In My Life

1 In My Life


— In My Life

Há algumas semanas, Yue sugeriu seu nome para uma promoção na área na qual gostava de trabalhar e o dia da decisão finalmente chegou. Ela acordou animada. Se esforçou arduamente para conseguir aquele cargo, sonhou com ele todos os dias depois de se oferecer, se imaginou conquistando-o, fracassando em tê-lo. Nem acreditava que estava a poucas horas de saber a tão ansiada resposta.

Se arrumando, vestiu um terno preto, uma camisa social branca por baixo dele e uma saia negra. Prendeu para trás, como sempre, os curtos cabelos azuis claros do lado esquerdo da cabeça, se perfumou, adornou as orelhas com brincos prateados e o pescoço com um fino cordão dourado. Se maquiou. Queria estar perfeita para o momento da escolha porque estava confiante de que seria a selecionada, poucas vezes na vida esteve de tão bom humor.

Sora, seu "namorado", ainda dormia no quarto e na cama que os dois dividiam, ela entrou lá batendo numa panela com uma colher para acordá-lo. Ele se sentou assustado e esfregou o rosto com a mão. Tá querendo bancar a engraçadinha de novo, pensou o garoto, com as mãos sobre as pernas e os olhos apontados para o relógio no alto da parede a frente. Não podia nem reclamar pelo que ela fez, também já estava na sua hora de ir trabalhar.

— Levanta e se arruma, Sora Raikyuu! — Ela bradou, espancando a panela com a colher. — Chegou o meu dia! Você é um dos guarda costas da primeira ministra, se chegar atrasado, vai atrasar todo mundo! Vamos, japinha!

O rapaz se espreguiçou e se esticou. Yue continuou com a barulheira.

— Já entendi, já entendi, para! — Pediu. Ela fingiu que não o escutava, então ele teve uma ideia. — Se não parar, vou te abraçar pra amarrotar a sua roupa! — Ameaçou. Finalmente foi atendido, mas sorriu e disse: — Tarde demais!

Se levantou e correu atrás dela pelo quarto para cumprir com o prometido.

— Não! Não tem graça, Sora! Para! — Ela exclamava, tentando fugir dele.

As aspas na palavra "namorados" quando usada para descrevê-los eram apropriadas porque nenhum dos dois sabia dizer exatamente o que eram. Nem seus amigos mais íntimos sabiam que eles passavam noites juntos, muito embora descobrir isso não fosse surpreendê-los. O que eles sabiam, ainda que não tivessem contado um ao outro, era que se amavam de todo o coração, mas eram desajeitados com essas coisas, lhes faltava a capacidade para transformar o que tinham em um relacionamento formal.

Os candidatos ao cargo que Yue queria se reuniram em uma sala com a primeira ministra Kin, a dupla de guarda costas dela e mais nove conselheiros. Todos estavam de pé, em torno de uma grande mesa oval de madeira. O teto e as paredes do salão foram pintadas de verde escuras, o piso, de amarelo, e uma única janela havia ali, atrás da mesa marrom, dando visão a todo o reino no qual os presentes residiam. Houve, por instantes, um silêncio que Yue julgou "aterrorizante".

Dois rapazes e duas moças, todos da idade de Yue, estavam na disputa com ela. Kin perdeu o direito de votar naquela ocasião por ser amiga pessoal de Yue — ela mesma pediu à loira que não votasse. Caso ganhasse, queria ter certeza de que foi por ser competente. Que ninguém duvidasse disso. Meteu as mãos trêmulas nos bolsos do paletó, olhou o rosto de cada um dos velhos conselheiros e os de seus amigos. Pareciam tão nervosos quanto ela.

O veredito chegou. Não conseguiu o cargo. Parabenizou a jovem eleita, foi falar com Kin, com os guarda costas dela — Sora e Naomi —, depois saiu. Aparentemente conformada, bem. A própria acreditava que estava bem. Só se deu conta de que não estava legal quando, no final daquela tarde, retornava para casa, e sentou-se num banco de madeira verde ao lado de um poste preto de luz para chorar sozinha. Isso é ridículo, ela pensava. Não sabia que queria tanto aquilo.

Arashi pegou aquela via para ir até a sede do reino e a viu ali.

— Yue...? — Estranhou as lágrimas da amiga, então correu até o banco, sentou-se com ela e a abraçou imediatamente.

— Não consegui o cargo, Arashi. — Confessou-lhe. Ele, seu melhor amigo, voltou-lhe os compassivos olhos azuis claros e franziu a testa, teve o rosto acastanhado tomado de preocupação. — E eu nem sei porque tô chorando! Eu não sabia que queria tanto isso...

Arashi deu um beijo em sua testa e acariciou seus curtos cabelos lisos. Nada disse. O amor que sentia por ela era igual ao de um irmão mais velho pela mais nova, doía nele vê-la assim. Mas a entendia. Yue estava vendo todos a volta dela se tornarem profissionais reconhecidos, subirem na vida, deu um grande passo indicando o próprio nome e sentiu a dor do fracasso quando foi recusada. Queria poder dizer algo para fazê-la se sentir melhor, mas nada lhe vinha à mente. Mal sabia que não precisava. Só de estar ali, de deixá-la encostar a face tristonha em sua gélida jaqueta cinza, fazia muito bem à jovem irmã de consideração.

Entrando em casa, Yue retirou os sapatos para não sujar o tapete bege, jogou a bolsa branca no braço do sofá vermelho e se sentou nele, desanimada. Poucos minutos depois, alguém bateu na porta. Sora. Não queria que ele a visse chorando por causa de um motivo daqueles, mas mesmo assim lhe deu a permissão para entrar. Sora caminhou até perto do sofá. Yue enxugou os olhos com as mãos, fez o possível para espantar a tristeza da aparência, mas nada funcionou. O Raikyuu a conhecia melhor que ninguém. Na verdade, foi até a casa dela pronto para animá-la, só não sabia que aquilo a havia abalado tanto.

Pôs no chão o rádio que trazia no ombro, se inclinou para ela e lhe fez um carinho no rosto.

— Você estava chorando. — A acusou, um tanto surpreso. A viu olhar para os dois lados, sabia que a ouviria negar.

— Não estava, não.

— Estava, sim. — Rebateu.

— Não, não estava. Meus olhos lacrimejaram um pouco por causa da minha alergia a esse tapete, eu te disse que ele não era uma boa ideia... — Mentiu. Claro que não o convenceu.

— Alergia ao tapete? Sei. — Sora deixou óbvio que não estava convencido e foi até o rádio ligá-lo.

Uma versão acústica, bem lenta e suave de "In My Life" dos Beatles começou a tocar. Não precisava insistir naquilo, ela tinha os motivos dela para se fazer de forte na frente dele, mas, dissesse o que fosse, não o impediria de ajudá-la naquele momento de dificuldade. Os dois apreciavam quietos a canção. Tinham um gosto musical muito parecido. Estendeu a mão, Yue pegou, ele a puxou para perto e os dois, bons dançarinos que eram, bailaram, calados, ao ritmo da música. Ao decorrer dos minutos, Yue o abraçou e chorou no peito nu dele. Não mais apenas por tristeza.

A moça que emitia sua bela voz através da rádio cantou a última frase da música. "I love you more..."

Fim.

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