Notas iniciais
meninas! oi tudo bem com vcs? voltei, capítulo novinho *-* boa leitura

MANUELA

Acordei com um mau humor daqueles. Tudo de errado que poderia acontecer parecia ter escolhido o mesmo momento para me perseguir. Não conseguia acreditar na minha sorte.

Minha namorada tinha me traído, briguei com meus pais quando eles chegaram de viagem e, para completar, ainda tinha que ir para a escola.

Tomei um banho, me arrumei e saí sem que meus pais me vissem, não queria começar outra briga àquela hora da manhã.

Ao sair do meu condomínio, olhei para o outro lado da rua, onde Duda costumava me esperar todos os dias para irmos juntas para a escola, era como um ritual diário que ela seguia à risca. Balancei a cabeça em negativo e segui o meu caminho.

Cheguei cedo, a escola ainda estava quase completamente vazia. Procurei um lugar mais isolado para ficar até que o sinal tocasse.

Coloquei meus fones de ouvido e tentei me distrair olhando para o céu azul límpido, que ironicamente não combinava nada com a tempestade em meu interior.

Sorri ao lembrar de Isabella, tinha certeza que nos tornaríamos grandes amigas. A gaúcha era divertidíssima e superanimada, com o seu jeito todo descontraído, ela conseguira fazer com que eu esquecesse um pouco dos problemas e até mesmo de Eduarda.

Logo o sinal tocou, e eu teria que subir para a minha sala. Suspirei, teria que encontrar Eduarda de um jeito ou de outro, não teria como escapar dela estudando na mesma sala.

Diferente do que sempre fazia, procurei um lugar ao fundo da classe, na esperança de não ter que ficar muito próxima a ela. Não queria nenhum conflito ali, nós tínhamos que conversar, eu sabia disso, mas gostaria de protelar essa conversa ao máximo.

A sala já estava quase cheia quando ela entrou pela porta. Seus olhos foram parar direto em mim, ela tentou sorrir, mas não conseguiu. Pela sua cara, a noite dela não havia sido muito melhor que a minha, ela parecia nem ter dormido.

Com muito esforço, consegui desviar o olhar daqueles olhos escuros que me prendiam e abaixei a cabeça. Duda sentou-se no lugar de sempre, e eu respirei aliviada e ao mesmo tempo decepcionada ao ver que ela não tentou nenhuma aproximação. Não saberia como agir se ela tentasse conversar comigo, mas ainda sim gostaria que ela tivesse ido ao menos me dar um “oi”.

Me surpreendi quando Ana chegou ao lado de Rafael e em vez de sentar-se entre ele e a Duda, pegou a carteira à minha frente.

— Bom dia, Manu

— Bom... dia, Ana? – cumprimentei-a, mas não quis comentar nada sobre a sua escolha de lugar

Pouco antes de a professora de Língua Portuguesa adentrar a sala, Duda virou-se para trás e ficou encarando a amiga com um semblante triste. Ana fingia não ver Eduarda, com uma expressão extremamente infantil no rosto.

Logo a professora entrou, e Eduarda teve que se virar novamente para a frente. Não resisti e acabei chamando Ana.

— O que houve entre vocês duas?

— A sua namorada é uma idiota, ela me contou o que aconteceu, e eu tô do seu lado, Manu

— O-obrigada, mas eu não quero que vocês duas fiquem brigadas por minha causa

— Fica tranquila, Manu, você não tem nada a ver com isso, a Eduarda que precisa se tocar e ver a burrada que ela te aprontou

— É sério, Ana, eu não quero que você tome as minhas dores

— Não estou tomando dores de ninguém aqui, ela está errada e sabe disso

O restante da aula decorreu na monotonia de sempre, Ana continuava recusando-se a falar com a amiga, e eu fazia de tudo para ignorá-la também. Na hora do intervalo, Duda ficou conversando com Lucas e algumas outras meninas da turma dele, e Rafael veio até onde eu estava com a Ana, querendo saber o que havia acontecido.

— Tá legal, podem começar a falar vocês duas! Aquela lá não abre a boca pra nada, então são vocês que vão me contar o que tá acontecendo

— Nada demais, Rafa – falei, não queria que ninguém soubesse além de Ana, e tinha certeza que a Duda também não contaria.

— Uhum, acredito! Ana...?

— Elas brigaram

— E por que você não está conversando com a Duda também? Você tá estranha desde que ela foi embora do shopping ontem

— A Eduarda precisa rever alguns conceitos dela, apenas isso

— Quer saber? Eu desisto de tentar entender vocês, mulheres... E depois eu é que sou a drama queen? – Rafa falou, e eu ri do seu jeito exagerado – Do que cê tá rindo, Manuela? E eu te vi ontem no shopping, aliás, nós te vimos com aquela loira gatíssima – completou, e eu fiquei sem graça, provavelmente a Duda teria interpretado o que viu de forma equivocada

— Ah, era uma amiga minha – respondi

— Entendi... será que essa sua amiga não tem um irmão gêmeo deus grego para me apresentar, não?

— Ter, ela até tem um irmão, mas eu não conheço ainda. Prometo que assim que conhecê-lo eu te falo – respondi rindo

Ana e Rafael continuaram conversando, mas eu não prestava muita atenção ao assunto, estava mais interessada em observar Duda. Olhava discretamente para ela, que estava um pouco atrás de Lucas e não podia me ver de onde estava.

Eduarda estava visivelmente muito chateada, não falava muito, e sua expressão estava séria. Eu podia ver que estava sofrendo e tive que me segurar muito para não ir até lá e, esquecendo de tudo que havia acontecido, abraçá-la só para sentir o calor do seu corpo contra o meu, só para sentir os seus braços ao meu redor.

Márcia havia pedido que ela fosse encontrá-la, será que Duda tinha mesmo ido atrás dela?

Mas se a Eduarda tinha mesmo ficado com a professora de biologia na noite anterior, por que a expressão tão triste e abatida no rosto? Se fossem apenas as olheiras, eu até poderia acreditar que ela havia passado a noite em claro divertindo-se com a Márcia, mas algo na tristeza de Eduarda me dizia que não.

Era horrível não poder ir até lá e simplesmente perguntar o que estava acontecendo.

O sinal tocou, anunciando o final do intervalo e como desgraça pouca é bobagem, eu não teria apenas um, mas dois horários de uma emocionante e incrível aula de biologia!

Subi as escadas com um desânimo enorme associado a uma vontade de matar aula sem precedentes. Mas não podia perder a aula da Márcia, queria observar as reações dela e da Eduarda e tentar entender o que estava acontecendo de fato, talvez descobrisse há quanto tempo ela e a Duda estavam juntas.

Ou talvez – uma centelha de esperança se acendeu em meu interior – percebesse que a Duda havia falado a verdade todo o tempo e só houvera um único beijo.

Cheguei e a vadia, digo, a Márcia, nossa querida e aclamada professora de Biologia, já estava na sala.

Olhei-a com desprezo e fui me sentar. Ela, por outro lado, sustentou um olhar de quem pede desculpas para mim, como se estivesse arrependida do que tinha feito com a minha namorada.

Ela só pode estar de brincadeira, né? – pensei

Logo a sala já estava cheia novamente, e Duda foi uma das últimas a entrar. Quando a viu, Márcia a olhou com algo que eu julguei como sendo carinho, talvez até mesmo amor. Senti meu estômago se revirar ao ver isso.

Olhei para a Duda, e seu rosto estava inexpressivo, não demonstrava nada, nem felicidade, nem a tristeza que eu vira minutos antes, nada.

A aula correu normalmente, e eu continuava encarando Márcia, ela tentava evitar olhar para mim, mas sempre que acontecia de os nossos olhares se cruzarem, era a mesma coisa, ela abaixava a cabeça como se pedisse desculpas.

Juro que não conseguia entender as atitudes daquela mulher. Primeiro, ela seduz a minha namorada, e quando eu as pego no flagra, me olha com aquele maldito sorriso vitorioso e debochado na cara. E agora quer fazer a Madalena arrependida? Tenha dó!

Faltando alguns minutos para o término do último horário, Márcia encerrou a aula:

— Podem guardar os materiais e arrumar as coisas, mas quero conversar um pouco com vocês antes de irem embora – disse, sentando-se sobre a sua mesa, como sempre fazia.

Não sei se pela idade, pela beleza ou até mesmo pela simpatia, mas Márcia era a professora mais querida daquela escola. Sou obrigada a admitir que se ela não estivesse sempre correndo atrás da minha garota, eu até que poderia gostar dela.

De um jeito singular, ela conseguia brincar durante suas aulas e ao mesmo tempo, ensinar todo o conteúdo de sua matéria. E mesmo sendo apenas alguns anos mais velha que nós, Márcia tinha o respeito de todos, sem precisar se impor. E, como era de costume, cumprindo as ordens da professora, guardamos os materiais nas mochilas e arrumamos tudo que precisava, já que a sala estava uma bagunça enorme e ela não admitia uma só bolinha de papel no chão ao final de suas aulas.

Assim que terminamos tudo, Márcia começou a falar:

— Bom, eu terminei a nossa aula mais cedo porque tenho uma coisa importante para falar com vocês. Essa foi a nossa última aula – pausou, e pôde-se ouvir um burburinho de conversas na turma – Eu não vou mais ser professora vocês

O QUÊ? Como assim? – pensei, e muitos verbalizaram meus pensamentos

Nesse momento, muitas coisas passaram pela minha cabeça, e dentre elas, a pior de todas foi a que ficou: a Márcia estava saindo da escola para poder ficar com a Duda, já que seria complicada uma relação aluna/professora.

Uma raiva irracional me subiu, e eu olhava fixamente para Eduarda, que não parecia nem um pouco surpresa com a notícia. É claro que ela já sabia! Que ódio daquelas duas. Agora tudo se encaixava, a Duda só estava triste porque não veria a queridinha dela todos os dias na escola.

Eu nunca admitiria, mas o ciúme tomava conta de mim naquele momento, eu estava espumando de raiva.

Mal podia contar os minutos para o sinal tocar, me livrando daquele inferno de sala de aula. Márcia continuou falando e dando detalhes sobre a sua saída da escola, mas eu não escutava mais, não queria saber.

Agradeci mil vezes quando o bendito sinal tocou e fui a primeira a sair da sala, correndo direto para o banheiro para me recompor.

Me tranquei em um reservado, me sentei sobre a tampa do vaso sanitário e passei vários minutos ali, tentando me acalmar.

Quando finalmente estava saindo da escola, escutei vozes um pouco exaltadas, e uma delas era da Eduarda, a outra, reconheci como sendo da Ana. Sairia dali o mais rápido possível, sem ser notada por elas, mas parei, ao escutar o meu nome.

— Duda, você tem certeza que vai mesmo fazer isso com a Manuela? – Ana estava incrédula

— Eu não estou traindo a Manu, quantas vezes eu vou ter que dizer isso? – irritou-se

— Ah, não? E mesmo assim tá indo atrás da Márcia?

— Eu preciso conversar com ela, Ana, só isso, acredita em mim

— E eu posso saber o conteúdo dessa conversa de vocês duas ou é íntima demais pra você não poder contar pra sua melhor amiga?

— Quer saber? Não te devo satisfação nenhuma, Ana Maria, quer acreditar que eu estou traindo a minha namorada com uma das minhas melhores amigas, acredite! Se você quer acreditar que eu estou indo lá pra transar com ela, acredite! Talvez eu esteja mesmo! Agora eu tenho que ir porque a Márcia já tá me esperando para a nossa maravilhosa tarde de sexo selvagem– Duda mudou completamente o tom da conversa, eu sabia que ela estava com muita raiva, mas não mais que eu.

Se eu tinha alguma esperança de voltar tudo ao normal com a Duda, essa esperança se evaporou quando ouvi isso.

— Você é uma imbecil, Eduarda! Se você quer continuar com essa palhaçada, o problema é seu, mas esquece que eu sou sua amiga enquanto ainda estiver com a Márcia. A Manuela não merece nada disso! – Ana falou

Saí de onde estava e passei por elas pisando duro.

Duda me olhou alarmada e tentou falar comigo

— Manu, espera! Me deixa falar com você, não é nada disso que você está pensando

— Não, eu ouvi o que você disse, Eduarda. Vai lá, a Márcia tá te esperando, mas pode ir livre, sem nenhum peso na consciência, porque a partir desse momento você não tem mais nenhum impedimento para ficar com ela

— D-do que você tá falando, Manu? – perguntou em desespero

— Não fui clara o suficiente? Eu digo com todas as letras: tá tudo acabado entre nós! Nós não somos mais namoradas

— N-não... não faz isso, Manu, vamos conversar – ela terminou de falar isso, e Márcia parou o carro perto de onde estávamos, buzinando para Eduarda

— Não tem mais conversa, se tem uma coisa que eu não admito, é traição. Mesmo assim, eu estava disposta a ignorar aquela droga de beijo porque o amor que eu sinto é maior que isso. Mas para tudo tem limite, Eduarda, se você quer ir lá atrás dela, pode ir, eu não quero mais nada com você

— Manu, a gente só vai conversar, confia em mim

— Será que você merece mesmo a confiança que eu depositei em você nesses dois meses de namoro? Vejo que me enganei completamente a respeito de você, Duda, cadê todo aquele caráter que você sempre demonstrou ter? Deve ter ficado lá nos lençóis dela, né? – falei, despejando toda a mágoa que estava sentindo naquele momento – Ela tem cara de ser boa de cama, depois você me conta se é mesmo – fui irônica, tentando feri-la

— Eu nunca te traí, pelo amor de Deus, Manuela, foi só um beijo!

— Faz o seguinte: finge que você nunca me traiu com a Márcia que eu faço de conta que nunca te conheci, ok? Vai lá, a sua nova namorada tá te chamando, manda um beijo pra ela por mim! – falei isso e saí andando antes que começasse a chorar na frente dela.

Antes de sumir na esquina, não pude resistir em dar uma olhada para trás, e o que vi me matou um pouco mais. O que era mais uma ferida na minha coleção pessoal, não é mesmo?

A idiota da Eduarda ainda teve a cara de pau e a ousadia de entrar no carro da Márcia. Era assim que ela dizia me amar? Era assim que ela dizia nunca ter me traído? Belo jeito de demonstrar amor e fidelidade!

É, Eduarda, você me decepcionou demais, conseguiu a proeza de me machucar imensuravelmente, meus parabéns!— pensei ao ver o carro sumir das minhas vistas

Notas finais
sem atentados à vida da autora okay? tem muita água pra rolar ainda