Notas iniciais
Só postarei quando escrever, sem previsões de postagem entre um capitulo e outro, considerando que estou meio bloqueada.
Auf Wiedersehen o/

Alissa caminhava pelas ruas movimentadas do centro da cidade a passos largos. A inquietação a dominava como uma doença distorcendo seus pensamentos e causando-lhe ondas de calor pelo corpo. Sabia muito bem que aquilo não era humanamente normal e sentiu medo ao lembrar-se da primeira vez em que queimou suas roupas no banheiro do colégio durante uma crise de ansiedade. Duas semanas antes desse episódio (que chocou a diretoria da escola, mas que garantiu seu sigilo graças a uma ligação misteriosa) havia sido abandonada por quem amava como se não valesse o chão que pisava. O ódio fora tão intenso quanto o calor que praticamente desintegrou seu uniforme ao saber que ele já estava com outra. E voltando ao presente, três meses depois, seus pensamentos mais túrbidos sobre os mais antigos medos a assaltavam ali mediante a todo o caos da hora do rush.

O som dos carros zunindo por ela, os passos das pessoas, alguém gritando do outro lado da rua. A quentura subia ainda mais, e um bolo se formava no estômago da moça provocando fortes enjoos. Acalme-se, Alissa! Está tudo bem. Não precisa ficar nervosa, está tudo bem! Ela repetia várias vezes a si mesma na tentativa de se acalmar e voltar à temperatura corporal normal, mas não funcionava. Agravava ainda mais aquela batalha interna o fato de que poderia esbarrar com seu ex-amor em qualquer uma daquelas esquinas.

O bolo subiu veloz por sua garganta abrindo passagem como um raio na escuridão. Alissa correu até a lixeira mais próxima fechando os olhos e deixando tudo aquilo sair, e quando os abriu não conteve seu horror ao ver o saco plástico derreter e a lixeira metálica amolecer como manteiga sob o apoio de suas mãos. Limpou a boca com as mãos trêmulas olhando em volta se deparando com alguns olhares preocupados, quando viu que uma mulher com filha pequena fez menção de se aproximar, levantou a mão com um sorriso débil e continuou andando. A noite cairia em pouco tempo e o frio que a acompanhava faria Alissa fumegar denunciando sua “peculiaridade”. Precisava se esconder, e mais do que isso se acalmar.

Atravessou a rua para ir à praça a fim de ir ao banheiro do quiosque para se refrescar com água ou uma bebida gelada, e quando passava no meio exato da faixa de pedestres, avistou seu Nêmesis sentado num dos bancos com sua nova companheira sentada em seu colo, beijando-a exatamente do mesmo modo como fazia com ela. Uma vibração percorreu todo o corpo da jovem... E então tudo explodiu!

Uma coluna de chamas emanou da garota aterrorizando os pedestres e os motoristas que vinham em sua direção. A cólera corria por suas veias em rios de fogo ao mesmo tempo em que todas as emoções guardadas colidiam numa guerra desvairada tendo a mente de Alissa como campo de batalha. As surras do padrasto, os hematomas no rosto da mãe, os xingamentos inescrupulosos de seus colegas ao longo da vida escolar, a traição, o abandono, tudo isso era expelido em labaredas gigantescas.

Alissa perdeu o controle e o inferno fez morada nela.

Os transeuntes assustados assistiam de longe a mulher em chamas não ousando chegar a menos de dez metros da mesma, não por medo, mas pela aproximação ser quase insuportável. William só percebeu o que estava acontecendo quando uma segunda explosão se seguiu e a lâmina de luz cor de âmbar cortou o azul do crepúsculo.

- Fique aqui. Eu vou ver o que está acontecendo. – disse para a namorada, e andou pelos arredores protegendo os olhos contra a luminosidade do objeto em questão. Escondeu-se atrás de um dos carros de onde um homem filmava o acontecimento com um celular.

- O que é aquilo? – perguntou acima do som das chamas e explosões.

- Eu não sei! Explodiu de repente, está quente demais pra se aproximar!

William se levantou devagar para ter uma visão melhor do que estava acontecendo, e decidiu enfrentar o hálito quente o máximo que podia para saber do que se tratava, sem desperdiçar a chance de mostrar o quanto era corajoso, obviamente.

- Ei! Não! Não vá até lá, rapaz! – o homem gritou. Parou de filmar e ligou imediatamente para a polícia.

Só conseguia ver uma parede de fogo insistente á sua frente, até que dela emergiu uma silhueta feminina flutuando entre as chamas e envolvida por elas sem se consumir. Os cabelos esvoaçavam e ainda que estivesse em meio ao fogo, seu rosto era encoberto por uma estranha penumbra. Uma onda de calor veio dela fazendo-o proteger o rosto, mas ainda assim insistiu em fita-la. Ele a encarou nos olhos, e ainda que não parecesse haver olhos a mulher o olhou de volta. Era a personificação da fúria. As labaredas a envolviam, dando a breve impressão de que a mesma se assentava num trono de fogo, e essa visão fez William se sentir sujo e pequeno, impotente como um inseto. Gotas grossas de suor escorriam de sua fronte quando ele tentou focar seu olhar. A jaqueta que ela vestia se despedaçava, a calça jeans já desfazia-se em tiras, e as botas... As botas derretiam em seus pés. Essas botas... William não precisou ir fundo em suas memórias para lembrar-se daquele mesmo par de botas espalhado pelo chão de seu quarto enquanto a cama inquieta batia contra a parede.

- Alissa! – ele gritou, e outra onda de calor, mais forte que a anterior abateu-se sobre ele forçando-o a recuar e entorpecendo seus sentidos ao passo em que uma explosão ainda maior tomou o céu.

Olhando por entre o fogo, a jovem viu a chegada apressada da polícia. Em sua loucura e no apogeu de seu descontrole e poder ouviu as armas serem engatilhadas, o chefe pedindo reforços, o suor descendo pelas frontes daqueles homens e mulheres. Voltou novamente o olhar para William que relutava em se afastar. A nova companheira desceu a praça com passos irritados e apressados, parecendo pronta para enfrentar a oponente. Passou por William, e este não conseguiu segura-la.

- Não! – ele gritou.

- Escuta aqui, sua vadi... – antes que pudesse completar a frase, Alissa com apenas um gesto de mão jogou uma onda de calor tão intensa que desnorteou a garota, estacando-a onde estava para então cair como um peso morto. William a segurou antes que pudesse cair arrastando o corpo amolecido da namorada para um lugar seguro. Os lábios haviam se ressecado instantaneamente e a pele tinha um tom de vermelho assustador. Estava chocado custando a acreditar que aquela era a mesma Alissa com quem havia se relacionado. Aquela moça doce e romântica, ligeiramente melancólica deu lugar á uma figura infernal e altamente destrutiva. Começara a se perguntar se tinha culpa nisso tudo, e ao pensar nas coisas que lhe dissera quando os dois romperam obrigou-se a confirmar que tinha mais do que gostaria.

A reação natural dos policias ao ver aquela entidade maligna “atacar” uma civil foi abrir fogo. Dezenas de armas disparavam, e outras dezenas de pentes eram esvaziados. Os cartuchos caíam como chuva aos pés. E Alissa só pode sorrir com uma diversão perversa ao ver todas as balas parando e derretendo a centímetros de seu rosto. O exército chegou logo depois com suas armas pesadas e quanto mais atiravam mais intenso o fogo se tornava.

- Parem de atirar! Estão irritando ela! – um homem de paletó e calça cáqui gritou para os soldados, mas estes continuavam a atacar. Correu como um louco até aquele que chefiava a operação. Um tenente cinquentão cuja aparência sugeria que saiu de algum filme de guerra e o uniforme carregava o nome de Marques.

- Tenente, ordene o cessar fogo! – ele berrou acima das automáticas com um sotaque estrangeiro. – Se ela aquecer demais vai virar supernova! E se virar, não vai sobrar uma pedra pra contar história! Ordene o cessar fogo!

O tenente abaixou o olhar para um crachá pendurado no bolso do paletó reconhecendo uma das insígnias mais famosas do mundo:

NASA.

Apenas estreitou os olhos, mas por dentro estava muito mais que surpreso com a presença da NASA em território estrangeiro. Esses gringos nojentos sempre tem que meter o bedelho em tudo. Franzindo o nariz quase imperceptivelmente em sinal de desgosto, ordenou que parassem de atirar, e meio segundo depois outra tropa tomava o lugar da sua trazendo um lança misseis de um tipo que nunca tinha visto antes. Uma ogiva foi colocada em seu cano, e o soldado cujo rosto era coberto por uma máscara preta ajoelhou-se em frente à mulher em chamas sem hesitação alguma. E enquanto isso o homem de paletó conversava com outro chefe de operações que se igualava a ele na frieza e postura, dividindo a tropa em duas ordenando a uma das partes para dar a volta pela rua de trás e flanquear a moça de dois lados.

Alissa assistia a tudo o que acontecia, e ao ver o instrumento nas mãos do soldado, sem demora ergueu a mão lançando uma bola de fogo no mesmo. Porém este com seu treinamento militar conseguiu desviar habilidoso, e novamente mirar sem esperar para finalmente disparar a ogiva contra a moça.

Ela não teve tempo para contra-atacar sendo atingida em cheio e arremessada há dezenas de metros para trás onde a segunda parte das tropas já esperava para aborda-la em seu momento de desatenção. Alissa caiu sobre o asfalto rolando várias vezes, batendo a cabeça contra o chão emitindo um murmúrio de dor misturado a um choro. Essa foi a deixa para os soldados se aproximarem com tranquilizantes em punho para imobilizar a jovem.

- Rápido! – o líder gritava. Alissa recobrava a consciência aos poucos, e tomada pelo terror de ser morta liberou uma onda de fogo que se propagou pelo chão aos pés dos soldados, os quais não perderam tempo e atiraram vários dardos no corpo dela, arrastando-a de volta para a escuridão. A última coisa que viu foi a luz dos postes, e os últimos sons foram dos gritos dos soldados e o rugido das hélices de um helicóptero ao longe. Naquele momento, não teria se importado nem um pouco em morrer.

O Dr. Ignatius A. Bonham aproximou-se do corpo da garota. Era tão jovem... Pensou em sua filha Ana, que o esperava em casa na Suécia e faria aniversário em três meses e imaginou que poderia ser ela ali, naquela situação devastadora. A roupa de Alissa fora quase toda queimada, expondo seu corpo machucado pela queda. Seu ventre tinha hematomas e o braço fazia um ângulo estranho, certamente havia se quebrado. Nunca em todos os seus trinta anos de carreira como cientista na NASA havia visto algo assim. Um ser humano capaz de produzir fogo! A pena misturou-se ao fascínio, estava ansioso por estudar as propriedades daquele corpo e a ideia de uma nova fase da evolução humana estar começando o deixava extasiado. O asfalto em volta dela escurecia aos poucos, e ao olhar melhor percebeu que os ferimentos estavam se curando, e isso indicava que o efeito dos tranquilizantes seria subtraído em pouco tempo.

- Está se regenerando! — disse aos seus colegas de pesquisa e no momento em que se virou para chamar a equipe, ouviu o som do osso voltando ao seu lugar. O asfalto começava a derreter e o corpo dela afundava no chão. A câmara de resfriamento estava sendo trazida por um helicóptero militar de duas hélices e logo esta era pousada nos arredores. Trajando roupas especiais, os soldados ergueram o corpo da jovem e a deitaram dentro da câmara, fechando-a imediatamente.

William assistia a cena de longe sendo impedido de se aproximar pelo braço forte de um soldado. Ainda não conseguia acreditar em seus olhos.

- Sorry, sir. You can’t get close...

- Eu não falo inglês! Deixe-me passar! Eu a conheço! – ele gritava, até que o soldado perdeu a paciência e apontou a arma para a cabeça dele, repetindo devagar com um forte sotaque americano:

- Fique afastado.

E William só pode assistir impotente o helicóptero içar a cápsula branca na qual jazia Alissa sentindo uma onda de arrependimento maior que tudo. E ela desapareceu na escuridão deixando rastros de vapor. Talvez para nunca mais voltar.

Notas finais
Se quiser, deixa um review e me faça feliz ;)
Auf Wiedersehen
o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.