In The Dark

1 Capítulo 1: Ana Paula


Notas iniciais
Eu nem ia postar esse capítulo. Ia direto pro dois e o três, mas depois vi que querendo ou não, eu acabei citando esse nos outros, então...
E, olhem, eu não entendo de carros. Mesmo. Tudo o que eu descrevi aqui foi com a ajuda de uma amiga, que dirige. Então me desculpem se alguma coisa não estiver certo, ok?

Capítulo 1: Ana Paula

Era uma noite muito quente e escura do verão de 2002 e com a lua minguante nos céus a única coisa que iluminava meu caminho fora os faróis do carro, eram as estrelas. Eu estava sozinha dirigindo, apenas pensando nas minhas coisas, nos meus problemas e ao mesmo tempo tentando matar o tédio. Como eu havia esquecido meus CDs em casa, segui ouvindo uma rádio qualquer que tocava rock dos anos 80. Aquela cidade era minúscula e interiorana. Ao contrário de minha irmã Eleanor, eu odiava passar as férias lá, nunca tinha nada para se fazer à noite a não ser jogar cartas.

Em uma parte da estrada de chão m direção à saída da cidade havia uma velha casa de fazenda com algumas casas menores em volta. Desde que passo as férias nesse lugar, ou seja, praticamente desde que nasci, não lembro de ter visto alguém por lá, o lugar estava completamente abandonado há décadas.

Somente nessa cidadezinha isso aconteceria, porque a casa era linda (pelo menos um dia foi linda), enorme, de dois andares e janelas espalhadas por toda a fachada. Lembro que quando criança eu contei cinco janelas no primeiro andar e nove no andar superior. Ela era toda branca e azul, bem convidativa, mas sempre intocada, cercada por um mato fechado. Vai entender. Se bem que nessa cidade nem sequer devem trancar as portas das casas, eu nunca vi minha avó fechar as janelas quando vai dormir – pelo menos no verão, então talvez não seja tão estranho assim o fato de ninguém depredar a casa.

Resolvi dar uma olhada nela já que estava ali. Como não trouxe lanterna, estacionei em frente às janelas e liguei o farol alto. De perto dava para ver melhor a ação do tempo: A casa estava acabada, as portas estavam gastas e as janelas podres.

Apesar da aparência, a porta era bem sólida e pesada. Tive que empurra-la com bastante força para conseguir entrar. Mesmo assim entrei com cuidado e tentei ver se o chão não estava podre ou sei lá, o teto não iria desabar em cima de mim. Aparentemente tudo bem, apesar do chão de madeira ranger e estalar muito quando eu caminhava.

Entrei no que devia ser a sala de jantar, pois tinha uma mesa circundada por várias cadeiras de madeira. Tudo com uma aparência bem antiga. Velha, para ser mais exata.

Fui abrir mais uma janela para iluminar melhor lá dentro, o que foi bem fácil — ao contrário da porta, a janela quase desmanchou quando puxei. Sem contar que lá dentro a camada de poeira era grossa, dava para ver direitinho por ande eu andei graças às marcas deixadas por meus pés na poeira. Atravessei a porta da sala de jantar e fui parar num corredor, bem em frente á escada que levava ao segundo andar. Do lado da escada tinha duas portas. Fiquei em dúvida se atravessava uma das portas ou se subia as escadas.

Foi então que ouvi um barulho vindo do segundo andar. Era o mesmo barulho que eu fazia quando caminhava ali dentro. Senti um arrepio e fiquei parada, tentando ouvir mais alguma coisa. Como o som não se repetiu, pensei que talvez fosse à madeira estalando, a casa se “assentando” como diria meu avô, já que o dia todo foi de um sol bem forte. Mas daí ouvi o som de novo e dessa vez foi inconfundível: Eram passos, em algum lugar lá em cima, mas não dava para saber direito de que direção vinha.

Contrariando a voz que falava em minha cabeça, me aproximei da escada, tentando ver ou ouvir mais alguma coisa. Ouvi o som de três ou quatro passos e então parou. Meu coração martelava forte em meu peito e eu respirava com uma certa dificuldade, então resolvi ir embora. Com certeza não era um fantasma, de jeito nenhum, mas e se fosse um assaltante, um maluco ou coisa do gênero?

Meio apressada voltei-me para a porta e de repente as luzes do farol enfraqueceram e praguejei mentalmente. Logo agora a bateria do carro ia acabar? Andei até perto da porta por onde entrei e o luz do carro apagou completamente. Congelei no lugar. Pelo menos os passos tinham parado. Tentado acostumar meus olhos á escuridão, fazendo menos barulho possível, saí porta a fora com as chaves na mão e devagar fui chegando perto do carro. O medo não me deixava correr em direção á ele, embora essa fosse a minha vontade. Abri a porta e a luz interna acendeu, o que eu estranhei, já que se a bateria tivesse acabado a luz não acenderia. Senti um arrepio percorrer meu corpo e meu coração quase saltar pela boca quando percebi que o farol estava desligado.

Por costume eu havia trancado o carro e ligado o alarme, então como alguém ia entrar e desligar o farol sem disparar o alarme? E porque o farol ao invés de apagar totalmente foi apagando aos poucos?

Dei uma olhada no banco traseiro e não vi nada e nem ninguém, então entrei, tranquei as portas e fui embora. Lembrando que minha avó Helena sempre dizia “que música espanta todo tipo de mal”, liguei o rádio, mas a única estação que pegava estava passando um debate ou coisa que o valha. Aumentei a velocidade e o rádio começou a captar apenas estática, então o desliguei. Nisso ouvi um barulho vindo do lado de fora, olhei para o lado e vi que uns passarinhos saíram voando de onde o barulho veio.

A mata então ficou em completo silêncio. Percebi também que por ali eu não tinha ouvido nenhum grilo, o que era bem estranho e incômodo, já que eu sempre ouvi os grilos durante as noites que passei naquela cidade. Não que eu gostasse de grilos, mas aquele silêncio era aterrador.

Pisei ainda mais forte no acelerador, tentei respirar mais devagar para me acalmar e quando isso estava começando a fazer efeito, vi uma figura parada no meio da rua. Não vi quem era, apenas que era uma figura masculina. Desviei em tempo de não o atropelar e quase fui parar numa vala da estrada. Foi nesse momento também que descobri que o pânico me impede de gritar, porque eu estava apavorada, mas em nenhum instante eu gritei. Fiz a volta e o farol iluminou a figura. Quase enfartei.

Ele era alto, mais de 2 metros disso tenho certeza, usava um casaco longo e preto, que chegava quase até o joelho. Extremamente pálido e com olhos fundos tão negros que pareciam me sugar para a escuridão, a boca reta, os dedos imensamente longos e finos demais para serem de um humano.

Eu queria gritar, juro que queria, mas não saiu som algum da minha boca. Já ele que até então fazia um barulho estranho – como estivesse gemendo ou chorando baixinho de dor, a respiração forte- quando viu que eu arregalei ainda mais os olhos e senti que ia vomitar de medo (pelo menos foi essa a sensação que tive, achei mesmo que ia vomitar de tanto pavor), começou a rir. Sempre achei ridículas as gargalhadas dos vilões em filmes de terror, mas aquela gelou meu sangue. Comecei a tremer e minha respiração ficou novamente entrecortada. Ele começou a andar em volta do carro, e comecei a ouvir os barulhos que ele fazia cada vez mais alto (especialmente a respiração), como se ele estivesse sentado ao meu lado. Era tão alto e agudo! Mas quando aquela coisa estendeu a mão para a porta do passageiro eu simplesmente pisei no acelerador o máximo que pude e me mandei de lá!

Acho que nunca estive tão apavorada em minha vida e mesmo assim não conseguia gritar. Hoje penso que se dependesse disso para conseguir ajuda e me salvar eu estaria ferrada, mas não foi o caso. O carro sacudia horrores naquela estrada mal conservada, mas só diminuí a velocidade quando cheguei à estrada asfaltada. Olhei para o espelho retrovisor e embora eu só visse o mato fechado e a casa desaparecendo à distância eu não conseguia relaxar, porque ainda estava com aqueles ruídos ecoando na minha cabeça. Taí uma coisa que Eleanor (minha irmã mais velha) iria gostar, pensei. Mas lógico que não diria uma palavra a ela.

Assim que cheguei em frente á casa de meus avós, estacionei e praticamente voei varanda á dentro, sem sequer dar boa noite aos meus primos que contavam estórias e piadas, indo diretamente para dentro de casa. Meu avô sempre solícito entrou e perguntou se estava tudo bem comigo. Respondi que sim, só estava cansada. “Deve ser por isso a palidez... Hum, Ana, não quer ouvir as estórias de terror que seus primos estão contando? Você costumava gostar.”

Horrorizada, fiz uma negativa com a cabeça. Bastava de terror por aquela noite. Meu avô pôs as mãos em meus ombros e disse que caso eu tivesse visto algo estranho e se quisesse algum dia conversar sobre isso com ele, era para eu ficar à vontade. Num impulso, sentei-me e contei tudo a ele, mesmo sabendo que meu avô não gostava de assuntos como esse. Ele apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça quando terminei. Disse que desde a juventude dele aquele lugar estava deserto. Disse também que ninguém falava sobre aquele lugar, mas era consenso geral que era um lugar maldito por algum motivo. E embora ele não soubesse o que era ele me recomendou não ir mais até lá. O que bastou para mim.

Não sei o que aquela coisa era ou o que fazia lá. Eu não sei de nada. Simplesmente não fui mais lá e descobri que nem sempre é tão ruim passar as noites conversando e jogando cartas com a família que só vejo uma vez por ano.

Afinal, existem coisas bem piores para se fazer á noite.