In pieces
2 Mais um dia no inferno.
Minha vida era um saco. Aliás, sempre fora. Imagina você, sendo lésbica em plenos anos 80! Isso não é muito comum, certo? Errado. Se você pelo menos tivesse uma noção de quantas pessoas tem uma opção sexual diferente da 'convencional' aqui, você se surpreenderia. E eu sou uma delas. Me chamo Sky, sim, 'céu', mas de exuberante eu não tenho absolutamente nada.
Pelo contrário, vivo em constantes brigas com minha familia, como qualquer adolescente de 16 anos. Trabalho pela tarde e estudo pela manhã, faço o segundo ano do ensino médio e quer saber, tenho as melhores notas. Como já falei, trabalho na parte da tarde, em um mercado perto da minha casa. Vantagens: Passo mais tempo fora de casa, posso comer o quanto quiser e tenho um salário para fazer o que quiser.
Não fumo e só bebo quando estou com raiva de alguma coisa, o que sempre é comum. Sou uma pessoa calada, porém tenho amigos e não é me gabando nem nada mas, são muitos.
Minha mãe é evangélica e meu pai é pastor, minha irmã canta na banda da igreja e eu, sou ateia. Muito bacana!
Bom, eu tenho uma namorada, sim, ela é muito gata. Estamos namorando a dois anos e meio, ou seja, começamos aos catorze anos e se quer saber, foi uma das melhores coisas que já aconteceram na minha vida, de verdade. O nome dela é Lauren e ela é um ano mais velha que eu, ou seja, tem dezessete anos. Os pais dela também não fazem a miníma ideia de que ela é lésbica, outros iludidos. Porém, a vida dela é bem melhor que a minha, e quando eu digo melhor, quero dizer muuuito melhor mesmo! Sabe, ela tem um irmão gay, e a família acha ele o máximo, dão todo apoio e não tem o menor preconceito. Não sei por que ela não conta a verdade a eles, tenho certeza de que iriam apoia-la, assim como fizeram com o irmão.
Enfim, nos conhecemos na escola, foi uma épica/estranha cena de filme, literalmente. Nós havíamos ficado no mesmo grupo do trabalho de artes, e o trabalho consistia em fazer um filme de uma hora e meia, sim, eu sei, minha professora é muito imbecil, um trabalho desses é muito tenso! Bom, o roteiro foi escrito por um amigo nosso, e no filme eu e Lauren eramos mega inimigas, diferente da realidade, por que nas gravações nós nos adorávamos. Indo direto ao ponto, ela estava passando pelo corredor com seus livros e eu a atropelava com meu skate, quando nossos olhos se cruzaram eu soube que era com ela que eu queria viver pelo resto da vida. Tosco não?! Mas foi assim, único.
- Sky! — falou uma voz despertando-me dos pensamentos.
- Hã? — respondi com a voz arrastada.
- A hora do almoço acabou! — Era meu patrão, o senhor Silas, ele era bem legal, mas gostava de se fazer de durão na frente da sócia, que era apaixonada por ele, e devo admitir que ele também era apaixonado por ela.
- Desculpe Senhor, estou indo! — Respondi e me levantei de imediato antes que ele me desse outro grito irritante daqueles. Trabalhar no mercado tinha suas vantagens, mas também as desvantagens.
Cheguei no caixa e me posicionei, já haviam três pessoas esperando para pagar as compras, esse povo não relaxa um minuto cara!
Passei as compras de uma senhora, depois as de um homem que ficou olhando para meus peitos e por fim os de uma garota da minha escola que comprara três carteiras de cigarro, ual!
Fiquei novamente sentada ali vegetando enquanto as pessoas vinham com suas compras, pagavam e iam embora, assim foi minha tarde.
Já eram quase seis horas quando saí do mercado indo em direção a minha casa, o ultimo lugar do mundo onde eu queria ir. Mas não tenho escolha não é mesmo? Aliás, nenhum de nós tem escolha, é só fazer o que te mandam e pronto, estão todos felizes e satisfeitos, bleh.
Minha mãe estava na cozinha quando entrei, provavelmente estaria preparando o jantar, meu pai estava sentado no sofá assistindo o canal evangélico, era só isso que ele sabia fazer, aquele corrupto filho da puta. Subi as escadas sem fazer o mínimo de barulho, não queria que falassem comigo, passar dezesseis anos com esses dois bundas moles. Passei pela porta do quarto da minha irmã, ela estava ouvindo suas bandas de rock, mas adivinha, eram evangélicas. Suspirei e fiz minha cara de sempre: nojo. Será que não havia ninguém naquela casa que não passasse vinte e quatro horas do dia com Deus na cabeça, na boa cara!
Entrei no meu refúgio, no meu santuário, na minha usina de paz e quietude, meu quarto é claro. Fechei a porra da porta e me joguei na cama. Suspirei e fechei meus olhos sentindo a maciez do meu travesseiro, já estava quase adormecendo quando o telefone tocou. Olhei aquele projeto de tijolo e logo vi quem era: Lauren. O que ela queria aquela hora?
- Oi?! — falei.
- Sky, eu contei tudo, contei tudo para eles.
- Hã? Eles quem? — Sim, eu sou lenta, muito lenta.
- Meus pais Sky, pros meus pais.
- Uhm, e aí, o que eles falaram?
- Eles estão com muita raiva sabe, muita mesmo!
- Mas como? Seus pais não aceitaram o Ryan? — Só para vocês entenderem, Ryan era o nome do irmão gay dela.
- Eu sei, mas comigo não é bem assim, sou a ovelha negra, a esquecida a...
- Hey, fica calma. O que a gente faz agora?
- Eu não sei, mas aqui eles não me deixam ficar.
- Uhm, faz o seguinte, pega todas as suas economias, eu vou pegar as minhas e amanhã, a gente sai dessa cidade estúpida. O.K?
- Mas Sky, assim, do nada? E os seus pais, a escola, o seu emprego? — ela estava começando a chorar.
-Lauren, são dois anos de namoro, eu abandonaria isso e muito mais para ficar contigo. Além do mais eu não aguento mais essa cidade, nem minha família.
- Eu te amo. — ela suspirou.
- Eu também.
Desligamos o telefone e eu passei a mão em meu rosto, é, eu havia chorado. Suspirei novamente, sair de casa, apenas dezesseis anos. Ual. Tinha pelo menos que deixar uma cartinha, eu não era tão do mal assim. Abri a gaveta do criado mudo, puxei minha agenda e uma caneta qualquer e comecei a escrever:
"Queridos pai, mãe e Suzy. Estou escrevendo esta carta apenas para avisa-los que eu não voltarei. Isso mesmo, eu fugi. E fugi por que não aguentava mais ficar com vocês, vocês não me entendem e nunca irão me entender. Eu não sou um projeto perfeito, assim como ninguém é. Tudo isso e todos esses anos me negando, não fizeram eu deixar de ama-los, por que eu amo, mas não posso continuar a viver com alguém que não me aceite. Adeus."
Dobrei e coloquei em cima do criado mudo. Abri o guarda roupa em seguida e dali retirei uma mochila, fui equipando-a com três pares de roupas limpas, perfumes, sabonetes e barrinhas de chocolate que eu sempre ganhava no mercado e deixava guardadas no guarda roupa por que todos ali em casa eram alérgicos, inclusive eu. Guardava na verdade para Lauren. Sou romântica, três beijos.
Olhei a hora, eram oito. Minha mãe já se esgoelava lá em baixo para que fossemos jantar. Joguei a mochila e o bilhete em baixo da cama e desci.
Ela havia preparado bolo de carne, eu odiava bolo de carne mas sempre tinha de comer, por que segundo os meus pais, negar comida era o mesmo que se achar superior a Deus, tipo, nada haver cara.
Comi aquela coisa nojenta e em seguida fui obrigada a comer pudim, por que minha mãe fazia pudim toda semana e tínhamos de comer pudim, por que pudim era sagrado. Pudim é bom cara, na boa, mas comer todo dia realmente é um saco. Comi e em seguida subi para meu quarto, olhei a hora, passavam das nove.
Entrei no banheiro e tomei um longo banho, deitei e fingi que estava dormindo. Minha mãe passou ali e me deu um beijo na testa. Ela iria dormir, era um ritual fazer isso, eu sabia. Olhei a hora, eram dez. Sabe, quando esta de noite a hora passa muito rápido, mas quando você mais quer, demora milênios.
Esperei até a meia noite para ter certeza de que todos dormiam, me troquei vestindo uma calça jeans, uma camiseta branca e por cima um casaco xadrez de capuz. Peguei a mochila e o bilhete, enfiei a cabeça para fora da porta do quarto e olhei de um lado para o outro, ninguém.
Desci as escadas na ponta dos pés, mas como estava de tênis essa expressão fica meio vaga. Entrei na cozinha e peguei vários biscoitos, coloquei na bolsa e pus o bilhete em cima da mesa.
Me virei para entrada, para sair dali e dei de cara com minha irmã. Rapidamente fiz um sinal para que ela fizesse silêncio e ela fez.
- Olha, acho que isso é um adeus.
Ela assentiu e pela primeira vez na vida, me deu um abraço. Um abraço sincero e com um pouco de choro.
- Boa sorte. Eu peguei isso pra te ajudar. — ela falou e me entregou um pacote de dinheiro.
- Não posso, são suas economias.
- Você precisa mais que eu.
Assenti. Não queria admitir mas era verdade.Lhe dei um beijo na testa e fui em direção a sala. Abri a porta lentamente e ainda pude ver minha irmã subindo as escadas, chorando baixinho. Sai dali.
Seria difícil mas, o que seria uma vida sem amor?
[...]
Cheguei na praça central, eram basicamente três horas da manhã. Liguei para Lauren e ela falou que me esperava na padaria. A padaria era dos pais dela, só para vocês não se perderem.
Fui imediatamente para lá. Ela estava com uma mochila nas costas, assim como eu. Usava um short jeans e uma camiseta do nirvana. Sorri e lhe roubei um beijo. Entrelacei minha mão na dela e fomos em direção a rodoviaria em silêncio.
Chegamos lá em pouco tempo, tudo era muito perto. Comprei uma passagem para a cidade vizinha e fomos esperar no terminal.
Olhei para ela, parecia nervosa e apreensiva. Pus a mão na sua cocha e ergui seu rosto.
- Se preocupa não, vamos ficar bem!
- Eu te amo Sky, por tudo.
- Eu também te amo. Vamos nos ver livres de Dublin, comemore.
Ela riu e me beijou. Ali mesmo. Na frente de todo mundo. Eu não me incomodava, além do mais, iria embora para sempre. E com alguém que eu realmente amava. Não me importava o que seria dali em diante, mas eu estaria com ela.
Para sempre.
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