Se a vida é feita de escolhas, as minhas haviam culminado neste momento e, por mais clichê que tal constatação chegasse a ser, permaneceria como verdeira para todo e qualquer indivíduo ousasse viver.

Naquele recinto repleto de sombra e penumbra, éramos apenas eu e Claire. Ela, alheia ao que a rodeava, repousava deitada no sofá empoeirado; eu, observando-a em silêncio, tentava ignorar a dor que a chaga aberta em minha barriga me proporcionava e procurava manter o foco de meus pensamentos, utilizando do único artifício que me estava disponível: o álcool.

A sagacidade, que me fora negada nos últimos nebulosos e atribulados dias, havia finalmente se manifestado e meus pensamentos não tinham mais dificuldade para fluir. Talvez fosse efeito proporcionado pela bebida, por Claire, ou pelo clima litorâneo, mas, naquele momento, as coisas pareceram estar todas em seu devido lugar: ações, esforços, mortes, sacrifícios, tudo impecavelmente executado para que, ao final, combinados, compusessem uma obra-prima, o desfecho do trabalho representativo de toda uma existência – a minha, a de Claire, a de todos aqueles que haviam acreditado e, mais importante, a de Ryan Hardy, o herói protagonista de uma vida de tragédias, um homem fraco, uma vez que guiado por um coração ferido em demasia que, inevitavelmente, encontrara o amor.

Ah, o amor. Curando corações doentes e motivando mentes perturbadas – haveria, realmente, alguma diferença? Ryan Hardy era a versão mais fraca e menos astuta de mim mesmo e, por isso, eu sabia que ele chegaria a tempo para o grande final, seguindo as pistas que lhe foram deixadas — sempre passos atrás, nunca a minha frente. Havia chegado o momento em que o destino de Claire seria decidido, a vida da protagonista feminina encontraria seu fim. Ela, além da morte, era meu elo com Ryan – éramos dois homens guiados pela destruição, buscando conquistar o amor de uma mesma mulher, Claire, a dama tão pura e verdadeira. Minha Annabel Lee.

Em um reino próximo ao mar, a verdadeira donzela de Poe havia morrido e deixado seu amado para viver o luto e a dor de sua perda, mas Claire não havia vivido o suficiente para voltar a me amar. O tempo não havia se mostrado suficiente e o capítulo final fora forçadamente adiantado. Claire morreria e eu sofreria a dor de sua perda, mas Ryan seria seu par. E, então, havia a necessidade de admitir que, apesar de todos os cuidados, algo havia saído errado e que aquela não era minha Annabel Lee.

Levantei-me da poltrona, sentindo mais dor do que eu gostaria. Deixei de observar Claire, ainda adormecida, e me aproximei de uma das janelas cerradas por tábuas de madeira. Por entre elas, eu podia observar a praia. Aquele era nosso reino à beira mar, onde deveríamos nos amar até que sua morte chegasse, mas ela não havia vivido o suficiente para que nosso amor fosse invejado pelos anjos. Sem amor, então, os anjos do céu ou os demônios debaixo do mar não tentariam separar nossas almas – elas nem ao menos estavam unidas. E, então, quem a levaria embora?

Aproximei-me de minha – talvez nem tanto minha – donzela. Lá fora, as ondas quebravam na praia e o vento uivava. Concentrando-me novamente em meus pensamentos, ocorreu-me que a ferida em minha barriga talvez representasse mais do que só o que aparentava.

Enquanto o tempo passava, restava-me esperar pelo herói que chegaria em breve, trazendo o fim tão próximo.

E a vida continuava a ser um sonho em um sonho.

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