – German o chamou e ele se virou. – Não é necessário que você conte a verdade à polícia. – Matias esboçou um fraco sorriso. – Só que eu não sei se serei capaz de perdoá-lo um dia. – Matias abaixou a cabeça e deixou uma lágrima escorrer, voltou a olhar para German.
– Eu sei que nada do que eu disser vai adiantar mas... é verdade quando eu digo que me arrependo amargamente do que eu fiz e que a morte dela também me doeu – Ele deixou escorrer mais uma lágrima – e muito. – Retirou-se do quarto com a cabeça baixa e deixou um German pensativo. Não sabia se seria capaz de perdoar Matias mas alguma coisa o dizia que o arrependimento dele era real. Afastou estes pensamentos e lembrou-se de Violetta e de Angie, as duas únicas pessoas que ele queria ver agora.
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