Inadimplente One shot

1 Capítulo 1 - Inadimplente


Durante aqueles anos de faculdade, a amizade que cultivamos no último ano do ensino médio — criada no quinto ano do ensino fundamental — cresceu de uma forma que não esperávamos. Parece clichê eu ter dito isso, mas não tenho outras palavras para definir o que aconteceu.

Ele estudava Direito, e eu estudava Ciências Econômicas, ambos no período matutino. Íamos juntos no ônibus todas as manhãs, ele me contando sobre como era seu curso; sempre tentando não se empolgar mas era visível o amor que ele tinha pela carreira jurídica que ia trilhar. Já eu, a cada dia que passava me apaixonava mais pelos números, pela história, pelo que eu poderia fazer para ver o mercado mudar.

Terminamos a faculdade. Começamos os concursos. Estudávamos horas a fio juntos, ora em meu apartamento, ora no dele, ora na biblioteca central, mas o nosso lugar favorito para estudar era sem duvida um café no centro da cidade. Era um lugar pequeno e acolhedor, nada muito sofisticado porém com muita qualidade e um atendimento singular. Descobrimos aquele café juntos, num dia em que procurávamos um lugar para fazer a encadernação de nossos trabalhos acadêmicos. Lembro que era um dia bem frio, e tudo o que eu queria era entrar em algum lugar e tomar alguma bebida quente. Não sei se por sorte ou destino, achamos uma pequena gráfica justamente ao lado desse café, onde ficamos por algumas horas com nossos trabalhos prontos. Ele pediu um expresso, eu pedi um capuccino. E esses ficaram sendo os nossos “o mesmo de sempre” por mais ou menos cinco anos.

E foram nesses cinco anos acompanhados pelos nossos “mesmos de sempre” e vários livros e apostilas que essa nossa amizade cresceu. Aprendi a conviver com o jeito arrogante e implicante dele, e comecei até a achar graça quando ele me chamava de fresca por optar por chá gelado nos dias quentes. E acho que ele aprendeu a lidar com as minhas expressões de desdém quando ele dizia que seria rico e viajaria pelo mundo, só voltando pra me trazer souvenirs. Mas acho que ele nunca aprendeu a lidar com aquela noite de vinte e três de julho. E eu, muito menos.

Na manhã daquele dia eu estava esbanjando felicidade: finalmente havia passado no concurso para o cargo que eu tanto almejava. Agora poderiam me chamar de gerente de uma das agências bancárias mais importantes da cidade. Logo que soube eu liguei para ele contando da novidade. Ele me felicitou, e eu o convidei para jantar em minha casa em comemoração. Fiz comida italiana, decidi abrir um vinho que acompanharia bem a refeição e me arrumei como se fosse a noite mais especial da minha vida. Eu usava um vestido preto de tecido mais firme com o corte justo ao corpo, um sarpin bordô e em meus lábios não faltavam o vermelho do batom. Quando ele chegou em meu apartamento, eu me perguntei se aquilo era um jantar romântico ou uma comemoração entre amigos: ele estava extremamente elegante usando um jeans escuro, os oxfords que eu sempre elogiava, um paletó azul marinho, a camisa clara e em suas mãos um buquê pequeno de rosas vermelhas. O recebi com um sorriso, e ele me abraçou de forma calorosa. Senti algo diferente naquele abraço, mas pensei que fosse apenas a felicidade em ver uma pessoa estimada também feliz. Coloquei as rosas sobre a mesa de centro de minha sala e logo nos dirigimos a sala de jantar. Fizemos a refeição de modo leve e descontraído, trocando sorrisos com frequência maior do que a comum, com a felicidade transbordando no olhar.

Após o jantar, nos sentamos em meu sofá e ele me perguntou como seria minha rotina dali em diante. Contei todos os detalhes, desde o dia em que começaria até a sala em que eu trabalharia, e ainda o intimei a me visitar. Ele riu, e assim fomos conversando até que ele se aproximou de mim, e com uma de suas mãos fez um afago demorado em meus curtos cabelos negros. Nesse momento uma expressão de duvida tomou meu rosto e ele sorriu. Foi quando se dirigiu à mim: — O vinho por um acaso foi um convite para que eu ficasse? Você sabe bem que não posso dirigir agora, fica feio um advogado ser multado e até preso por algo tão banal.

Corei. Não sabia como reagir, então disse: — Se você não se importar, o sofá é todo seu.

— E por que não pode ser nosso? — Ele respondeu de prontidão enquanto meu coração acelerava. Ele continuou a afagar meu cabelo, e continuou: — Você é uma mulher incrível. Por favor, me dê a honra de passar essa noite com você antes que… — ele parou, suspirou e retomou a fala: — antes que outro alguém tenha o monopólio de suas noites. Não farei nada que você não me permita.

E tomada por uma incontrolável vontade, me aproximei mais dele e, com as mãos em sua nuca, o beijei. Nos beijamos. E foi gradual, mágico, envolvente.

A noite passou, chegou a manhã e eu acordei. Olhei para o lado em minha cama e não o encontrei, mas sabia que ele havia estado ali. O perfume inconfundível dele estava ali. Levantei na esperança de dizer bom dia para ele, de ser novamente beijada e afagada por ele, mas tudo que encontrei foi uma xícara com um pouco de café e, ao lado, uma xícara de capuccino com um papel dobrado. Li então, com as mãos trêmulas, aquela caligrafia inclinada:

Desculpe-me por sair sem me despedir.

Eu sei que você acordaria tarde, o que me faria perder o vôo. E sei também que eu não conseguiria suportar me despedir sériamente de você sem desabar.

Aliás, você não foi a unica a passar em um concurso. Eu também o fiz. Passei em um concurso em Buenos Aires, agora sou um promotor. Voei hoje para lá, assumo meu cargo daqui dois dias. Adiei o máximo que pude minha ida para que pudesse aproveitar meus ultimos momentos com você.

Também peço desculpas por todos esses anos. Desculpas por nunca ter tido coragem o suficiente para dizer que, desde aquele dia em que te vi chorar por terminar seu relacionamento, eu sinto vontade de tomar o lugar daquele à quem você jurava amor. Desculpas por fugir ao envés de te ver ganhar o mundo e ganhar corações, o que te vi fazendo nos anos de faculdade.

Desculpas por, no statu quo do meu emocional, ser inadimplente com um adeus.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!