Inacusável
1 Sentimentos
Notas iniciais
Pov, Mello ~
Estava sentado debaixo de uma árvore no jardim da Wammy’s tentando me tranquilizar depois de socar aqueles garotos dedos-duros. E aquele era o melhor lugar para isso. De alguma forma me trazia paz e... Lembranças. Sim, várias boas lembranças.
Na maioria delas estava com Matt, garoto ruivo, cara de demente, e que não larga o PSP e os cigarros. Sempre me irritaram um pouco estes vícios, confesso... Parecia que aquele aparelho e aquelas coisas que fuma eram bem mais importantes que a própria vida.
Ah, mas não importa, agora não importa. Eu quero apenas me lembrar desses momentos que tive com ele, me lembrar das vezes que não importavam nossos problemas e que aqui nesta sombra ficávamos observando o céu sempre nublado. Só agora quero me esquecer das outras pessoas... Mas já estava demorando para aparecer alguém e me interromper.
O ser, o ser albino... O ser albino que apenas profere ruídos desconexos.
– Near... O que quer? – Perguntei desanimado vendo-o se aproximar.
– Err... Mello, não consegue parar de comer chocolates? Sempre que o vejo está com um na boca. – Falou tão baixo que mal pude ouvir.
Ah sim, me esqueci desse detalhe tão comum e nada importante, estava com uma barra do meu chocolate preferido em mãos. Havia dado apenas poucas mordidas no canto já que estava ocupado demais com meus pensamentos. Com toda a certeza, não tem coisa melhor que essa... Chocolate.
– Ei Mello! O cacau está afetando seu cérebro agora? Volta para cá.
– Ah! O que você quer Near? Não está vendo que estou ocupado? – Certo, já esperava aquela expressão de "ocupado com o que?!", mas eu estava sim, e por isso queria me livrar do baixinho.
– É que...
Near começou a ficar vermelho como carmim! Pensei que ele estivesse com febre ou algo do tipo, afinal sempre tinha algo do gênero: falta de ar e coisas que caracterizavam sua saúde frágil. E claro que eu me preocupava com ele! Por mais que eu o quisesse bem longe de mim... E por isso chequei sua temperatura colocando minha testa em contato com a sua, o que o deixou ainda mais vermelho do que já estava. O que será que ele te...?
– Mello... Gosto.
– Que? — Novamente aquela voz semelhante a ruído.
– Gosto muito de você. — Parecia que só o toque da minha testa na sua havia mudado completamente seu comportamento e...
O que?! Isso definitivamente não é febre! É pior do que estar doente. Isto é...
Porra! Não! Não é porra... É o Near!
– Near, que você te...? — Do que ele está falando? Porque esse branquelo me disse uma merda dessas? E porque ele está se aproximando tan...
–... — Foi quando algo quente invadiu instantaneamente minha boca, sem aviso, isto até parece um beijo. Eu gostaria de empurrá-lo e socá-lo de todos os modos possíveis, mas estou surpreso demais.
– NEAR!! – Ah! Lá vem a hora desse desgraçado me explicar o porquê acabou de fazer uma coisa horrenda dessas! – O que foi isso?! Tá ficando doido?!!
Desde quando aquele Near tímido e acuado faz isso?!!
– D-desculpe! – Ele fugiu! Claro que irei atrás, ele me deve uma boa explicação antes que eu o mate. E eu o devo um murro antes de matá-lo!
– NEAR! Espere! – Nunca corri tanto, pode apostar que não, contudo valeu a pena, pois alcancei o garoto e o puxei forte pelo braço.
– O que foi isso moleque?! Ta me achando com cara de bixa?
– N-não!
– Você... – Gosta de mim? Como assim, eu sei que sou lindo, só que ele tem que aprender a dividir essa admiração. E olha só! Matt está nos observando da janela do nosso quarto no segundo andar... Eu deveria acenar para ele?
O inferno que eu acenaria!
Daquela janela em que está com certeza escutaria tudo o que conversaríamos aqui embaixo, e lógico, eu não quero que isso aconteça, não quero que saiba do que aconteceu entre mim e Near. Porque com certeza encherá minha cabeça mais tarde com aquelas chacotas retardadas dele. Aquelas que me obrigam a quebrar seus games depois.
– Eu... – Ah! Ele correu de novo! Não parece mas é rápido. Droga de garoto! Claro que eu não vou ir atrás dele desta vez, pois Matt pode pensar...
– Yo! O que aconteceu Mello? – Sua voz soou sarcástica.
– N-nada. – Lancei meu mais sanguinário olhar para a lixeira que estava ali no chão, desviando pra não lançá-la no idiota ali acima.
– Ah! Near parecia estranho! Fale logo pra mim o que fez a ele.
Quando é que Near não é estranho? Mas veja bem... Desta vez eu disse a verdade, não fiz nada, nem mesmo o surrei. Ele foi quem abusou de mim, o que fiz foi somente ficar puto. Nada mais!
– Hm, não quer me dizer. Irei perguntar a ele então, Near não mentirá para mim.
Não!!! "perguntar", "não mentirá", isso é perturbador! Desse jeito Matt vai descobrir sobre o nosso pequeno episódio.
– Não se preocupe com isso Matt! Eu irei falar com ele! – Será que isso só aumentou sua curiosidade de saber o que aconteceu? Dane-se, eu tenho que esclarecer isso do mesmo jeito, então é melhor que seja logo.
Melhor que seja agora!!
Resta-me saber pra onde o idiota do Near foi... Será que foi para seu quarto? Provavelmente. Quando ele está "normal" ele vai para aquela sala estranha se divertir com seus brinquedinhos, o que não é o caso, então foi para o quarto com certeza.
– Ei, Mello... – Nem mesmo me virei para sair dali e Matt já puxava o assunto novamente. – Depois me conte está bem? – Gargalhou.
– Ah! Te fode! – Saí rápido dali pra não lhe dar tempo de dizer nem mais uma palavra. Meu destino agora seria o quarto de Near, e ah, como estou com vontade de dar-lhe uns sopapos!
Bati violentamente em sua porta até minhas mãos ficarem vermelhas e doloridas com os baques.
– EI! Near, abra!! – Automaticamente coloquei a mão na maçaneta e a girei mesmo sabendo que a porta poderia estar trancada, mas não estava. Eu a abri -derrubei- e vi sua figura no chão, estava com um robô em uma das mãos e com a outra apoiava seu corpo no tapete. Ele me olhou fixamente e pude perceber seu rosto e olhos vermelhos, talvez estivesse chorando antes. Aquilo havia cortado meu coração. Nunca imaginara ver Near daquela forma, mesmo que eu estivesse com um imenso ódio.
–NEAR! Me explique em voz alta o que foi aquilo! – Falei. Quero dizer, gritei. É claro! Afinal foi ele quem mexeu comigo não foi? E não será essa cara de moleque chorão que vai fazer eu desistir de socá-lo.
– Eu já pedi desculpas... Peço de novo se quiser. Descu...
– Não é isso.É que, quando você disse que...
– Que gosto de você...? Fui sincero.
Ele se levantou e me abraçou como uma criança medrosa. Não, aquele não é o Near, o Near é um garoto frio, insensível e não expressa sentimentos como aqueles.
– Mello... – Começou a dizer baixo próximo ao meu ouvido, mas foi interrompido pelo rangido lento da porta como se alguém estivesse entrando... Alguém entrando?!!!! Droga, o que vai pensar em me ver abraçado com o pirralho?
– Mello, Near?
Que lindo... Se não é Matt! Muito obrigado meu Deus... Hoje meu dia está maravilhoso.
– Matt, não é isso...
– Ah, não se preocupe Mello.
Estranho, pensei que aconteceria aquela cena clichê em que o cara entra na sala e te vê abraçado com outro, e vai embora desapontado e com raiva.
Mas não foi isso que aconteceu, foi algo pior. De proporção colossal!
– Near gosta de você Mello.
AHHHHÉE?! E ainda me fala isso com um sorriso no rosto, como se eu já não soubesse. Será que ele está gostando de me ver naquela situação? Será que ele ainda não percebeu que eu gosto de... Foda-se! Eu vou embora. Talvez em meu quarto eu possa pensar melhor enquanto planejo a morte de todos.
– E-ei... Espere Mello! – Mail tentou me impedir.
Saí disparado deixando ambos.
– Mello, não corra! Quero falar com você!
– Porra, me deixa Matt! – Cheguei ao quarto e tranquei a porta antes que ele entrasse comigo, mas ele era um cachorro persistente e iria ficar batendo até que eu a abrisse... Claro que vou ignorar.
– Mello, abra... Preciso conversar com você!
Na sua primeira tentativa me rendi. A curiosidade falava alto, então abri a porta com violência deixando-o entrar, fechando-a em seguida para me sentar no primeiro lugar propício.
– O que você quer?
– Deixa de ser frio, Near realmente gosta de você, porque não o corresponde? Eu percebo que você sente algo por...
– Não Matt!! Eu não sinto nada por ele além do sentimento de puro e esplêndido ódio.
– Que bom...
Será que o idiota está brincando comigo? Que droga foi essa de "que bom"? Bem, não é culpa minha se eu não sinto absolutamente nada pelo pirralho... E fim de papo.
– Mas não é ele que gost... – NÃAO! Deixei escapar! Agora esse maldito, curioso, bastardo vai insistir em saber quem, e eu não resisto à persistência dele, Matt me conhece o suficiente para saber disso. E adivinha só? BINGO, sem dúvidas vou acabar falando mais merda.
– Quem é Mello?
– Não é ninguém em particular, nem mesmo importante.
– Se não fosse você não se sentiria assim. – Sorriu.
– Só não vou dizer. – Desse jeito eu vou acabar soltando... Eu tenho que fugir daqui!
– O que foi Mello, é só dizer! Seu ridículo.
Ele se aproximou de mim fazendo pressão, porque não param de fazer essas coisas comigo? Com certeza Matt está fazendo porque sabe que eu digo se ele forçar.
– Vamos, diga.
Pelo menos uma vez na vida vou agir. Eu irei empurrá-lo, derrubá-lo no chão tendo tempo suficiente para sair do quarto! Mas... Ah! Como eu queria poder fazer isso.
– Matt, você.
– Eu?
– Você. – Será que ele está entendendo?
– Mello. – O ruivo se aproximou mais e selou nossos lábios num beijo que mal durou.
– Eu também o amo, Mello. — Parece que... Ele entendeu.
Mas se bem que... Isso não pode estar acontecendo comigo pela segunda vez. Da mesma forma, no mesmo dia!
Só podem estar brincando comigo!
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